Two Crowns
30 Capítulo XXIX
Notas iniciais

— Vocês não tinham apertado os modelos na semana passada? — perguntei às criadas, enquanto elas tentavam fazer, sem sucesso, com que o vestido que eu usava não parecesse tão grande em meu corpo.
— Sim, senhorita. — respondeu-me Lorena. Seus olhos amendoados demonstravam preocupação. — Reduzimos do quarenta e dois para o trinta e oito, mas Vossa Alteza continua perdendo peso.
— Minha dieta tem funcionado. — menti. Eu simplesmente só conseguia comer o essencial para me manter viva. — Tragam alguma de minhas pantalonas, devem vestir melhor que esses vestidos. Ao menos, só precisam de ajuste no cós.
As três desceram em silêncio. Pouco mais de duas semanas havia se passado desde a morte de Nathan Archbald. Rose ainda não se recuperara cem por cento, e todo o palácio parecia num clima de tensão, especialmente naquele dia. Sentei-me no divã aos pés da cama, esperando pelas serviçais, e Ophelia logo deitou a meu lado. Passei a mão por seus pelos compridos de três cores, sentindo o ronronar suave do felino. Parecia ser a única alma em paz, num raio de dois quilômetros.
Meus dedos mergulharam por baixo de uma das almofadas, sentindo algo estranho. Quando puxei o objeto, tratava-se de um livro. Não de qualquer livro, mas o presente de aniversário que ganhara de Matheo Delacroix. Provavelmente havia o jogado em qualquer lugar no acesso de fúria ao recebê-lo, e o escondi sob as almofadas quando alguém entrou.
Abri-o, passando os dedos delicadamente sobre as folhas, em especial sobre suas anotações feitas à mão. O suíço tinha uma caligrafia muito bonita, diga-se de passagem. Folheei as páginas, sem dar valor ao conteúdo, e só então notei que em cada uma delas, uma letra estava escrita mais forte que as outras, como se tivesse sido reforçada. Voltei na primeira página e peguei um papel e caneta na escrivaninha, anotando letra por letra.
Algumas páginas, porém, não tinham nenhuma rasura, o que deduzi como se fossem espaços. Em outras páginas, apenas a pontuação parecia mais forte, e assim fui montando, frase por frase.
Eu amo você, Alexandra. Amo o modo que sorri. Espero que, algum dia, me ame.
Arrependi-me de ter pegado o livro no momento em que li tais palavras e meus olhos se encheram de lágrimas. Nas últimas semanas, forcei-me a ir a sessões psicológicas a cada três dias, procurando algum auxílio em aceitar que Matheo Delacroix havia me deixado para sempre, e levado meu coração consigo.
Eu levara quatro sessões de psicoterapia para conseguir voltar a encarar alguém nos olhos. Seis sessões para conseguir voltar a beijar Daniel, sem me sentir culpada por aquilo. Já completara doze sessões, e a vontade de chorar ao me lembrar de tudo o que passara com o suíço ainda permanecia a mesma.
Quando as três retornaram a meu quarto, deixei-me ser sua boneca. Permiti que me vestissem, calçassem, maquiassem. Permiti que mexessem em meus cabelos e fizessem minhas unhas. Até mesmo meu perfume foram elas que passaram em mim. Não tinha disposição sequer para me levantar.
Olhei-me no espelho apenas após elas se retirarem. Ainda que fossem calças, as pantalonas, juntamente com uma regata de cetim, faziam com que minha aparência fosse tão formal quanto se estivesse com algum vestido longo. Coloquei o colar que ganhara de tia May, e desci às escadas, ainda resistindo ao impulso de tomar meus calmantes novamente. Doutor Hudson me mataria se eu tomasse mais do que um ao dia.
Passei no quarto de Daniel, como já era de costume. Sua porta ainda estava fechada, mas eu já era capaz de ouvir alguns barulhos no quarto. Dei duas batidas de leve e entrei, vendo o príncipe terminas de ajeitar a gola da camisa. Ele já fazia o nó da gravata quando o interrompi, segurando o tecido em minhas mãos.
— Você fica melhor sem. — sorri, colocando a gravata sobre a cama.
Daniel Blue era um perfeito cavalheiro. Pegou minhas mãos e beijou os nós de meus dedos. Era incrível como apenas sua presença era o suficiente para me manter calma nesses tempos de turbulência. O italiano não apenas carregava o seu fardo, como o meu. Tal pensamento me fez sentir culpada por não ser uma namorada tão boa quanto ele merecia.
— E você fica melhor com alguns quilos a mais. — ele indicou para que eu me sentasse, e assim o fiz. Não aguentava ficar por tanto tempo em pé, ainda mais com os saltos que eu não usava há quase um mês. — Não dormiu aqui. — o príncipe fez um muxoxo, segurando minhas mãos e olhando-me nos olhos.
— Consegui meus remédios de volta. — expliquei. — Não gostaria que me visse entorpecida pelas drogas. É desanimador. Deprimente.
— Não entendo porque insiste em usar calmantes quando conhece outras maneiras de dormir bem. Poderia passar todas as noites comigo, se quisesse. Eu não me importo. — ele sorriu, nitidamente preocupado. — Muito pelo contrário, por sinal.
— Mas meu pai se importa, então é melhor assim. — soltei uma de minhas mãos das suas e coloquei em seu rosto, sentindo sua pele fria. — Ao menos, por hora.
— Se você prefere... — ele passou a língua pelos lábios, e eu sabia o que aquilo significava. Durante essas últimas semanas, Daniel parecia não ter certeza se deveria me beijar, cada vez que tentava.
— Ei... — sorri. — Eu não mordo.
Ele não pôde deixar de sorrir, também. Puxou-me até a parede mais próxima, na certeza de que me deixaria de cabelo em pé se me deitasse na cama. Seus lábios tocaram os meus, tão de leve no começo que era como se qualquer movimento mais brusco pudesse me quebrar em duas.
Passei a mão por seus cabelos, enquanto as suas pressionavam minha cintura. Aos poucos o beijo foi ficando mais rápido e mais intenso, e o italiano me deu uma pausa para respirar quando seus lábios desciam para meu pescoço. Semanas antes, eu sequer sentiria algum desejo em momentos como aquele, mas eu estava começando a aprender a lidar com a aceitação.
A sensação era tão boa que eu poderia enlouquecer. Virei-nos, prensando Daniel contra a parede mordendo o lóbulo de sua orelha, distribuindo beijos pelo contorno de seu maxilar e mandíbula, enquanto desabotoava sua camisa, lentamente. Meus dedos percorriam uma trilha por seu peitoral, e eu já estava no penúltimo botão quando travei.
Não, eu não conseguiria fazer aquilo.
Por sorte, alguém bateu na porta no mesmo momento. Não tive que sussurrar mais um “sinto muito, não dá”, o que foi um alívio. Eu já havia dito isso a ele tantas vezes desde a invasão que o italiano provavelmente pensaria que eu me arrependera de ter feito sexo antes do casamento.
— Pode entrar, Astra. — ele gritou, abotoando rapidamente a camisa e puxando nós dois para a cama, sentados, como se apenas estivéssemos tendo uma conversa civilizada.
— Espero que você não me dê tanto trabalho hoje, senhor Blue. Seria muito feio passar vergonha na frente da princesa aqui. — minha prima brincou. Daniel havia tirado os pontos fazia dois dias, então o ferimento não havia cicatrizado corretamente. — Vamos lá, Dan, deixe-me ver essas suas belas costas.
Astra parecia não ter se atingido pelas mortes, entretanto eu sabia que ela já passara por muitas perdas quando era enfermeira do Hospital de Angeles, e por isso abandonara o cargo para fotografar animais ao redor do mundo, juntamente com tio Gerad, durante as viagens dele. Era um alívio tê-la no palácio, ainda que 4u nunca soubesse exatamente como agradecer por isso.
