Uivando para a Neblina
2 Capítulo 2- Tirania
Notas iniciais
Todos se acomodaram em suas cadeiras de frente para o demônio. Ela parecia nervosa, talvez pela ameaça de vida feita pelo mais poderoso demônio existente? Hawter estava sério, obviamente não confiava na criatura. Eu não o culpo, afinal, demônios são conhecidos popularmente como seres malignos, porém esses parecem diferentes. Quase como uma sociedade normal formada por boas e más pessoas, assim como todas as outras...
O interrogatório começou depois de Hawter se acalmar mais um pouco e todos ficarem em seus devidos lugares.
—Você sabe o que esse Xugorth planeja? —Perguntou calmamente Hawter.
—Na verdade o plano foi criado por Nyxta, nós apenas seguimos suas ordens. Depois que Nyxta morreu, Xugorth, seu irmão mais novo, assumiu o poder. Apenas ele sabe do plano. —Respondeu ela.
—E como você mantém contato com ele? —Questionou Hawter.
—Não mantenho contato direto com ele, apenas com demônios que vêm a cada noite para o banheiro para coletar informação.
—Que tipo de informação?
—Não sei se faz parte do plano dele ou ele só quer se informar sobre os humanos antes de aniquilá-los, mas fui enviada para saber mais sobre os jovens. Eu os mato, coleto o corpo deles e então os entrego para o império. Eles devem usar algum método para coletar a memória deles e possivelmente estudar a anatomia humana.
—Hum...me conte mais sobre esses demônios que vêm coletar informações.
—São os Draelthianos, soldados modificados geneticamente para mudarem suas formas físicas. Eu ouvi falar de um templo Draelthiano, onde eles praticam rituais para prestar tributo à Xugorth e se comunicar com ele.
—Você sabe a localização exata?
—Os ouvi comentarem que era em uma escola abandonada. Porém se pensam em invadir o local precisarão de armas! Os Draelthianos são poderosos demônios de uso geral do império. São brutamontes de força inimaginável, eu não recomendo que tente lutar contra eles sem se preparar primeiro...
Bem, meu pai ao menos teve sorte de não ter encontrado um desses! Não que ele não tenha lutado contra coisas piores, porém eu não tinha habilidade nenhuma de combate. Vazachor afirma que eu já nasci com ela, porém ainda sim estava cético em relação ao meu desempenho em combate.
Tínhamos conseguido a informação que precisávamos, porém ainda havia dúvida sobre o que fazer com o demônio. Ela tinha sido bem prestativa, porém Hawter ainda sim não confiava nela. Novamente, eu não o julgo, porém não tínhamos muitas alternativas.
No final acabamos seguindo o conselho dela, parcialmente, ao menos. Havia apenas três escolas abandonadas na cidade, portanto Vazachor foi encarregado de nos dar o local. Infelizmente, como eram deuses e deuses não podiam interferir diretamente com a missão do escolhido, por algum motivo, eu tinha de ir sozinho para lá.
Primeiro eu precisava de uma arma. Por sorte, meu pai tinha um arsenal que ele guardou em casa, caso alguma tarefa divina fosse dada à mim. Fui rapidamente para lá e vi as opções que tinha:
Tinham várias armas de energia e algumas de metal encantado. Eu andei pelo lugar procurando uma arma que me adequasse. Procurei bastante e admito que havia ótimos armamentos lá, porém teve um que me chamou a atenção: Uma longa e brilhante espada cristalina pendurada no muro, longe das outras armas.
Embaixo tinha uma placa, na qual nela estava escrito: “Ragnarok”. Era a espada que meu pai usou para matar Nyxta, o demônio que manipulou Vazachor e fez os Krazuamen abrirem um portal para o inferno. Nessa invasão, espiões do império de Nyxta invadiram o mundo.
A espada continha a alma de Nyxta, o que a tornava a espada mais poderosa do mundo. Meu pai tinha dito para não usá-la, pois não sabia se o fato da espada conter a alma de um poderoso demônio poderia causar problemas no usuário. Ele disse que se sentiu horrível e começou a agir de maneira irracional enquanto estava na presença daquela espada. Ele então a largou o mais cedo o possível e a colocou aqui.
