Two Crowns
15 Capítulo XIV
Notas iniciais

Era tarde de mais.
Aaron não. Ele não. Eu estava com a mão na boca, espelhando a mesma reação de Alexa. Não, ele não.
Os olhos de minha irmã estavam arregalados. Não sei se de pavor, de surpresa, mas... Silvia girava em minha mente. “Qualquer príncipe que se envolver em briga física com outro competidor será expulso, entenderam, meninas? Independente de quem começar a briga, esse tipo de comportamento é inaceitável”.
Não. Não quando Alexa e ele já estavam noivos. Não quando ela tinha conquistado sua felicidade. Não, isso não.
— Ah, não, Aaron. — Ouvi Caleb falar ao meu lado, enquanto sentia sua mão segurar meu cotovelo. Fez bem, eu estava quase caindo.
Olhei para Caleb, que tinha a mesma surpresa em seu olhar.
Mesmo que eu e Alexandra conseguíssemos convencer a rainha e o rei á manterem Aaron, em quaisquer outras circunstâncias, ele iria para casa. Estávamos sendo transmitidos em rede nacional nesse exato momento. Sem cortes. Tudo ao vivo.
Olhei para Heidi e Emma, as duas irmãs mais novas de Aaron estavam tão em choque quando Alexa.
Eu me arrependia de estar certa. A tempestade havia chego cedo de mais, e eu estava começando a ficar com raiva de metáforas.
Pelo menos Gabriel serviu para alguma coisa.
Ele tirou Miller de cima de Thompson, ficando entre os dois homens, que pareciam prontíssimos para continuarem a briga. Alexa continuava parada no mesmo lugar.
Olhei para meus pais, os dois pareciam em choque, mas estavam disfarçando muito bem.
Respirei fundo, em alguns segundos seria o foco de algumas câmeras novamente.
Caminhei até o lado de Alexa, falando baixinho.
— Precisamos tirar os dois daqui e dar, ao menos, a impressão de que eles serão mandados para casa. — Ela parecia, ainda, em choque. — Alexandra. — Chamei minha irmã pelo nome inteiro, fazendo ela piscar e engolir em seco, e então me encarar. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Ele vai pra casa, não vai? — Ela fechou os olhos com força, e eu pude ver, ali, na minha frente, o coração de minha irmã ser quebrado.
— Alexa, mesmo se ele for pra casa, ainda poderemos manter a Seleção, e quando ela terminar, você e ele podem se casar, com você dando a desculpa de que ele sempre foi o príncipe escolhido. — Ela me olhou, agora mais esperançosa. — Por favor, não permita que eles, a população, vejam que você está devastada. Ainda não estamos na elite, preferências ainda não são toleradas por completo. — Ela concordou, engolindo em seco.
— Não consigo falar. — Concordei, e olhei para os dois príncipes.
— Senhores, vocês na frente. — Aaron tentou encontrar com os olhos de Alexa, mas ela olhava para minhas mãos. Segurei sua mão por um instante, a apertando, e então deixei ela passar por mim.
Olhei para tia May, a primeira familiar que encontrei, e ela abriu um sorriso reconfortante.
Droga. Aaron não podia ir embora. Mas ele ia.
Gabriel e outros dois guardas, que me eram meramente conhecidos, levaram os príncipes e á mim e minha irmã até a sala que eu estudava música — e que, minutos atrás, estava ocupada.
Aaron e James sentaram-se com um espaço entre os dois, e Gabriel dispensou os outros dois guardas com apenas um olhar.
— Rose, você quer que eu fique? — Olhei para os dois príncipes na minha frente, pensando na pergunta de Gabriel.
— Fique do lado de fora da porta, por favor. Qualquer coisa eu ou Alexa lhe chamaremos. — Meus olhos encontraram com os de Leger, e ele concordou, cauteloso.
Ele deu uma última olhada em Alexa, que estava em silêncio desde a saída do salão, e então saiu.
Engoli em seco, e então virei meu olhar para Alexa. Ela olhava para um ponto fixo entre os dois príncipes.
Ok, era hora de tomar minhas próprias decisões.
— Como vocês dois sabem, regras foram feitas para serem seguidas. E de acordo com as regras que constituem a Seleção em que os senhores se encontram, brigas são extritamen...
— Vá ao ponto final, Rose. — Aaron falou, desgostoso. — Nós vamos embora.