Pelo tempo que levara para o corte se fechar, era mais do que nítido que Daniel tinha problemas de cicatrização. Provavelmente isso se devia aos remédios que ele tomava regularmente por conta de algumas cartilagens desgastadas pela prática de tiro. É a sina de quem pratica alguma coisa há dez anos. O mesmo pode-se dizer dos ombros de Arthur ou da coluna de Rose: ainda que minimamente, qualquer esforço repetitivo gera lesões.
Talvez o Doutro Hudson devesse me receitar algo para o coração. Duas vezes partido. Aaron, e agora Matheo. Quanto mais rapidamente uma vela de acende, mais rapidamente ela se consome. Por isso as coisas com Daniel fluem: é apenas uma brasa e, sendo brasa, pode se perdurar para sempre. Nas palavras de tia May: “não é porque não é amor, que não é bom. Muitas vezes o melhor é o não-amor. Mas o não-amor é temporário, tenha sempre isso em mente”. Talvez eu não amasse Daniel, e nós dois sabíamos disso. Talvez ele não me amasse, também. Todavia, naquela hora, era o melhor para nós. Era o necessário.
— Tenho que ir. — comentei, vendo minha prima abrir sua maleta de primeiros-socorros. — Vou visitar Gabe antes de eles chegarem.
— Não se preocupe. Você vai ficar bem. — ele sorriu para mim. Contudo, notei algo em suas palavras que me encheu de desesperanças. Eu ficaria bem. E Matheo?
— É. — sorri, insegura.
Subi de volta as escadas, e segui reto pelo corredor. Virando à esquerda, chegaria ao meu quarto. À esquerda, ao de minha irmã. Dando a volta no hall, ao de maus pais. Mas aquele quarto não pertencia a ninguém. Deveria ser do irmão que nunca tivemos, e finalmente encontramos alguém bom o suficiente para ocupá-lo. Por vezes, Gabriel Leger foi mais irmão para mim e Rose do que nós mesmas, uma para a outra. A porta estava aberta.
— Bom dia, flor do dia. — Gabe estava em pé, encostado à janela. Era uma pena vê-lo de óculos escuros, ao passo que era um alívio saber que ele, ao menos, voltara a me ver. — Eu sei, esses óculos não valorizam o formato do meu rosto. — brincou.
— Homossexual eu aceito, Gabriel. — sorri, abraçando-o. — Viado, nem pensar. Além disso, vê-lo em camisa me faz pensar sobre algumas coisas. Por exemplo, que é muito desperdício que você seja gay.
— É que você e Rose brigariam até a morte por mim, caso eu fosse hétero. Eu sei disso. — ele brincou. — Não que não fosse ótimo ter duas irmãs gêmeas e gostosas na minha cama, mas...
— Gabe! — dei-lhe um soco no ombro, e ele começou a rir.
— Só estou relatando o fetiche da metade dos príncipes que estão aqui. — o soldado riu ainda mais da minha cara de nojo. — Aposto que William Davis é um desses.
— O que você sabe sobre ele? — fiquei subitamente interessada na conversa, ainda que não quisesse saber como ele descobriu sobre possíveis fetiches de príncipes. — Não me poupe dos detalhes.
— Na verdade, — ele olhou pela janela, e uma ruga se formou em sua testa. — Vou ter que te poupar até do essencial. Posso não ter uma visão cem por cento, mas tenho absoluta certeza de que aquela entrando pelo portal Sul é Charlotte Delacroix.
Grudei-me à janela, tentando enxergar alguma coisa. Um SVU preto estava estacionado próximo ao jardim sul, e dele desciam uma mulher e três homens. Saí em disparada, passando antes no quarto de minha irmã. Ela sequer havia saído da cama. Estava deitada, com a coberta até os ombros. Uma grande mancha arroxeada estava sob seus olhos, e a culpa bateu. Eu não deveria ter tirado os remédios dela.
— A rainha da Suíça chegou. — pigarreei. — Posso dizer que não está bem, se quiser.
— Por favor. — foi tudo o que ela falou. Abri meu colar (que então servia como um reservatório de calmantes) e tirei um comprimido de lá, entregando-lhe. — Obrigada. — foi tudo o que Rose falou, antes de tomar o remédio e voltar a dormir.
Ela não era mais a mesma. E, aparentemente não queria ser. Recusou visitar o psicólogo. Não saía para cavalgar. Para falar a verdade, a eras que eu não a via nem ao menos pelos corredores. Do quarto para o salão de jantar. Do salão de jantar, para a sala de música. Da sala de música, para o quarto.
— Bonjour. — ela me cumprimentou. Aparentemente, Maxon e America já havia tido uma breve conversa com ela. — J'imagine que ce doit être Miss Alexandra.
— Oui, madame, Votre Majesté. — Silvia provavelmente iria para o céu pelas aulas de francês. — C'est un plaisir de vous rencontrer, étant donné les circonstances.
Ela sorriu tristemente. Eu sabia que não deveria ter sido tão honesta, mas a verdade parecia o melhor caminho naquele momento. Notei que o homem atrás dela não se identificou, sequer nos cumprimentou. Seus traços e porte, porém, eram muito parecidos com os de Matheo.
Charlotte recusou que as serviçais levassem seu casaco, ao contrário de seu marido, ainda que fosse um dia relativamente quente em Angeles. Algo no seu jeito de andar demonstrava tamanha superioridade que encolhi os ombros, por instinto. Seus cabelos eram quase tão claros quanto sua pele, e seus olhos azuis, juntamente com um batom vermelho-sangue eram, no mínimo, intimidadores.
Sentamo-nos os cinco em uma mesa no salão de jantar. O café-da-manhã dos príncipes fora servido no quarto para que pudéssemos ter alguma privacidade, e a ideia, naquele momento, parecia das piores. Os quatro seguranças, dois deles, dois nossos, estavam um em cada canto do salão, incapazes de ouvir, mas de olhos atentos.
— O doutor Hudson disse que poderemos entrar em meia hora. — quebrei o silêncio, com certo medo. — Chegamos à conclusão de que é melhor deixar as concentrações de remédios analgésicos reduzirem naturalmente primeiro, e só depois despertá-lo com noradrenalina. A chance de sequelas graves por embolia é menor.
— Você estudou medicina, Alexandra? — foi a vez de Noah, pai de Matheo, perguntar.
— Não o suficiente para ser uma médica. — pigarreei, evitando contato visual.
— Mas o suficiente para salvar algumas vidas, pelo que me contaram. — Charlotte sorriu, servindo-se do chá. — Canela. O preferido de Matheo.
Abaixei a xícara. Não conseguiria tomar nem mais um gole sem que as lágrimas voltassem a escorrer. Foi a primeira vez que tocaram em seu nome, e eu esperava que fosse a última. Minha garganta queimava e minhas mãos estavam trêmulas. Abaixei-as e deixei sobre o colo, contando os segundos até que o médico nos chamasse. Foram exatamente mil oitocentos e vinte e quatro.
Quando chegamos à enfermaria, tive de me conter para não correr e me debruçar sobre o príncipe. Sua mãe puxou uma cadeira e se sentou ao lado da maca de Matheo, segurando sua mão direita. Olhei-o de longe, sem achar ético me aproximar, ainda que muito quisesse.
— Sinto muito, mas peço que só dois fiquem aqui. — Dean Hudson pediu, e seus olhos imploravam por minhas desculpas. Apenas assenti.
— Você três poderiam nos dar licença? — Charlotte perguntou educadamente. Já me retirava quando sua mão se fechou em torno de meu punho, impedindo-me. — Você não, Alexandra.
Levei alguns segundos para entender o que ela quis dizer. No momento seguinte, porém, apressei-me em puxar outra cadeira, e me sentar do outro lado da maca. A rainha da Suíça retirou seu casaco, e por um momento eu entendi o porque de não tê-lo feito na frente de meus pais: suas tatuagens cobriam seus dois braços e as costas, pelo que pude ver sob as alcinhas finas da blusa.
