Two Crowns
20 Capítulo XIX
Notas iniciais

Três semanas se passaram desde a última vez que mandamos os príncipes embora. A população de Illéa — e meu pai, obviamente — exigia a formação de uma elite. Eu não estava preparada psicologicamente para isso. Como poderia simplesmente declarar minhas preferências e de minha irmã em rede nacional, quando meu coração já pertencia a alguém? Eu não conseguiria. Não mesmo.
Entretanto, eu tinha que pensar, também, nos príncipes. Muitos deles estavam ali, nutrindo suas esperanças, e tanto eu quanto minha irmã sequer nos lembrávamos da existência deles. Eu cumpri a promessa feita a Maxon: saíra com a maior parte dos príncipes — mesmo com aqueles que nitidamente estavam interessados em minha irmã —, e apenas cheguei à conclusão que já esperava: nenhum deles mexia comigo do jeito que Aaron fazia.
Não posso dizer que os encontros foram inúteis, é claro que não. Conhecer um pouco mais sobre eles e seus países de origem me auxiliaria muito no que diz respeito à diplomacia. Além disso, queira eu ou não, tenho de admitir que alguns deles me arrancavam risadas sinceras, e proporcionavam-me momentos de isolamento do mundo exterior. Mas o amor não se faz só de piadas, certo?
Ophelia se aconchegou melhor ao lado de meus livros enquanto eu relia, pelo que me parecia a trigésima vez, a última carta recebida de Aaron. Nada havia de especial nela, se não o fato de ser a última. Datava de uma semana e meia antes, e o fato de não ter resposta das últimas cartas enviadas por mim assombrava-me. Dobrei-a novamente, com mais cuidado. Os vincos do papel já estavam mais finos e encardidos, de tantas vezes que repeti o mesmo procedimento.
Abri a gaveta, guardando a carta, no envelope, lá dentro. Foi quando um papel extremamente alvo chamou-me a atenção. Por um momento pensei que talvez fosse uma carta de Aaron, que Gabriel colocara lá por alguma razão, mas fiquei desapontada quando o desdobrei. Era um desenho, daqueles feitos apenas com lápis grafite, trabalhados em luz e sombras. Imediatamente, notei que era um desenho meu.
Conforme meus olhos iam percorrendo o desenho, outros detalhes foram se revelando: os livros ao fundo e sobre minha mesa, as manchas escuras sob meus olhos, os dedos aparentemente tensos ao redor de uma página. Meus lábios se curvavam no que parecia um muxoxo, meu peito estava inflado como alguém que prende a respiração por muito tempo, e uma ruga de expressão se formava em minha testa. Era um desenho incrivelmente detalhista. Lindo.
Ou melhor, seria lindo se não fosse de Matheo Delacroix.
Ophelia pulou em meu colo, ronronando. Já estava um pouco maior, e suas três cores — laranja, preto e branco — já se evidenciavam mais em seus pelos compridos. Seus olhos multicoloridos encaravam-me com carinho. Minha gata tinha sido minha melhor amiga nesses últimos tempos. Maxon e America andavam ocupados demais tentando controlar a questão dos rebeldes, e minha irmã distribua seu tempo entre encontros e deveres reais. A gatinha, porém, sempre estava ao meu lado.
Coloquei-a no chão e enchi seu pote com ração, vendo-a devorar o conteúdo vorazmente. De certo modo, Ophelia lembrava Rose em alguns aspectos: parece ser frágil, quebradiça, mas é tão forte quanto qualquer leoa. Ainda perdida em pensamentos, saí do quarto.
— Gabriel Leger. — resmunguei, vendo-o se esquivar de meus olhares. Ele estava fazendo isso há alguns tempos. — Por que está me evitando?
— Se eu estivesse evitando, teria deixado de ser seu guarda pessoal. — Gabe revirou os olhos verdes, puxando-me para um abraço. — Por que acha que eu estou evitando você, Alexa?
— Quero saber sobre Aaron. — fui direto ao ponto. — E não venha me falar que não sabe de nada, porque seu pai tem contato direto com a guarda real inglesa, Gabriel.
— Aspen não me falou nada. — ele fechou a cara. — Provavelmente porque descobriu que estou repassando as informações a você. Tio Maxon não ficaria nada feliz se descobrisse que é meu pai que ainda alimenta suas esperanças com relação ao senhor Thompson.
— Que seja. — bufei, cruzando os braços. O relógio do corredor soou: oito horas. — Melhor eu descer. Minha mãe marcou uma consulta de rotina com o Dr. Hudson para mim e Rose.
