Two Crowns
24 Capítulo XXIII
Notas iniciais

— Fique mais um pouco. — Daniel pediu, seus olhos escuros fitando os meus profundamente. — Não verei você pelo resto do dia.
— Pare de ser dramático. — sorri, enquanto ele amarrava meu corpete. Já que havia dispensado minhas criadas para que elas não soubessem sobre nossa noite, precisaria de alguma ajuda com o vestido. — Estarei de volta antes que consiga sentir minha falta. Aproveite para trabalhar em seu projeto, não quero ter motivos para ser obrigada a mandar você embora.
— Seu desejo é uma ordem, minha senhora. — ele riu, seus lábios demorando-se em minha nuca enquanto seus dedos subiam o zíper habilidosamente. — Eu, definitivamente, gostaria de estirar tirando seu vestido. Isso é torturante.
— Santo Deus, Dan. — virei-me de frente para ele. — Eu preciso e um descanso, estou toda dolorida.
— Espero não tê-la machucado. — ele brincou com meu cabelo. — E se o fiz, peço-lhe perdão.
— Você não fez nada que eu não quisesse. — dei-lhe um selinho. — E que eu não queria repetir.
— Não me provoque, Alexandra... — o príncipe riu, vendo-me sair pela porta.
Tivemos um café da manhã tranquilo, considerando-se toda a euforia sobre a corrida do dia anterior. Aparentemente, Kyle West não escondera de nenhum deles o motivo de sua eliminação, e todos os príncipes que ainda tinham dúvidas sobre suas escolhas estavam nervosos demais para brincadeiras.
Era estranho ver o salão assim tão vazio. Além da mesa da família real, apenas mais três ocupavam o imenso espaço. Numa delas estavam Caleb Vermont, William Davis e Matheo Delacroix. Na segunda, Arthur Gravesen, Daniel Blue e Andrew Van Persen. Na terceira, Dimitri Ivanov, Patrick Hampson e Nicholas DanBrook. Aparentemente, alianças já haviam sido formadas. Inimizades, também.
A segunda mesa odiava Matheo. A primeira mesa odiava Arthur. A terceira mesa era secundária, provavelmente querendo ficar em cima do muro nessa guerra de titãs. Mas algumas coisas não faziam sentido, principalmente na aproximação do príncipe francês e do australiano. Se ambos queriam o coração de minha irmã, por que estariam tão próximos? Talvez eles levassem a sério a ideia de manter os amigos perto, e os inimigos mais perto ainda.
O italiano parecia brincar distraidamente com a taça de suco, sorrindo algumas vezes de possíveis comentários de Arthur. Seus dedos circundavam a beirada da taça lentamente, e mil e uma imagens da noite anterior vieram à minha mente. Daniel Blue era muito bom com os dedos, santo Deus. Quando levou a bebida à boca, senti-me corar. Eu estava extremamente dolorida, e mesmo assim...
— Pare de encarar, Alexa. — Rose brincou. — É feio.
— Ah, vamos combinar que ele é charmoso. — sorri, comendo alguma coisa que nem vi. — Gosto do jeito dele.
— Vocês formam um casal bonito. Ainda que eu ache que combine mais com o...
— Não termine a frase. — cortei-a. — E quanto a Arthur? — questionei.
— Acho melhor colocarmos as cartas na mesa. — ela suspirou, aparentemente derrotada. — Vou conversar com ele depois do café.
— Finalmente. — brinquei.
Tanto eu quanto Rosemarie ficamos mudas com a aproximação de nossos pais. Durante os últimos dias eles se atrasaram para todas as refeições, normalmente chegando apenas após a saída minha e de minha irmã. Naquela manhã, porém, ambos pareciam animado. Pelo que podemos ouvir, os rebeldes haviam sumido do radar, o que significava uma paz momentânea.
Assim que terminei a refeição, procurei por Andrew pelos corredores. Eu havia lhe prometido um encontro, e desde pequena eu aprendera o valor da promessa de um nobre. Era hora de cumpri-la.
— Devo estar tendo uma ilusão. — ele sorriu quando entrei na biblioteca. O norueguês possuía um livro em seu colo, em inglês. Possivelmente, tento aprimorar a língua. — A que devo a honra de sua presença, Vossa Alteza?
