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1 Carta Nº 01
Já era tarde da noite quando sai do meu quarto, não havia ninguém pela casa e aparentemente meu irmão não tinha chegado em casa ainda. Liguei a luz do banheiro ao entrar e fechei a porta atrás de mim, sentia meu coração mais rápido que o normal, meus olhos coçavam e se mantinham abertos, fui até o chuveiro e o liguei. A água descia forte em meu corpo e escorria pelo tal, levando consigo todo aquele sangue, os meus cabelos caíram sobre meu rosto enquanto eu olhava para meus braços e pernas, ambos cortados, passando a mão sobre minha barriga e tórax. Seria ali? Eu morreria finalmente? Depois de tanto tempo de sofrimento, minha vida finalmente chegaria ao fim? E foi quando o sinal tocou.
–Dormiu a aula toda não foi? — Disse uma garota aparentemente baixa, de cabelos loiros e olhos claros, ela tinha algumas sardas no rosto e deixava sua franja tomar conta do outro lado do rosto.
–Tive outro sonho... — Era a única coisa que eu conseguia dizer, estava pasmo com o que havia acontecido.
–De novo? Você tá bem? — Ela passou a mão em minha testa, que por sinal se encontrava molhada com suor.
–Sim... — Menti.
–Vamos descer logo, esfriar a cabeça com um bom suco de laranja da cantina... — Ela tentava me animar.
–Pode ir na frente, te alcanço. — Disse enquanto mexia nos bolsos.
–"Okay" — Ela disse já se levantando da carteira.
Olhei pros lados e me vi sozinho, o quadro cheio de anotações, as janelas fechadas e a luz apagada, eu estava ali no meio do nada pensando se tudo estava voltando, se todos aqueles velhos problemas viriam me atormentar de novo, eu não me sentia preparado ou determinado, me sentia fraco e sozinho, precisava de algo pra continuar, de algo pra me dar forças, um motivo pra acordar todos os dias de manhã com um sorriso no rosto e um olhar feliz e brilhante. Criei coragem pra me levantar e sair da sala, a minha amiga esperava na escada e já se preparava pra voltar na sala e me buscar, alguns outros alunos continuavam no corredor conversando ou escutando música.
–Finalmente! — Ela expressou irá com o olhar.
–Desculpa. — Eu disse.
–Não importa, vamos logo! — Ela puxou meu braço bem forte, me forçando a descer.
–Aonde vamos com essa pressa?! — Eu estava meio confuso, ela nunca tinha agido assim.
–Hoje é dia 04, não se lembra do que aconteceu nesse dia? — Ela olhou diretamente nos meus olhos.
–Não... Bem, não exatamente. — Eu disse, ainda estava meio confuso.
–Borboletas... — Ela disse.
Foi ali que paramos, os outros alunos andavam e esbarravam em nós, eu senti um formigamento na barriga, como se borboletas voassem em meu estômago e foi assim que lembrei, de um dos dias mais felizes da minha vida, um dos motivos que mantiveram de pé todo esse tempo, que me mantiveram sorrindo, mesmo que falsamente, e que me mantiveram feliz.
Depois escrevo o resto da carta, estou terminando de arrumar meu quarto. Com amor, Gabriel.
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