— São bonitas. — comentei, seu olhar encarando o meu.
— São meu refúgio. — ela sorriu. — As asas nas costas são pelo anjo que perdi. Matheo deveria ter um irmão mais velho, mas eu era muito jovem na época. Má formação. As flores no braço esquerdo — ela prosseguiu. — são uma para cada ano que Mia teria, se estivesse viva. Ela era gêmea de Matheo. Teve má oxigenação no parto, e me deixou um mês depois. O braço direito é de Matheo. As datas de suas maiores conquistas, em número romano. Seu nascimento, seus primeiros passos, sua primeira palavra, o primeiro dente ao cair, a primeira aula de tiro, a primeira vitória na esgrima.
— E o espaço em branco? — perguntei, notando um retângulo bem visível entre as outras.
— Bom... — Charlotte sorriu. — Eu espero que um dia ele se case. E então começarei a tatuar o colo e as pernas, porque quero ter muitos netos.
— Você não tem nenhuma que tenha relação com seu marido? — questionei. Dean já colocava hormônios neurotransmissores na corrente sanguínea de Matheo, por meio de tubos.
— Nem todos temos a sorte de casar por amor, Alexandra. — ela sorriu. — Noah é de Zurique, eu sou de Genebra. Meu casamento foi forçado por meu pai, como um modo de unificar a Suíça. Mas eu nunca aceitei isso bem. Eles queriam que a capital voltasse a ser Berna, e eu não aceitei. Eles queriam que tanto eu quanto meus filhos tivéssemos o sobrenome de Noah, e eu também não aceitei. Mas sabe por que eu pude fazer isso tudo? — balancei a cabeça, negativamente — Porque a Suíça permite divórcios, e eu sou a herdeira legítima. Desde que meu pai morreu, nada me impede de abandonar meu marido e governar sozinha.
— É por isso que me escolheu, digo, para estar aqui?
— É porque você o ama mais do que Noah conseguiria.
Nessas horas, as lágrimas caíram. E foi com a visão embaçada que eu vi os olhos de Matheo Delacroix se abrirem como alguém que desperta de um sono profundo. Seus lábios voltaram a ter a cor rosada de sempre. Seus olhos brilhavam numa mistura de verde e amêndoas que me fizeram duvidar de que ele já estava mais próximo da morte do que da vida. Debrucei-me sobre seu tronco e permiti que as lágrimas corressem livres. Permiti que os soluços viessem. Permiti uma única vez, em toda minha vida, que ele soubesse o quanto eu o amava, e o quanto ele era importante para mim.
Quando consegui voltar a ficar sentada, meus olhos procuraram por Charlotte. Ela tinha a calma no olhar e na postura. Apenas permanecia com a mão do filho entre as suas e sorria para ele, que ainda parecia estar atordoado com tudo o que acontecia. Uma única lágrima escorreu por seus olhos, e ela logo a enxugou com as costas da mão.
— Mãe? — ele piscou várias vezes. — Lexi?
— Não me chame assim. — brinquei. — Venceu a morte, mas não tem esse direito.
— Tudo bem, acho que posso me acostumar com isso. — Matheo fez força para se levantar, mas o doutro Hudson não deixou. — Quanto tempo fiquei apagado?
— Um mês. — pigarreei. — Você estava em coma.
— Santo Deus! — ele começou a tossir. Felizmente, o acesso de tosse logo passou. — Estou muito atrasado na disputa pelo seu coração? Preciso sair daqui.
— Matheo! — comecei a rir, voltando a segurar sua mão. Estava quente. — Provavelmente passei mais tempo com você do que com muitos por aqui.
— Olhe só quem está corando. — Charlotte brincou. — Meus parabéns, Alexandra, deve ser a primeira vez na vida que isso acontece.
— Mãe! — ele riu, e aproveitou da distração do doutor Hudson para se sentar. — A senhora mostrou as tatuagens a ela? — perguntou, retornando ao tom sério.
— Eu tenho a absoluta certeza de que isso ficará entre nós, não é?
— É claro, Vossa Alteza. — respondi.
— Por favor, Alexandra, chame-me pelo nome de batismo. — uma de suas mãos tocou meu rosto; a outra, no de seu filho. — Vocês me darão netos lindos! Olhem esses traços...
— Senhora Delacroix, — Dean a chamou em um canto. Provavelmente para passar o prognóstico da recuperação do filho. — posso falar com Vossa Alteza por um minuto?
E então, começaram a sussurrar.
— Perdão por minha mãe, ela não mede as palavras. — o príncipe bateu na maca, convidando-me para sentar, e eu o fiz. — Pelo menos ela gostou de você.
Por um momento, eu apenas o encarei. Seus cabelos castanhos estavam maiores, já caindo sobre os olhos. Sua pele estava um pouco mais pálida que o normal. Seus lábios estavam mais vermelhos e seu rosto mais inchado, graças à medicação. Mesmo assim, era lindo. Abri a boca para lhe fazer uma pergunta, mas logo a fechei. Não tinha lógica questionar porque ele agira como um idiota por tanto tempo. Coloquei minhas duas mãos em seu rosto e o beijei profundamente pelo que pareceu uma fração de segundos, até o monitor cardíaco indicar uma aceleração na pulsação. Dean me olhou com reprovação.
— Sinto muito, não vai acontecer de novo. — adiantei-me em falar.
— Eu não ligo que aconteça, sabe? — Matheo brincou. — Doutor, quando poderei sair daqui?
Ele suspirou.
— Posso te liberar em duas horas numa cadeira de rodas. Aparentemente, o Jornal Oficial de Illéa é hoje, e Maxon gostaria de sua presença. Necessitará do acompanhamento de uma enfermeira por uma semana, mas creio que, em dois dias, já poderá andar. Não iria gostar de vê-lo perder a festa.
— Que festa? — ele perguntou para mim.
— Isso importa? — passei a mão por seu cabelo, ajeitando-o da melhor maneira possível. — É, acho que não. — levantei-me, dando-lhe um beijo na testa. — Tenho que trabalhar num projeto para o Jornal. Creio que nos veremos à noite.
— Isso é sério? — ele levantou os braços. — Acabei de sair de um coma e você vai me abandonar?
— Não seja tão dramático. — Parei à porta. — Além disso, você precisa descansar. E depois que acordar, terá muita conversa para por em dia com seus pais.
Ele sorriu. Seus olhos brilhantes já evidenciavam o cansaço que ele sentia. Pela primeira vez, em tanto tempo, não senti um peso no coração ao deixá-lo lá. Sorri para Maxon, America e Noah, abraçando meus pais e, então saindo de lá e correndo diretamente para a biblioteca.
Na realidade, eu tinha dois projetos nos quais trabalhar. O primeiro era um meio de acalmar os rebeldes — ou eliminá-los de vez —, e nesse eu quase não apresentava progresso. Lidar com rebeliões é algo que eu nunca fizera em toda minha vida, e a primeira vez é sempre a mais complicada. Procurei por alguma solução nos livros de História das Nações, mas nada era capaz de conter as rebeliões. Elas apenas eram adiadas. E eu não queria deixar a bomba para meus filhos. O segundo projeto era mais tranquilo. Ou melhor, tão tranquilo quanto uma festa em meio a esse clima de tensão poderia ser. Maxon e America pediram para que eu e Rose organizássemos uma festa de Halloween, e é claro que minha irmã não teria cabeça para aquilo.
Era por isso que as propostas apresentadas no Jornal deveriam ser as melhores e acalmar os nervos. As chances de mais uma invasão rebelde seriam altas, se eu, Rose e os príncipes não conseguíssemos convencer a população a parar com as revoltas. Estava prestes a arremessar mais um livro pela parede quando um cheiro de canela tomou o ar. Ainda que quisesse estar brava, não pude deixar de sorrir.
