Uivando para a Neblina
3 Capítulo 3- Plumas
Notas iniciais
Eu havia sido humilhado em batalha, o sangue que corria em minhas veias meramente me salvou da morte, porém não da derrota. Senti que a culpa era parcialmente dos deuses, porém eu também tinha minha parte no incidente. Peguei um táxi e resolvi ir para a casa, estava exausto. O taxista certamente deve ter estranhado alguém com o braço e perna queimados, com uma espada e escudo em suas costas no seu banco traseiro. Eu não o culpo.
Subi a ladeira que levava para minha casa e, no caminho, vi três figuras familiares. Os três deuses desciam a ladeira, conversando sobre algo que parecia interessante o suficiente para que não me notassem. O que poderia ser interessante o suficiente para que seres quase que onipotentes não me notassem?
Eu não estava nem um pouco interessado sobre o que eles falavam. Eles me deviam explicações, e talvez algum armamento mais poderoso. Owlazar deu uma parada na conversa e me notou.
―Olha! O Richard! Parece que ele ainda está vivo!―Disse Owlazar, apontando o dedo para mim e chamando a atenção dos dois deuses.
―Richard! O que aconteceu? Não me diga que foi derrotado!― Perguntou Vazachor.
―Sim, eu fui derrotado. Por sorte ainda estou vivo! Eu sabia que era uma má idéia ir lá despreparado. ―Respondi.
―Despreparado? Mas você é o escolhido! Esses demônios são mais forte do que pensávamos... ―Falou Vazachor e continuou:
―Seu equipamento não foi encantado, não? Esse metal possui apenas meu poder, porém não minha benção. Eu ficarei com essa espada e escudo, amanhã as devolvo. Você poderá cortar até aço com sua espada e seu escudo poderá bloquear até mesmo as mais fortes explosões!
Dei minha espada e escudo para Vazachor, nas quais ele guardou dentro de seu manto. Os deuses continuaram a descer a ladeira, eventualmente desaparecendo. Não literalmente, apenas viraram a esquina. Segui até minha casa e fui até meu quarto, me deitando em minha cama e começando a pensar sobre o dia que tive.
Talvez minha arma tenha sido o problema? Ou talvez minha falta de prática em combate? De qualquer maneira, eu havia enfrentado uma poderosa criatura, então não era surpresa alguma minha derrota. Foi então que eu me lembrei o motivo de meu pai ter vencido muitas batalhas: Unihacks.
Eu não havia aprendido nenhuma, nem mesmo uma básica. Se eu dominasse o poder espiritual eu poderia destruir qualquer besta que resolvesse cruzar meu caminho! Mas provavelmente precisaria me dedicar para memorizar cada palavra que constituía as magias, e eu era péssimo em memorizar. Eram sete horas, já estava noite e eu estava lendo um livro sobre energia espiritual.
Era algo realmente curioso: Se acreditava no começo que apenas os deuses podiam criar Unihacks, porém logo foi descoberto que elas eram provenientes da força dos deuses, não deles. A força dos deuses envolvia tudo que existia no universo, incluindo humanos.
A leitura logo ficou entediante e eu fechei o livro. Olhei pela janela e pude ver por ela o quintal. Era um espaço livre e plano, iluminado por uma lâmpada que meu pai pôs lá fora. Também notei um pássaro sobre uma árvore, um corvo, para ser mais específico.
Parecia um pássaro comum, apenas sentado sobre um galho fazendo...sei lá, suas coisas de pássaro? Não havia nada de estranho, até que a criatura estendeu suas asas para cima e de seu bico lançou um raio de energia elétrica sobre meu quintal! Eu fiquei tão aterrorizado quanto confuso ao presenciar a cena.
Agarrei uma faca de cozinha e fui até o quintal com o intuito de entender que loucura era aquela. Olhei para o corvo e o abordei:
―Ei, você! O que você pensa que está fazendo?
―Caw, caw!
Uhh...eu estava tentando falar com um corvo...um corvo que atira raios de energia pela boca. Talvez eu estivesse alucinando? Diante de um mundo tão estranho, eu não duvidaria que aquilo pudesse ser possível. Serene, a coruja de estimação do meu pai, já chegou a soltar bolas de fogo pela boca!
―Hehe! Enganei o bobo! Vejo que está interessado em Unihacks,não?
―O-O que? Como você soube? O que é você?!
―Isso não é importante agora. Você deve ter notado da janela de seu quarto que eu não precisei invocar qualquer palavra para usar uma Unihack!
―É claro que não precisa, aves pertencentes à trindade divina não precisam disso! Quero dizer, aquelas que falam...
―E se eu te disser que você também pode invocar poderosas Unihacks sem dizer uma palavra, ou melhor ainda, controlar a energia espiritual da maneira que quiser?
―Isso é impossível!