— Não vá agarrar o médico. — ele brincou.
— Estúpido. — saí apressadamente.
Assim que desci o primeiro lance de escadas, notei o clima de tensão que se estabelecia ali. Só no salão em que se encontravam os quartos dos príncipes, seis guardas estavam a postos. Grande parte das janelas estava com as cortinas fechadas, e eu poderia apostar que, por baixo do tecido, proteções de metal e/ou madeira haviam sido instaladas.
Havia algo de diferente na postura da guarda, também. Os soldados pareciam mais altos e mais fortes. Também estavam mais atentos. Mesmo após passar por eles, sentia os doze olhos queimarem às minhas costas. Silvia me parou enquanto eu descia o segundo lande de escadas. Tinha uma prancheta em mãos, provavelmente com meu cronograma diário. Apenas suspirei e deixei que ela fizesse seu trabalho.
— Senhoria Alexandra — ela sorriu. Estava feliz com meu desempenho e o de Rose nos últimos dias. — Seus pais exigiram uma reunião com você e sua irmã antes do jantar. Tem uma consulta marcada com o doutor Hudson em cinco minutos. Depois, pode se dirigir imediatamente para o café-da-manhã. Tem aula de música das nove às onze horas, um encontro com o senhor Van Persen até o horário do almoço. Almoço ao meio dia e meia, um encontro com o senhor West às treze horas. Depois, poderá tirar seu tempo livre até às dezoito horas, quando terá a reunião com Suas Majestades. Após o jantar, não há nenhum compromisso marcado, mas algo em minha intuição recomenda que não marque nada após isso.
— Só isso? — perguntei, nitidamente abusando da ironia. — Muito obrigada, Silvia, tentarei seguir tudo à risca.
Terminei de descer as escadas e me dirigi ao consultório. Ficava no corredor norte do primeiro antar, quatro portas depois do escritório de meu pai. Andei mais lentamente conforme me aproximava do local. Eu definitivamente odiava ir a médicos. Odiava ter que tirar a roupa e fazer exames. Ainda mais se tratando de Dean Hudson. Não que ele fosse antiprofissional, mas eu apenas comecei a me consultar com ele após a morte de seu pai, um ano e meio atrás.
— Pode entrar. — ele gritou de dentro, quando bati à porta. Relutante, entrei.
— Doutor Hudson. — sorri, fechando a porta atrás de mim. — Um prazer revê-lo.
— Vamos combinar que nunca é um prazer rever um médico, Vossa Alteza. — ele riu, exibindo dentes brancos perfeitos. Doutor Hudson é bonito, admito. Tem os cabelos numa tonalidade de castanho escuro, e olhos que variam entre o verde e o castanho claro. Não deve ter mais vinte e três anos, mas é algo que nunca lhe perguntei. Extremamente novo para um médico, mas isso tem uma razão: começou seus estudos aos catorze. — Sente-se, por favor.
Sentei-me na maca, cada passo meu sendo observado pelo doutor e por sua enfermeira, Magda. Primeiro ele avaliou meus olhos, seguido de meus ouvidos, boca e nariz. Dean ouviu meu coração e meus pulmões, mediu minha pressão e minha taxa de glicose. Até então, tudo normal.
— Vou ter que tirar a roupa? — perguntei, quando ele deu a volta na maca, colocando-se atrás de mim.
— Infelizmente, senhorita, estou apenas seguindo as ordens de Sua Majestade, sua mãe. — ele suspirou. — Gostaria de uma ajuda com o corpete?
Acenei positivamente, retirando o vestido. Tão leves como uma pluma, os dedos do médico percorreram os fios do corpete, desamarrando-o. Retirei-o, utilizando do vestido para cobrir os seios. Aquilo era constrangedor.
— Não há nada de errado com suas costas Vossa Alteza, o que é uma ótima notícia, considerando-se os problemas que seu avô Clarkson possuía. — ele comentou, pondo-se à minha frente. — Perdão por isso, mas preciso confirmar ou não a existência do câncer de mama. Desde que sua tia May teve de ser tratada, sua mãe...
— Tudo bem, entendi. — resmunguei. — É só que... Isso é embaraçoso.
— Não se preocupe com isso, senhorita. — ele sorriu, retirando o vestido de minhas mãos. — Ainda que eu não fosse um médico profissional, não teria reação alguma ao ver uma mulher nua à minha frente.
Tudo bem, o castelo estava infestado de gays. E eu poderia apostar que o boy magia de Gabriel Leger usava jaleco.
