– Cale a boca, Caleb! Quem vai dirigir sou eu!

Aaron entrou no carro, como se tivesse medo de Caleb o destruir ou entrar na frente – coisa de criança... – e eu me sentei do seu lado, no banco de carona.

– Tá bom, Senhor Faça O Que Eu Mando! – ele bufou – Ainda acho isso desnecessário. Meu pai podia muito bem levar a gente. Afinal, ele é o mais antigo da alcatéia. E o humano sabe-tudo nem precisava vir.

– Eu faço isso por minha namorada, não por você. Se quiser, cai fora. É até melhor, assim meu carro fica limpo. – ele franziu o nariz.

– Por favor, parem! – pedi – Aaron, isso é importante para a matilha. E Cal, cale a droga da sua boca! Seu pai vai sozinho!

Ele obedeceu e sentou-se no banco de trás.

– A reunião é para... Evitar... Guerras entre os lobos... É isso? – Aaron, que tinha se oferecido para nos levar para participar mais de minha vida, perguntou.

– Quase. É para unir...

– As nações lupinas de todo mundo – Cal completou, sorrindo.

Aaron revirou os olhos e entrou na estrada de terra.

No início, parecia uma entrada de fazenda, com vacas pastando, cercas e pastos. Mas depois a floresta ficou mais perto. A trilha era cheia de pedras e dos lados tinha muitas árvores encobrindo o caminho. Olhei pela janela, sentindo cheiro de terra molhada. Do lado direito, havia uma descida enorme, tipo um penhasco, mas não dá pra dizer ao certo, porque a mata encobria tudo. Do esquerdo, haviam tocas – várias delas – encobertas pelos matos.

– Olha. – Cal apontou a toca que eu vira, como se lesse minha mente. – É ali que os lobos, os de verdade, moram.

– Então somos de mentira. Legal. – bufei.

– Estou me referindo aos lobos que não são lobisomens. Nós somos isso. Por falar nisso, – ele olhou para Aaron – você sabe sobre a nossa lenda?

– Que lenda?

– Tracy não contou? Certo. – ele sorriu mais ainda – Conte a ele, Tracy.

– É só uma lenda boba. – expliquei, me virando para Aaron. Ele mantinha os olhos na estrada. – Para explicar como nós surgimos.

– Conte-me. – pediu ele.

Comecei:

– Havia uma índia há muito tempo atrás. Ela vivia na America do Sul. Sua família era a família-chefe da aldeia. Ela todo dia ia colher frutas para o café-da-manhã ao nascer do sol na beira do rio. E um dia, ela viu um enorme lobo prateado bebendo água. Assim que ela olhou nos olhos dele, ela soube que um coração humano batia naquele peito, mesmo o lobo sendo um lobo mesmo. Então ela se apaixonou perdidamente por ele e ele por ela. Todo dia, ela ia ao rio para poder vê-lo, acariciar seu corpo, senti-lo nos braços... Até que um dia seu pai a prometeu em casamento ao guerreiro mais forte da aldeia. Ela se desesperou; não queria deixar o lobo. Então ela se encontrou com ele e disse tudo que estava sentindo. Arrasado, o lobo uivou para a Lua, rezando para que pudesse ser humano por uma pequena parte do dia para ficar com a índia.

– A Lua atendeu seu pedido – continuou Caleb – ele seria lobo do amanhecer ao pôr-do-sol e homem do pôr-do-sol ao amanhecer. Desse modo, ele podia ficar com sua amada nas noites e serem felizes por um curto período de tempo. Até que uma noite, eles tiveram uma relação sexual. – nessa parte, os olhos de Caleb se ascenderam e Aaron fez uma careta – Que foi? Eles eram humanos. Em certa parte.

– Ao amanhecer, a índia chamou pelo lobo, mas ele não respondeu. Ela então viu que ele não estava na cabana. – continuei, porque Caleb parara. – Ela saiu desesperada à sua procura, mas não o encontrou. Ela achou que ele tinha usado-a para ter prazer e começou a chorar. Seu pai afagou seu ombro e disse “Não se preocupe. Nós matamos o lobo que tentou te atacar nessa noite”. Então a índia se desesperou e foi atrás do corpo dele. Mas foi uma busca perdida. – fitei a floresta a minha frente. As árvores cobriam tudo, mas eu sabia que estávamos chegando.

– Ele estava na fogueira. – explicou Cal – Então, nove meses depois, a índia dá a luz ao filho do homem-lobo. E nasceu o primeiro lobisomem. Legal, né?