— Por favor, Vossa Alteza. — Pediu Miller. — Não foi culpa minha, você sabe que eu estava apenas defendendo a senhorita... — Ele falava com Alexa, e não comigo, então, não havia muito que eu pudesse fazer. Ela levantou completamente o olhar, encarando James por cima.
— Não há nada que me faça querer você aqui. — Sua voz soou fria, tão fria quanto eu jamais havia escutado. — Senhor Miller, você não faz ideia do que fez, não é? Sinto lhe informar, mas eu estava dançando com meu futuro marido. Casamento o qual o senhor destruiu. — Os olhos de James se arregalaram.
— Mas... Eu...
— Você nunca teve chances, Miller. Supere. — Falei, soando fria, não tanto quanto eu gostaria, mas o suficiente. — Irei conversar com Maxon e America, sobre a decisão final, afinal, estamos falando do que iria acontecer, mas... — Olhei para Miller. — Você pode fazer suas malas. Foi você quem iniciou a briga, então não há chance alguma de redenção, mesmo que lhe defendêssemos fronte ao rei. — James abaixou a cabeça, parecia completamente desolado. Olhei para Aaron. — Aproveite o tempo que tem com sua garota, Thompson. Vou tentar mudar isso. — Ele abriu um sorriso amigável para mim, mas levando em conta que seu rosto estava inchado, e o canto de sua boca estava com sangue, assim como um roxo perigoso por volta, não foi muito bonito.
Fui até a porta, esperando James se levantar. Ele passou por Alexa, que ignorou ele por completo, enquanto Aaron se levantava. Rápido, Miller, rápido. Abri a porta, deixando o príncipe ir na frente, e então a fechei. Não fui rápida o suficiente. Consegui ouvir os soluços de Alexa.
Gabriel me encarava, questionador e curioso.
— Vou falar com Maxon, talvez... Talvez... — Eu sentia meu corpo cansado. Estava tentando salvar o relacionamento de minha irmã, e sabia que não ia conseguir. Sabia que ia falhar.
— Rose... — Gabriel me abraçou, passando a mão pelo que podia de meus cabelos. — Tente, mas se não conseguir...
— Eu sei, eu sei. Não é culpa minha. — Me afastei, respirando fundo e levantando a cabeça. — Posso não ser a futura rainha de Illéa, mas vou barganhar como tal. — Gabriel sorriu.
— Essa é uma das minhas garotas.
Revirei os olhos para ele, e então me virei, sentindo o vestido balançar enquanto voltava até o salão.
Todos os olhares se voltaram para mim.
Fui até Maxon, parando ao seu lado.
As câmeras pareciam focar na dança, mas os homens por trás delas sequer seguiam os passos dos príncipes dançando. Eles seguiam os meus passos.
— Posso falar com você? — Ele concordou, soltando a mão tensa de minha mãe, e nós dois saímos dali, sendo seguidos pelas câmeras, enquanto vários jornalistas presentes comentaram “O que está acontecendo, então?” “Será que os dois príncipes ficarão?” “Talvez teremos a elite montada nesta linda noite”. Eles já não se importavam em fazer perguntas, e também pareciam curiosos em entrevistar príncipes. Mas uma das ordens dadas á aqueles homens era: nada de entrevistas com os príncipes.
Mas, seja lá de onde eles tiravam tantas informações, eles eram bons. Realmente bons. Manteriam o povo entretido até que uma solução fosse tomada, era isso o que sempre faziam, afinal.
Enquanto caminhava pelo primeiro andar, indo pelas escadas, vi Nathan e Gabriel conversando num dos corredores.
O que meu amigo gay e guarda pessoal estava fazendo com meu... Nathan?
Os dois me seguiram com o olhar, e então sumiram de minha vista. E então continuei seguindo meu pai até seu gabinete, onde nem me dei ao trabalho de me sentar.
— Mantenha Aaron.
— Não posso fazer isso, Rose.
— Por favor. Por Alexa. Por mim. — Ele massageou as têmporas, ao que parece, não era o único com uma dor de cabeça chegando. — Ela estava tentando, os dois... estão apaixonados, eles... Pai, por favor. Como pai, por sua família. Não como rei. — Ele fechou os olhos.
— Eu temia o dia em que ser rei e ser pai colidissem. — Admitiu, e então me olhou nos olhos. Ele não ia aceitar. — Rose, amo você e sua irmã, e sei que está aqui porque se importa com ela, mas não posso fazer isso. Sei que você entende, e sei também que quer o melhor para Alexa, assim como eu, mas não posso simplesmente infringir uma regra, que é de anos na Seleção, por causa dos sentimentos de sua irmã por um príncipe.