Resolvi seguir o conselho dele e pegar uma arma diferente. Agarrei uma espada e escudo de Umbranium, que é basicamente ferro encantado com o poder de Vazachor, tornado-se assim um metal negro com poderes maiores até do que o aço. Era uma boa arma, bem afiada, me dava mobilidade e era fácil de manusear, porém tinha um sério problema: Tinha um alcance muito curto.
Mas para falar a verdade, prefiro ter uma arma curta e poder usar um escudo do que ter uma imensa arma que não oferece proteção alguma. Satisfeito com a arma, vesti uma alça e nela coloquei a espada e o escudo. Estava na hora de enfrentar os demônios...
Esperei pela localização do local. Depois de alguns minutos, sentado no sofá, assistindo um documentário sobre o estranho aglomerado de corujas na Sibéria, recebi um telefonema. Era Vazachor, usando celular por algum motivo.
—Richard, dei uma pequena espionada nas três escolas e, de acordo com o que vi, estão cultuando à Xugorth na antiga escola Vanitati. Ela não fica muito longe, lhe poupa uma longa caminhada caso fosse a antiga escola Iecur, que fica no outro lado da cidade!
—Obrigado! Tentarei sair de lá vivo!
—Você não tentará: Você irá conseguir!
Apesar de saber a localização exata do local eu ainda tinha grandes receios. Eu nunca tinha lutado em minha vida, não sabia como usar corretamente uma espada nem um escudo. Eu tenho sim uma força física anormal, porém não queria subestimar os demônios.
Apesar disso, decidi não subestimar meu próprio poder. Eu tinha um potencial similar ao do meu pai, talvez até maior, porém o que eu precisava era de prática. Eu tomei coragem, agarrei minha espada e escudo e fui para a tal escola. Desci a ladeira, peguei um taxi e fui até lá.
A rua estava deserta, as casas destruídas e as árvores sem folhas. Essa era a antiga Rua Rhamir. Eu me lembro quando liguei a televisão e vi a notícia de que um súbito ataque terrorista aconteceu aqui nessa rua. Aparentemente, cento e quarenta pessoas foram mortas, noventa e quatro delas sendo crianças.
Os motivos que conduziram os terroristas a tamanha atrocidade é desconhecido, alguns especulam sobre possessão ou algum culto demoníaco. Tudo que sabemos era que quatro pessoas mascaradas, com vestimenta militar, conduziram uma chacina usando poderosas armas que apenas o exército devia ter posse.
Talvez o massacre tenha sido conduzido pelas mesmas monstruosidades metamorfas que me aguardavam dentro daquele escuro e hostil lugar? Tomei um fôlego, tentei pensar positivamente e finalmente andei em direção à escola. A porta estava aberta, nada me impedia de adentrar as sombras daquele lugar.
Abri-a lentamente, certificando-me de que não havia ninguém à espreita. Encontrei-me em uma espécie de hall, com muitos bancos e uma escada ao leste. O cheiro era pútrido, quase que insuportável, era como se a o cheiro de fumaça e de carne podre se unissem para formar um só insuportável miasma.
O ambiente, apesar de escuro, era estranhamente visível. As cores eram difíceis de distinguir, porém eu conseguia ver normalmente as formas dos objetos. Prossegui cautelosamente em direção às escadas, subindo mais cautelosamente ainda cada degrau. Os muros estavam cobertos de alguma substância. Agarrei meu celular e, usando a lanterna dele, dei uma examinada mais minuciosa. Não era sangue, surpreendentemente, era uma estranha substância roxa, pegajosa e fervente.
Guardei meu celular em meu bolso. Eu sei que poderia estar usando ele como lanterna, porém nunca se sabe quando você precisará de uma mão livre.
Continuei subindo as escadas, que eventualmente me levaram ao último andar. Deparei-me diante de um longo corredor, sem portas ou janelas. Prossegui cautelosamente, com a espada em uma mão e o escudo em outra. Por algum motivo, o lugar estava estranhamente silencioso, um silêncio que nem mesmo minha fértil imaginação poderia quebrar.
