Tão fora da terra
23 Capítulo 22- Normalizando
Notas iniciais
Aldebaram começou a chorar. O cosmo de Shura se afastava cada vez mais.
Milo, Camus e Afrodite encararam no céu o cosmo do Dragão que subia cada vez mais alto. Aioria e Mu preferiram não olhar.
Mais um amigo ia embora.
Um choque no peito de Seiya, e o eco do cosmo de Shiryu em seu cosmo:
–Por favor, amigos, lutem e protejam a deusa Atena por mim!!!!
Era o adeus de Shiryu. Os outros cavaleiros de bronze também sentiram o pedido.
O cosmo do Dragão se afastou até desaparecer. Shun caiu no chão e chamava pelo amigo. Seiya não conseguia pensar.
Seu amigo, seu companheiro de lutas, seu amor. Estava morto.
Se não tivesse uma missão a cumprir, Seiya desabaria ali mesmo. O que o levou a continuar foi o tom de voz de Hyoga.
–Não temos tempo para sofrer pela morte de Shiryu, temos que seguir em frente.
Camus esperava na porta da casa de Aquário. Encarava Hyoga com olhos frios. Seiya estava atordoado, e Shun, inconsolável com a perda de mais um amigo. Mas ainda tinham duas batalhas pela frente. Mas mal deram um passo, quando o cisne falou:
–Seiya, Shun quero que sigam em frente sem mim. Não quero que ninguém perturbe minha luta com meu mestre, nem mesmo vocês. Ela é minha.
Pégaso e Andrômeda encararam um Cisne decidido. Shun queria lutar em seu lugar, mas Seiya colocou uma mão em seu ombro e apontou para frente.
–Sigam em frente, depressa amigos.
Começaram a subir. Camus os encarava.
–Já disse para irem embora, Seiya, Shun!
Passaram pelo mestre da água e do gelo. Camus encarou Hyoga a sua frente.
–Por que voltou a vida Hyoga? Não, nada mais tenho a dizer...
Camus entrou. Seiya e Shun estavam indo para a última casa. Iriam batalhar com Afrodite.
Aqueles garotos... seus laços eram tão estreitos quanto os laços que ele mesmo mantivera com seus amigos...
Sentiu o cosmo de Aldebaram, triste, vazio... ele também sentiu a perda de Shura... Shura, seu amigo, vizinho, tantas lutas juntos... e perdeu para um cavaleiro de bronze...
MM também... até Shaka... a elite de Atena havia acabado... esfacelada... era questão de tempo agora... duas horas...
“Milo”
“Aqui. Quer alguma coisa?”
“Sim!”
O escorpiano caiu de joelhos.
– — — — — — — — — — -
Um cheiro de flor estava no quarto. A vista estava entrando devagar em foco, e a primeira coisa que Milo viu foram os cabelos ruivos de Camus.
Estava sentado ao seu lado, de olhos fechados, segurando sua mão. Respirava devagar. Parecia estar ali já há algum tempo, uma vez que a roupa era a mesma que usara por baixo da armadura em sua última batalha. Estava todo amassado, e em uma posição desconfortável, pelo que parecia. Milo sentiu seu coração crescer e queimar dentro do peito. Acordar com Camus a seu lado, de mãos dadas era algo que ele jamais imaginara- e olha que imaginara muita coisa entre os dois.
Mexeu a mão levemente, fechou os olhos e soltou um suspiro. Camus acordou sobressaltado, limpando a baba que escorria.
–Milo? Milo?
–Sim...
–Graças a Deus!- O aquariano soltou um suspiro aliviado- Fiquei tão preocupado, você... como se sente?
–Tenho sede.
–Aqui- Camus se levantou, e despejou um líquido laranja em uma xícara- Beba isso, Afrodite que fez, disse que você tomasse quando acordasse. Consegue se sentar?
Milo tentou se levantar, mas ainda estava muito tonto. Camus o amparou.
–Eu te ajudo, vem devagar...
Camus apoiou Milo no peito, e devagar inclinou a xícara na boca do escorpiano. Milo se sentiu confortável como nunca ali, recostado no peito do francês.
–Bebe sem pressa.
Milo tomou um primeiro gole, gostou do sabor adocicado, e foi engolindo com mais vontade.
–Devagar, tem mais ali...
Camus sorria. Milo olhou para cima e viu seu rosto com uma expressão tão gentil, a cabeleira ruiva, o sorriso doce, e os olhos... aqueles olhos que tinham tanto mistério, e ao mesmo tempo eram tão transparentes...