— Que parte de repouso você não entendeu, Matheo? — perguntei, sem me virar. Arrependi-me instantaneamente de não tê-lo feito. O suíço deixou duas canecas sobre a mesa, e só então notei que ele estava em pé. — Será que você não é capaz de seguir uma única recomendação médica? — bufei, e ele riu.
— Posso pelo menos ficar no divã? — o príncipe perguntou, no momento em que eu já o arrastava de volta para a cadeira de rodas, próxima à porta.
— Não, eu tenho coisas a fazer. Você me distrai. — revirei os olhos, mas ele firmou o corpo. Tinha a determinação em suas feições. — Tudo bem. Mas não ouse se levantar, a menos que seja para ir até sua cadeira, e para seu quarto.
Ele concordou, pegando de volta as duas canecas as colocando em uma mesinha ao lado do divã, sentando-se logo em seguida. Peguei dois dos livros, juntamente com minha folha de anotações e me sentei ao seu lado, bebericando um pouco do chá. Assim que voltei a escrever sobre o papel, Matheo tirou os livros de mim, fechando-os e os colocando aos pés do divã.
— Duvido que Rose esteja em situação de propor mudanças para o país, pelo que Astra me disse. — ele começou. — Não há sentido em você apresentar uma proposta sozinha. Eu faço isso para você, já tenho algo em mente. Posso utilizar como se fosse meu projeto para a Elite, e todos saímos ganhando.
— Não vou deixar essa responsabilidade para você, Delacroix. — cruzei os braços, encarando o chão. — Até porque...
— Achei você! — Astra entrou gritando pela porta, antes de perceber minha presença. — Senhor Delacroix, o senhor não pode simplesmente sair... Ah, sinto muito, não sabia que você estava com Alexa.
— É sério que você conseguiu perder alguém numa cadeira de rodas, Astra? — brinquei, e Matheo começou a rir. Ela suspirou, aliviada pelo príncipe estar inteiro.
— Da próxima vez eu amarro você em um poste, o senhor me ouviu? — ela bufou. — Venha, está na hora de tomar banho para que eu possa passar a pomada. A menos que queira ficar sentado por mais uma semana, é melhor me obedecer dessa vez.
— Que pomada? — perguntei, levantando-me e auxiliando o príncipe a se sentar na cadeira de rodas. — Aquela para estimular circulação sanguínea na musculatura? — minha prima acenou positivamente. — Pode deixar comigo, então.
— Alexa, — ela começou — não sei se isso é o certo. Você tem suas coisas, e eu estou à toa aqui...
— Santo Deus, Astra, faz um mês que você não vê seus pais. — encarei-a. — Vá para casa por uns dias. Na segunda teremos a festa de Halloween, então você volta, mas tire um descanso.
— Você tem trabalhado tanto — Matheo começou — deveria levar um príncipe de bônus. Gosta da Itália?
— Matheo! — revirei os olhos, empurrando a cadeira até seu quarto. Astra começou a rir.
— Estou falando sério! Dizem por aí que ele é um bom partido, sabe? Rapaz direito, cavalheiro. Acho que vocês fariam um belo casal. Seus cabelos ruivos, o... O... Ah, sei lá, alguma coisa dele tem que ser positiva.
— Como é que você o atura? — minha prima perguntou, enquanto eu entrava no quarto do suíço. — O que ele tem de bonito, tem de irritante.
— Obrigado pelo elogio. — ele sorriu e eu fechei a porta, deixando-nos a sós.
— Você não pode simplesmente falar para minha prima que ela deve ficar com meu pretendente, Matheo. — ajudei-o a ficar em pé. Para mantê-lo melhor equilibrado, desci dos saltos, colocando-os em um canto qualquer. — Consegue tomar banho sozinho?
— O que aconteceria se eu dissesse que não? Você entraria comigo?
— Não. Provavelmente eu pediria para que Daniel ou Arthur o ajudassem. Pode escolher.
— Estou bem. — ele riu, entrando no banheiro. — Não vá embora.
E não fui. Fiquei andando por seu quarto, absorvendo todo tipo de informação possível. Matheo era extremamente organizado. Sobre sua escrivaninha, dois porta-retratos se posicionavam ao lado de um bloco de desenhos. As fotos eram as de nós dois, assim que a elite foi formada. Os desenhos no bloco eram todos feitos apenas a lápis grafite. Paisagens, como os Alpes, e pessoas. Sua mãe aparecia em grande parte deles, fazendo coisas do cotidiano. Lendo, escrevendo, e até mesmo posando para uma sessão de fotos. Havia desenhos meus, também. Num deles, eu era um anjo. Não reconhecia o lugar, não identificava a paisagem ao fundo, mas aquela era eu.
— Onde é isso? — perguntei, quanto senti suas mãos em minha cintura.
— É num palácio suíço. Não o principal, mas um para o qual costumo ir quando quero viajar. Fica em Ennetbuergen. Essa é a vista que se tem da piscina aquecida.
— É um lindo desenho. — sorri. — Mas porque eu tenho asas?
— Foi um sonho. — ele abaixou a cabeça e se deitou de bruços, na cama. — E aí, já se arrependeu de ter mandado Astra para casa?
— Com certeza. — brinquei. Subi sobre o corpo seminu de Matheo, e comecei a massagear toda suas costas para espalhar a pomada, fazendo pressão. — Se doer, eu paro.
Espalhei por suas costas e braços, e logo depois fui para suas pernas, fazendo movimentos circulares. O príncipe tinha os olhos fechados, aproveitando os momentos sem dor. Ainda que ele não admitisse, exigia muito esforço manter-se em pé após um mês deitado. Doía. Pesava. E a massagem era um dos poucos métodos que aliviava a sensação.
Depois das pernas, pedi para que ele virasse. Matheo sentou-se encostado à cabeceira da cama e eu me sentei em seu colo, massageando os ombros e braços, descendo a mão por seu peito, e subindo de volta até seu pescoço e nuca. Ele respirava pesadamente quando abriu os olhos.
— Case-se comigo. — Ele não pediu, implorou. Seus olhos eram urgentes; sua voz, embriagada. Suas mãos foram até meu rosto, necessitadas. Matheo sequer piscava ou respirava.
— Sinto muito. — suspirei. — Eu não posso. Não agora.
— Por quê?
E mil e uma desculpas vieram à minha cabeça, entretanto, uma única era verdadeira: eu tinha medo. Medo de criar esperanças e ter meu coração partido logo depois, assim como com Aaron. Medo de mantê-lo comigo e machuca-lo ainda mais. Medo de colocar sua vida em risco mais uma vez. Medo de perdê-lo novamente, e o pior: para sempre.
— Não é hora.
— Deixe-me saber quando for.
O suíço tirou um a um os grampos de meu cabelo, soltando-o com seus dedos. Seus lábios beijaram minha clavícula repetidas vezes e, lentamente, suas mãos desceram até minha cintura, brincando com a pele por baixo da blusa. Ele puxou-me para mais perto e selou sua boca com a minha, num beijo intenso e extremamente quente, sufocante. Prendi meus dedos em seu cabelo, e minhas mãos desciam por sua nuca, arranhando-a toda. Matheo era fogo. E tão rápido quando se acendia, consumia-se.
— Deixarei.
Levantei-me em silêncio e calcei os saltos, olhando fixamente para o príncipe estendido sobre a cama. Não tinha o abdômen mais definido, os ombros mais largos, ou o sorriso mais branco. Não era o mais perfeito dos cavalheiros, nem o mais intelectual, ou sequer o mais apto para se tornar um rei. Mas ele tinha algo que o diferenciava de todos os outros: eu nunca gostara muito de padrões.
Em silêncio, saí do quarto. Pensei em visitar minha irmã, mas ela provavelmente dormiria até o meio da tarde. Astra já havia deixado o palácio, então sem chances de passar um tempo com minha prima. Matheo precisava de um descanso, e Daniel ainda trabalhava em seu projeto de apresentação para a noite. Eu sabia que não deveria deixar todo o meu projeto nas mãos de Delacroix, mas eu estava tão cansada que a proposta era tentadora. Pensei no outro projeto: a festa. Provavelmente, estaria apenas em minhas mãos.