— Bom dia, senhoria Schreave. — Nathan Archbald, o professor de música, sorriu ao me cumprimentar. — Vejo que finalmente a senhorita decidiu trabalhar no dom que tem.
— Digamos que meu pai só não decide o que eu visto. — fiz piada, para descontrair. Eu precisava mudar a imagem de esnobe que o professor possivelmente tinha de mim. — Como passou essas semanas?
— Muito bem, é claro. — Nathan sorriu, colocando as partituras diante de mim. Eram relativamente simples, ainda mais se levar em conta que já conhecia aquelas músicas. — E a senhorita? Aposto que mal tem tempo para respirar.
— Em outros tempos eu concordaria com o senhor. — comecei a tocar, sem nem mesmo olhar para os papéis à minha frente. — Sabe, ninguém nasce sabendo como ser uma princesa, muito menos uma rainha. Levei certo tempo para isso, e se me arrependo de algo, é de ter imposto a mim mesma esse estilo de vida desde pequena. Agora que tenho dezoito, eu levaria poucos meses para aprender tudo. Mas levei anos da minha infância.
— Parece complicado ser uma princesa. — ele suspirou, no sentido de um desabafo. — Eu definitivamente não seria um bom príncipe.
— Bons príncipes não são os que se portam bem, senhor Archbald. — sorri. — Bons príncipes são os que têm bons corações.
Passei o resto da aula em silêncio. Nathan queria me mostrar como fazer música: conversão de escalas, formato de orquestra, como o formato e o material do instrumento interfere na sonoridade e mais mil e uma coisas que eu provavelmente deveria saber que não faltasse a todas as aulas. O professor possivelmente queria repor todo o atrasado, eu não o culpava por isso.
Ao final das duas horas de prática e teoria, meus dedos já não aguentavam mais o movimento das notas e o peso da caneta. Eu os estalava constantemente, mas nem mesmo esses estalos eram o suficiente para fazê-los parar de doer. Senhor Archbald provavelmente notou isso, pois puxou sua cadeira para mais perto do piano e pediu que eu estendesse as mãos.
— Onde dói? — perguntou, tocando-as delicadamente. — As juntas?
— Sim, ente as falanges proximal e média. — mordi o lábio, vendo-o acariciar em círculos os locais doloridos. Com a repetição dos movimentos, as dores foram se amenizando.
— Ficando melhor? — ele perguntou, ainda olhando para meus dedos. — Se não estiver, tente passar uma pomada de cartilagem de tubarão. Vai gelar um pouco, mas o alívio depois é melhor.
— Já estão bem melhores, senhor. — sorri. — Obrigada.
— Interrompo alguma coisa? — Rose pigarreou ao nosso lado. Havia se materializado ali. — Posso voltar mais tarde, se quiserem.
— Na verdade, minha hora aqui já acabou. — sorri. — Nos vemos amanhã, senhor Archbald?
— Na verdade, Vossa Alteza, creio que somente em dois dias, na segunda. — ele sorriu. — Não se esqueça da pomada.
Levantei-me, acenando positivamente. O olhar de Rosemarie sobre mim não era dos melhores. Será que ela acreditava que eu estava tenho um caso com nosso professor? Sem chance. Nota mental: esclarecer a situação o mais rápido possível.
Da sala de música, fui direto ao segundo andar. Andrew dissera que era para eu passar em seu quarto, pois queria me mostrar algo de sua varanda. Não consegui, contudo, ver o que era. Os guardas insistiam em não me deixar entrar, o que nos levou a ter um encontro na biblioteca. Por incrível que pareça, montar um quebra-cabeça de quinhentas peças não é o pior encontro do mundo. É bem divertido quando os dois são péssimos e ingeriram uma concentração absurda de café.
— Sério, eu desisto. — joguei minhas peças para longe. Uma hora e mal havíamos montado as beiradas. — É impossível!
— Acho que precisaremos de mais algumas dezenas de encontros até completar o quebra-cabeça. — ele sorriu. — Dá azar deixá-los incompletos, você sabe.
— Na verdade, — sorri — nunca tinha ouvido isso antes.
— É uma crença holandesa. — ele sorriu. — Na verdade não é, mas eu sou o príncipe, posso inventar uma crença para conseguir algumas horas do seu tempo, se for preciso.
O comentário fez-me rir. Olhei para o relógio na parede mais próxima: deveríamos descer para o almoço em dez minutos. De fato, eu sairia mais vezes com Andrew até o fim da Seleção, e como Maxon queria a formação de uma elite, o holandês estaria nela. Algo sobre Aaron, porém, fazia-me sentir culpada por mantê-lo aqui.
