Two Pieces
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Desde pequena, Elisabeta Benedito foi incentivada por seu pai Felisberto a escrever e se informar sobre o mundo que os cercava, um mundo muito além da pequena cidade do Vale do Café onde moravam. Assim, tanto ela quanto suas quatro irmãs, cresceram rodeadas de livros e atividades que ajudaram a torna-las as moças cultas que eram.
Cada uma das moças da família tinha alguma paixão e a de Elisabeta era escrever. Gostava de colocar no papel seus pensamentos e desejos para um futuro que esperava com ansiedade e esperança, mas também escrevia sobre as injustiças que a indignavam. E foi através dos textos onde denunciava o que vinha acontecendo na ferrovia recém inaugurada para o jornal de São Paulo, que ela conseguiu uma coluna só para ela.
Quando Archiebald Williamson, lorde inglês que era sócio de Julieta Bittencourt, chegou à cidade, logo a notícia de que sua ferrovia iria trazer progresso ao Vale se espalhou e ninguém mais do que Elisabeta se animou com a possibilidade de desbravar o mundo. Porém, conforme os meses foram passando e as obras começaram a se desenvolver, muitos problemas surgiram na relação do Lorde com seus funcionários, já que o homem era pouco preocupado com o bem estar dos mesmos.
— Veja se não é um absurdo o que acontece naquele lugar, papai. O Lorde mais uma vez atrasou o pagamento de seus funcionários e fez com que trabalhassem mais do que o combinado — disse Elisabeta sentada em uma cadeira em frente à mesa de seu pai no escritório da casa
— Mas é claro que isso não pode acontecer, mas já lhe pedi que pare com as críticas a companhia do Lorde Williamson no jornal. — disse Felisberto fechando a edição do periódico que havia chegado a pouco de São Paulo, onde se podia ler a coluna da filha logo nas primeiras páginas — Aquele homem é poderoso e só Deus sabe o que ele pode querer fazer contra você se isso continuar
— Provavelmente ele pode fazer muitas coisas contra mim, ainda mais sendo rico do que jeito que é. Mas não será por isso que terei medo dele, nem o senhor devia — Elisabeta disse, um pouco mais exaltada do que antes — Nada do que escrevo neste jornal é mentira, não posso me calar vendo aquelas pessoas que conheço desde pequena sofrendo
— Todos sabem disso, minha filha. Só peço que tenha cuidado com o que escreve e principalmente juízo, mesmo que tudo isso seja verdade — Felisberto deu um beijo na testa da filha e saiu do cômodo, deixando a moça pensativa
***
Durante sua viagem da Inglaterra até o Brasil, Darcy se sentiu sozinho e desanimado. O motivo de sua mudança para o país era o mais incômodo que poderia imaginar, já que não esperava ter que lidar com a administração da empresa do pai tão cedo, sem que ainda estivesse preparado para isso.
Darcy nunca quis cuidar dos negócios da família, pelo contrário, sempre se sentiu inclinado as áreas voltadas para as artes, como música, literatura e como a sua mãe, era um exímio pintor. Mas seu pai nunca aceitou bem que o menino se dedicasse a sua paixão além de um mero passatempo e fez com que ele entrasse em uma faculdade na Inglaterra quando chegou a fase adulta. Lá Darcy cursou economia, mesmo que detestasse números, e foi aonde conheceu Camilo Bittencourt, seu melhor amigo e filho da sócia de seu pai.
Ao chegar em São Paulo, Darcy sentiu-se estranhamente familiarizado com o local, mesmo que nunca tivesse estado ali antes. Lembrou-se de ouvir quando pequeno sua mãe contar sobre as belezas de sua terra natal, do cheiro de comida que havia em cada esquina e da beleza das pessoas, além das histórias de Camilo que descrevia com propriedade cada canto da cidade e sempre o fazia querer conhecer o lugar. Porém, a estadia de Darcy duraria pouco na capital, após duas noites para descansar da longa viagem de navio, devia partir rumo ao Vale do café. Lá ficaria hospedado por um tempo na casa de Julieta junto a seu pai e dentro de alguns dias começaria o trabalho na ferrovia. E ao lembrar disso, Darcy não conseguiu dormir.
***
Ao chegar no Vale, Darcy se surpreendeu com a beleza do lugar. O tanto de árvores e pequenas casas coloridas que passavam pela janela de seu automóvel formavam uma paisagem que ele nunca tinha visto em outro lugar por onde já havia visitado. Definitivamente o lugar possuia uma beleza singela e singular
Assim que chegou na fazenda Bittencourt, já podia ver a inconfundível imagem de seu amigo no topo da escada da casa principal a sua espera
— Veja se não temos aqui o bom e velho Darcy Williamson — Camilo disse enquanto descia as escadas apressado para cumprimentar Darcy — Já estava sentindo sua falta, meu amigo
— Bom eu não sei, mas velho com certeza ainda não estou — Darcy disse abraçando Camilo
— Por enquanto, por enquanto. Venha, vamos entrando que pedi que preparassem um verdadeiro banquete para você e temos muito assunto para colocar em dia — Camilo foi logo entrando novamente na casa, com Darcy logo atrás de si.
Enquanto o mais novo chamava por Petúlia para que ela viesse servir o hóspede, Darcy observou o ambiente a sua volta e teve a sua atenção roubada pelo jornal aberto em cima da mesa de centro. Em um título bem destacado, que ocupava boa parte do espaço, podia-se ler
"Ferrovia da companhia Williamson submete os funcionários a precária condição de trabalho"
—O que é isso, Camilo? — Darcy mostrou o jornal para Camilo, que retornava para a sala nesse momento acompanhado de Susana, braço direito de sua mãe e sua eterna companhia nos bailes a que iam
— Olá, Darcy, meu querido. Fez uma boa viagem até aqui? — Susana o cumprimentou com seu habitual excesso de gentileza, fazendo com que ele se distraisse um pouco de sua preocupação
— Foi uma ótima viagem, Susana, obrigada por perguntar — Darcy passou os olhos novamente pelo restante da página, onde se podia ler sobre atrasos no pagamento dos funcionários e acidentes durante a obra — Isso o que esse jornalista diz aqui é verdade?
— Mas é claro que não, meu querido — Susana apressou-se em responder — Obviamente são calúnias feitas por funcionários invejosos contra seu pai. Não há porque se importar com isso, você sabe como esses caipiras são
— Você tem certeza disso, Susana? Por que eles parecem ter muitas críticas sobre a ferrovia nesse jornal
— Mas é claro que tenho, Darcy. Essa coluna é escrita por uma das maiores caipiras da cidade, Elisabeta Benedito. Ela é metida a jornalista, mas não passa de uma menina com imaginação fértil — Disse Susana tirando o jornal das mãos de Darcy e devolvendo ao local onde ele estava antes — Não há porque se importar com absolutamente nada que está escrito aí. Não é Mesmo, Camilo?
— Não posso dizer, Susana. Cheguei a pouco na cidade também e quase não tenho saído da Fazenda. Mas posso garantir que não ouvi nada a respeito disso, meu amigo
Ao ouvir Camilo e Susana afirmarem que não havia motivos para se preocupar, Darcy pode se sentir um pouco mais aliviado, pois a ideia de ver seu pai sendo cruel com as pessoas que trabalhavam para ele lhe parecia impensável. Mas um assunto continuou rondando seus pensamentos durante todo o restante do dia, mesmo que não conseguisse acreditar no que tinha lido não podia deixar de pensar em quem seria a tal jornalista por trás de tais denúncias.
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