Comecei a pedalar devagar até o colégio, não tinha problema quanto horário, pois a festa levaria a noite toda, o que era provável. Estava preocupada se pedalasse rápido o cabelo de Sara poderia ficar bagunçado, o meu não tinha o menor problema, até mesmo bagunçar seria melhor, pois o deixaria mais bonito, já o dela que era todo arrumadinho, seria uma encrenca. Sara havia penteado o cabelo para cair de lado, nas pontas, formavam grandes ondulações, estava extremamente bonito e lhe dava um charme mais romântico.
Acho que era o sonho da minha mãe me ver daquele jeito.
Podia sentir ainda as mãos de Sara tremendo enquanto seguravam a minha cintura, tremendo e qualquer curva que eu dava, aumentava a sua tensão e ela me apertava, chegando a me machucar um pouco, tentei conversar alguma coisa para distraí-la.
— Então, acho que sua mãe não gostou muito de mim...
— Espero que não tenha se sentido ofendida. – ela comentou, me apertando um pouco quando passamos por um cruzamento.
— Ah, obrigada por confirmar que ela não gostou de mim. – disse rindo um pouco, era bem claro que sua mãe não havia gostado, ficou me analisando da cabeça aos pés.
— Não é bem que não gostou... Minha mãe não está acostumada comigo saindo, ainda mais saindo para uma festa do colégio com uma amiga. – Sara então pausou o que estava falando, e resolveu se corrigir – com uma colega, quero dizer.
— Minha aparência também não é das melhores, não é?
— Acho que seu estilo meio punk foi o de menos hoje, tudo foi bizarro para ela.

Senti vontade de perguntar novamente por que Sara não tinha nenhuma amiga, mas me segurei. Como havia pensado antes, aquilo não era da minha conta.
— Ramona, você pode me dizer qual esse segredo que tem com o Nico? – Sara me perguntou após um pequeno silêncio entre nós duas.
— Ah sim, não é nada demais, é que Nico tem uma paixão por mim, ou, pelo menos, tinha, veremos hoje.
— O que?! Como assim? Jurava que ele te odiasse. – podia perceber a surpresa saindo de sua voz.
— Isso é de alguns anos, eu também acho que agora ele me odeie, mas não custa tentar, né? Ele era muito apaixonado por mim, talvez ainda tenha alguma queda, sei lá.
Sara deu uma risada sobre a ideia de Nico ser apaixonado por mim e comentou:
— Duvido que ele vai resistir aos seus olhos azuis.
— Quem sabe?! Eu tenho meus charmes. – disse rindo também, não deu para ver, mas poderia jurar que Sara havia ficado envergonhada com meu cometário, pois o silêncio se manteve novamente.
Pelo menos estávamos perto do colégio, não deixaria a bicicleta em um lugar que os outros pudessem ver, pois poderiam estranhar e ligar os fatos depois que nosso plano viesse a público, e como eu havia dito, não deixaria Sara ser afetada com nada.
Prendi minha bicicleta em um canto e disse para Sara que estava ajeitando o vestido:
— Ok, está com a câmera?
— Sim, aqui. – então ela me mostrou uma pequena caneta, aparentemente inofensiva.
— Aqui tem uma câmera? – perguntei sem acreditar apontando para o pequeno objeto em sua mão.
Ela me respondeu orgulhosa:
— Sim! Um máximo, não é? Comprei na internet algum tempo atrás, finalmente poderei colocá-la para funcionar.

Essa garota era mais curiosa do que todas as pessoas que eu já conheci até hoje.
— Incrível, veio a calhar então.
— E o que vou fazer?
— Bem, você vai disfarçar um pouco, depois se preparar que logo vou aparecer.
— Estou curiosa com o que vai aprontar.
— Nada demais, mas o bastante para acabar com a moral de Nico. – Sara mal sabia o quanto estava empolgada com aquilo tudo, queria agradecê-la tanto por me fornecer essa emoção.
— Tá bom, vou indo então.

Sara virou de costa para mim e foi em direção à escadaria de fundo que levava para a parte da piscina do colégio, a maioria dos alunos entrava pelo pátio, por isso parei meio perto daquele local. Mas, por algum motivo, ela travou no caminho, não dava nem um passo para frente e nem para trás, pude ver seus ombros se fecharem e sua perna parecia tremer.