— Acho que temos que ir. — mordi o lábio. — Não gosto de me atrasar, todos os olhares recaem sobre mim.
— Tudo bem... — ele se colocou à minha frente, seu corpo impedindo a passagem do meu. — Assim que você me der um beijo.
Comecei a rir. Eu poderia ver aquela malícia saudável em seus olhos. Admitisse eu ou não, Andrew Van Persen conseguia me deixar feliz com mais frequência que muitos príncipes por aí, e tinha certo favoritismo meu. Entretanto, eu pertencia a Aaron, ainda que eles não soubessem disso. Coloquei minhas mãos em sua nuca e beijei-lhe a bochecha, ainda rindo.
— Você se dá melhor quando rouba. — brinquei, descendo as escadas com ele atrás de mim.
Era estranho descer as escadas e encontrar poucos príncipes. Não exatamente poucos, mas menos da metade, desde o início da Seleção. De fato, nós nem percebemos o quão rápido eles foram deixando o palácio, então era um choque ver o salão assim... Com menos homens. Agora que só restavam dezessete deles, alguns laços de amizade foram se fortalecendo. De certo modo, isso era importante para estabelecer uniões econômicas e diplomáticas entre os países, o que adiaria uma possível Quinta Guerra Mundial.
Assim que Andrew desceu as escadas, encaminhou-se para o mesmo círculo que estavam Kyle West, Daniel Blue e Nicholas Danbrook. Ao longe, Arthur Gravesen parecia ter uma conversa séria com Patrick Hampson e Louis Delfont, provavelmente tentando adicionar a Noruécia e a Áustria ao bloco econômico dinamarquês. Jeremy Delano, Julian Arnold e Bryan Everhart sentavam-se próximos em algumas poltronas do salão principal, e riam de alguma piada interna a eles.
Todavia o que mais me preocupava, dentre todos esses grupos, era aquele formado por Caleb Vermont, William Davis e Matheo Delacroix. Eu não confiava em nenhum dos três, e uma possível união deles traria problemas à Seleção, sem dúvida alguma.
Durante o almoço, troquei algumas ideias com minha irmã sobre o possível motivo de nosso pai ter marcado uma reunião tão em cima da hora, e nós duas chegamos à mesma conclusão: Maxon Schreave planejava que formássemos uma Elite. Há semanas que a população clamava por isso, e só Deus e nós duas sabíamos como papai poderia ser impaciente.
— Não sei se estou pronta para isso. — Rosemarie comentou, brincando com a comida em seu prato. — É claro que eu já tenho meus favoritos, mas... Não sei.
— Criar a Elite implica uma aproximação com eles, Rose. — sussurrei. — Será muito mais difícil enganá-los sobre meu relacionamento com Aaron.
— O que vamos fazer? — ela tomou mais um gole se suco. Parecia nervosa. — Cinco nomes você, cinco nomes eu. Pode ser?
— Não quer escolher os dez? — perguntei. — Não faz muito sentido que eu escolha, também. Já fiz todas as escolhas possíveis.
— Não sei se tenho mais que cinco nomes, de qualquer maneira. — ela deu de ombros. — Além disso, Alexa, é bom ter uma segunda opção no caso de tudo dar errado.
— Vocês são pessimistas demais. — Eu nem queria cogitar a possibilidade das coisas saírem do eixo.
Kyle West era tão engraçado quanto seus chocolates eram bons. Depois que quase quarente minutos treinando esgrima comigo, suas piadas atingiram um nível tão terrível que era impossível não rir. Sentei-me no chão e joguei o sabre de lado, retirando o capacete e tentando conter as gargalhadas. Incrível quando as melhores piadas são aquelas sobre coisas que não devem ser motivo de piadas.
— Você já está ficando vermelha. — ele se sentou ao meu lado, também se livrando de algumas partes do uniforme. — Sério, chega a ser mais engraçado que a própria piada.
— Como ousa zombar de mim?! — brinquei, respirando com dificuldade. — Por favor, senhor West, não me faça rir mais, já estou com dores.
— Tudo bem, acho que foi o suficiente por hoje. — ele deitou no chão, sem desviar seus olhos azuis dos meus. — O que achou dos chocolates?
— Divinos. Sublimes. — sorri. — E diversos outros adjetivos sinônimos, mas que eu não conseguiria citar porque meu cérebro está sobrecarregado ao conter minhas risadas.