— Você está parecendo uma adolescente Illeana, Andrew. — brinquei, sentando-me em frente à maior mesa do ambiente. O quebra-cabeça ainda estava lá. — Afinal de contas, vamos terminar isso, ou não?
— Seu desejo é uma ordem.
E sentou-se de frente a mim, para mais algumas horas de risadas e café.
Saí de meu encontro com Andrew já na hora do almoço, praticamente. Achei por bem nem subir ao meu quarto, e passar os minutos restantes em algum divã do salão principal. Doeria menos as pernas, que já não aguentavam carregar o peso do corpo. Céus, o sexo tem lá suas desvantagens.
Assim que me sentei, encarei o tabuleiro à minha frente. Era um jogo de xadrez acabado. Xeque do pastor. Jogada fácil. Aparentemente, algum experiente passando o tempo com algum iniciante. Em minha mente, passei jogada por jogada, até voltar ao início. De tão distraída, não notei quando um príncipe se sentou à minha frente e começou a observar minhas expressões de concentração.
— Foi fácil ganhar do Davis. — a voz grave do suíço desnorteou-me por uma fração de segundos. — Ele pode ser melhor com mulheres, mas é péssimo no tabuleiro.
— Hm. — resmunguei, cruzando as pernas e encarando os outros príncipes que já chegavam ao local. Não queria demonstrar-lhe qualquer indício de dor.
— Você é arrogante assim sempre, ou só comigo? — zombou-me e recebeu um olhar fuzilante como resposta. — Parece muito bem para quem teve relações sexuais “intensas” — Matheo fez as aspas com os dedos — ontem. Aparentemente, o italianinho não é lá dos melhores.
— Ah, Matheo... Tão ingênuo. — sorri, olhando-o nos olhos. Tal ação o deixou aéreo por um tempo. Essa era a vantagem de nunca encará-lo. — Daniel Blue é mais homem do que você conseguiria ser em todas as encarnações.
— Duvido. — ele mordeu o lábio. — Prove.
Levantei-me apenas o suficiente para sussurrar em seu ouvido.
— Eu nunca gemeria seu nome.
Ele emudeceu. Foi a deixa para que eu saísse de lá e fosse até Rose. Ela me encarava como se soubesse que eu havia feito algo muito, muito mau. Entretanto, não comentou nada. Seus olhos percorriam o salão em busca de alguém, e encontraram-se em Arthur.
— Poderia falar com ele, depois? — pediu-me.
— Claro que sim. — respondi, de imediato. — Como foram as coisas? Ruins demais?
— Na verdade, — ela corou — foram melhores do que eu esperava. Mas continuo tendo a sensação de que fiz tudo errado.
Almoçamos em silêncio. Um silêncio tão longo e tão interrompível que quase não comi. Mesmo com o encontro ótimo com Andrew, e com a relação com Daniel sendo das melhores, algo revirava dentro de mim. Culpa? Remorso? Não tinha porque sentir aquilo. Aaron não pertencia mais a mim, o que fazia eu não pertencer mais a ele. Mesmo assim, a consciência pesava.
Antes de falar com Arthur passei umas horas em meu quarto, encarando o convite de casamento e a carta de despedidas. Eu sabia que precisava lhe dar uma resposta, afinal, o convite não era um mero enfeite. Confirmei a presença e peguei um papel. Hora da minha carta de despedidas.
Querido Aaron,
Por favor, não se culpe ou se martirize por aquilo que você não teve escolha. Fez bem em cumprir aquilo que seu pai pedira, e eu mesma, nessa situação, teria feito o mesmo. Entendo a dor que sente, de verdade. Por um dia e algumas horas tentei fingir que tudo estava bem, que eu não me importava com você, e que poderia viver tranquilamente num mundo sem você.
Isso não é verdade. Eu amo você, Aaron Edward Thompson. Talvez não da mesma forma que amava um mês atrás, entretanto isso não é, necessariamente, amar menos. Apenas... Amar diferente. Espero que consiga amar Lydia tanto quanto me amou, ou quem sabe ainda mais, de verdade. Espero que possam constituir uma família, e que ela possa te fazer muito mais feliz do que eu um dia pude.
Estou fazendo o que me pediu, e prometo seguir em frente. Sempre ouvi de minha mãe que alguns males vêm para o bem. Se isso aconteceu, era porque nós não deveríamos acontecer, não deveríamos ficar juntos. Sei que não acredita em carma, sina ou destino tanto quanto eu, bem como sei que percebe que nada mais faria sentido se não isso.