— Isso não é o suficiente? — Eu sabia que provavelmente estava perdida, mas não me importava, ia tentar até o último centésimo possível. Alexa merecia isso.
— Como pai? Eu já teria permitido o casamento. Como rei? Não posso. Se Aaron se mantivesse na linha até o fim da seleção, eu poderia aceitar, ou até que seu pai falecesse e ele fosse obrigado á subir no trono. Mas... Com uma briga, Rose? Em rede nacional! É simplesmente inaceitável. Regras seriam quebradas, e mesmo que eu ás quebrasse, continuamos em rede nacional. Sinto muito, filha, mas não há nada que eu possa fazer. — Engoli em seco.
— Eles estavam noivos. — Ele trincou os dentes. — Ela admitiu para mim hoje, no almoço. Não sei se você notou as alianças, mas... Por favor, Maxon. Por favor.
Eu estava perdendo a barganha.
Céus, como eu seria uma péssima rainha.
— Aaron Thompson, herdeiro da Inglaterra, está indo embora. — Ele falou, desviando o olhar de qualquer tentativa minha de olha-lo nos olhos. — Fim, Rosemarie. Ainda temos outros vinte e três príncipes para que ela sinta algo.
— E se nenhum deles for o suficiente?
— Então ela escolherá o melhor para o nosso país. — Ele não obteve resposta, exceto pela porta de seu gabinete batendo com força.
Como eu diria para minha irmã que tudo o que ela sempre quis era a única coisa que não podia ter?
Parei no corredor, tentando me acalmar. Não podia parecer irritada na festa, sequer dar uma dica, e não tinha nenhuma outra chance. Todas as minhas cartas na manga haviam sido postas na mesa, e mesmo que eu falasse com minha mãe e ela aceitasse, meu pai jamais voltaria atrás após uma decisão, exceto se envolvesse alguma morte, o que não era o caso. Bem, eu duvidava que Alexa tentaria se matar... Acho.
Fui até o primeiro andar, respirando fundo. Precisava dar a notícia para Alexa, mas precisava também lhe dar alguns minutos finais com Aaron. Por sorte ou coincidência, encontrei com Gabriel pouco antes das portas que levavam ao salão em que a festa estava acontecendo.
Ele concordou com a cabeça, entendendo tudo apenas pela minha expressão.
— Eu contarei á ela, Rose. — Concordei, agradecendo. — E, hm... — Ele suspirou, se aproximando e passando a mão pelo meu rosto, enquanto eu abria um sorriso triste. — Você pode não ser a sucessora, pode não ser a mais responsável e pode adorar fugir no meio de uma festa, para pegar algum desconhecido, aposto, mas... Você foi uma rainha nesses últimos minutos, e mesmo que você não suba no trono... O que eu quero dizer é que você é capaz de levantar a cabeça, encarar tudo aquilo ali por você e sua irmã, e ainda sim mostrar que é capaz de todo o resto. Você planejou essa festa, você fez isso, e você merece. Alexa lidará com tudo á seu tempo. Quando ela estiver melhor, ela irá para a festa. — Mas seu olhar dizia que minha irmã não iria tão cedo para nossa festa de aniversário.
Quem diria que fazer dezoito anos poderia ser tão catastrófico.
— Obrigada, Leger. — Pisquei para ele. — E não roube meu garoto. — Ele estreitou os olhos.
— Quem é seu garoto? — Perguntou, curioso. Ah, ele não sabia.
— Tudo á seu tempo. — Fui até as portas, esperando que ele ás abrisse, e antes de abrir, ele resmungou para mim.
— Isso não é justo, Schreave.
— A vida não é just... — Tive que parar de falar, interrompida pelas portas sendo abertas.
Abri um sorriso para as câmeras, enquanto Emma me puxou para um canto.
— E aí? Convenceu seu pai? — Olhei para ela, pedindo desculpas. — Ah, céus. Rose. — Ela suspirou. — Tudo bem, eles... Talvez ainda tenham uma chance, certo?