— Fico feliz que tenha gostado. — ele se levantou. Nitidamente, algo o inquietava. Segurou minha mão, ajudando-me a me levantar também. — Vossa Alteza é uma excelente esgrimista, se me permite dizer.
— Não me chame de Vossa Alteza, sinto-me velha. — sorri. — E eu acho que já lhe disse isso alguma vez, porque acabei de ter um déjà vu.
— Perdão, não estou acostumado a ter certa intimidade com outras pessoas da realeza, que não minha família.
— Conheço a sensação. — guardei o sabre e o capacete, encaminhando-me para o vestiário. — Um minuto, sim?
É claro que eu levei mais de um minuto para tomar uma ducha e me vestir, e Kyle West sabia disso. O belga aproveitou para se limpar e se trocar, também. Quando o vi novamente, no salão principal, ele estava como na primeira vez que eu o vi: terno em mãos, camisa dobrada até os cotovelos, gravata frouxa e os suspensórios escuros mantendo a calça no lugar. Suspensórios eram um charme, em minha opinião, e nem todos os príncipes os usavam. Seus cabelos molhados estavam arrepiados, e era divertido vê-lo assim, tão informal quanto um príncipe pode ser.
— Creio que nosso tempo esteja no fim. — ele comentou, com um suspiro. — Mas realmente espero que possamos brincar mais algumas vezes.
— Brincar? Por favor, o senhor já pedia por minha clemência no último duelo. — provoquei. — Não venha me dizer que era encenação e que me deixou ganhar de propósito.
— Posso me cansar facilmente na esgrima, entretanto asseguro-lhe que tenho muito mais disposição para outras práticas físicas. — Kyle olhou-me com malícia. — Quer uma prova?
— Acho que podemos deixar para uma próxima, não? — saí do centro de treinamento, sendo seguida por ele.
— Se mudar de ideia — ele sussurrou ao pé de meu ouvido, segurando-me por trás com uma mão em minha cintura — é só chamar.
Deus, por que esses homens tinham que ser tão tentadores?
Voltei ao meu quarto com remorso por esse pensamento. Não importava o quanto amasse Aaron e fosse fiel a ele, a mera ideia de ter outros príncipes em minha mente fazia com que eu duvidasse se eu era o suficiente para o inglês. Será que ele pensava em outras garotas, agora que não passávamos mais os dias juntos? Eu não tinha como saber. Ele não me respondia mais.
— Antes que me pergunte — Gabe se pronunciou, entrando em meu quarto e fechando a porta logo atrás de si — eu não tenho notícias dele.
— Imaginei. — comentei, abrindo um espaço na cama. — Deite-se aqui comigo.
— Não acho que devo. — ele riu, momentos depois se jogou ao meu lado, puxando-me num abraço firme. — Como você está, Alexa?
— Definitivamente, numa semana péssima. — virei-me de modo a ficar de frente para ele. Seus olhos verdes fitavam-me com uma expressão de dó. Era de partir o coração. — É uma pena que você jogue no outro time, eu poderia ter me apaixonado por você, em vez de Aaron, e as coisas seriam mais simples.
— E então não teria um amigo viado. — ele fez piada. — Fale sério, não é esse o sonho de consumo de qualquer garota?
— Idiota — revirei os olhos, rindo. — Aliás, senhor Leger, eu descobri quem é seu boy magia, e não adianta negar porque sei bem que ele faz seu tipo. O doutor Hudson é um belo partindo, hein.
— Deus, Alexa, só não á espalhar para Illéa inteira que estou pegando o médico da Família Real, isso me traria problemas.
— Você é o guarda da Família Real, por que infernos isso lhe traria problemas? — perguntei, brincando com as medalhas em sua farda.
— Porque meu pai nem suspeita de nada. — ele suspirou. — Não sei como contar. Alguma dica?
— Que tal não contar? — encarei-o. — Você sabe, é muito melhor ser feliz em segredo. As pessoas não podem destruir o que não sabem.
— Parece um ótimo conselho. — ele riu. — Típico de uma Singer.
— É um ótimo conselho porque é meu. — brinquei. — Mas, então... Qual de vocês é o passivo?
— Você não perguntou isso...
— Ah, sim, eu perguntei. — provoquei.
— Diga-me, então, senhorita Schreave. — ele se jogou em cima de mim, prensando-me entre a cama e seu corpo. — Eu tenho cara de passivo? — Definitivamente não, pensei, mas me mantive em silêncio. — Ótimo, foi o que imaginei.
