Two Pieces

2 Capítulo 2


Mesmo contra a vontade de seu pai e principalmente de sua mãe, Elisabeta estava decidida a continuar com as denúncias no jornal. Nunca foi uma pessoa de desistir fácil e não seria agora que ela começaria a ser. Durante todo o caminho até a casa de chá onde havia marcado de se encontrar com sua irmã Cecília e o marido, ela tentou distrair-se para esquecer aquela voz no fundo de sua cabeça que a alertava que continuar com aquilo poderia ser perigoso.


Ao chegar no estabelecimento mais conhecido da cidade, Elisabeta logo reconheceu o mais novo casal em uma mesa no canto do salão. Seguiu na direção deles e ocupou seu lugar de sempre, perto da janela onde podia ver toda a movimentação da rua


— Vocês deveriam estar aproveitando a vida de casados ao invés de gastar seu tempo livre comigo — Disse Elisabeta em tom de provocação


— Veja se não é a minha cunhadinha preferida — saudou Rômulo logo assim que ela se sentou – E com o mesmo humor de sempre


— Muito obrigada pela honra, meu querido. Só não deixe que as outras escutem você dizendo isso — Elisabeta se inclinou na direção do casal e com a mão sob a boca disse arrancando risadas dos dois — Você também é meu cunhado preferido e não tem nada a haver com o fato de ser o único, tá bom?


— Deixem dessa troca de elogios vocês dois, pois já estou ficando com ciúmes. — disse Cecília – Papai me mostrou sua coluna no jornal e estou muito orgulhosa de você, Elisa. Mais uma vez seu texto foi incrível e de muito talento


— Muito obrigada, minha irmã. Sabe que faço isso por paixão e tudo que a gente faz com sentimento se torna melhor. Mas infelizmente o assunto não era dos melhores.


— Falando em sentimento, como anda seu noivado com meu irmão, senhorita Elisabeta? — Disse Rômulo deixando Elisabeta envergonhada e Cecília curiosa, pois a irmã pouco falava de seu relacionamento com Edmundo Tibúrcio, o qual era seu namorado há alguns anos.


— Tem estado tudo bem, Rômulo. Não o vi essa última semana pois ele foi a Campinas resolver alguns problemas da próxima safra de café ou algo assim, mas ele me prometeu que logo retorna — disse ela se servindo de um bolo que estava posto em cima da mesa. Vendo que sua irmã não pretendia continuar o assunto, Cecília iniciou uma conversa sobre o último livro que tinha lido e assim a conversa seguiu


Seu noivado com Edmundo era algo que Elisabeta nunca havia pensado que fizesse parte de seu futuro. Conhecia o rapaz desde criança, costumavam a andar à cavalo juntos e passar às tardes nadando na cachoeira junto com Cecília, Jane e Rômulo. Quando cresceram, se tornaram ainda mais amigos, até que ela não sabe explicar o momento certo, o relacionamento se tornou sério o suficiente para Edmundo lhe pedir em casamento, o qual ela aceitou por acreditar que era o certo a se fazer depois de tantos anos e para a felicidade de sua mãe Ofélia, que tinha como missão de vida casar suas cinco filhas e já tinha conseguido cumprir seu destino com Cecília.


Todos os dias, desde o momento que acordava e até a hora em que ia dormir tinha que lidar com Ofélia lhe perguntando quando Edmundo marcaria a tão sonhada data do casamento e todas às vezes, inventava as desculpas mais mirabolantes para convencer a mãe sobre a demora. Não sabia explicar o porquê de não ter marcado ainda, apenas sabia que não estava preparada para abrir mão de seus sonhos para se tornar a esposa de um fazendeiro. Mas sabia que amava Edmundo, ou pelo menos acreditava que sim.

***


Camilo e Darcy resolveram conhecer a cidade no dia seguinte a chegada de Darcy. Cavalgaram pelo Vale enquanto o inglês ficava cada vez mais empolgado com tudo o que via. Às vezes, mal conseguia evitar o estranhamento ao notar as nítidas diferenças entre o Vale do Café e Londres e as suas pessoas.