– Legal? – Aaron exclamou, assustado, desviando os olhos da trilha por uns segundos – Isso é muito estranho! – ele bufou.

– Pare! – berrou Cal, fazendo com que Aaron e eu pulássemos do banco – Pode estacionar aqui. Estacione logo!

Aaron obedeceu. Cal abriu a porta e fitou a descida coberta de árvores. Estava escuro suficiente para os lobos se esconderem.

– O que vai fazer?

– Vou me encontrar com a matilha, ora essa! – ele revirou os olhos. – Vamos, Tracy.

– Eu não permitirei isso! – bufou Aaron, emanando testosterona. Há apenas duas horas, eu recebera o chamado da reunião (é claro, por uivos. Lobos não ligam uns para os outros!) e o pai de Cal ia nos levar, mas Aaron quis ir junto, pois ele ainda não se acostumara à Cal e eu sermos amigos. Na verdade, nem eu me acostumara.

– Escute aqui, Aaron Greene. – Cal, que nunca dissera o sobrenome de meu namorado em voz alta, retrucou – Tracy e eu somos apenas amigos, não ficou claro? E eu jamais tocaria nela, apesar de Tracy ser muito gata e... AAAAI! Tracy, não precisa me bater! Eu não menti, certo?

– Aaron, querido, eu juro que não vamos demorar. Estacione lá perto do rio e me encontre dentro da floresta, na clareira. Eu te amo.

Dei um beijo rápido nele e desci do carro, logo atrás de Cal. Enquanto descia, me transformei rapidamente e rolei pelo chão. Cal me deu uma rasteira, provocando-me a dar-lhe outra, e assim seguimos nosso caminho.

Haviam pelo menos cinqüenta lobos na clareira. Eu só reconheci três: Graham Watson (pai de Caleb), Courtney Jamie (uma garota que estudou comigo na escola e saiu porque não agüentava mais estudar e ser loba) e Nina. Senti Cal hesitar ao meu lado ao vê-la.

O que ela faz aqui? ele perguntou, limitando seu pensamento só a mim.

Ela é parte da matilha, esqueceu? Aja com naturalidade, Cal! Até parece que vocês nunca se viram.

Saudações, alfa! Graham uivou, fazendo todos os lobos emitirem o mesmo e se abaixarem a mim. Revirei os olhos mentalmente e voltei à forma humana.

– Olá, companheiros fiéis. – sorri, tirando a sujeira da roupa. Balancei a cabeça, fazendo meu rabo-de-cavalo se agitar, e olhei para Cal por sobre o ombro. – Gostaria que todos ficassem em suas verdadeiras formas, para conversarmos de igual para igual.

Assim que todos me obedeceram, tomei liberdade para puxar Cal pelo braço e trazê-lo para mais perto. Ele fez uma careta e estufou o peito, tentando parecer forte. Achei muito engraçado e considerei que ele tentava se exibir para as lobas.

Principalmente Nina.

Por falar nela, percebi-a se esgueirando pelos lobos mais velhos. Ela parecia querer não olhar para mim diretamente, então não forcei a barra.

– Hoje, como todos sabem, viemos aqui para unir nossas matilhas do mundo todo. – prossegui, vendo Courtney acenar para mim. – E também vamos escolher o segundo do alfa e o terceiro.

– Isso quer dizer que teremos provas? – os olhos de uma garota morena e baixinha brilharam. Sorri para ela.

– Isso, teremos provas.

– Radical! – ecoaram alguns garotos mais ao fundo. Eles não deviam ser muito mais velhos que Caleb e eu.

Prossegui com as instruções – os candidatos deveriam escalar a montanha de cem metros de altitude, encontrar abrigo para manter os lobos e lutar entre si, mas sem quebrar a harmonia entre os outros; as lutas tinham de ser evitadas – e deixei que Cal contasse a lenda dos lobisomens aos mais novos. Todos se sentaram ao redor dele, formando um círculo grande. Me esgueirei por entre as árvores, ansiosa para procurar Aaron, quando esbarrei em Nina.

– Oi. – forcei um sorriso, tentando ser simpática.

– Olá, alfa. – ela retribuiu – Sabia que íamos nos reencontrar.

– E eu digo o mesmo. Como você está?
– Qual é, Tracy, corta esse papo formal! – ela riu – Achei que nós duas tínhamos uma ligação. – ela pareceu se divertir.

– Claro. Você queria me matar. – lembrei, escolhendo as palavras com cuidado.