Gabriel começou a dar risada, e voltou a ocupar sua posição ao meu lado. Depositou um beijo em minha testa e se levantou logo depois, ajeitando a farda e o cabelo bagunçado. Sorriu ao longe e sussurrou um “cuide-se”, antes de sair e retomar seu posto na guarda.
Fiquei tanto tempo perdida em meus pensamentos durante o banho que minha pele até enrugou. Lorena e Iris estavam incomodadas com a minha demora, entretanto eu não me importaria em atrasar para uma reunião com meu pai que tanto eu quanto Rose gostaríamos de evitar.
Optei por usar um dos vestidos dados por Daniel, e escolhi um verde escuro, com um decote em tiras que valorizava meu busto. Era longo, com a cintura marcada e as costas aparentes. Lindo, sem dúvidas. O príncipe italiano conhecia bem demais os meus gostos. Enquanto Iris fazia uma maquiagem clara em mim, Lorena trançava as das laterais do meu cabelo na diagonal, deixando com que as camadas de baixo do cabelo caíssem em cachos soltos por meus ombros. Levando em conta o trabalho detalhista das duas, minhas expectativas estavam certas: a Elite seria formada hoje.
— Preparada? — perguntei à minha irmã, ao mesmo tempo em que segurava o braço direito de Gabriel, e ela o esquerdo.
— Não exatamente. — ela estremeceu em seu vestido rosa. Poderia apostar que fora um presente de Daniel. — E você?
— Pra mim tanto faz. — dei de ombros. — Se pudesse, mandaria todos embora.
— Não é o que pareceu nessa última semana... — Gabe comentou, recendo meu olhar de fúria momentos depois. — Quero dizer, vocês estão tão sexys nesses vestidos que quase tenho vontade de virar hétero.
— Não adianta tentar se redimir, senhor Leger. — soquei-lhe o ombro.
— Mas obrigada pelo elogio. — Rosemarie complementou. — Preciso conquistar alguns corações.
— É uma pena que certo homem aí não tenha ouvido isso. Aposto que eu teria muito mais trabalho para colocar você no quarto dele que...
— Cale. A. Boca. Gabriel. — Rose corou.
— Que história é essa?! — perguntei.
— Nada demais. — minha irmã resmungou, e Gabe nos deixou na porta do escritório de papai.
Era a hora.
Maxon ainda não havia chegado. Cada uma de nós sentou-se em uma poltrona. Diante de nós, dois pedaços de papel e duas canetas-tinteiro estavam dispostas de modo tão simétrico que chegava a ser ameaçador. Uma rápida olhada para minha irmã confirmou minhas suspeitas: papai nos faria escolher naquele momento.
Segundos depois, a porta se abriu. Ele entrou usando um fraque bege, com abotoaduras douradas e uma camisa azul-marinho por baixo. Tinha um sorriso nos lábios, mas a preocupação nos olhos. Atrás dele, mamãe usava um vestido amarelo de mangas. Ambos se sentaram à nossa frente.
— Eu sei que vocês duas são espertas o suficiente para saberem do que se trata essa reunião, meninas. — papai começou, suas mãos passando nervosamente pelo cabelo grisalho. — Conversei com sua mãe sobre isso, e chegamos à conclusão de que não poderemos mais enrolar com essa Seleção. Um ataque dos rebeldes é eminente, e quanto mais pessoas pudermos tirar desse castelo, melhor.
— Felizmente vocês não sabem o que é um ataque sulista. — America se pronunciou. — Foram os sulistas que atiraram em mim, em seu pai, e em Aspen, o pai de seu melhor amigo. Eles tiraram a vida de vários guardas, e de ex-integrantes da Seleção. — engoli em seco. Como falar que já sabíamos de tudo isso porque lemos o diário dela? Melhor não falar. — Eles não perdoam ninguém, Alexandra e Rosemarie. Ninguém.
— Quando os ataques começaram, durante a minha Seleção, não demorei a montar minha elite. — papai voltou a falar — Se soubesse dos ataques, porém, teria montado ainda antes. É por isso que peço à vocês: escolham suas preferências agora. Cinco nomes cada.
— Tudo bem. — suspirei, debruçando-me sobre o papel e vendo minha irmã fazer o mesmo. Com a letra trêmula, escrevi cinco nomes: Andrew Van Persen , Daniel Blue, Kyle West, Arthur Gravesen e Nicholas DanBrook. — Aqui estão.
Rose ainda parecia pensar exatamente em quem colocar na dela. Minutos depois, entregou sua lista. Maxon pegou os dois papéis e os encarou, suas sobrancelhas se unindo em uma expressão confusa.
