Notas iniciais
Cap novinho saindo do forno

Meu pai continuou me puxando até chegarmos ao carro, ele não disse uma única palavra e não é como se eu quisesse ouvir mesmo, mas o que aconteceu foi muito mais interessante.
Quando ele abriu a porta do carro e me mandou entrar, eu, logicamente, tentei fugir, foque no tentei, meu amado pai me segurou sem um pingo de paciência e ergueu a mão, já sentiu sua vida passar toda pela sua cabeça? Eu engoli seco e fechei os olhos, prevendo algo que não veio.
A moça se pôs entre mim e ele, ainda estava com raiva, pelo visto não gostou de ter sido ignorada da ultima vez.
— Bater não é a solução. – Ela disse com um tom sedutor e autoritário, meu pai a encarou surpreso, ele não costumava ser desafiado assim por mulheres.
— Quem você pensa que é para me dizer o que fazer? – Ele disparou aumentando a postura e ela sorriu, se pondo ainda mais a minha frente, de modo tão protetor que eu estranhei.
— Marlee Jhames ao seu dispor, mãe de dois filhos que os cria com muito amor e cuidado, já você pelo visto... – Suas palavras ficaram vagas, mas o sorriso vitorioso que ela abriu deixou claro a mensagem, tive que me conter para não rir, meu pai cerrou os punhos, mas pareceu se conter.
Ainda sem dizer nada ele me puxou para me forçar novamente a entrar no carro, com força demais e sem ver muito bem a direção e minha testa bateu contra uma parte mais afiada da porta do carro. Por um instante apenas tive a sensação de ter levado um choque, então o sangue começou a escorrer.
— Ah! Ai, ai, ai, ai. – A dor piorou e começou a sangrar mais, segurei e meu pai de modo instintivo, mas ele apenas me encarava atônito, chocado com o que tinha causado, Marlee, por sua vez, correu ao me auxilio e retirou um pano vermelho da bolsa.
— Tem que leva-lo a um médico já. Agora, ou quer que piore? – Ela esbravejou e meu pai pareceu finalmente acordar.
Os dois disseram mais alguma coisa, só que eu não estava me preocupando em ouvir, entrei no carro e me sentei na frente, o pano estagnava o sangue, mas eu sentia que não era nada duradouro.
— Pai. – Chamei e a discussão lá fora cessou, Marlee me olhou uma ultima vez e suspirou, enquanto meu pai entrava no carro louco para matar um.
— Fecha essa porta. – Ele disse simplesmente, sempre com poucas palavras para mim, me virei para fechar e vi minhas mãos tremerem, mas não eram de dor, eram de ódio.



~ # ~


Quando meu celular tocou, já sabia do que se tratava: Charles.
Não dava pra contar nada pra ele por auto, ele tinha que saber os mínimos detalhes:
“Ela era gata?”
“Posso te bater? Te falo que levei nove pontos na testa e voce me pergunta se ela era gata?”
“Ué, sinto muito por ti, mas não é todo dia que se é salvo por uma heroína loira e sexy.”
“Quer saber... Vou dormir. Já tive muita preocupação hoje.”
“Vá com Deus, e tente não desaparecer”
“CHARLES!!!!!!!!!”
“Desculpa ai, fui.”

Joguei-me na cama e aumentei o som da musica, mesmo que eu não estivesse presando atenção, ainda assim dava para ouvir a discussão lá em baixo, meus pais eram teoricamente separados, mas permaneciam sobre o mesmo teto por se preocuparem com o que os vizinhos poderiam dizer.
Meus olhos lentamente foram se fechando, ouvi os sons lá embaixo diminuírem, ainda de relance vi meu pai se aproximar e acelerei o processo do sono, me virando rapidamente para a parede.
Só senti quando ele jogou o cobertor em mim e me cobriu.
— Boa noite Luc. – Sussurrou passando a mão pelo meu cabelo. — Eu te amo.

~ ~ ~ # ~ ~ ~

— Luc! Luc. Acorda, Luc! – Minha mãe me chamava, na verdade ela meio que me empurrava.
— Que foi? – Perguntei meio zonzo e ela tacou algo em cima de mim. — Tá depois eu vejo. – Resmunguei voltando a me ajeitar para dormir e ela resmungou algo de longe:
— Chegou hoje cedo pra você, pelos correios. Vou no mercado, seu pai está no escritório. – Aquilo não fazia sentido, eu nunca recebia cartas, o que realmente me importava era voltar ao meu doce sonho, até, claro, a ficha cair.
— O QUE? – Meus olhos se abriram e eu praticamente pulei da cama, minha mãe já tinha descido.
Olhei para a coisa que ela jogou em mim, uma carta, engoli seco, Jessie tinha falado que começou a receber depois do quinto desaparecido, uma por dia, durante sete dias, isso a assustou, e agora está me assustando, abri o envelope, uma foto caiu dele e logo em seguida outras várias.
Peguei varias delas e fui passando uma por uma.
Impossível...
As fotos eram... Minhas?
Impossível, pois todas eram bem recentes, fotos tiradas em momentos diferentes meus; uma delas inclusive era do momento em que meu pai estava prestes a me bater, outra quando eu me machuquei e por fim um cartão.
Peguei meu telefone e procurei o numero de Charles, minhas mãos tremiam tanto que exclui a opção de mandar uma mensagem na hora, finalmente achei o numero, coloquei a mão no coração apenas para ver o quão apavorado eu estava.
Enquanto esperava ele atender parei em frente a porta, com medo de dar um passo sequer.
“Alo? Luc? O que houve? Hoje é sábado e ta cedo!”
“Vem pra cá agora, por favor, vem logo.” – Sem esperar a resposta desliguei o telefone e olhei novamente para o cartão:


“Yuri,
Ariel,
Lauren,
Lincy,
Vincy
Jéssica.
Só falta você! ”

Notas finais
Espero que tenha ficado bom...