Logo entendi o que estava acontecendo.
Andei até seu encontro, parei na sua frente e coloquei a mão no seu ombro tentando lhe passar alguma confiança, logo falei.
— Não sabe o que fazer, né?
Ela, com os olhos parecendo um cãozinho assustado, olhou para mim esperando alguma ajuda para entrar naquela festa.
Suspirei e lhe dei a dica.
— Olha, você vai, sobe aquelas escadas, vai ter, provavelmente, bastante gente lá, dançando e essas coisas, consegue escutar a música daqui, né?
Sara só concordou com a cabeça e eu prossegui.
— Lá estará bem mais alto, espero que não se assuste, enfim, chegando, vai direto para uma mesa que tem bebidas, provavelmente também vai ter somente bebida alcoólica.
— Mas a maioria ali é menor de idade! – ela disse uma coisa óbvia.
— Sim, mas menores de idade bebem, e bebem muito. – acho que ela sabia disso quando me encontrou bêbada na rua. – Pegue uma bebida, não precisa beber, vai ser só para disfarçar, depois fique em um canto, de preferência em frente a piscina, sabe? Onde os nadadores se preparam para mergulhar e espere o show começar.
— Certo, estava meio preocupada com o que eu faria quando entrasse, é tudo tão novo.
— Relaxe, vai dar tudo certo, prometo que nada vai dar errado para você, saiba que o que estou fazendo não é só para vingar tudo que Nico já fez, mas sim para te ajudar também. – assegurei para ela olhando em seus olhos.
Sara me retribuiu com um largo sorriso e parecendo mais confiante, disse:
— Certo, então vamos lá.
Tirei a mão de seu ombro e fiz um joinha com a mão, ela fez o mesmo e foi para festa, andando devagar, ainda meio receosa, mas foi.
Parecendo uma mãe protetora, fiquei a olhando subir aquelas escadas e sumir no meio daquelas luzes.
Agora era minha vez, esperar mais alguns segundos e depois entrar na festa também, repassei tudo que faria na cabeça e subi as escadas.
Meu corpo tremia de excitação, estava tão ansiosa que antes de começar tudo teria que beber alguma coisa. O som, de fato, estava ensurdecedor, as pessoas dançavam freneticamente, com certeza no meio daquilo tudo não estava rolando somente bebida alcoólica, levando em conta que era festa de Nico.
Logo o encontrei no meio de todo aquele povo, estava em volta de várias outras pessoas conversando, ainda não era hora, tinha que deixar Nico beber mais um pouco, ficar mais bêbado, pois assim tudo tornaria mais fácil para meu plano com Sara tornasse um sucesso.
Fui até a mesa, procurei Sara no meio daquelas pessoas, mas como esperado ela já não se encontrava lá, peguei uma bebida e fui me encostar em outro canto, antes, me certifiquei que ela estivesse no melhor lugar e fiquei vigiando para ver se ninguém tinha reparado que uma aluna, que nunca vem em festas daquele tipo, estava ali sozinha.
Tudo certo, agora era apenas questão de tempo.
O lugar que estava era ainda discreto, nenhuma das pessoas que andavam com Nico e nem próprio haviam reparado que eu me encontrava ali, senti meu celular vibrar, o peguei implorando que não fosse Sara, por que, como havíamos combinado, qualquer coisa errada, uma mandaria mensagem para outra.
Mas era Rodrigo que ainda estava preocupado comigo, na mensagem dizia:
[ Ramona, como estão as coisas ai? Não vou conseguir dormir sem saber que você vai chegar em casa bem, eu ainda acho uma loucura o que está fazendo, não vai ter nem como dizer que não foi você que tramou tudo, parece até que não sabe do passado de Nico.]
Como ainda tinha tempo, o respondi:
[ Relaxe querido, não é nada demais, apenas irei me divertir um pouquinho, não era isso que você dizia para eu fazer? Aqui estou.
Quando tudo acabar, vou querer me encontrar com você para comemorar o sucesso e a queda do escroto.]