— Talvez — Falei, incerta. Olhei em volta nesse momento, vendo o olhar acusatório de minha mãe, e entendi que ainda devia algumas danças. — Preciso ir, Emma. Alexa está com Aaron agora, quando ela aparecer, você saberá que Aaron está em seu quarto. Em breve a informação de que os dois príncipes foram mandados para casa será passada e chegará em você. — Ela concordou. — Me desculpe. Juro que tentei. — Ela concordou, sorrindo, mas pude ver que estava um tanto quanto desapontada, apesar de não saber com quem. Eu não tinha certeza se queria saber, também. Não suportaria mais uma pessoa desapontada comigo, porque sabia que Alexa ficaria.
— Eu sei, Rose. Aproveite o que ainda pode de sua festa. — Abri um sorriso verdadeiro para ela.
— Obrigada. E Emma, você também. — Ela concordou, e me virei, sendo recebida por Kyle.
Meus pés estavam me matando.
— O que aconteceu com Aaron e James? — Olhei para Kyle, irritada, a música mais tinha começado. — Não quero saber se foram eliminados, quero saber porquê brigaram.
— Ah. — Falei, surpresa. — Aaron estava pedindo outra dança, mas seria a terceira, se não estou enganada, e, bem, James achou que Alexa não queria, e partiu para a briga.
Kyle me olhou como se isso não fosse verdade.
— Não acredito que James eliminou qualquer chance que lhe restava apenas por causa de uma dança á mais ou á menos. Existem inúmeros príncipes aqui que não dançaram com nenhuma das duas e o cara decide fazer isso.
— Cada um com seus propósitos. — Dei de ombros, enquanto ele me girava.
Aaron estava indo embora. Dois integrantes da seleção eliminados.
Miller não tinha mais chances, Thompson teria?
E ali estava eu, pensando em tudo o que havia feito para aquela festa.
Desde que havia acordado, não havia parado por um segundo.
Assim que acordei, tive de abrir todos os presentes, com algum problema, é claro.
O presente mais complicado de se abrir foi o de Daniel. Eram alguns vestidos de Milão, o mesmo presente para Alexa, mas eram completamente diferentes, de estilistas bem famosos, e também muito bem desenhados, assim como do estilo que eu apreciava — e também das cores.
Os príncipes haviam variado em presentes no que sabiam á respeito de mim e de Alexa, assim como tentavam deixar sua cultura incrustada nos presentes, também. Como William já havia me dado seu presente — e eu não estava usando-o, por questão de preferência, já que era isso que outros príncipes iriam imaginar —; Toil, Lands, Nightwell, Hampson e DanBrook deram joias, Kyle, numa demonstração muito inteligente de sua cultura, deu chocolates. Garanto que até Alexa tinha adorado prova-los. Se não, eu assaltaria seus presentes essa noite... Ou depois. Ela precisaria mais do meu abraço do que de mim roubando seus chocolates — ou até precisaria de meu abraço e de chocolates. DeLuca, Prado e Peterson, assim como Delano e Arnold, deram-me livros escritos nas línguas fluentes de seus países. Seria complicado lê-los, mas não impossível.
E agora vinham os melhores presentes, mesmo que um deles eu odiasse admitir, o mesmo que era Arthur Gravesen.
Ele havia me dado um diário.
Seria simples, é claro, e não havia mudado muita coisa, mas ele havia pego em um ponto bem sensível meu. Diários são coisas pessoais, coisas importantes, mantém segredos escondidos, mesmo que sendo facilmente encontrados, e além do mais, o diário em si era lindo. Eu provavelmente jamais encontraria um tão bonito quanto aquele. Ele tinha a capa dura, em couro, o mesmo couro que tinha uma coloração quase dourada, com uma coroa na frente, exatamente a cópia de nossa coroa, e abaixo estava escrito, em letras cursivas: “Rosemarie Schreave”.
Ele era bom, com certeza. Havia um bilhete junto á seu presente:
Á mais bela rosa das rosas.
Com amor, Arthur.
Toda a demonstração incrível do que sentia por mim, obviamente, me deixou com ainda mais raiva, mas eu não podia negar que seu presente era um dos meus favoritos. Perdendo apenas para Aaron, e para Caleb, pelo valor emocional do presente que o último havia me dado.
Aaron também não se saiu nem um pouco mal. Aí estava um presente que Arthur conseguiria me conquistar por completo: presenteando-me com cavalos.