Já ia para meu quarto quando um par de braços me apertou, sufocando-me. Mesmo sem me virar, eu já sabia de quem eram; várias vezes já os sentira durantes as brincadeiras na piscina, que eu sempre perdia.
— Adivinha quem é... — Arthur sorriu, virando-me de frente para ele. — Eu soube que o suíço está de volta ao jogo. O que vai fazer?
— O que vou fazer? — perguntei, acompanhando-o até seu quarto. Sentamo-nos um de frente para o outro. O dinamarquês tinha um sorriso debochado no rosto, digno de um Oscar para “melhor cafajeste em cena”. — Como assim “o que eu vou fazer”?
— Você sabe, aquele lance seu e do Daniel... — ele cruzou a outra perna, e sua expressão facial parecia a de um elfo maligno do Papai Noel (não que eu tenha visto um antes) — Eu ia dizer que você não pode ter dois namorados. Tudo bem, você é a princesa, está acima das leis, e tudo o mais... Mas até onde eu sei, bigamia é proibida em Illéa. E, bom, quando se fala de sexo a três, nós sempre imaginamos duas mulheres, nunca dois homens.
— Essa informação é desnecessária, mas, respondendo à sua pergunta, eu não sei o que fazer. E, não, eu não tenho dois namorados. Na realidade, não tenho nenhum. — cruzei os braços, e ele riu. — Pare de rir, isso é desconcertante.
— Tudo bem. — ele retomou sua postura séria, passando os dedos por entre os fios loiros. — Você precisa fazer uma escolha, Alexa. É só isso que lhe digo. Independentemente de qual deles seja, provavelmente vão ter que passar por mim, porque não é qualquer um que vai tocar nessa bonequinha aqui.
— Não seja idiota, Daniel sabe atirar e Matheo conseguiu vencer de mim na esgrima. Você será derrotado fácil por qualquer um deles.
— Okay... — ele refletiu por uns segundos. — Você ganhou essa.
— Eu sempre ganho. — levantei-me, e ele me acompanhou até a porta. — Já tem seu projeto pronto?
— Faz umas duas semanas. — nós dois paramos no batente. Ali, a pouca distância, pude ver por que minha irmã fora apaixonada por ele. Arthur Gravesen era lindo. E ele sabia muito bem disso. — Já pensou na fantasia?
— Vou de princesa. — debochei. — Nem ideia, e você?
— Hamlet. — ele revirou os olhos, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Que originalidade. — suspirei. — Acho que vejo você no Jornal, então...
— Só mais um beijo, Rose, e deixo você ir. — Arthur segurou-me pela cintura, olhando discretamente para o lado. Fiz o mesmo, e vi um William Davis interessado demais na nossa conversa.
Aquilo seria muito divertido.
— Art... — brinquei com seus cabelos. — Eu não acho que seja apropriado...
E então o dinamarquês me beijou. Não era um beijo de verdade, até porque os dois se controlavam para não rir, mas durou tempo o suficiente para que parecesse ser. Rosemarie me mataria por aquilo, o que era ótimo. Talvez assim ela saísse da cama.
— Perdão pelo beijo. — o dinamarquês riu. — Ele só sabe diferenciar vocês duas pelas cores do vestido, e não ajuda muito o fato de você estar usando cinza.
— Isso é sério? Ele não sabe quem é quem?
— Não. Quero dizer, ele gosta de Rose. Ou, ao menos, diz que gosta dela. Mas não consegue diferenciar vocês duas. Provavelmente não tentaria nada com você, visto o episódio com Kyle, mas continua sendo um idiota.
— De qualquer forma, não me beije novamente. — disse, autoritária. Ele ampliou o sorriso.
— Não se preocupe, foi como beijar uma irmã. A minha, não a sua. — brincou. — Além do mais, o que você vai fazer? Vai me expulsar?
— Claro que não. — soquei seu ombro. — Só que Daniel e Matheo são ciumentos e letais o suficiente para que a experiência não seja das mais legais.
Sorrindo, deixei-o à porta e subi até meu quarto. Almocei no próprio aposento, sem qualquer ânimo para descer, e só então notei o quanto eu estava com fome. Tomei um longo banho, e então dormi até a hora de me preparar para o Jornal. Sem remédios, o que já era um progresso e tanto.
Assim que o relógio bateu seis horas, eu já estava pronta. O programa começaria mais cedo que nos outros dias, impedindo qualquer possível atentado rebelde. Gavril Fadae já esperava no estúdio quando eu e Rose chegamos, as primeiras a aparecer por lá. Eu gostava de azul, mas vê-lo com essa cor de cabelo e de terno era, no mínimo, bizarro.
— Boa noite, Altezas. — ele sorriu, exibindo dentes perfeitamente brancos. Nada que um clareamento dental não fizesse.
— Boa noite, Gavril. — sorri. — Creio que teremos algumas alterações na programação de hoje. Matheo Delacroix já havia preparado seu projeto antes do acidente, então os príncipes apresentarão suas propostas, como no plano inicial. Os projetos meu e de minha irmã ficarão para uma próxima, algum problema?
— Seu desejo é uma ordem, senhorita! — ele beijou nossas mãos e já saiu gritando com a equipe de roteiristas, anunciando as mudanças.
— Obrigada. — Rose suspirou. — Não trabalho em nada desde...
— Eu sei. — não permiti que ela terminasse. Bem sabia como era horrível falar em voz alta.
— Como você está com Matheo? Tipo, a relação de vocês...
— Não temos uma relação. — revirei os olhos. — Ele apenas ganhou o direito de participar da disputa. Mais nada.
— Ele sabe disso?
Não respondi. Era claro que Matheo sabia. Ou ele estava esperando que fosse algo fácil? Não mesmo.
Os príncipes começaram a chegar, seguidos de nossos pais. Dessa vez, a disposição no palco era diferente: os tronos de Maxon e America ficariam lateralmente, à direita. As câmeras detectariam suas expressões durante o discurso, numa tela menor, no canto do vídeo principal. No centro do palco, ao fundo, estavam dispostas dez cadeiras: duas fileiras de quatro, com duas cadeiras laterais. Era lá que os príncipes sentariam, e eu e Rose estaríamos com eles.
À frente do palco, um palanque erguia-se. Pela posição das câmeras, os príncipes apareceriam na tela principal ao apresentarem seus projetos, e a imagem também englobaria nós duas e o restante dos participantes. Na lateral esquerda, duas câmeras se posicionavam estrategicamente, prontas para capturar qualquer interação minha ou de minha irmã com algum dos príncipes, em especial. Illéa adorava uma fofoca.
— Cuidado com conversas paralelas. Estão filmando tudo. — adverti Rosemarie. Ela apenas acenou positivamente com a cabeça.
Não teríamos plateia ao vivo, contudo, três estudantes de Sociologia e Economia da Universidade de Angeles se colocavam nas carteiras da frente, atentos a tudo. Pelo que Maxon havia deixado escapar, eles fariam perguntas aos príncipes sobre seus projetos, como numa banca de monografia dos trabalhos de conclusão de curso.
Assim que o Gavril anunciou que estaríamos no ar em cinco minutos, todos se acomodaram em seus lugares. Assim que eu os encarei por um momento, observei uma coisa: cada um dos príncipes tinha gravata de cores diferentes, seguindo a ordem do arco-íris. Como eram oito, contudo, um deles usava uma gravata prateada.
— Tudo bem. — sussurrei para Matheo, antes de começarem as filmagens. — De quem foi a ideia ridícula de vestir vocês com essas cores?
— Daquela substituta que arrumaram para Silvia. — ele riu. — Ellen, ou algo assim.
