Primeiro dia
11:30 am

Quando Charles entrou achei que fosse me bater, mas por algum motivo ele conseguiu se controlar e apenas se sentou na minha cama.
— Que foi? – Perguntou emburrado e eu o encarei, seu cabelo loiro claro e liso estava especialmente bagunçado e a cara de sono já indicava que esse ser dormiu tarde. Suspirei e mostrei as fotos a ele, que examinou uma a uma confuso. —O que é isso?
— Chegou hoje cedo, não sei de quem veio, mas... – peguei o cartão que recebi junto e entreguei a ele. — Acho que ele me quer, e agora Charles e se eu for a próxima vitima?
— Nã... Não seja tão pessimista, quer dizer, quem iria te querer?
— Idiota.
Joguei-me no chão, imaginando como uma só pessoa pode se dar mal em tão pouco tempo, olhei para o calendário na parede.
— Sete dias. – Murmurei, minha mente começou a trabalhar enquanto me levantava para analisar melhor o calendário, peguei uma caneta que estava jogada no chão e risquei o dia de hoje. — É o primeiro dia, se o que Jessie me contou for verdade, isso só vai piorar.
— Do que está falando Luc?
— Ela disse que todos os dias recebia uma encomenda diferente, eu não procurei saber mais, achava que ela estava muito preocupada com isso. Ela disse que chegavam coisas sobre ela e sobre os outros.
— Acho que já comentou sobre isso da ultima vez.
— Sim. – Encostei na parede e abaixei a cabeça. — Eu não a levei a sério.
— Não fique tão depressivo. Temos que pensar no agora, no que você vai fazer? Vai contar para seus pais?
— Não. – Respondi quase de imediato, não iria correr o risco de outra falação na minha cabeça.
— Por que não? – Ele parecia indignado, o que me irritou um pouco, por que ele só ficava indignado quando a burrada era grande e isso me ofendia, eu estava protegendo minha integridade e isso não era uma burrada. —Isso é loucura, não contar é loucura.
— Porque eu disse não! – Só de olhar para a cara dele eu percebi que fiz merda, ele estava sério e olhava para o chão, então eu percebi que sem querer acabei gritando. — Desculpa, eu...
— Faz o que você quiser. – Ele se levantou e caminhou até a porta.
— Onde vai?
— Para casa, e temos reposição de aula hoje, acho bom você ir, eu te ligo quando der a hora.
— Mas, você nunca vai às reposições. Você sempre passa o dia... — Antes que eu pudesse impedir ele já tinha ido embora. — Comigo. – murmurei para o nada, aquilo só piorou meu estado de espírito.
Estava sozinho, sem saber o que poderia estar acontecendo com Jessie e com meu melhor amigo estava chateado comigo.
Minutos depois eu guardei tudo em uma caixa e joguei em baixo da cama, quanto menos eu visse aquilo melhor, permaneci jogado na chão olhando para o calendário por um bom tempo até que meu pai apareceu, olha que sorte, ele nunca tem folga no sábado, justo hoje ele resolveu ficar em casa.
— Não tem aula a tarde? – Ele perguntou encostando o ombro na porta e me encarando seriamente.
— Não.
— Eu sei que tem Luc.
— Então por que perguntou? — Disparei sem paciência e ele me lançou um olhar repreensivo, que não surtiu muito efeito, só o suficiente para me fazer levantar e mostrar um sorriso torto, ele suspirou daquele jeito que os pais fazem quando pensam “Onde errei?”.
— Se arrume logo, espero te ver lá em baixo em meia hora.
Ele saiu, me deixando emburrado e sem animo, chutei um caderno longe, não me pergunte o porquê, peguei meu uniforme e o taquei na cama com força, deixando que ele ficasse cada vez mais amassado, só pra me dar mais trabalho na hora de passar.
Sentei na beira da cama e peguei meu celular e mandei uma mensagem com “SOS” ao meu único amigo.
“To de mal.” Foi o que ele respondeu, muito maduro certamente, e acredite, é sempre assim.
“Sou o pior amigo do mundo, sou uma desgraça a humanidade, e estou arrependido de ser um idiota com todo mundo, estou sozinho sem rumo, solitario, perdido” Isso que eu chamo de implorar, mas eu precisava dele, é meu único amigo.
Ele mandou uma carinha feliz.
Tive vontade de espancá-lo, mas me contive apenas em digitar uma nova mensagem: “Eu vou ter que ir a aula, então é bom que esteja lá quando eu chegar.”
“Pq? ” Sem dúvidas ele queria me irritar.
“Fala igual gente.”
“Ok. Senhor eu não falo internetês, dessa vez eu te perdoo, até a escola. ”
Olhei para meu uniforme e suspirei, nem em pleno sábado eu tenho paz.