A cada passo que eu dava minha sensação de que algo horrível aconteceria aumentava. Fiquei de guarda, com o temor de que a qualquer momento algo poderia sair das sombras e me atacar. Conforme adentrei as sombras do corredor o silêncio foi lentamente quebrado. Estranhas e vozes infantis de volume diminuto podiam ser ouvidas. Às vezes pareciam conversas, outras vezes, gritos de desespero. Em raras ocasiões, tiros...
Comecei a ouvir passos, passos bem leves e delicados, enquanto outros eram apressados, como se alguém estivesse correndo. Em seguida as coisas começaram a ficar ainda mais estranhas: Comecei a ver vultos humanóides andando no mesmo sentindo que eu, alguns simplesmente caminhavam casualmente, outros corriam desesperados, olhando constantemente para trás. Nenhuma dessas sombras notou minha presença.
As sombras continuaram a correr pelo corredor, desesperadas, como se estivessem sendo perseguidas por algo ou alguém. Algumas caiam subitamente no chão e lá ficavam, com alguma espécie de líquido negro vazando de seus corpos, quase como se fosse sangue. Comecei a sentir uma forte repulsa de seguir pelo corredor, tinha certeza de que algo horrível aconteceria se eu continuasse por esse caminho.
Apesar de todo esse medo, eu continuei, tentei me acalmar mais e prossegui. As sombras ainda continuavam a vagar pelo corredor. Eram numerosas e todas tinham a mesma aparência. Continuei a andar pelo corredor, olhei para trás e tudo que vi eram trevas e mais sombras correndo no sentido que eu ia.
Em determinado momento as sombras começaram a desacelerar os passos, como se estivessem exaustas. Até as que andavam casualmente começaram a andar mais devagar. Algumas caíram no chão de exaustão, enquanto outras seguiam em frente, ignorando o estado em que se encontravam.
Foi então que uma delas ficou de joelhos, olhou para cima e em seguida gesticulou sua cabeça como se estivesse decepcionada com algo ou de alguém. As outras sombras ao seu redor se afastaram um pouco e observaram a cena, que foi seguida de algo ainda mais inquietante, como se a situação já não fosse apavorante o suficiente.
Da escuridão do corredor saíram duas enormes serpentes: Uma tinha olhos brilhantes da cor azul e a outra, da cor vermelha. A dos olhos vermelhos mordeu fortemente a cabeça da sombra, enquanto a dos olhos azuis se enroscou nas pernas da figura, apertando firmemente. Em seguida, as duas serpentes aparentavam ter sido puxadas por uma força ainda maior em direção à escuridão. Gritos de agonia podiam ser ouvidos ecoando pelo corredor. Naquele momento, eu sabia que estava diante de um demônio Draelthiano.
A cena inteira me intimidou, quase como se a criatura estivesse tentando usar meu medo como arma, sucedendo parcialmente. Minha repulsa de seguir em frente aumentou. Algo horrendo me esperava naquele corredor. Confiando na palavra dos deuses, segui em frente, confiante. Finalmente me deparo com a horrenda criatura, algo que parece ter saído de meus mais apavorantes pesadelos.
Era enorme, do tamanho de um ônibus, não podia acreditar que cabia na escola. Tinha o formato de um crocodilo, um longo crocodilo com escamas afiadas, uma grande cabeça com uma boca cheia de dentes afiados. Pude ver as duas serpentes...dentro da boca dele. Elas aparentavam servir como a língua dessa criatura, arrastando o que ainda sobrava da pobre sombra para dentro da boca da besta.
Mais sombras começaram a ser devoradas pela impiedosa besta, uma por uma. Às vezes as sombras eram mortas pelas serpentes, não pelo grande crocodilo: A dos olhos vermelhos derretia suas vítimas em sua boca, enquanto a mordida da dos olhos azuis causava o congelamento de suas vítimas, despedaçando-as em milhares de pedacinhos em sua boca.
Havia sangue espalhado por todo o chão, membros despedaçados, ossos nos quais a besta cuspia. As sombras não paravam, elas não pareciam temer a criatura, muito pelo contrário, marchavam cegamente em direção à morte. Eu não podia ficar parado e apenas assistir a cena, tinha de fazer algo.