Aaron havia me dado um Hunter, na realidade, uma variação da raça bem pouco encontrada nos dias de hoje, um Thoroughbred. Era um cavalo que eu sempre sonhei. Tinha visto algumas poucas fotos. E se eu não me engano, tinham apenas cinquenta de sua raça por todo o mundo. Se Kevin DeLuca fosse próximo á mim, também poderia ter me dado esse cavalo. Ele era apenas criado na Inglaterra e Irlanda. No passado, há informações de que essa raça era bem comum entre as pessoas, até popular, hoje, é uma das mais caras e mais peliculares. Era uma honra ter um cavalo desses. E agora eu tinha.
Chamem-me de interesseira, mas aí estava outro motivo para Aaron ficar.
E então veio um presente ainda mais importante, não com tanto valor monetário, mas sim com valor emocional. Apesar de que o primeiro não deve ter tido números muito baixos, aposto.
Até onde eu sabia, ele havia dado um quadro para Alexa, e para manter o mesmo padrão, também me deu um. Mas não era o quadro em si que eu havia gostado — apesar de ser lindo e caro —, era a outra coisa.
Caleb havia me dado uma caixa com exatos trinta perfumes. Dentro dela, havia uma carta. Um pequeno bilhete falando apenas isso:
Se nos casarmos — estou sendo positivo, não destrua isso — darei muito mais do que esses meros perfumes para você. Escolha quantos quiser, ou todos. São seus. Meu coração também.
Eu não conseguiria esquecer isso.
Voltei para a realidade assim que troquei de par, era a vez de Daniel Blue. Ele abriu um sorriso enquanto me girava. Italianos eram bons na música, muito bons. Claro que não tão bons como os franceses, como o próprio Caleb havia se gabado, mas o suficiente para praticamente me derrotar na pista de dança.
— Gostou dos vestidos?
— Adorei. Todos eles são lindos. — E foi com ele que todos os príncipes souberam que Aaron Thompson e James Miller estavam oficialmente fora da competição.
Enquanto dançava com outro par — dessa vez, não um príncipe, mas sim com meu pai —, vi Nathan.
Não pude deixar de sorrir, mas virei o rosto rapidamente, disfarçando.
Enquanto todos dançavam, presos á dança de minha irmã, também, eu estava com Nathan, na mesma sala que minutos depois havia sido utilizada para decidir o futuro de Aaron com Alexa. A mesma sala que os dois deveriam estar — ou não.
Nathan conversava com algum outro guarda que me era um tanto quanto desconhecido, mas fingia estar concentrado na música e dança que ocorria pelo salão. O guarda agia da mesma maneira, e Nathan não se importou em manter seus olhos em mim por alguns segundos.
Também me permiti essa pequena quebra de conduta, encarando-o, e então meu pai me girou lentamente, me levando diretamente para os braços de outro príncipe. Dimitri tentou me entreter por uma música inteira, mas eu agia um tanto quanto fora do ar.
Dancei mais algumas vezes, indo de príncipe em príncipe, e conhecendo suas famílias.
A família que mais gostei de conhecer foi a de Caleb, mas eu era um tanto quando suspeita ao dizer isso, afinal, ele era um dos meus favoritos.
Quando já eram quase três horas da manhã, Alexa apareceu. Ela parecia bem, a maquiagem parecia ter sido refeita e seu rosto estava impecável, tão impecável quanto seus olhos estavam frios. Ela não demonstrava nada.
Ela dançou com alguns príncipes, e uma hora após sua entrada na festa, a mesma foi sendo dispersada, com cada um seguindo seu caminho.
Todos os quartos do palácio estavam ocupados.
A família real ficou por último, Astra estava conversando comigo, com os últimos convidados saindo, mas tia May conversava com Alexa. Bem, ao menos tentava fazê-lo.
Maxon parou ao meu lado, falando baixo, para que os músicos e organizadores ainda presentes não ouvissem.
— Preciso de você e sua irmã em meu gabinete em quinze minutos. — Concordei com a cabeça, e ele foi até Alexa, interrompendo abruptamente o que May falava. Ela apenas deu uma olhada fria para ele. A mesma olhada que havia direcionado para minha mãe. Ela não iria nessa reunião.
America estava começando a sair do salão quando me parou.
— Quer alguma coisa para tomar? Sinto que sua reunião com seu pai deve durar um tempo.
— Um café. — Não era acostumada á tomar essa bebida, mas ela continha o que me manteria acordada por pelo menos as duas próximas horas seguintes.
Minha mãe concordou e parou em Alexa, comigo saindo dali.