~ # ~
12:30 pm

— Sr. Romany? – Ouvi a voz aguda e irritante da vice diretora atrás de mim e me virei para encará-la com um sorriso cínico, que quase virou uma gargalhada quando vi o vestido verde abacate com a sandália amarela que ela usava, uma bela visão sem dúvidas. — Chegou cedo ou é impressão minha?
— Impressão. – Respondi e ela fechou um pouco a cara, deixando ainda mais visíveis suas rugas e olheiras. — Eu sempre me esforço para chegar na hora.
— Que seja! Agora acho bom ir pra aula antes que eu te mande para a detenção.
— Mas agora seria aula de química e não temos professor. – Protestei, em vão.
— Agora vão ter. Anda. Ou quer se atrasar de novo?
Sem dizer mais nada saí andando pelos solitários corredores da escola, sem pressa nenhuma, é claro.
Enquanto ouvia meus próprios passos ecoarem pelo corredor, comecei a pensar em como as coisas aconteceram, primeiro a ameaça, depois as pessoas sumindo, eu me lembro de quando Ariel surtou na escola um dia antes de sumir, ela foi a primeira, estudava na sala ao lado, por isso todo mundo da minha turma acabou vendo a cena quando ela saiu gritando e debatendo, pensando bem, todo mundo deve ter visto o meu surto.
Aquele pensamento me fez congelar, todos, e a ideia de todo mundo me olhando como se eu fosse um louco me fez prender a respiração, eu odiava chamar atenção, odiava todos aqueles olhares voltados a mim.
Se todos me encaram então todos sabia que eu estava com problemas, novamente todos sabiam que minha vida estava virando uma loucura.
Um ruído agudo chamou minha atenção, eu olhei para todos os lados, mas estava vazio, de novo o ruído mais alto, era como se alguém estivesse arranhando algo de alumínio, eu estremeci e levei as mãos ao rosto, de novo o mesmo ruído, aquilo me agoniava, me irritava, queria que parasse.
Deis uns passos atrás e, sem pensar muito, comecei a correr pelos corredores, sentindo como se estivesse sendo perseguido, podia ouvir os passos atrás de mim, estavam distantes, mas não ousei olhar pra trás.
Comecei a subir algumas escadas o mais rápido que podia ainda sem olhar para trás, meu único foco era chegar no segundo andar, era encontrar alguém, qualquer um que fosse.
De novo o mesmo som, eu tampei os ouvidos e acelerei até o ultimo degrau.
— Luc? – Ao ouvir a voz de Charles senti como se tivesse acabado de lembrar como se respirava, parei e o encarei, ele estava saindo do banheiro e me olhava preocupado. — O que houve?
— Eu, levei um susto. – Menti e ele me encarou como se eu fosse um alienígena.
— Vamos para a sala. – Ele disse por fim, eu concordei, ainda um pouco ofegante e sem olhar para trás, nós dois começamos a andar calmamente, ele parou umas duas vezes para amarrar o sapato, mais uma vez para encenar alguma coisa e mais duas vezes para perguntar se eu estava mesmo bem e eu parei uma vez para tentar bater nele, tudo isso mesmo atrasados para a aula, como sempre.
Ele falava sobre qualquer coisa aleatória, mas eu não conseguia prestar atenção, aquilo só podia ter sido coisa da minha cabeça, pelo menos eu tinha que acreditar nisso.
Estava tão distraído que nem vi a menina a minha frente, ela estava de cabeça baixa e eu nas nuvens, resultado? Esbarramos um no outro.
— Desculpa. – Pedi com sinceridade.
— Tudo bem, eu estava distraída.
— Somos dois então. – Brinquei e ela sorriu sem me olhar nos olhos, Charles me cutucou. — Então eu já vou indo. Até.
— Até.
Sai andando e a deixei passar, lançando alguns olhares para trás, Charles me encarou curioso, o que me fez suspirar.
— O que foi isso agora? – Ele quis saber, com as sobrancelhas erguidas.
— É que ela é irmã da Ariel, a primeira menina que sumiu. – Esclareci e ele pareceu pensar. — Eu queria saber mais sobre os outros, não entendo por que Jessie e eu fomos escolhidos para sermos atormentados, as palavras desse cara não fazem sentido.
Paramos enfrente a sala e ele suspirou.
— Ok senhor detetive, agora a gente tem aula de química, vamos ver quem é o novo professor logo, aposto que ele é careca, com barba, barriga gigante e roupas descoladas. – Ele foi entrando devagar, mas parou na porta assim que a abriu. — Uau, isso é... Muito melhor do que roupas desoladas.
Movido pela curiosidade me aproximei da porta.
A professora era loira, tinha um corpo perfeito e lindos olhos castanhos caramelados, só que isso não foi o que me impressionou mais, foi a minha maravilhosa sorte de me dar mal, ela era Marlee Jhames.
— Olá senhores. – Disse quando nos viu, sorrindo especialmente pra mim, que estava surpreso de mais para corresponder. — Hoje vou perdoar o atraso, mas da próxima vez faço desenharem três folhas de relógios marcando a hora que devem chegar. Sintam-se avisados.