Com toda minha coragem e força avancei em direção à besta, cravando minha espada na serpente dos olhos azuis, perfurando seu olho esquerdo e a pondo em severa agonia. A serpente chacoalhou-se agonizando desesperadamente, cuspindo violentamente vapores gélidos por todo o corredor.
Recuei, pondo o escudo em minha frente para não ser afetado pelo gás frio. Algumas sombras que foram expostas ao gás se cristalizaram em estátuas de gelo. A serpente, depois de passado seu estado de dor, voltou-se a mim e cuspiu um jato de afiadas lâminas de gelo assustadoramente pressurizado. Agachei-me e me protegi com o escudo, bloqueando totalmente o ataque.
Eu havia a invocado, porém, estranhamente, a serpente dos olhos vermelhos não parecia se importar, nem mesmo o crocodilo, que era o dono das duas serpentes se importava. Compartilhavam o mesmo corpo, porém diferentes mentalidades. Eu podia tirar facilmente vantagem disso, destruindo sistematicamente as serpentes de maneira que não provocasse o crocodilo.
Depois de me proteger da investida do réptil, avancei rapidamente em sua direção e cravei a espada em sua boca, removendo-a e cravando furiosamente novamente, repetidamente até que a criatura parou de se mover, caindo morta no chão. A serpente de fogo notou meu ato, assim como o crocodilo. Ambos não pareciam nem um pouco contentes de minha ação. Eu devia ter levado em consideração que, apesar de não ser o mesmo ser, a serpente ainda sim era importante para os dois...
A dos olhos vermelhos cuspiu uma rocha flamejante em minha direção, na qual consegui bloquear facilmente com meu escudo, porém não estava preparado para o que vinha a seguir. Ela rapidamente esticou-se em minha direção e se enroscou na minha perna direita, apertando com tamanha violência que minha reação foi rápida: Tentei cravar minha espada nela, porém falhei, sendo assim lançado brutalmente em direção a parede.
O impacto que levei ao bater na parede me deixou mancando, não quebrou nada, porém a dor que sentia em minha perna direita ainda sim era quase que insuportável. A serpente cuspiu uma nuvem de gás demasiadamente quente, tanto é que evaporou imediatamente as sombras que perto dela ficaram. Eu sabia que aquilo era demais para o escudo, portanto recuei com o que ainda restava de minhas forças. O gás me atingiu levemente, porém era tão quente que causou queimaduras horrendas em meu braço direito, no qual eu segurava minha espada, e minha perna direita, que já estava machucada.
Eu não tinha chance alguma de vencer a batalha naquele estado, eu sabia que era uma péssima idéia vir aqui com tão pouca preparação. Os demônios eram mais fortes do que eu pensava, tão fortes que o fato de eu ser escolhido é quase que irrelevante diante de tamanha força. Manquei o mais rápido que pude, tentando voltar desesperadamente para as escadas, porém fui interrompido, não por um ataque, mas sim por uma voz.
―Ha! Que patético! Se diz o escolhido, porém foge diante da batalha? Você desonra seu pai e toda sua geração!
Virei-me para trás e para minha surpresa a serpente estava falando comigo. Ela me insultava repetidamente, afirmando que “Eu não passava de um mero mortal” e que “Minha benção era em vão”. Não era surpresa alguma que os demônios soubessem de mim, o mero fato de eu existir já era uma grande ameaça para o império deles. Eu não deixaria aquilo passar despercebido, tinha de reagir.
―Vocês, que se submetem à tirania do seu império maléfico, são os que deviam se envergonhar! Por que você segue as ordens de Xugorth? Acha mesmo que ele irá lhe dar qualquer coisa em troca?
―Eu sirvo à ele apenas para me deliciar com a iminente extinção que vocês, terráqueos, serão submetidos!
―Eu não permitirei que isso aconteça!
―E quem é você para ditar o que o destino guarda para sua pequena espécie arrogante? Você acabou de ser derrotado por uma cobra falante!
―Quem sou eu, você se pergunta? Verá logo...―Essas foram minhas últimas palavras, conforme eu mancava pelo longo corredor, descia as escadas e saia da escola, sem qualquer ataque ou intromissão do demônio. Aquela criatura zombou de mim, porém em nosso próximo encontro, eu zombaria dela sobre seu cadáver já sem vida.
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