— Tem um príncipe em comum. — ele suspirou, entregando-nos novamente os papéis. Olhei a lista de minha irmã, enquanto ela olhava a minha: Caleb Vermont, William Davis, Dimitri Ivanov, Kyle West e Patrick Hampson. — Parece que vocês duas gostaram do senhor West.
— Ele é encantador. — dei de ombros. — Mas é o quarto na lista de Rose, e o terceiro na minha. Pela ordem, creio que minha irmã deva escolher alguém para substitui-lo.
Algo como uma expressão de alívio passou no rosto de minha irmã. Ela provavelmente tinha deixado de fora alguém que queria dentro. Rapidamente seus dedos rasuraram o nome do belga e escreveram um sexto nome, que não pude ler antes que papai pegasse os dois papéis e os guardasse em seu bolso.
— Faremos o anúncio após o jantar. Estão dispensadas.
Saímos para o salão. Pelo menos quinze dos dezessete príncipes já estavam lá. Será que eles sabiam, ou sequer imaginavam o que estava prestes a acontecer? Quantos dos sete eliminados já esperavam por isso? Para quantos deles a eliminação seria um choque? Eu não saberia dizer.
Uma mão firme segurou a minha, auxiliando-me a descer as escadas. Mesmo sem olhar nos olhos do dono delas, sabia que se tratava de Daniel Blue. O toque quente e protetor era uma característica do Italiano. Sorri e me deixei ser conduzida por ele até um dos cantos do salão, distante de grande parte dos príncipes. Blue entendia minha necessidade de privacidade, essa era uma de suas maiores qualidades.
— Se soubesse que ficaria tão bela em um vestido como esse, teria lhe dado mais uma dúzia deles. — ele sorriu, beijando o nó de meus dedos. — Como passou o dia?
— Sem traumas, acho. — meu sorriso se alargou ao encontrar o dele. — E o seu dia, como foi?
— Muito mais divertido do que seria se eu não tivesse ganhado uma metralhadora. — Daniel brincou. — Treinei um pouco da minha mira com os guardas hoje cedo. Pensei em chamá-la para a esgrima, mas me disseram que você iria treinar com o belga, então...
— Sim, ele já havia chamado há um tempo, então decidi lhe dar uma chance. — dei de ombros. — Contudo, atirar por aí é bem mais divertido.
Eu estava flertando com Daniel?
— Poderíamos atirar por aí amanhã, então. — o italiano piscou para mim, e não pude deixar de rir. — O que acha?
— Seria ótimo, mas temos outro compromisso. Uma sessão de fotos com todos os príncipes. Talvez dure o dia todo.
— Você o Rosemarie vão ter que tirar foto com todos os dezessete príncipes? — Daniel perguntou, em choque.
— Na verdade, só com os dez da Elite. — sorri. Daniel segurou minha mão.
— É um ótimo presente de aniversário. — ele comentou, seus olhos encarando os meus, profundamente.
Deus, que ele não tentasse me beijar, porque eu deixaria.
— É hoje? — perguntei.
— Amanhã, na verdade. — sua outra mão colocou uma mecha de meu cabelo atrás da orelha. — Eu quero beijar você, mas tem muita gente olhando para nós nesse exato momento. Creio que seja melhor quando tivermos um momento a sós.
— Sim, com certeza. — sorri. — Acho melhor irmos para o jantar. Boatos que haverá um anúncio importante hoje.
O jantar foi relativamente calmo. Aparentemente, com exceção de Daniel, os príncipes não notaram nada de diferente no ambiente. Após retirarem os pratos e servirem a sobremesa, meu pai tirou um papel do bolso. Esperou até que todos terminassem suas refeições e se levantou.
— Vossas Altezas — ele pediu a atenção —, é com muito prazer que acolhi todos vocês em minha casa durante esses últimos meses. Alguns eu já conhecia por conta de minha relação com seus pais, outros conheci apenas durante esse curto período. Mesmo assim, passei a enxergar todos como meus filhos, porque é a dois de vocês que os corações de minhas filhas pertencerão. — Maxon suspirou. — Contudo, dezoito desses príncipes já deixaram a competição, e hoje é o dia de mais sete partirem. Essa é a formação da Elite: os dez príncipes preferidos. Àqueles que não foram escolhidos, peço que façam suas malas e partam ainda hoje, para sua própria segurança. Aos escolhidos, lembrem-se de que cada um tem vinte por cento de chance de se casar com uma princesa, mas que a competição, a partir de hoje, torna-se mais acirrada, e as regras mais rígidas. Vocês passarão por testes e provações a todo instante. Estejam preparados. Os príncipes escolhidos, por ordem de distrito, são: William Davis, Dimitri Ivanov, Andrew Van Persen, Nicholas DanBrook, Patrick Hampson, Caleb Vermont, Matheo Delacroix — ESPERE, O QUÊ?! — Daniel Blue, Kyle West e Arthur Gravesen.