―Impossível? Eu posso provar!
O pássaro afirmava que eu poderia controlar a energia espiritual e usá-la da maneira que quisesse, porém eu tinha certeza de que aquilo era impossível, desde que apenas os três pássaros sagrados (Corvos, águias e corujas) e deuses podiam fazer isso. Para minha surpresa, eu estava errado.
O corvo ensinou uma interessante técnica na qual envolvia a concentração de poder espiritual puro e então a liberação do mesmo, comandada pela vontade do usuário que iria materializar a energia de acordo com seu desejo. Era bem simples, para falar a verdade. Como ninguém notou isso antes?
Apenas para teste, peguei uma garrafa vazia de refrigerante e a coloquei no quintal. Concentrei um pouco de energia espiritual em minha mão e então disparei como uma arma em direção da garrafa. A energia se materializou em uma labareda de violentas chamas, na qual incinerou a garrafa em poucos segundos. Fiquei surpreso com o poder que possuía em minhas mãos, não podia agradecer suficiente o corvo falante.
―Obrigado, senhor corvo falante!
―O nome é Duskly. Minha origem ou meus objetivos não são importantes. Vejo que falhou em sua tarefa, escolhido.
―Escolhido? Como você sabe tanto de mim? Você é um demônio?!
―O que levaria os demônios a ensinar a você o controle total sobre a energia espiritual? Eu tenho coisas para fazer, até mais!
O pássaro simplesmente voou em direção ao céu noturno e desapareceu. O que o levou a me ajudar eu não sei, mas resolvi ignorar a aleatoriedade do evento e me focar no que era realmente significante: Meus novos poderes.
Passei as próximas horas testando minhas novas habilidades e devo dizer que aquele demônio da escola estava tão morto quanto um camelo...bem, um camelo morto. Minhas metáforas são as piores, só avisando.
Depois de aprender a lidar com os poderes a mim concebidos eu já me sentia apto à enfrentar aquele demônio, porém ainda precisava melhorar minha habilidade manuseando a espada e escudo, ambos nos quais Vazachor levou para melhorar.
Eu resolvi fazer uma pequena visita aos deuses, só para ver o progresso que faziam com minha espada e escudo e também para discutir sobre minha nova habilidade. Quis saber o que achavam dela.
Desde que os homens-ave passaram a viver nesse mundo, os três deuses não precisaram mais se esconder, e desde que consideravam esse mundo mais interessante do que a terceira dimensão (Ou céu, chame do que quiser), eles passaram a frequentar a terra. Eles tinham uma propriedade nessa mesma cidade em que vivo, ficava um pouco longe, porém eles disseram que não se incomodariam se eu os visitasse.
Novamente, peguei um táxi. Eu deveria considerar aprender a dirigir, ou ao menos comprar uma bicicleta. Fui recebido por Hawter. Parecia surpreso com minha visita.
―Richard! O que lhe traz aqui?―Perguntou.
―Fui ensinado por um corvo falante uma poderosa técnica de combate. Vim compartilhá-la com vocês.
―Aprendeu a manejar sua energia espiritual livremente?
―Nossa! Como você soube?
―Ehh....foi um chute. Mas bom que aprendeu isso!
―Então...só isso que você tem a falar?
―É claro que não! Entre, há certas coisas que você precisa saber sobre ela.
Segui Hawter até a sala de estar. A mansão era realmente espaçosa, certamente digna de um deus, ou melhor, três. Hawter se sentou em uma poltrona e eu no sofá. Havia uma lareira que mantinha a sala aquecida. Método meio arcaico de se manter quente, porém certamente inegavelmente estiloso.
―Richard, há certas coisas nas quais você precisa ter em mente com esse poder, com toda a sinceridade.
Eu fiquei quieto e escutei os sábios conselhos de Hawter, acenando com a cabeça para demonstrar que eu havia entendido, ou ao menos que eu estava prestando atenção.
―Controlar a força espiritual é bem diferente do que usar meras Unihacks. Você pode não precisar ter de repetir uma longa frase, ou de se restringir a certas técnicas, porém o poder de sua magia se baseia totalmente em sua mente e alma. Esteja instável emocionalmente e estará perdido em combate se nele a magia for a única alternativa.
Hawter falou sobre as características desse estilo de combate. Foi um longo discurso e eu prestei atenção em cada detalhe. Depois de acabada a explicação de Hawter, perguntei a ele sobre minha espada.
―E enquanto minha espada e escudo? Já estão prontos?
―Vazachor acabou há algumas horas. Íamos lhe avisar, porém achávamos que estivesse dormindo e, sinceramente, nenhum de nós estava disposto a checar.
―Ótimo! Onde ela está?
―Vazachor a guardou em seu quarto. É só subir as escadas, virar o corredor direito e achará o quarto na porta do meio.
