Ubl Unreachable

25 Duas Semanas. Nicky Desaparece.


Notas iniciais
Capítulo sem revisão por enquanto.
Editado: agora revisei. Tive frios na barriga ao escrever esse capítulo. Nossa o.o

Joong Gu Seong:

Unreachable
25 – Duas Semanas. Nicky Desaparece.

Foda é o momento em que o passado resolve confrontar com nossos pensamentos em momentos tão inoportunos. Minha vontade era de abandonar o lápis... Ou melhor: quebrá-lo até sobrar partículas – isso mesmo, partículas.

Lembrar de momentos devastadores com o Nicky não era lá a melhor inspiração para se estudar matemática. Se ao menos fossem os bons momentos a virem a minha mente...

Afastei-me da mesa do computador para verificar as mensagens do meu celular. Larguei meu caderno por lá. Havia uma do Paco me contando sobre uma posição erótica que havia aprendido lendo o Kamasutra. Segundo ele, fora a melhor experiência da vida dele – nossa. Só mais um detalhe: entrou na prática com Anita um pouco antes de escrever isso. Desci a barrazinha de rolagem, mas não encontrei nenhuma mensagem do Nicky. Eu já estava preocupado; desde o dia anterior não obtive notícias dele.

Fechei os olhos e não pude deixar de tê-lo em meus pensamentos, de lembrar daqueles lábios sorrindo para mim, de sua maneira certinha de falar, do brilho que brotava de seus olhos ao dizer que me ama. Eu poderia virar a noite me recordando dos mais belos momentos.

Era impossível de que ele não tenha recebido minhas ligações, os meus emails. Passei na casa dele ontem após sair da pizzaria com Paco e hoje, mas não havia ninguém. Os vizinhos também não sabiam. No colégio, Ricardo disse que não fazia ideia, mas pude ver que ele estava encobrindo a família Allen. Estava escrito na cara dele e na maneira de falar que ele sabia de tudo.

E assim o cara apaixonado aqui passou a noite: se preocupando com o seu amor, querendo ter notícias dele, necessitando saber se os sintomas retornaram. Ao menos, Paco conversou comigo por toda a madrugada através do celular, me acalmando e me fazendo companhia. Só peguei no sono às quatro horas da manhã. E no dia seguinte, nada do Nicky aparecer.

Durante duas semanas eu me dirigi à casa dos Allen em busca de respostas, mas eles nunca se encontravam presentes. Será que eles precisaram fazer uma viagem urgente ou então o pai dele precisou levar toda família para uma viagem de negócios? Mas caso fosse isso, eles dariam um jeito de me contatar. Eu fiquei todos os dias tentando preencher meu grande vazio passando a maior parte do tempo com meus amigos, especulando o motivo de seu desaparecimento. Senti vontade de chorar quando o diretor procurou por Nicky pelo colégio para informar a ele que havia atingido um número alarmante de faltas e que com mais algumas semanas sem vir para as aulas, ele seria reprovado e perderia sua vaga.

Mas até que duas semanas depois...

Eu estava penteando meu cabelo de frente para o espelho. Olhando para meu reflexo, eu via olheiras pouco perceptíveis. Havia duas noites em que eu havia passado a noite em claro. No começo, fora assim também, mas depois conseguia voltar a dormir normalmente devido a minha enorme exaustão. Pus meu uniforme tão desanimadamente que nem sequer me obriguei a passá-lo.

Mas um toque no meu celular me fez dar um pulo tão grande, desesperado, que achei que minha cabeça fosse atravessar o teto – e aí eu me ferraria todinho, iria para o hospital com cinquenta por cento de chance de sobreviver, levaria mil pontos até não ter mais onde me furar. Percebe? Até uma amostra do meu humor – nada engraçado, aliás – se mostrou presente.

Eu havia escolhido um toque exclusivo para as chamadas de Guillermo. Assim poderia ignorar o resto caso não tivesse vontade de atender. Mas decerto, as deles eram minha prioridade.

Corri para atender o celular já com os olhos lacrimejando.

— Nicky?

— Amooor! — Gritou ele animado.

— “Amor”? Você some por quase quinze dias e quando me liga a primeira coisa que me diz é amor? Você não sabe...

— Sei aonde quer chegar. — Ele poupou-me de dizer coisas que eu provavelmente retornaria a dizer enquanto desse tapas na cara dele no momento em que estivéssemos juntos! — Eu irei para o colégio. Conversaremos lá. Preciso justificar minhas faltas para o diretor. — E desligou sem que eu pudesse dizer um “a”.

Tudo bem, se é no colégio onde ele quer me explicar, então é lá que vai ser – e garanto que não será agradável para ele.