— Elena. — corrigi-o. — E por que você tem que ser o diferente?
— Acho que ela teve dó por eu ter passado esse tempo todo em coma. — deu de ombros. — Ela queria nos fazer vestir ternos dessa cor, mas sua mãe achou que seria muito exagerado. Agradeça a ela por mim.
E então as luzes piscaram. Cinco segundos depois, estávamos no ar. A câmera móvel corria pelo palco atrás de Gavril Fadae, que tinha uma breve conversa com meus pais. Eles sorriam como se nada tivesse acontecido, e eu os invejava por isso. Se Matheo tivesse morrido, ou ainda estivesse em coma, eu não sei se seria capaz de fingir como eles. Rose era outra que merecia meus parabéns.
Resumidamente, a disposição era a seguinte: eu me sentei do lado esquerdo, dificultando com que Rose, do lado direito, fosse capturada pelas “câmeras paparazzi”. Arthur se sentara ao meu lado, na fileira de trás, usando uma gravata verde ridícula. Na fileira da frente, também ao meu lado, estava Matheo. Ele parecia confiante, e já não usava a cadeira de rodas, possivelmente por um pedido do rei — ou por desobediência, o que era muito mais provável.
Ao lado de Matheo estava Andrew. Não que ele parecesse muito feliz com sua gravata violeta, mas poderia ser pior. Ao lado de Andrew estava Daniel, com uma gravata anil que, definitivamente, o valorizava. Os outros príncipes que me perdoassem, mas Daniel era perfeito no que diz respeito à vestimenta. Entre Rose e Daniel estava William Davis, com a gravata azul-claro. Tinha o porte de um rei, mas fazia com que eu sentisse vontade de rir quando me lembrava do que havia feito, e do que seria de mim se minha irmã descobrisse.
Atrás de William, ainda ao lado de Rose, mas na fileira de trás, estava Caleb Vermont. O vermelho caía muito bem no francês, que acariciava as costas das mãos de minha irmã com os polegares. Espere. Eles estavam mesmo de mãos dadas em rede nacional?
Dimitri, de gravata laranja, ao lado de Caleb, o cutucou. O francês rapidamente soltou a mão de minha irmã, pedindo-me desculpas silenciosas. Entre o russo e o dinamarquês estava Patrick, com sua gravata amarelo fosforescente. Sério mesmo, o que aquela tal de Elena tinha na cabeça? As gravatas eram o cúmulo do ridículo.
Não bastasse isso, eu e Rose usávamos rosa pink. Ela provavelmente estava querendo matar a nova conselheira/professora/substituta/tanto faz depois dessa. Ainda que fosse irônico por ter rosa até no nome, minha irmã odiava pink. Infelizmente, era uma das poucas cores que sobraram, sem que nos associássemos a algum príncipe específico.
— Sei que o público em casa está acostumado à ordem por províncias — Fadae começou —, mas creio que já chegamos em uma fase que os homens aqui presentes não devem representar uma parte do país, e sim, toda Illéa. Por isso, senhores, nada mais justo que uma ordem alfabética.
Arthur, atrás de mim, suspirou. Provavelmente era o último na ordem por províncias, e seria o segundo a apresentar um projeto para um país que ele sequer governaria. Ao menos, ainda tinha o conforto de ser o querido da população.
Andrew subiu no palanque assim que foi chamado. Pelo que o apresentador havia explicado, eles teriam alguns minutos para apresentar suas propostas: o tema principal, as mudanças que se pretendia fazer e, por fim, os modos de garantir que ocorram. Após isso, os estudantes poderiam — ou não — fazer perguntas sobre o tema, e os príncipes teriam de esclarecer as dúvidas da melhor maneira possível.
— Minha proposta abrange a questão do desemprego. — o holandês começou. Não parecia nervoso diante às câmeras, pelo que pude ver no vídeo, mas eu o conhecia o suficiente para saber que ele usava de toda sua concentração naquele momento. — Pelo tempo que passei aqui no palácio, notei a grande quantidade de empregados que ele possui, e que é só assim que todo o serviço flui. Penso o mesmo sobre um país. Por isso, defendo a criação de obras públicas, e reformas e adaptações das já existentes, ampliando assim a população que se beneficiaria diretamente pelos programas instalados nessas cobras, como indiretamente, pela criação de empregos, ainda que temporários, na construção civil.
— Mas, se são empregos temporários, — a única mulher dentre os estudantes perguntou —, como isso pode melhorar a situação de desemprego?
— Empregos temporários parecem ruins quando não são. — Andrew respondeu rapidamente, como se já tivesse ouvido a pergunta várias vezes. — Definitivamente não são melhores que um emprego fixo, mas são imensamente melhores que emprego algum. Além do mais, as obras garantem uma melhora nos programas sociais a que dão assistência. Por exemplo, se reformarem os abrigos, eles serão capazes de acolher mais pessoas, e, consequentemente, menos seres humanos morrerão de frio e fome.
Gavril fez algum comentário e dispensou o príncipe, chamando Arthur para o palanque. Ele tinha o sorriso “cafajeste do Oscar” no rosto, e parecia estar tão calmo como numa conversa casual comigo. Aparentemente, Rosemarie o deixava mais tenso que todo o restante do país.
— Esportes. — ele colocou alguns papéis à sua frente, como se fossem dados de pesquisas. Eu poderia dizer que eram rabiscos, ou alguma carta de amor inacabada que ele escrevera para minha irmã, e provavelmente a chance de estar certe seria grande. — Meu objetivo com esse projeto é a implantação de centros de treinamento esportivos por todo país, sejam de natação, vôlei, lacrosse, ginástica artística, enfim, qualquer esporte. Faz oito edições das Olimpíadas que Illéa não ganha uma medalha de ouro em qualquer modalidade, o que tem desmotivado os jovens e, consequentemente, desmotivado o país. Juntamente com os centros de treinamento, um auxílio em dinheiro seria oferecido aos jovens entre dez e vinte e um anos que participassem, a fim de tirá-los das ruas, reduzindo a criminalidade e melhorando a condição de vida dos integrantes. É claro, ainda oferecendo-lhes a chance de virarem esportistas profissionais.
Não houve perguntas. Primeiramente porque a garota — nitidamente mais cética que os rapazes que a acompanhavam — ficou boquiaberta com o sorriso cafajeste. Contudo, vale ressaltar que o dinamarquês também era ótimo em dar sentido àquilo que não possui algum: sinceramente, perder nas Olimpíadas é o motivo da criminalidade dos jovens? “Ah, vou entrar no tráfico porque lutar judô não me dá reconhecimento.”, é, eu acho que não.
O terceiro foi Caleb Vermont. Tudo bem, eu não gostava do rapaz, e tinha meus motivos para isso, todavia eu sabia que o discurso dele seria dos melhores. Até porque, admitisse eu ou não, ele era provavelmente o mais apto para se tornar um rei entre os que restaram, juntamente a Daniel.
— Eu gostaria muito de ter mais tempo para debater sobre esse assunto, mas como nosso amigo Gavril já disse — ele começou —, nada de tempo extra aqui. Meu assunto é a fome que assola a população illeana. Nas poucas vezes em que tive a oportunidade de discutir com o tema com Sua Alteza, a princesa Rosemarie, percebi que se trata de um problema crônico. Eu encomendei algumas pesquisas nessa última semana, e cheguei à conclusão de que a questão não é a falta de comida, e sim a má distribuição. É por isso que meu projeto se pauteia num sistema de cotas na agricultura. Em outras palavras, o empregado que trabalha nas lavouras do governo, o que representa oitenta e cinco por cento dos trabalhadores rurais, terão, ao fim do mês, não apenas o salário, como uma cota de cinco por cento de tudo o que ele produziu. Em uma proporção mais concreta, isso corresponderia a cerca de uma cesta básica por trabalhador, suficiente para alimentar seis pessoas durante um mês. Os latifúndios privados, por outro lado, doariam cinco por cento da produção total para os programas de distribuição de alimento já existentes no governo, e teriam o valor, em dinheiro, descontado dos impostos.