Acabo de confirmar minha presença em seu casamento. Pensei seriamente em não ir, e sei que você sabe que pensei. Contudo, só estaria enganando a mim mesma se não fosse. Só estaria me deixando ser derrotada por mais um dos males que devemos enfrentar a cada dia em nossas vidas. E não gosto de me sentir derrotada.
Siga sua vida, Aaron. Case-se. Tenha filhos. Eduque-os. Governe seu país, e os ensine a governar. Faça sua parte. E talvez o destino faça com que nossos caminhos se cruzem. Você não acredita em carma, mas deveria.
Com amor, ou tudo que me resta,
Alexandra Sophie Schreave.
Dobrei a carta, colocando-a num envelope, junto à confirmação da presença, e lacrei com a marca real. Só notei que as lágrimas escorriam por meu rosto quando uma delas caiu sobre o papel, borrando levemente o remetente. Tombei a cabeça para trás e esperei que o choro passasse. Era inútil chorar, lembrei a mim mesma. E, de fato, era mesmo. Tirei o vestido que me sufocava, e coloquei meu maiô. Eu precisava nadar.
Deixei a carta com Silvia, e pedi que ela a enviasse. A senhora não me questionou após ler o destinatário, apenas sorriu em apoio. Ainda que ela fosse bem carrasca comigo e com Rose, algumas vezes, ela gostava de nós e se preocupava com nosso estado psicológico. Quase como uma avó.
Coloquei os óculos escuros e já saia pelo salão lateral quando um par de firmes braços me agarrou por trás, envolvendo minha cintura. Os lábios de Daniel demoraram-se em minha nuca, e sua respiração pesada arrepiou-me por inteira. Não pude deixar de sorrir. Dadas as circunstâncias, o príncipe italiano fazia muito bem para mim.
— Você mentiu, — ele sussurrou em meu ouvido. — disse que voltaria antes que eu sentisse sua falta.
— Não imaginava que fosse tão carente, senhor Blue. — brinquei, virando-me e dando-lhe um selinho demorado. — Aonde vai?
— Os caras planejaram um mini torneio de esgrima. Não é todo mundo que vai, mas... — ele deu de ombros — Sabe, posso abandonar o programa se você quiser fazer algo mais... Útil?
A ideia parecia tentadora. Muito mais tentadora ainda quando Daniel me prensou contra a parede exterior do castelo e distribuiu beijos por todo meu pescoço, chegando finalmente à minha boca. Retribuí, lentamente, e só então notei que era a primeira vez que nos beijávamos sem todo aquele desejo, aquela paixão ardente.
— Isso... Hmm... Dan... — eu não conseguia formular uma única frase. — Amanhã, pode ser?
— Se é o que deseja... — ele riu, pressionando sua testa contra a minha e encarando meus olhos. O italiano tinha olhos negros, incrivelmente misteriosos. — A que horas estará livre?
— Creio que depois do almoço. Tenho um encontro com Delacroix de manhã, e não sei quanto tempo vai demorar. — bufei.
— Eu odeio aquele suíço. — Blue comentou, mexendo em alguns fios de cabelo meus que caíam nos olhos. — Devo me preocupar?
— Estou beijando ele ou você? — questionei. — Viu?
— Ótimo, não quero ser expulso por socar alguém. — ainda que sem maldade, aquela frase me tocou. Se Aaron não tivesse revidado... — Você é minha, Alexandra.
— Não mesmo. — dei risada, afastando-me e indo em direção à piscina. — Vai ter que se esforçar muito mais para poder me chamar de sua, senhor Blue.
Arthur não nadava. Apenas tinha os pés imersos na água fria, e o tronco e coxa expostos ao sol de Angeles. Não era capaz de ver seus olhos por detrás dos óculos escuros, mas se fosse julgar pelo inflar inconstante do peito, diria que estava chorando — ou então, que chorara até aquele momento —. Sentei-me ao seu lado, também mergulhando meus pés e segurei sua mão. Ele parecia já ter me notado ali, pois quase não reagiu.
— Olá, princesa. — ele sorriu, ainda sem tirar os óculos.
— Ah, vamos lá, deixe-me ver esses belos olhos castanhos. — sorri em resposta, jogando o artefato no meio da piscina, propositalmente. — Ops.