Saí de casa sem tomar meu café. Eu nem senti o estômago implorando por comida. Do jeito que meu temperamento estava, mandei tudo se danar!

Quando cheguei ao colégio, até pensei em passar no refeitório para comer algo, mas estava impaciente e revoltado. Fui fitado por todos onde eu passava. Claramente se perguntaram o que eu estaria fazendo andando chorando pelos corredores.

Ah, cheguei à sala!

Nicky estava sentado olhando para a lousa. Era possível ver que suas mãos tremiam demasiadamente. Ele transparecia uma expressão arrependida. Quando deixei que ele me visse, fiz um sinal com a mão para que me seguisse até a quadra, lugar onde poderíamos conversar/brigar sem ter algum intrometido.

— Bom, estamos aqui.

Eu estava distante dele.

— Onde você esteve em todo esse tempo? — Falei friamente.

— Peço que se acalme um pouco. Por favor, Gui... — Dizia ele, melosamente.

— Cara, — aquela foi a primeira vez que me dirigi a ele com desdém desde que tornamo-nos amigos e depois namorados — eu posso ser uma pessoa muito calma, mas não venha me pedir calma mediante ao que você me fez.

— Tem razão. Você sempre foi nervoso quando era pequeno.

— Não é hora de trazer o passado para o presente, Nickolas Robinson! — Gritei ferozmente. — A questão é agora, presente, momento atual. Ou quer que eu desenhe? E daí se estou agressivo? ACHA QUE NÃO TENHO MOTIVOS O SUFICIENTE PARA LHE DIZER ISSO?

Eu estava demonstrando meu lado tempestuoso depois de tanto tempo.

— Deixe-me explicar o que aconteceu. Vou direto ao ponto. — Ergui as sobrancelhas. — Eu adoeci, estive internado desde o dia em que você conheceu Ricardo.

— O que houve?

— Guillermo, eu sempre desejei lhe contar o meu segredo mais profundo, mas tive medo de te perder se você soubesse. Por isso não te dei notícias, pois com certeza você me indagaria sobre minhas atitudes e o que havia acontecido comigo.

— E esse segredo teve algo a ver com sua doença? Aliás, o que você tinha?

Meu peito se apertou e minha respiração se tornou uma tarefa difícil. Gelei completamente. Eu pressentia que Nicky me revelaria seu segredo que constava naquele diagnóstico médico.

— Guillermo, eu estou disposto a te contar o meu segredo, mesmo sabendo que isso poderá destruir nosso relacionamento.

— É algo tão ruim para que chegue a este ponto?

— Sim.

— E por que acha que eu me separaria de você? Por acaso é infidelidade? — Por que eu perguntei algo tão sem noção se a resposta estaria vinculada ao diagnóstico clínico?

— Jamais te trairia, Guillermo. — Nicky fez uma expressão do tipo “cachorrinho pedindo carinho”. Peraí. Cachorrinhos pedem carinho? Em outras palavras, ele correu para me abraçar como se seu estivesse pronto para fugir, mas não estava. — Nunca seria tão desonesto com a pessoa que mais amo neste mundo! — Após dito isso, Nicky me apertou mais.

Como era bom sentir seu perfume novamente, ouvir suas palavras de carinho e amor. Nicky sabia me transformar em uma vela realmente.

— Meu amor, você acredita em mim, não acredita? — Falava ele desesperado.

Meu coração havia se amolecido com suas palavras. Era evidente que ele não seria capaz de ter atitudes tão baixas com estas.

— Eu acredito. — Falei baixinho.

— Então me deixa dizer o que preciso.

— Não te interromperei. Pode prosseguir.

Nicky respirou fundo e me encarou profundamente nos olhos.

— Guillermo. Eu tenho... Eu... Eu tenho AIDS!

— Wa... — Da onde tirei essa palavra? Só sei que todo o meu vocabulário foi embora no exato momento em que ele me revelou sua doença. Não havia palavras na língua portuguesa o suficiente que pudessem expressar a facada que levei na alma.

— Me perdoe por não ter dito antes! Eu tomava remédios escondido, mas chegou um momento em que eu precisava ser internado devido a uma doença secundária.

— Você... Mas... — Eu estava boquiaberto.

— Guillermo?

Já era. Minha audição se perdeu quase que instantaneamente e minha visão se escureceu logo em seguida.

Acordei num hospital. O médico disse claramente que eu estava desidratado, que eu carecia de vitaminas e nutrientes. Eu perdi muitos quilos durante minha depressão.

Nicky, por que não me disse nada antes? Eu não o deixaria por isso. Só queria que confiasse mais no meu amor. Eu te ajudaria no que precisasse. Eu havia me apagado mais uma vez. Aquelas foram as últimas frases que eu disse a mim mesmo antes de desmaiar pela segunda vez.

Continua...