E assim procedi, subindo as escadas, virando ao corredor direito e batendo na porta do meio. Vazachor a abriu, também surpreso com minha repentina visita.
―Richard! O que lhe trás aqui?
―Engraçado, ambos você e Hawter me receberam assim.
―Ehhh...costume. Suponho que tenha vindo para ver como está sua espada e escudo. Acabei há algum tempinho, me desculpe por não lhe avisar.
―Tudo bem, não tenho pressa.
A espada e escudo estavam em uma escrivaninha, junto com algumas ferramentas e papéis. Fiquei deslumbrado com o resultado: A lâmina da espada estava ligeiramente mais longa, reluzente como um rubi. O cabo havia sido incrustado com pedras preciosas, o guarda-mão oferecia bastante proteção. O escudo também reluzia, porém creio que até mais que a espada.
Para falar a verdade, o escudo estava ligeiramente transparente, quase como vidro. Apesar disso, Vazachor afirmou que o escudo estava bem mais resistente, resistente até mesmo para bloquear totalmente uma explosão. Ele inclusive agarrou uma marreta prateada convenientemente localizado embaixo de sua escrivaninha e o deu em minha mão. Era um artefato bem pesado, porém eu conseguia o segurar com certo esforço.
―Vá em frente e o golpeie! Não verá uma rachadura sequer!―Afirmou Vazachor.
E foi isso que fiz: Golpeei o escudo usando toda minha força. Vazachor estava certo! Não havia sequer uma rachadura.
―Impressionante!―Foi o que eu disse, pegando a espada e escudo e os guardando.
―Disponha. Eu estou um pouco ocupado aqui, faço armas e outros equipamentos como hobbie. Tenho um arsenal inteiro aqui, dê uma olhada se estiver interessado.
E ele não mentia. No fundo de seu quarto havia dezenas de armas, armaduras e outros objetos metálicos, como braceletes, anéis, cordões e estatuetas de metal. Era um talentoso ferreiro, sem dúvida alguma. Resolvi dar uma pequena olhada e logo me encontrei apaixonado por um de seus artefatos: Um peitoral.
Era de alta qualidade, tão duro quanto meu escudo. Nele havia um símbolo, que também estava presente em outras criações de Vazachor. Era um corvo de asas abertas, com duas espadas ao seu redor. As proporções eram quase do meu tamanho, porém encaixa, ficando apenas um pouco apertado. Vazachor deixou que eu o levasse e me desejou boa sorte.
Voltei para minha casa e já uma hora da manhã, portanto fui dormir. Tinha sido um dia bem agitado, descobrindo sobre demônios espiões, recolhendo informação deles, lutando contra uma cobra falante, perdendo de uma cobra falante, aprendendo a atirar bolas de fogo de meu dedo indicador com um corvo. Eu não queria nem saber como seria o dia seguinte.
Infelizmente, as estranhezas não acabaram por aí: não me deixavam nem mesmo em meus sonhos, literalmente. Sonhei estar vagando por um infinito deserto cheio de carcaças, tanto humanas quanto animais. Havia uma densa neblina na qual restringia severamente minha visão.
Conforme eu caminhava pelas areias, comecei a sentir uma dor em meu coração, literalmente. Batia rápido, era como se eu fosse ter um ataque cardíaco a qualquer momento. Eu não podia mais prosseguir: Caí no chão com a mão no peito, sentindo a horrível dor, que ficava cada vez mais forte. De repente, meu coração parou.
Não havia batimento algum, apenas um silêncio apavorante em meu peito. Comecei a sentir sede de repente, porém não via água por perto. Levantei-me e continuei a caminhar até que me deparei com uma figura em meu caminho. Era apenas uma sombra, não tinha face nem cabelo.
Comecei a sentir mais sede, porém dessa vez foi acompanhada de fortes dores em meu coração, no qual eu já havia considerado morto seguindo a lógica de meus sonhos. Em um movimento involuntário me aproximei da figura e, por algum motivo no qual não consigo me lembrar, mordi sua garganta e suguei todo seu sangue, cada hemácia até que seu corpo ficou totalmente seco.
Acordei assustado, pois nunca tinha tido um sonho assim antes, apenas aqueles do tipo que você ou acorda rindo ou acorda aterrorizado depois de presenciar tamanha bizarrice, porém esse sonho apresentou um tom um tanto melancólico e eu diria que até mesmo um pouco realista.
Eram oito horas da manhã quando acordei. Chovia e fazia muito frio, portanto tratei de vestir um casaco. Antes de mergulhar na insana realidade de ser o escolhido, fui tomar o café da manhã. Depois tomei um banho e fui dar uma olhada no noticiário. Nada de interessante, surpreendentemente.
Foi então que me deparei com uma face familiar em minha janela da sala: Era Duskly, o corvo.
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