Seus olhos estavam vermelhos. Definitivamente, Arthur Gravesen não estava bem.
— É o cloro da piscina. — ele mentiu, mesmo sabendo que não me enganaria. — Acho que... Sei lá... Talvez eu nem devesse ter me inscrito.
— Quer ir embora? — perguntei.
— Não. — ele deu um meio sorriso, jogando-me na piscina e, depois, pulando junto. — Eu gosto de estar aqui com você. Dane-se que você seja idêntica à sua irmã. E que eu veja ela em você. E que eu seja apaixonado por ela. E que ela não me queira.
— Exatamente! — joguei água nele. — Olhe o que você fez, Arthur! Saídas de banho são para cobrir o corpo fora da piscina, não dentro.
— Nossa, que pena! Vai me punir por isso, é? — provocou.
Pulei em Arthur, afundando-o. As bolhas de sua risada embaçavam minha visão, e logo era ele quem estava por cima de mim, ambos submersos. O dinamarquês fazia-me cócegas, e todo o meu ar foi embora em alguns ataques. Fiz o sinal. Nada tinha de especial, era um mero tapa na perna, mas ele logo então: estava sem fôlego. Puxou-me pela cintura até a superfície, na qual desatei a rir.
— Deus! Estou péssima... Uma era que não treino decentemente... — comentei, respirando fundo a cada palavra. Arthur me puxou num abraço e lá fiquei por um bom tempo, as batidas do coração voltando à sua frequência de repouso. — Sabe, eu sinto sua falta de vez em quando. Você nunca vem pra Angeles. É chato ganhar de todo mundo.
— E é por isso que eu não vou embora. — ele beijou o topo da minha testa. — Quero dizer, não vejo nada de ruim em passar mais uns meses por aqui. Sol, piscina, esgrima, cavalgada, tiro... Você.
— E Rose. — acrescentei.
— Eu morri para sua irmã. — suspirou.
— Está muito vivo para mim, se serve de consolo. — sorri. Não era um flerte, era, realmente, um mero consolo. Ser enxotado por alguém que você sabe que, no fim, te ama, é realmente deprimente.
— Ah, é um ótimo consolo. — ele brincou. — Como já admitiu que ganho de você na piscina, que tal um duelo na esgrima? Prometo deixar você ganhar.
— Idiota. — brinquei, saindo da piscina e me enrolando na toalha dele. — O problema é seu se me jogou com roupa lá dentro.
De fato, eu era melhor que Arthur na esgrima. O salão de duelos estava num clima descontraído: príncipes conversavam e davam risadas. Não estavam tão competitivos, muito pelo contrário, brincavam quando perdiam, e zoavam os próprios amigos. Arthur provavelmente só não perdeu para Nicholas DanBrook — que se distraía com seu reflexo nos espelhos — e Dimitri Ivanov. Se o russo era bom com bebidas, era péssimo com o sabre.
Eu passei mais tempo observando os movimentos do que, de fato, duelando. Notei, por exemplo, que Andrew era muito melhor com a mão direita do que com a esquerda, ainda que fosse canhoto. Que Daniel cansava o adversário pela defesa, não ataque. Que William tinha a delicadeza de uma garota, o que surpreendia pela estratégia, e não pela força.
Aparentemente — e infelizmente — alguém me notou.
Matheo Delacroix estava massacrando os adversários.
— Pronta para a revanche, Lexi? — ele provocou, estendo a mão. Não a segurei. — Que receio é esse? Já está aceitando sua derrota?
— Se eu derrotar você, aquele nosso encontro amanhã está cancelado. — sussurrei, baixo o suficiente para que apenas ele e Daniel, o príncipe mais perto de mim, ouvissem.
— E se eu ganhar? — colocou uma das mãos no queixo, como se avaliasse a situação.
— Então você escolhe tudo. Hora, local, duração. O que quiser. Até o que vou vestir, mas nada que envolva seus fetiches. — bufei.
— Melhor de três? — ele sorriu, puxando-me sem aviso prévio.
— Tanto faz, vou ganhar todas.
E eu realmente ganhei.
Mas só a primeira.
Não é que Matheo fosse bom, eu apenas... Não estava no meu melhor dia. Sem práticas nem nada do tipo, quero dizer. A Seleção consumia muito do meu tempo. Nove príncipes para distrair, enquanto ele só tinha uma. Rose, é claro.