Quando já haviam conhecido tudo o que existia no centro da cidade, resolveram entrar na casa de chá da qual tinham ouvido falar muito bem, pois já se sentiam famintos e exaustos pelas horas que tinham gasto no passeio.

Assim que entraram na grande construção azul com detalhes em branco, uma senhora de cabelos castanhos, preso em um coque, veio atende-los com um sorriso alegre. Enquanto Camilo fazia os pedidos para a senhora que se identificou como dona Ághata, a atenção de Darcy foi roubada por um pequeno grupo no salão vazio, formado por um casal e uma uma moça que usava diversos tons de vermelho dos pés a cabeça. Pareciam conversar de forma muito empolgada sobre livros.


— Já conhece as Benedito, rapaz? — perguntou a senhora em tom de curiosidade à Darcy, o que fez com que ele voltasse sua atenção a ela novamente


— Não conheço não, dona Ághata. E pode me chamar de Darcy, sou filho de Lorde Williamson, dono da ferrovia e este aqui é meu amigo Camilo Bittencourt — apresentou-se — Quem são as Benedito, afinal?


— Muito prazer, meus queridos. Os Benedito são uma família muito conhecida na cidade. Ofélia e Felisberto, meus amigos de muitos anos, tiveram cinco filhas moças. Aquelas sentadas ali são duas de suas meninas, Cecília e Elisabeta


— Elisabeta Benedito? A jornalista? — Disse Camilo em tom de surpresa. Darcy não conseguiu formular nenhuma resposta, pois não esperava que a pessoa que escreveu palavras tão rudes sobre seu pai no jornal poderia ser uma moça tão jovem e bela, mesmo que tenha se repreendido por pensar o último adjetivo sobre Elisabeta


— Sim, a menina de vermelho é Elisabeta. E o rapaz com elas é Rômulo Tibúrcio, o médico da cidade e ... – A fala de dona Ághata foi interrompida pela surpresa de ver Darcy caminhando com tamanha obstinação até a mesa das moças. Chegando lá, Darcy não sabia o que tinha lhe levado até ali, mas quando percebeu, já estava se apresentando e atrapalhando a conversa do trio


— Boa tarde à todos, mas eu gostaria de falar com a senhorita Elisabeta Benedito – disse as últimas palavras olhando diretamente para a moça, que parecia nitidamente surpresa pela chegada do rapaz que nunca havia visto antes, refletindo o sentimento de todos à mesa


— Sou eu mesma e quem seria o senhor? – Elisabeta não esperou que o homem se apresentasse e já estava de pé na frente dele. O que ela não esperava era a altura do homem de terno a sua frente, que era bons centímetros mais alto que ela. Mesmo assim, fingiu não se abalar ao se sentir tão pequena perto dele e continuou o encarando, esperando que falasse


— Sou Darcy Williamson, filho do dono da ferrovia que a senhorita tanto falou mal em sua coluna. Gostaria de entender o que ganha ao tentar denegrir a imagem de meu pai? – disse Darcy em tom irritado
— Eu denegrindo a imagem de seu pai? Desculpe, mas ele faz isso por si só. – Elisa já estava irritada o suficiente com aquele homem que havia acabado de conhecer – Não tenho nada contra a ferrovia, tenho contra a forma que seu pai vem administrando a situação — Elisabeta não conhecia Darcy, mas já não gostava dele. Mal havia chegado a cidade e já se achava no direito de falar o que era verdade ou não e ainda falava naquele tom com ela. Um verdadeiro arrogante.


— Meu pai jamais seria capaz de algo desse tipo contra seus próprios funcionários. A senhorita deve estar louca ou algo do tipo
— Bom, se não acredita em mim, pergunte aos seus homens o que ele acham de Lorde Williamson – Elisabeta sentou-se cruzando os braços e encarou o homem a sua frente com um sorriso vitorioso para disfarçar a raiva que sentia por dentro. Aquele homem tinha duvidado de suas palavras e não sabia explicar porque, mas aquilo havia mexido com ela


— Irei fazer exatamente isso e provarei que a senhorita está errada quanto as ações de meu pai. Então, terá que se retratar publicamente na sua coluna e comigo. Tenha uma boa tarde – Se despediu e saiu da casa de chá deixando a todos que assistiram a cenas perplexos e Elisabeta muito irritada