— Esse dinheiro que seria descontado, — um dos estudantes, o mais baixo, perguntou — seria um dinheiro que o governo deixaria de receber, certo? Quais áreas ficariam defasadas com isso?
— Esse dinheiro, que o governo deixa de receber, deixa de ser aplicado na compra de alimentos para os programas sociais. É muito mais viável, considerando que o governo teria de comprar os alimentos a um preço inflacionado para redistribui-los, enquanto, numa doação por parte das entidades privadas, o mesmo alimento é distribuído a preço de custo, ou seja, mais alimento com a mesma quantidade de capital.
— Com as cotas na produção, o preço dos alimentos não subiria? — o outro, mais alto, perguntou.
— Sim, subiria. Isso prejudicaria a população carente, mas a diferença é que ela não recebe a cota em dinheiro, e sim, em alimento. Assim, ela não precisa comprá-lo. Talvez a população com melhores condições financeiras pudessem sentir um pouco com a inflação dos preços dos alimentos, mas nada que fizesse mudanças drásticas em seu modo de vida.
Rose parecia boquiaberta quando o francês se sentou ao lado dela. Desde pequena ela sempre tivera esse desejo de acabar com a fome do país, ainda que nunca soubesse como. A proposta de Caleb estava de parabéns, eu tinha de me render. Talvez já funcionasse assim na França, não sabia, entretanto, uma coisa era fato: eu nunca conseguiria pensar em algo assim.
Daniel foi o próximo. Deu uma rápida olhada para mim quando se levantou, e eu lhe sussurrei um “boa sorte”. Por alguns instantes, não me importei com as câmeras. Afinal, aquela já era a elite: nós poderíamos, sim, demonstrar nosso favoritismo. Na realidade, a população até pedia por aquilo.
— Boa noite. — ele sorriu, fitando a pilha de papéis à sua frente. O que eram aquilo? Gráficos? — Meu projeto envolve a economia de Illéa. Como muitos sabem, minha mãe assumiu o trono da Itália faz apenas quinze anos, e nesse meio tempo, diversas mudanças de âmbito econômico foram realizadas por ela. Quando ela assumiu, a Itália era muito similar a Illéa no que diz respeito à economia: um país que conseguia se sustentar, e apenas isso. Meu projeto é fazer com que o país cresça, aplicando a ele um sistema de meritocracia, ou seja, fazendo com que as pessoas que trabalhem mais recebam mais, num mesmo serviço. Isso estimularia um aumento na produção, gerando uma elevação do PIB, e um crescimento econômico no país em um curto período de tempo, estabilizando a moeda e reduzindo a inflação. Isso promoveria uma melhor condição social a toda à população, e Illéa teria potencial para se tornar uma das maiores nações, considerando-se toda sua população e tamanho.
Também nenhuma pergunta. Ele tinha mandado bem, principalmente se levássemos em conta que fora um projeto elaborado de última hora. Daniel virou-se, trazendo consigo os papéis que levara. Tinha um sorriso no rosto, e procurava por mim. Provavelmente tinha ficado desorientado com a situação: eu não o culpava, as câmeras poderiam ser muito intimidadoras, às vezes. Sorri em sua direção e ele logo se sentou, comentando algo com Andrew que eu não consegui ouvir.
O próximo foi o russo. Dimitri Ivanov pareceria muito intimidador com a pasta que carregava, se não fosse pela gravata alaranjada extremamente ridícula. Ele abriu a pasta fichário, e foi então que notei o quanto ele era organizado. Tirou de lá apenas duas ou três folhas, aparentemente, as que ele considerava essenciais para a apresentação de seu plano.
— O tema abordado por meu projeto de governo é a educação. — ele sorriu. Tinha um sotaque extremamente estranho, causava-me medo. — Resumidamente, o objetivo desse planejamento é incentivar os jovens a continuar os estudos. Illéa tem uma alta taxa de abandono escolar: cerca de quarenta por cento dos que entram na escola não terminam o ensino médio. Como consequência desse abandono, vemos um grande quadro de desemprego. É por isso que proponho um incentivo em dinheiro, a cada ano terminado, e uma cota de bolsas em universidades, para que alunos possam estudar de graça. O dinheiro que o governo investiria na criação dessas novas vagas e no incentivo aos estudos retornaria na forma de impostos, uma vez que cargos que exigem uma educação melhor costumam ser melhor remunerados. Dessa forma, tanto a defasagem na educação, como o desemprego por falta de especializações seriam solucionados num período de dez anos.
A garota não demorou um único segundo para levantar o braço e fazer sua pergunta.
— Imagino que as cotas das bolsas de estudo seriam destinadas à população carente, correto? — ela perguntou, e Dimitri acenou positivamente. — E as classes altas, como ficariam? Seriam prejudicadas pelo sistema?
— É claro que não. — o russo respondeu, indignado com a pergunta. — As universidades terão de abrir novas vagas, para evitar o prejuízo, mantendo, assim, o número de alunos de altas classes por curso. A única diferença seria a inserção de alunos de baixa classe num mesmo ambiente.
Ela torceu o nariz. Provavelmente era Dois ou Três, e não queria se misturar as castas inferiores — ainda que meu pai começara a eliminá-las, a discriminação dos ex-Seis e ex-Setes ainda era muito nítida —, mas eu tinha de admitir uma coisa: o projeto dele era muito bom.
Dimitri sentou-se em seu lugar e Caleb o parabenizou pelo projeto. Eles trocaram algumas palavras de incentivo um ao outro, mas logo se voltaram para a frente. Gavril chamou por Matheo, e o suíço se levantou com dificuldade. Pela expressão de meu pai, fora ele quem pedira para que não o deixassem usar a cadeira de rodas. Aquilo foi demais para mim. Levantei-me e passei o braço direito por sua cintura, dando-lhe firmeza. Com o braço livre, carreguei o livro que ele trouxera, e caminhamos até o palanque. Coloquei o livro à sua frente e ajustei o microfone à sua altura, mantendo-o desligado por um tempo.
— Boa sorte. — sorri.
— Sorte é para os despreparados. — ele brincou, fitando-me por um bom tempo. — Obrigado, de qualquer forma.
— Disponha. — dei-lhe um beijo no rosto e ajeitei o cabelo que caía sobre seus olhos. — Não se esqueça de ligar o microfone. — e voltei para meu lugar. Papai me olhava como se eu tivesse feito tudo exatamente como planejado, e America mordia o lábio. Provavelmente queria dizer algo, mas evitaria a leitura labial da TV Fofoca.
— Mais alguém disposto para levar um tiro em troca de um beijo da princesa? — Fadae brincou, arrancando risadas dos príncipes que estavam lá. Imagino que o povo tenha rido em casa, também. — Brincadeiras à parte, pessoal, é um presente termos esse garoto aqui, essa noite. Disseram que você ficou mais próximo da morte que da vida, isso é verdade?
— Ah, Gavril, — ele jogou o peso para a outra perna, parecendo descontraído. — pelo que não me deixaram saber, mas li em meu prontuário, eu tinha um quinto de chances de recuperação. Você sabe, o céu não tem anjos tão lindos quanto essas duas princesas.
— Isso é tão romântico! — ele dramatizou enxugar uma lágrima. — Acho melhor falarmos logo do seu projeto, de qualquer forma, antes que uma das princesas, não direi qual, fique arrependida de ter salvado sua vida.