[ Certo, irei te esperar, me mande mensagem mesmo quando acabar tudo, e cuidado com a menina, ela deve ser tão maluca quanto você para estar se metendo nisso tudo.]
[ Pode crer, ela é maluca, mas não tanto quanto eu. Agora relaxe ai, logo te mando uma mensagem.]
E guardei o celular no bolso da calça.
Estava quase chamando Rodrigo de pai, ele conseguia se preocupar mais comigo que minha própria família, chegava ser engraçado toda essa situação.
Passou-se uma hora praticamente e fui procurar Nico.
E ele já se encontrava no ponto que eu queria.
Um tanto bêbado, estava dançando, no meio das pessoas, estava tão desgovernado que qualquer pessoa que o empurrasse, ele poderia perder o equilíbrio e dar de cara no chão rapidamente.
Era a hora.
Bebi mais um copo, afinal, o que faria, se eu não estivesse meio bêbada, seria praticamente impossível.
Fui entrando no meio daquele povo e com muita dificuldade, consegui alcançá-lo, o cheiro de cachaça que vinha, apesar de estarmos em volta de muita gente, dava para sentir de longe e me dava ânsia de vômito. No decorrer da semana, descobri que a festa tinha como motivo um acordo que Nico havia feito com um povo mal intencionado, por isso ele estava festejando tanto.
Quando apenas centímetros me separava dele, o chamei no seu ouvido.
— Nico.
Ele levou um grande susto e se virou na minha direção.
— Ramona! Que surpresa te encontrar aqui, na minha festa. Veio me dar mais um chute?! – ele falava gritando para que eu pudesse escutá-lo.
Fingi uma risada para parecer simpática e voltei a dizer, ainda no seu ouvido.
— Vim pedir desculpas pela forma que te tratei até hoje.
— Desculpas?! Sério?! Você usou uma das minhas drogas?! Espero que tenha pagado, pelo menos!
Conversar ali não daria muito certo, seria melhor adiantar para onde começaria o plano.
— Podemos conversar em um lugar mais reservado?
— E por que eu iria?!
Acho que era momento de adiantar todo o plano mesmo.
Antes que Nico pudesse reagir a alguma coisa, coloquei minha mão em seu rosto e o beijei. Não foi um beijo longo, foi rápido e carinhoso, o máximo para saber se ele ainda sentia algo por mim ou não, e se viria comigo.
— Por isso. – eu disse me afastando, mas ainda com minhas mãos em seu rosto.
— Eu vou agora mesmo.
Como um tiro certeiro, eu consegui tirar Nico de todo aquele povo, segurando a sua mão, o levei para a quadra do colégio, que não era muito longe da piscina, mas não havia ninguém ali, normalmente os alunos que queriam namorar, preferiam um algo mais reservado como as salas de dentro da escola.
Quando chegamos, o joguei na parede e voltei a beijá-lo, agora com mais intensidade e mais prolongado, de início, Nico não parecia reagir, mas depois, pude sentir sua mão percorrendo meu corpo, senti a vontade súbita de tirar, mas lembrei que aquilo fazia parte do plano, ele tinha que cair no meu jogo.
Ainda sim o que estava sentindo naquele momento era apenas nojo, sua boca estava com um gosto horrível, parecia lixo, chegando em casa lavaria a minha com sabão, era o preço que eu tinha que pagar, não é?
Ossos do ofício, como falam.
Nico se afastou um pouco para retomar o ar e disse.
— Ramona, esse foi o melhor pedido de desculpas que recebi em toda minha vida.
Mordi sua orelha o deixando mais arrepiado, minhas mãos o prendiam na parede e falei.
— Pensei que estivesse acostumado com isso.
— Estou, mas com você é diferente. Ah Ramona, você sabe muito bem que esses seus olhos, seu jeito rebelde, até mesmo me xingando, me tratando mal, diferente de todos os outros que ficam puxando meu saco, me deixa louco, você nem imagina como.
— Ah, eu sei sim, sei muito bem.
Ele passou a mão na minha nuca e voltou a me beijar com mais vontade ainda, tudo estava correndo muito bem. Nico não havia estranhado nada ainda, até por que estava totalmente bêbado.