— Pego você amanhã, quatro horas. Suas roupas estarão em seu quarto ainda hoje à noite. Avise aos guardas para me deixarem subir. — ele comentou, beijando minha mão. Por questão de educação, e de não querer soar arrogante para os outros príncipes, é que permiti o contato.
— Você não vai subir. Eu desço até seu quarto. Do lado de fora, já avisando. — revirei os olhos. — Quatro da tarde?
— Eu disse quatro, não dezesseis. — ele sorriu maliciosamente, indo em direção ao palácio. — E não se preocupe com as criadas. Vai conseguir se vestir sozinha.
O jantar foi relativamente tranquilo, com a exceção dos olhares preocupados de Daniel. Eu dissera ao italiano que iria para seu quarto ainda essa noite, mesmo que por poucos minutos. Seus olhos buscavam os meus com urgência, e ele mal tocou no prato de comida. Tomei uma taça de vinho a mais, naquela noite. Precisaria dormir bem, para estar disposta às quatro horas. Não que fizesse muita diferença.
Nem tentei disfarçar, fui direto ao quarto de Daniel. Contudo, mantive a porta aberta para o caso de alguém desconfiar de qualquer coisa. Não que eu não quisesse, mas... Quando cheguei lá, o italiano estava sem a camisa. De costas, notei o quanto seus ombros eram mais estreitos, se comparados aos dos outros príncipes. Daniel também era mais magro que a maioria, e mais baixo. Mais delicado. Era bonito de se observar.
— Psiu. — sorri, vendo-o se virar e colocar uma camiseta branca. — Imagino que queria me ver. Nem comeu...
— Não estava com fome. — ele pigarreou. — Não vai ficar, né?
— Hoje não. — aproximei-me da cama, sentando-me ao seu lado. Ele segurou minhas mãos, brincando com meus dedos. — Mas eu prometo que, independentemente do que aconteça amanhã, ninguém me manterá longe dessa cama aqui. Longe de você.
Seus olhos fitaram os meus por um longo tempo. Ele me deu um selinho um tanto quanto demorado, entretanto, afastou-se ao se lembrar da porta aberta.
— Vá armada. — sorriu.
— Não é como se ele fosse tentar me estuprar. — revirei os olhos.
— Só... Vá. — Daniel Blue tocou meu rosto com seus dedos gélidos. — Eu não conseguirei dormir se começar a ficar preocupado com a possibilidade.
— Tudo bem, eu irei. — sorri. — Passo aqui para te dar um beijo antes de sair com ele, pode ser?
— Ficaria chateado se não passasse.
Levantei-me e fui acompanhada por ele até a porta. Passei a mão por seus cabelos negros e lhe dei um beijo de boa noite. O salão já estava vazio, não fosse pelos dois guardas. Cumprimentei-os e subi as escadas, já tomando os calmantes. Eu precisaria de uma ótima noite de sono para não atirar em alguém. Puxei a pistola da gaveta de meu criado-mudo e a joguei sobre o cabide com as roupas. Nem me dei ao trabalho de abrir o zíper e ver o que era, apenas me joguei na cama e dormi.
Gabe entrou em meu quarto exatamente às 3h15. Tinha um sorriso no rosto, como se pensasse “esperei minha vida toda por esse momento”. Praticamente se jogou em cima de mim, prensando-me à cama e me deixando sem ar.
— Eu já tinha acordado com o abrir da porta, não precisava ter feito isso. — dei risada, empurrando-o para meu lado. — Tenho mesmo que ir?
— Promessas são promessas. — o soldado deu de ombros. Olhou para o divã aos pés da cama. — Uma arma, isso é sério?
— Antes prevenir que remediar. — comentei, saindo da cama e indo em direção ao banho.
Tomei uma ducha rápida, sem muito ânimo àquele horário. Peguei as roupas no cabide, e agradeci mentalmente por Matheo ter separado algo de frio. Angeles era bem quente, mas não de madrugada. Vesti a calça jeans e as botas de caminhada, seguidas da regata preta e da jaqueta de couro. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo, temendo pelo significado daquelas botas, e nem me maquiei. Coloquei a arma no cós da calça e a cobri com a jaqueta, descendo as escadas logo depois. Eu teria apenas dez minutos com Daniel.