Camus também se perdia nos olhos de Milo, aquelas safiras que estavam meio abertas, meio fechadas, ainda anuviadas pela fraqueza do escorpiano, mas tão cheias de vida, tão cheias de sentimento...
Ficaram quase cinco minutos assim, se olhando, até Milo bocejar. Camus sorriu de novo, e o acomodou na cama.
–Melhor?
–Sim. Com sono ainda.
–Normal, com o volume de sangue que você perdeu. Por que tentou fazer aquilo?
Milo ficou envergonhado.
–Todo mundo estava dando o seu melhor, eu não podia ficar para trás, certo?
–Mas tentar copiar os golpes de Kárdia assim... Poxa, me falasse antes ao menos...
–Camus, como você estava eu não podia... te incomodar com bobagens...
Aquela frase foi uma das primeiras que Camus disse que Milo guardou na memória:
–Você nunca me incomoda, nem nada que seja importante pra você.
–Desde quando?
Camus ficou sério. Deixou uma mão repousar em cima da mão de Milo.
–Depois que você começou a cuidar de mim... bem... antes eu já estava, bem...
Milo aguardou um pouco. Mas a impaciência falou mais alto.
–Fala Camus.
–Não é fácil.
–É mais fácil falar do que guardar.
Camus se levantou e foi até a janela. Suspirou fundo, fechou os punhos e se voltou para encarar Milo:
–Ouça bem, por que eu não tenho o costume de falar isso, e nem sei se vou repetir. Eu acho que estou sentindo algo por você que vai além do afeto, além da amizade. E eu tenho medo, por que isso é confuso para mim, e eu nunca senti nada parecido. E eu não acredito que dois homens possam ser felizes juntos como um casal. Mas eu sinto que... gosto muito de você, Milo.
Milo ficou um pouco desapontado. Dada a situação toda ele esperava ouvir algo além daquilo. Mas ao olhar o aquariano, e como esse tremia, viu que aquilo era o mais longe que ele conseguiria ir.
Ficou alguns minutos pensando. Camus estava impaciente.
–E então?
– Então... eu quero mais chá, por favor.
Camus ficou meio perdido, mas foi atender ao pedido de Milo. O apoiou mais uma vez, e ele bebeu com mais vontade.
–O que é isso?
–Um chá do Afrodite, para te deixar mais forte.
–Será que demora a fazer efeito?
–Não sei, mas o mestre nos deixou livres por pelo menos quinze dias. Não se preocupe com tempo.
–Bem, eu gostaria de tomar um banho, mas ainda estou meio tonto. Acho que vou dormir um pouco.
–Tudo bem, vou fechar as cortinas.
–Camus.
O aquariano estava se sentando quando Milo o chamou.
–Quanto tempo estou desmaiado?
–Três dias, ou quase isso.
–E você ficou aqui esse tempo todo?
–Sim.
–Por quê?
–Por que eu quero cuidar de você.
Milo sorriu. Não tinha como ficar bravo com Camus, mesmo se quisesse. Frio ou não, sabendo demonstrar seus sentimentos ou não, ele era a razão do seu afeto.
–Pode deitar comigo? Acho que me sentiria mais confortável com você do meu lado.
Camus não sorriu, nem disse nada. Apenas se aproximou, se deitou, e Milo recostou sua cabeça no peito do aquariano.
E adormeceu. Camus ainda ficou um tempo acordado, mas quando sentiu o escorpiano ressonar em seu peito, fechou os olhos e adormeceu também.
– — — — — — — — -
Aioros estava olhando para o céu, deitado em uma pedra. Aioria se aproximou, sentou-se a seu lado fazendo barulho e resmungando.
–O que aconteceu?
–Não sei... não entendo... sei lá, tá tudo estranho...
Aioros não desviou os olhos do céu. Sorria.
–Mu e Shaka?
Aioria foi quem sorriu dessa vez.
–Me conhece mesmo, não?
Aioros se levantou em um salto, e pulou em cima de Aioria. Os dois rolaram no chão alguns instantes, lutando, até Aioros dar um mata-leão no irmão.
–O golpe perfeito para a situação, não?- O sagitariano sorria- Claro que eu te conheço, você é minha família.
Aioria sorriu, e deu uma cotovelada na barriga de Aioros, que afrouxou o golpe.
–Nem queria ter outra.
Aioria pulou em cima de Aioros sorrindo, e os dois se abraçaram por um tempo. Aioros fazia um cafuné no irmão, que descansava a cabeça em seu ombro.