Fui puxada para dentro de uma sala em segundos, vendo Nathan na minha frente.
— Você vai ficar com olheiras, sabia? — Provocou, enquanto eu abria um sorriso cansado para ele.
— Sinto informar á você, mas já às tenho. Você está um pouco atrasado quanto á isso. — Ele sorriu, me dando um beijo rápido. — Tenho uma reunião em alguns minutos.
Ele concordou, passando a mão pelo meu rosto num gesto bem parecido ao de Gabriel. Ele levantou meu rosto, me olhando no olho.
— Seja lá o que esteja acontecendo, você sabe que hora ou outra esses príncipes iam acabar brigando. — Desviei o olhar, observando a sala em que estávamos. Ela estava escura devido ao horário, e também ás cortinas grossas que pendiam em suas janelas, ela tinha algumas mesas e cadeiras, assim como algumas estantes, um quadro... Era a sala que os príncipes estudavam. Era a sala que Silvia ajudava-os em algumas coisas referentes aos nossos países e também tentava descobrir o quão interessados em política, economia e governo eles eram. Ela reportava tudo diretamente á mim e Alexa, mas também reportava á Maxon, como é o óbvio á se fazer.
— Não esses dois príncipes. — Foi tudo o que eu falei, avaliando a luz que vinha por trás das cortinas, entre suas frestas...
— Você estava envolvida com algum dos dois? Fiquei sabendo que o tal do Thompson lhe deu um cavalo que... — O interrompi com apenas uma frase, que poderia se insignificante em qualquer outra situação, em qualquer outra família, em qualquer outro lugar no mundo.
— Alexandra Schreave estava noiva de Aaron Thompson. — Mas não era. Essa frase emanava puro poder, assim como emanava o desastre iminente que podia ser um movimento errado dentre milhares de outros. A realeza parecia algo superior, parecia ser algo melhor, que nunca era atingido, que sempre seguia suas próprias regras sem sequer precisar pensar, que caso não seguisse, ninguém descobriria... Mas ela só parecia. A prova viva disso era Alexa. Até mesmo eu.
Um reinado podia ser tão frágil quanto vidro ao cair no chão. Um movimento errado e tudo se faria em pedaços que jamais seriam repostos corretamente. Nem que a pessoa mais talentosa do mundo conseguisse refazer o objeto anterior ele atingiria sua perfeição.
— Isso é um aviso para mim? Para nós? — Nathan perguntou, confuso e perdido com o que eu havia dito. Uma pequena frase com um sentido que mudava tudo.
Soltei um suspiro ainda mais cansado do que eu já me sentia.
— É um aviso para tudo, Nathan. Se até mesmo o futuro rei da Inglaterra, e a futura rainha de Illéa não puderam ter o que queriam, que era um ao outro, como poderia todo o resto do mundo estar á salvo? — Doía, mas era a verdade. Minha irmã estava em algum lugar desse local, provavelmente despedaçada, e também muito provavelmente apreciando todos os minutos que ainda lhe restavam com Aaron.
— Entendo. — Ele estava tenso, preocupado e distante. E com razão.
— Nada do que eu sinto por você mudou, mas a situação sim. — Olhei para ele como se pedisse desculpas. Ele concordou com a cabeça, depositando um beijo em minha testa, e então me virei, caminhando pela sala e ouvindo o barulho de meus saltos no silêncio da noite. Silêncio que horas atrás era impossível de acontecer. Não me permiti olhar para trás, não me permiti apreciar a visão da claridade entre as cortinas, não me permiti mais nada. Já havia me permitido por muito essa noite.
As portas se fecharam atrás de mim, e segui meu caminho até o escritório de Maxon. Dentro dele estavam alguns reis e rainhas. Alexandra também estava ali, próxima á Nicoletta. Segui seu exemplo, me sentando próxima ás duas.
A Rainha de Malta entrou, pedindo desculpas pelo atraso, e um rei chegou junto á outro, os dois conversando tranquilamente, e também pedindo desculpas. Índia e Egito.
Então Maxon Schreave iniciou a reunião que até agora eu não via sentido algum, até notar que pelo menos um familiar de todos os príncipes estavam ali. Exceto pelos próprios príncipes.
— Essa reunião não seria feita tão tarde, e muito menos sob essas circunstâncias, mas, como todos aqui tem deveres com seus países, e eu estou acolhendo seus filhos ou familiares, preciso pôr vocês a par da situação que ocorre no meu país. — Nicoletta estava tensa ao meu lado, ao mesmo tempo que Alexa parecia completamente absorta ao que acontecia á sua volta.