Os guardas não estranharam quando entrei no quarto do italiano. Afinal de contas, todos eles sabiam que era melhor não se intrometer nas decisões das princesas. Imagino que Gabriel tenha dado alguma “dica” a eles com relação a isso. Sentei-me na cama e brinquei com os fios escuros sobre seus olhos, beijando sua testa. Daniel logo acordou e se sentou, preguiçosamente.
— Estava sonhando com você. — ele comentou.
— É claro que estava. — revirei os olhos, e ele riu.
— Já tem que ir? — sua mão tocou meu braço, e subiu até minha nuca. Algo em meu olhar respondeu à sua pergunta. — Leve algo de mim, então.
Blue me puxou para si, beijando-me logo em seguida e virando nossos corpos até ficar por cima. Prensou seu corpo contra o meu, aprofundando o beijo. Instintivamente, minhas mãos foram para sua nuca e seu cabelo, e aquilo parecia apenas animá-lo ainda mais. Infelizmente, não teríamos tempo para o que nós dois queríamos.
Delicadamente, afastei-me e me sentei, encarando seus olhos ainda sonolentos.
— Eu voltarei logo. — sorri, dando-lhe um último selinho e indo até a porta.
— Por favor. — ele brincou, voltando a se jogar na cama. — E, se ele tentar alguma gracinha...
— Atire na cabeça. — completei a frase, dando risada. — Bom fim de noite.
— Bom fim de encontro.
Fechei a porta e saí, dando de cara com um Matheo Delacroix impaciente em uma das poltronas do salão. Ele olhou seu relógio de pulso e cruzou as pernas, colocando os braços sobre os da poltrona. Sorriu e, com minha aproximação, levantou-se. Pegou minha mão e a beijou, delicadamente.
— Pontual. Gosto assim. — olhou-me por alguns segundos, sem conseguir esconder o brilho no olhar.
— Pontualidade britânica. — comente, alfinetando-o. Usar minha relação com Aaron o irritava profundamente, e era isso que eu faria hoje.
— Por que não é capaz de me dar uma chance? — pigarreou.
Não respondi.
— Aonde vamos, com essas roupas? — cruzei os braços, seguindo-o pelo castelo. É claro que eu não permitiria que ele me tocasse. O suíço usava um traje parecido com o meu. Em vez de jeans, porém, suas calças pareciam ser de um tecido mais resistente, e camuflado.
— Não acha mesmo que vou estragar a surpresa, né? — ele se virou para mim ao passarmos pela porta Norte do salão. Sem luz, quase não identifiquei o objeto à nossa frente. Era uma motocicleta, daquelas turbinadas e tudo o mais, pelas quais eu não me interessava nem um pouco. — A propósito, você ficou bem nessa roupa. Dá a você um ar de mais imponente.
— Mais intocável. — sorri com o muxoxo dele. — E não vou subir em uma moto com você, a menos que me diga aonde vamos.
— Por favor, Alexa. — ele suspirou. — Não estrague tudo.
Peguei o capacete e o coloquei, prendendo-o. Eu tinha pânico só de pensar em andar com o suíço numa moto. Ele colocou o dele e se sentou no veículo logo depois, chamando-me para ir junto. Era a hora. Sentei-me atrás dele, procurando um lugar onde apoiar as mãos. Inferno. Abracei-o pela cintura e a moto saiu em disparada.
Andamos por aproximadamente vinte minutos. O frio arrepiava-me desde a base da coluna até a nuca, ainda que eu estivesse coberta, e instintivamente aproximei-me mais de Matheo, deixando com que seu corpo quebrasse o vento. Quando paramos, ainda estava escuro, e levei um tempo para perceber que estávamos no meio do nada. Delacroix parara em uma estradinha de terra, e à nossa frente se erguia um imenso penhasco. A falta de qualquer sinal de vida causava-me vertigens.
— Não vamos subir isso, não é? — tirei o capacete, deixando-o sobre a moto. O príncipe fez o mesmo com o dele. — Deve ter uns duzentos metros.
— Duzentos e dezesseis. — comentou, orgulhoso. — Do tamanho de um prédio de setenta e dois andares. É o monte mais alto de Angeles.
— Você não respondeu minha pergunta. — revirei os olhos.