Deixei que ele tirasse meu casaco, mas quando senti que sua outra mão começava a tentar tirar a minha camisa, percebi que era momento para a segunda parte do plano.
Me afastei delicadamente de Nico e disse.
— Tira a roupa.
— Nossa, mas assim, tão direta, que tal você mesma tirar?
Acho que não era momento para discutir quem tiraria a roupa, certo? Fiz esse sacrifício e fui tirando seu casaco, a camisa em seguida, os sapatos ele me fez o favor de tirar por si, mas a calça tive que o fazer.
Por final, Nico só ficou de cueca, que era um tanto engraçada, um calçolão branco que continha pequenos corações vermelhos.
— Sério isso? – eu perguntei não segurando o riso.
— Normalmente, as meninas não ligam muito para o que estão usando, então, não vai tirar também a minha e depois a sua? – ele perguntou, o prazer estava grudado em sua voz.
— Hmmm... Agora não, vamos fazer uma brincadeira.
— Opa, brincadeirinhas. Sempre soube que você era muito criativa nessas horas.
— Ah é? – peguei a sua camisa e disse. – Bem, fique de costas.

Obedecendo prontamente, ele virou e eu amarrei a sua camisa no seu rosto, o vendando, Nico teve que fazer outro comentário.
— Mal posso esperar essa brincadeira, Ramona. Mas me trate bem, viu?
— Com certeza que irei te tratar bem, Nico. – o respondi rindo, mal sabia o que lhe esperava.
Depois, com a sua calça, amarrei a suas mãos, ele já parecia impaciente, mas lhe pedi calma, dizendo que a surpresa ainda viria.
Quando tudo estava a acabado e ele já estava pronto, falei em seu ouvido.
— Agora, apenas me obedeça, sem falar mais nada.
— Certo, meu amor. – Nico estava extremamente empolgado, apesar de toda aquela situação ali, ainda não sentia nenhuma pena.
Era hora dele sentir toda a humilhação que ele já fez muita gente passar.
Inclusive Clara.
Comecei a conduzi-lo em direção a festa, quando o som da música começou a ficar mais alto, ele começou a perguntar.
— Para onde está me levando?
— Surpresa.
A quadra havia sido escolhida também, pois era perto da piscina e quase não havia gente naquela direção, antes de completar a missão, disse em seu ouvido.
— Não se esqueça de mim e vá se ferrar, seu babaca.
Soltei suas mãos da calça e com apenas um empurrão, ajudado pela falta de noção que ele não tinha mais por conta da bebida, o empurrei em direção a piscina, e com a camisa amarrada nos olhos e apenas de cueca, Nico, um dos caras mais respeitado do colégio, caiu na piscina em meio a toda aquela gente.
Olhei para frente e vi Sara com olhos tão surpresos quanto, e é claro, com a caneta filmando tudo, obviamente disfarçando.
A comoção foi rápida, mas havia mais gente rindo da cara de Nico que se debatia na piscina e xingando de tudo qualquer nome as pessoas que foram ajudá-lo lá dentro. Outras gravaram a cena, mas com certeza, Nico ameaçaria todos para que não postassem nada, e como todos lhe obedeciam, sabia que logo ninguém teria coragem de fazer o oposto, por isso, pedi a Sara que filmasse tudo daquela cena cômica.
Como combinado, sai correndo da festa para que ninguém me segurasse e fui em direção a minha bicicleta.
A moral de Nico estava acabada e eu vingada, obviamente, depois disso, ele iria querer minha cabeça em uma bandeja, mas quem se importava, só de vê-lo humilhado já estava bom demais, valeu toda a noite.
Peguei a minha bicicleta e pedalei até o ponto de encontro que havia marcado com Sara, de novo foi em um lugar afastado do colégio para que ninguém desconfiasse de sua participação, quando ela me viu chegando, não esperei que dissesse nada e ela subiu no banco.
Nesse momento não me preocupei se bagunçaria seu cabelo e nem nada, corri tão rápido que Sara se agarrou na minha cintura com mais força ainda.
Estávamos rindo tanto que era impossível de controlar, a missão havia sido cumprida com sucesso, agora era só comemorar.