– Eu mudei. Todos mudaram, pelo que vi. Até o Cal. – ela abaixou o olhar – E eu sinto muito por ter feito tudo aquilo.

Abri a boca para responder, mas fechei-a quando vi Aaron aparecer de trás das árvores. Ele passava os braços pelo corpo, tentando tirar a sujeira, e olhava para os lados, procurando ameaças. Seu temor pelos lobos não diminuíra com as revelações recentes.

– Aaron, ora essa, que prazer revê-lo! – Nina exclamou, se curvando em uma reverência – Ser o namorado da alfa faz de você, digamos, o nosso rei.

– Oh, é mesmo? – ele sorriu, se apressando para me abraçar. – Bom, acho que sempre mereci algo assim. – ele apontou Caleb e os outros a seu redor – Essa é sua matilha?

– Sim. – fiz um meneio de cabeça – Esses são os meus garotos.

Quando Caleb terminou de contar a lenda, chamei a atenção de meus lobos para apresentar-lhes Aaron – meu parceiro humano, como eles disseram. Todos sorriram para ele e perguntaram-me se poderiam fazer um lanche antes das provas começarem. Assenti com a cabeça e vi a multidão de humanos se transformando e correndo pela floresta. Aaron apertou minha mão, o pavor evidente em seu rosto, e só a soltou quando ficou a sós comigo e Cal.

– E aí, o que achou de meu desempenho como contador de lendas? – Caleb sorria, orgulhoso de si mesmo.

– Acho que foi ótimo. Seu salário vai aumentar. – ironizei, mostrando a língua. – Nina também deve ter achado, aliás.

Ele fez uma careta. Caleb nunca ruborizava.

– Você devia ir falar com ela. – continuei, sem me afastar de meu namorado – Sério, ela ainda ama você. E vocês dois têm que se acertar.

– Talvez eu vá. Mas e você?

– Eu vou explorar a floresta. – dei de ombros – Quero escalar aquela montanha antes dos outros o fazerem.

– Boa... Sorte. – ele pareceu surpreso com minha resposta – Vai precisar. E você... – ele sorriu para Aaron – Espero que seu medo passe. Se quiser ficar conosco, é claro, será preciso superar.

Cal deu um salto triplo no ar e se transformou, correndo pela floresta assim que suas patas tocaram o chão.

– E aí, quer explorar a floresta comigo?

– Com certeza. – Aaron sorriu, beijando-me no topo da cabeça.

– Precisa confiar em mim. – murmurei, me abaixando para me transformar.

– Eu confio.

– Segure-se em minhas costas. Não se assuste com a transformação.

Senti o calor inundando meu corpo e os pelos aparecendo. Logo estava sob a forma lupina e era duas vezes maior que Aaron, com seu um metro e setenta e nove de altura. Ele apertou os braços ao meu redor e disse que eu podia começar a correr. Uivei para o alto e me apressei em direção à montanha. Não estava brincando quando disse que iria mesmo escalá-la.

Enquanto subíamos, senti Aaron segurando-se cada vez mais firme – ou por medo da altura ou de mim, mas esperei que fosse o primeiro. Eu era muito veloz, é claro, mas subir montanhas era diferente de correr por aí. Tive que ser cautelosa para não derrubar a mim nem a Aaron – que fechara os olhos e segurara-se em mim mais ainda.

Percebi que ele confiava cegamente em mim novamente e senti um jorro de alegria me inundar. Uivei mais uma vez e continuei subindo, até chegar ao topo.

Voltei à forma humana e segurei-me em Aaron, caminhando pelo alto da montanha, tomando muito cuidado para não cair.

– É incrível. – murmurei, apertando sua mão.

– Muito. – ele murmurou, colocando uma mecha de meu cabelo que se soltara atrás de minha orelha – Estou pensando na infinidade de coisas que podemos fazer aqui, mas no momento eu prefiro o chão.

Não consegui deixar de sorrir.

– Vamos ficar só mais um pouquinho, tudo bem?

Quando chegamos à clareira novamente, os lobos me esperavam em filas indianas. Aaron sentou-se atrás de mim enquanto eu explicava as instruções para as lutas e provas. Quando terminei, perguntei se tinham dúvidas e um deles ergueu a mão.

– Pergunta: qual será o teste final?

Senti Caleb estremecer ao ver a resposta em meu olhar.

– Fácil. Vocês vão lutar comigo.

Notas finais
depois desse capitulo eu continuei a fic by myself -q
enfim.........
espero que tenha ficado bom :3