— Não vamos subir por aí. — ele colocou sua mochila e me segurou pelos ombros, guiando-me para dentro da mata. — Vamos descer.
De fato, eu reclamei por toda a hora e meia que levamos para subir a trilha. Eu saíra duas ou três vezes do castelo na minha vida, e mesmo na floresta dele eu nunca adentrei. Eu estava morrendo de medo, mas nunca deixaria que Matheo Delacroix soubesse isso. Quase enfartei quando bati em um cipó, achando que fosse uma cobra. Pelo canto do olho o suíço me olhava, e desatava a rir.
— Estamos chegando? — resmunguei. — Se soubesse que iríamos demorar tanto, teria escalado o penhasco.
— Na verdade, acabamos de chegar. — ele se virou para mim, auxiliando-me. — Damas na frente.
— Tão cavalheiro. — bufei, abrindo espaço entre ele e a mata e chegando ao topo da montanha. Era um mirante, pelo que constatei. — Nem parece que diz isso só para olhar minha bunda.
— É só um dos motivos. — ele riu, abraçando-me por trás. Estava tão norteada com a visão que permiti. — Venha aqui.
O príncipe puxou-me para o outro lado, no exato momento que o sol nascia. Era lindo de se ver. Os campos de plantação, o palácio, a floresta, a cidade... Tudo. Estávamos no ponto mais alto de Angeles, e era como se estivéssemos no centro do mundo.
— É lindo. — continuei observando a paisagem por mais um bom tempo. Os pássaros nas árvores próximas anunciavam o nascer de um novo dia. Por um longo momento, nem sequer consegui pensar em nada, apenas aproveitei o momento. — Nem consigo acreditar que moro aqui há dezoito anos, e nunca vi esse lugar antes.
— Eu me senti assim quando escalei os Alpes pela primeira vez. — Matheo comentou, ao meu lado. Sua mão segurou a minha, sobre a grade, e só então notei o quanto ele era maior do que eu. Uns trinta centímetros, muito possivelmente. E eu não era baixa. — Deveria tentar.
— Escalar os Alpes Suíços? Mal subo as escadas do castelo. — dei risada. — Matheo, quanto você tem de altura?
— Um metro e noventa e oito. — ele sorriu, encarando-me. — Se sentindo baixa?
— São as botas, em vez do salto. — dei de ombros. Eu tinha um e setenta e dois, chegava a um e oitenta e quatro com saltos. Alquilo explicava muita coisa. — Só não entendo como não notei antes, na esgrima.
— Você não queria ver. — ele provocou. — Está com fome?
— Não muita. — respondi. — Já estamos indo embora?
— Na verdade... — ele riu. — Não mesmo.
Foi quando me virei. Eu passara tanto tempo atônita com a paisagem que não vi quando o suíço preparara aquilo. Uma toalha estendia-se sobre o gramado, e as mais diversas frutas e pães se espalhavam sobre ela. Aquilo era tão... Clichê. Lia sobre isso nos livros de romance, e sempre achei tão impossível, mas naquele momento...
Matheo Delacroix estava se esforçando. Entregou-me uma tulipa laranja, arrancando um sorriso meu, e nos levou para tomar o café-da-manhã. Tirei a jaqueta e me sentei de frente para ele. Sem trocar palavras, comemos. Acho que nenhum dos dois tinha muito o que falar naquela situação.
— Obrigada. — agradeci, enquanto ele voltava a recolher as coisas. Deitei-me na grama, observando as nuvens que surgiam no céu azul. — Não achei que seria tão tolerável.
— Obrigado você, por ter me dado uma chance. — ele respondeu, deitando-se ao meu lado.
— Quem disse que lhe dei uma chance? — olhei para ele, e corei quando vi que Matheo me encarava.
— Comparado ao modo como me tratava, isso foi quase como um “sim” após um pedido de casamento. — ele suspirou. — Veni, Vidi...
— Nunca entendi essa sua tatuagem. Entendo a tradução, não o significado.
— Tudo o que você vence nessa vida é consequência de suas escolhas. Você decide ir. Você se esforça para ver. E então você vence. — ele se levantou, puxando-me consigo. — Eu decidi vir para Illéa. Esforcei-me para ver que você é por trás da máscara que sempre mostrou. E agora, quero vencer deu coração. E farei de tudo para isso.
— Não estrague tudo, Matheo... — abaixei os olhos, afastando-me.