— Essa é uma nova fase, meninos. — mamãe se pronunciou. — Aproveitem para fortalecer seus laços de amizade, independente de quem seja o vencedor. Porque é dessa competição que vocês levarão os amigos para a vida toda. Estão todos dispensados para seus aposentos.
— Matheo Delacroix, Rosemarie, sério?! — sussurrei, enquanto nos levantávamos da mesa. — Tantos príncipes para escolher e você escolhe... Aquela coisa?
— Se seu coração já tem dono, por que se preocupa com ele? — minha irmã sorriu, a maldade brilhando em seu olhar. Achei por bem não respondê-la.
— Preciso de um porre. — suspirei. — Beber até cair.
— Não é a única. — ela me encarou. Momentos depois, correu em direção ao escritório de papai e retornou com uma chave, que rapidamente escondeu no decote do vestido. — Avise à Elite que teremos uma festinha de comemoração no Salão dos Homens.
E realmente foi uma festa. Doze pessoas, vinte e seis garrafas de champanhe vazias. Oito garrafas de whisky. Catorze de vodca. E uma ressaca infernal.
Quando acordei na manhã seguinte estava desorientada. Minha cabeça doía, meu corpo doía e até mesmo minha alma doía. Os passos de Gabriel no corredor faziam meus ouvidos doerem, e a luz que entrava pelas frestas das cortinas desorientava-me. Quase morri quando as criadas invadiram meu quarto, tirando-me da cama e me preparando para a sessão de fotos. Aquilo era torturante.
— Estou péssima. — já respondi à pergunta de Gabriel, antes mesmo que ele a fizesse. — O que tem aí para alegrar meu dia?
— Eu... — ele suspirou. — Melhor deixar para depois.
Não. Ele não iria deixar para depois.
— Não me faça usar aquele spray de pimenta em você. — suspirei, pegando o pacote de suas mãos. Abri o primeiro assim que vi que se tratava de uma carta de Aaron.
Senhorita Schreave,
Primeiramente, gostaria de pedir perdão. Perdão por tudo que lhe prometi, e que agora sei que não poderei cumprir. Perdão por todos os sonhos idealizados a seu lado, e que agora não se tornarão verdade. Perdão por tê-la feito esperar por mim, quando não pude esperar por você.
Entenda: eu amo você, e sempre vou amar. Mas quando seu pai lhe deixa um último pedido em vida, não se pode simplesmente negar. Rei Charles pediu que eu me casasse com a filha do melhor amigo dele, caso ele morresse antes de eu poder me casar com você. E faz pouco mais de uma semana que ele se foi.
Perdão por não ter respondido àquelas cartas. Nada em mim doeu mais do que deixá-las ao vento, mas não tive outra opção se não criar essa distância para facilitar as coisas para você. Conversei com o soldado Leger. Ele é um bom garoto, prometeu-me que ajudaria você a seguir em frente. Se ainda posso lhe pedir algo por mim, é isso. Apaixone-se novamente. Aprenda a amar outras pessoas.
E dê essa aliança a seu filho, pra que ele, por sua vez, peça a mão de sua futura nora. Porque essa aliança é sinal de amor eterno. Eu amarei você por toda a eternidade, Alexandra. Mas aprenderei a amar minha futura esposa também. Talvez em outra vida possamos finalmente ficar juntos.
Siga sua vida, e eu prometo seguir a minha.
Com todo o amor do mundo,
Aaron Edward Thompson.
Eu não consegui entender a realidade da carta até ver o outro conteúdo do pacote. Um convite de casamento. Não tive a coragem de abrir e ver o nome que estava no lugar do meu. Não tive sequer a coragem de reler a carta. Coloquei tudo dentro de minha gaveta, e não chorei. Eu tinha uma maquiagem para manter intacta. Coloquei um sorriso no rosto e fingi que nada havia acontecido. Uma sessão de fotos e dez príncipes estavam à minha espera.
Talvez agora eles tivessem a chance com a qual sempre sonharam.
Porque a minha chance de ser feliz tinha acabado de me dar um adeus da forma mais dolorosa possível.
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