— Na verdade, eu acho que ela já está mais do que arrependida disso. — ele brincou, e então retomou sua postura séria. — O meu projeto é uma reforma política. A invasão do palácio me fez refletir sobre alguns problemas pelos quais Illéa passa, no âmbito administrativo. Sem querer menosprezar todo o trabalho de meu futuro sogro, Sua Majestade, mas talvez seja a hora de se instaurar uma monarquia parlamentarista no país, na qual o povo tivesse o direito de opinar nas decisões a serem tomadas no futuro de Illéa. No meu projeto, cada província elegeria um representante, e uma vez por ano, os representantes das províncias se reuniriam juntamente ao rei, para se debater o planejamento do ano seguinte. É claro que o rei continuaria a ter o voto final, mas, desse modo, ele ouviria mais as necessidades da população, até porque Maxon não tem como saber o que acontece em cada província, em cada cidade, e muito menos em cada casa.
As três mãos se levantaram. Matheo apenas indicou para que fizessem suas perguntas. O primeiro a perguntar foi o mais baixo.
— Se o rei continua tendo o voto final, de que adianta esse novo sistema?
Era uma pergunta boa.
— Entenda-me, senhor, — ele fez uma pausa, olhando para o nome escrito no crachá de identificação. — Nightraven, o rei não toma medidas erradas porque ele é mau. Ao menos, pelo pouco que pude conhecer dos Schreave, todos me parecem extremamente justos. Acontece que, muitas vezes, decisões erradas são tomadas em função dele não saber o que acontece. Ignorar um problema é diferente de desconhecê-lo.
Era uma resposta muito boa.
— Como os representantes das províncias seriam escolhidos? — o outro garoto questionou.
— É simples, senhor Penhallow. Todos os cidadãos acima de vinte e um anos poderiam votar. Votariam em um representante da cidade, alguém que conhecem. Todos os representantes das cidades de uma mesma província se reuniriam, e elegeriam, dentre eles, um representante da província. A cada ano, elege-se um novo representante da província. A cada cinco anos, um novo representante da cidade.
— Qual a garantia que temos de que esses representantes das províncias farão o melhor para todas as cidades do estado? — a garota sorriu, como se fosse uma pergunta impossível de ser respondida.
— A possibilidade de reeleição. — ele suspirou, como se fosse algo extremamente óbvio. — O cargo de Representante Geral da Província não apenas é de muito prestígio, como de um retorno financeiro relevante. Se você não auxiliar a todos, não se reelege no ano seguinte.
Não houve mais perguntas. Gavril ajudou Matheo a retornar ao seu lugar, poupando-me de ir até lá. Suspirando, Patrick se levantou de seu lugar e seguiu em direção ao palanque. Não trazia outros papéis consigo, e muitos diriam que é porque ele estava preparado. Pela análise corporal, porém, eu apostaria no contrário.
— Meu projeto tem o objetivo de promover a cultura de Illéa. — ele começou — Através da criação de eventos de grande porte, muitos empregos temporários seriam gerados, seja antes do acontecimento, na construção civil; ou durante e depois do acontecimento, no turismo. O dinheiro arrecadado com a vinda dos estrangeiros, por conta dos eventos, supriria os gastos com a elaboração deles, e permitiria que mais eventos ocorressem, assim sucessivamente.
Não houve perguntas, até porque todos sabiam que era um plano inviável. Illéa não tinha preparo para ser sede de eventos desse porte, a nível mundial. Patrick sabia que havia sido o pior, mas eu tinha vontade de dizer a ele que não seria expulso por conta disso. Infelizmente, não podia. As câmeras estavam lá.
— Tecnologia. — William começou. Tentava imitar o sorriso cafajeste Oscar de Arthur, mas estava muito longe de conseguir. — Talvez seja o principal problema do país. Pelo pouco que conversei com Silvia, antes que ela partisse, pude perceber que Illéa está muito defasada com relação a outros países, nesse quesito. Desde a Terceira Guerra Mundial que o país sofre com a falta do acesso à tecnologia. O país, que antes disso era a maior potência tecnológica, hoje mal tem acesso a telefones, algo extremamente simples. É por isso que meu projeto pretende reduzir os gastos com áreas mais desenvolvidas, como transporte e saúde, que são referência no resto do mundo, e aplicar esse dinheiro no desenvolvimento tecnológico, que, a meu ver, é o que o país precisa nesse momento.
Também não questionaram Will. Eu questionaria. Reduzir os gastos com a saúde? Ele só poderia estar de brincadeira. Entretanto, era bem nítido que os estudantes provavelmente tinham seus próprios planos de saúde, então o projeto do australiano seria extremamente benéfico para eles. Tolos.
Gavril deu mais alguns avisos e, logo em seguida, encerrou o programa. Retornamos ao castelo, o jantar seria servido muito em breve, então todos nos reunimos no salão principal, antes que as portas do salão de jantar se abrissem. Aproveitei o momento descontraído para chamar Elena.
— A partir de hoje, Elena, tudo o que você quiser fazer a respeito de vestuário, primeiro terá de pedir a opinião de Daniel, okay? — exigi, autoritária. — E eu realmente espero não ter que falar isso de novo, porque não vou.
Ela concordou e saiu, cabisbaixa. Fui até os príncipes, e eles aplaudiram a decisão.
— Podemos tirar essas gravatas ridículas? — Arthur perguntou, já se desfazendo da sua. Apenas concordei com a cabeça.
— Ah, Caleb, — sorri para o francês ao meu lado. — belo discurso, por sinal.
— Eu tenho meus momentos. Mas não importa o quanto eu tente, nosso amigo baleado aqui sempre consegue a atenção. — Matheo se colocou entre mim e Vermont, passando um dos braços por cima dos ombros dele, e prendendo o outro à minha cintura.
— Se você tivesse levado um tiro, ficado em coma por um mês, incapaz de sustentar o peso do corpo por muito tempo, e recebesse um beijo da princesa aqui em rede nacional, talvez chegasse perto. — ele suspirou. — Bom, eu sou mais bonito.
Revirei os olhos e o puxei para um canto, ciente dos olhares dos príncipes sobre nós: seis pares de olhos extremamente curiosos. Daniel estava de costas, conversando com Elena, provavelmente tentando explicar-lhe que arco-íris não está muito na moda. Matheo segurou minhas mãos, enquanto eu me encostava à coluna.
— Obrigada. — sorri. — Por ter me salvado com o projeto. É muito bom, por sinal, ainda que meu pai vá matar você. Por tê-lo chamado de sogro. E por, de certa forma, questionar a capacidade dele.
— De qualquer forma, fiz aquilo só para acalmar os nervos rebeldes. — ele riu, brincando com meu cabelo. — Ainda que aquele seja meu projeto para me tornar rei, eu nunca serei o rei de Illéa. Não tenho para quem deixar o trono suíço.
— Isso foi... Extremamente inteligente da sua parte. Lembre-me de falar com Maxon sobre isso mais tarde. — pelo que olhei ao longe, os príncipes faziam apostas. Arthur tinha a expressão de elfo maligno no rosto, e os príncipes pareciam colocar dinheiro em sua mão. — Estão apostando se você vai me beijar.
— Provavelmente se você vai me beijar, também. — ele riu. — Fizemos isso com você e Daniel esses tempos. Ganhei sozinho. Metade apostou que você o beijaria, metade, que ele a beijaria. Eu fiquei com a opção de que não haveria beijo.
— Eu também vou ficar com essa opção. — dei risada, e o puxei de volta à roda.
— Parece que eu ganhei. — Arthur brincou, entrando no salão de jantar, ao meu lado. — Dá para acreditar que quatro deles apostaram que Matheo beijaria você?
— Quem apostou que eu o beijaria? — franzi o cenho.
— Caleb. — o dinamarquês riu. — Você sabe, eu odeio o cara, mas ele tem personalidade.
Daniel deu-me um beijo no rosto antes de entrar, e perguntou-me se eu iria para seu quarto mais tarte. Apenas confirmei com a cabeça, enquanto procurava pelo francês. Ele ainda não havia entrado no salão: estava de fora, sorrindo e trocando algumas palavras animadamente com Rosemarie. Talvez estivesse na hora de eu ter uma conversinha com o possível futuro marido de minha irmã.
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