— Como posso estragar tudo para você se só estou sendo sincero? Se só estou tentando lhe mostrar o que sinto? — ele suspirou. — Meu Deus, Alexa, eu amo você.
— Eu sei. — sequei as lágrimas, ainda encarando o chão. — É por isso que as coisas estão erradas. Eu não posso mais amar ninguém.
— E eu estou disposto a tentar. — Matheo de aproximou de mim, prendendo-me contra a grade. — Estou disposto a tentar fazer você se apaixonar por mim, pelo resto da minha vida. Só preciso que me deixe tentar, Alexandra.
Encarei-o por alguns segundos. O desespero era visível em seus olhos. Abracei-o com força, enterrando-me em seu peito. Matheo nem respirava. Suas mãos acariciavam meu rosto, secando o restante das lágrimas, e seus lábios tocaram minha testa. Afastei-me alguns centímetros, com o toque, mas o suíço fez questão de nos manter próximos, com um beijo. Seus lábios ardiam como chamas, ainda que fosse um mero selar de lábios. Senti-me derreter. Aos poucos, o beijo foi ficando mais intenso. Delacroix colocou-me sentada sobre a grade e fiquei quase da sua altura, minhas mãos apoiadas em seu peito; e as suas, uma em minha nuca, outra em minha cintura.
Sentia-me como a primeira vez que cheguei perto de uma lareira, ardendo por dentro e por fora. O calor sufocava-me. Eu já estava prestes a me afastar para tomar fôlego quando beijo parou com uma risada de Matheo. Ele me deu mais alguns selinho antes de abrir os olhos, com um sorriso divertido nos lábios.
— O que foi? — sorri, respirando fundo.
— Você pretendia atirar em mim? — ele puxou a arma do meu cós, colocando-a no seu.
— Não é isso, — revirei os olhos, enquanto ele ria e brincava com os fios do meu cabelo. — só pequei por precaução, Daniel me fez prometer que...
— Italianos... — o suíço puxou-me de volta para o chão, segurando minha mão. — De qualquer forma, essa arma vai ficar comigo. Assim posso usá-la para obrigar você a fazer o que eu quiser...
— E isso seria? — perguntei, e me arrependi logo depois.
À minha frente, estava o equipamento de salto para duas pessoas.
— Não foi tão ruim, admita. — ele comentou quando terminamos de descer. Minhas pernas estavam bambas; minha boca, branca. — Você se deu bem para uma novata.
— Eu não consigo nem andar. — fiz um muxoxo e Matheo me pegou no colo, colocando-me sentada na moto, logo em seguida. Devolveu-me a pistola e segurou meu rosto com as duas mãos, apenas para depositar beijos por todo ele.
— Veja só, um beijo e já te deixei desse jeito. — ele riu, e nem precisei ouvir o resto de suas palavras para que soubesse no que estava pensando. — Eu disse que era melhor que o italianinho...
— Santo Deus, como você consegue ser egocêntrico?! — dei-lhe um soco no ombro, que ele nem sentiu.
— Apenas relatando fatos. — ele sorriu, colocando os capacetes em nós dois. — Você não tem noção de como é incrível poder olhar em seus olhos e ver que você não me odeia.
— Você não sabe se te odeio. — abracei-o pelas costas, enquanto ele se sentava. — Pode ser que você apenas beije bem e eu esteja usando você.
— Santo Deus, como você consegue ser egocêntrica?! — ele riu, segurando minhas mãos antes de ligar a moto.
— Apenas relatando fatos.
A viagem de volta pareceu bem mais rápida que a de ida. Ainda que as ruas tivessem mais movimento, ninguém parecia nos notar por debaixo da roupa que, de certo modo, servia como disfarce. Quando chegamos à guarita, estava vazia. O portão do castelo estava aberto. Pedi a Matheo que parasse.
— O que houve? — perguntou.
— Que horas são? — não o respondi.
— Oito e quarenta. — olhou no relógio. Desci da moto e tirei meu capacete, indicando-o para que fizesse o mesmo. — O que aconteceu, Alexa?
— A troca de turnos é às oito e meia, Matheo. — indiquei a guarita vazia. Quando me aproximei de lá, quase vomitei com a imagem. O soldado estava morto, e seu sangue se espalhava por todo o piso. — Os rebeldes estão aqui.
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