–O que eu faço?
–Siga seu coração, Aioria.
–Mas se eu seguir... vou querer ficar com os dois...
–E se eles quiserem o mesmo também?
–Não sei...
–Descubra, irmão.
Ficaram um tempo abraçados. Saga estava se aproximando. Viu os dois ali, juntos, e sentiu um aperto no peito. Quando ficara assim com Kanon pela última vez? Provavelmente quando eram crianças. Sentiu saudades daquela época em que os dois não tinham ambições, maldades, nada, apenas inocência. Invejou os dois irmãos.
Aioros, sentindo a presença do geminiano, se levantou e o chamou:
–Ei, vem cá!
–Não quero atrapalhar.
Aioria quem disse:
–Não atrapalha nada. Pode aproveitar ele, vou seguir um conselho. Até mais, Saga.
Aioria se afastou. Ia conversar com Mu e Shaka. Era hora.
Saga se sentou ao lado de Aioros.
–Tudo bem?
–Tudo. Um pouco cansado.
Aioros pegou o rosto de Saga com as mãos e o encarou.
–Cansado demais pra me beijar?
Saga sorriu. Sentiu aquele calor gostoso no peito quando estava com Aioros.
–Isso nunca.
Deram um beijo gostoso, molhado, comprido e ininterrupto. Quando começaram a sentir desconforto, Aioros pegou Saga pela mão.
–Aonde vamos?
–Fazer uma coisa romântica, pra variar.
–Lá vem você...
Andaram um pouco por uma trilha escondida por algumas árvores, até chegarem na encosta de um penhasco. A lua estava cheia bem no meio do céu, que também estava coberto de estrelas. Um salgueiro chorão era a última árvore da trilha. Aioros encostou-se ali, sentou-se e puxou Saga no seu colo. Ficaram abraços sentindo o calor do corpo um do outro. Saga encarou Aioros e começaram a se beijar de novo.
Quando Saga puxou a camisa de Aioros um pouco pra cima, ele segurou sua mão:
–Não... hoje não...
–Hum?- Saga estava confuso.
–Sem sexo hoje.
–Hum? Assim não vale, olha isso.
Saga pousou a mão de Aioros em cima de sua ereção, e esfregou. O sagitariano suspirou.
–Hoje não, amanhã, eu prometo, faço o que você quiser, mas hoje, quero só te beijar até ficar sem ar.
Aioros empurrou Saga, que caiu deitado. Colocou seu corpo em cima do amante, e as duas ereções se esfregaram. Saga soltou um gemido...
–Mas...
–Shiu!!!!!- Aioros colou seus lábios no amante- Hoje só beijos, e uma esfregadinha gostosa. Pode ser? Há tempos que quero te beijar sob a luz da lua.
Tinha como dizer não praquela montanha de músculos carinhosa? Saga o abraçou.
–Mas amanhã... há...
– — — — — — — -
Camus se espreguiçou. Dormira a sono solto pelo jeito. Perdera a noção do tempo na cama com Milo.
Esfregou os olhos. Milo estava deitado a seu lado, os olhos meio abertos.
–Ei, tudo bem?
Milo sorriu.
–Tudo ótimo.
–Como se sente?
–Melhor. Agora mais animado, mas sinto que ainda vou precisar de ajuda por um pouco.
Camus pousou sua mão no rosto de Milo.
–Quanto tempo você precisar.
Milo queria congelar o tempo. Aquele carinho... ele iria colecionar cada gesto de carinho de Camus dali em diante.
–Me ajuda em um banho?
Camus enrubesceu um pouco.
–Cla... sim... é, tudo bem...
Milo sorriu, um pouco travesso:
–Não se preocupe, não precisa me dar banho, só me coloca na banheira e deixa a porta aberta, tenho medo de ficar tonto com a fumaça e tudo mais.
Camus olhou tímido para Milo:
–Não, tudo bem, eu te acompanho.
–Mesmo por que tá precisando, heim? Não trocou de roupa nesses dias não?
Camus ficou vermelho, e irritado:
–Eu estava cuidando de você, mal agradecido. Não saí de perto de você mais de dez, quinze minutos no máximo.
Milo riu.
–Desculpa, to brincando só.
Camus bufou e saiu da cama.
–Vou esquentar água.
Milo segurou a mão de Camus. Se encararam.
–Obrigado.
Camus sorriu.
–Já volto.
Milo abraçou o travesseiro e fechou os olhos. Tinha pelo menos meia hora até tudo ficar pronto.
Fale com o autor