Notei que tanto as irmãs de Aaron quanto a mãe de Miller não estavam ali. Claro que não estariam, seus filhos não faziam mais parte dessa seleção, não havia motivo algum para que fossem convidadas.
— Durante a minha Seleção, uma solução foi encontrada para que os rebeldes nortistas, que eram conhecidos apenas por ataques comuns, sem nenhuma morte, e que recuavam rapidamente quando armas eram acionadas, e eles aceitaram-na de braços abertos, nos ajudando o tanto que podiam. — A maioria ali conhecia a história de nosso país, afinal, nenhum rei ou rainha mandaria seus filhos para um local desconhecido, quando muitos ali eram os primeiros á linha de sucessão ao trono, ou, mesmo assim, ainda eram seus filhos. Possíveis sucessores ao trono. Eu jamais mandaria meus filhos num caso desses, exceto se tivesse plena confiança no país ao qual eles iriam. — Mas o problema nunca foi com os nortistas. Foi com os sulistas. — O grupo no qual nunca foi erradicado, o qual aliviou a pressão quando meu pai se casou e teve a coroa posta em sua cabeça. O qual quando viu minha mãe no poder, acreditou que muitos de seus problemas estivessem resolvidos.
O qual queria derrubar a monarquia e construir uma nova forma de governo. Eles não queriam o sangue de ninguém derramado, mas se isso fosse necessário para que conseguissem chegar em seu propósito, era o que eles fariam. Era isso que meu pai não estava dizendo para todas as pessoas ali presentes.
— Os sulistas são um grupo radical, querem mudanças extremas no nosso governo — Ele continuou —, eles usam com base antigos governos, elementos prévios á quarta guerra mundial. Elementos impossíveis de serem fundidos na nossa sociedade dos dias atuais. — Eu sabia exatamente onde ele queria chegar. — Eu sinto que muitos de seus filhos sequer ouviriam o que eu estou dizendo, ou entenderiam a gravidade da situação, afinal, aqui eles ainda podem ter uma chance de escolha com duas futuras esposas bem sucedidas, sem literalmente terem um casamento arranjado com outra mulher da realeza, é o que eu quis permitir para minhas filhas, também, mas quero que vocês tomem uma decisão importante. — Ele respirou fundo. — Quero que tenham em mente que mantendo seus filhos aqui, vocês correm um sério risco com a segurança deles. Nosso palácio é mais seguro do que era no passado, isso lhes garanto, mas ainda sim, ele não é indestrutível. — Ele fez uma pausa, olhando para cada rei e rainha, príncipe ou princesa. — Como já estão aqui, e como julgo que podem fazer decisões sensatas, eis aqui uma decisão. Os príncipes presentes na Seleção podem pedir para ir embora á qualquer momento, é claro, mas vocês também estão presentes nesta decisão nesse momento, se assim quiserem.
Ele conversou com alguns reis e rainhas, assim como irmãos dos príncipes, e então eles foram saindo do gabinete. Nenhum dos príncipes iria embora por esse motivo. Era quase um alívio, mas as palavras de meu pai, lidas no diário de minha mãe, e resumidas por Alexa para mim, soavam claramente em minha mente:
Eu não suportaria que alguma das garotas ali presentes por minha causa, morressem pelo mesmo motivo.
Quando restou apenas á mim e Alexa, ela se levantou.
— Irei me retirar para meus aposentos. Você não precisa mais de mim. — Ela disse, indo até a porta, mas a voz de nosso pai a parou prestes á virar o trinco.
— Preciso de você aqui, precisamos resolver as coisas.
— Do jeito que resolveu mandando Aaron embora? — Ela disse, fazendo uma careta de desgosto. — Você consegue sem mim. — Ela abriu a porta e a fechou com força em segundos, impedindo Maxon de continuar a futura discussão.
Me arrumei na cadeira, olhando para ele com um sorrisinho convencido no rosto.
— Eu falei que você devia ter repensado.
— Não tem como repensar uma decisão dessas, Rosemarie. — Ele se levantou da mesa em que estávamos, indo até sua escrivaninha pessoal e se sentando ali.
Também me levantei da mesa de reunião, sentando-me á sua frente.
— Não vamos mais falar de Aaron. — Prometi, mas queria encontrar uma maneira de tentar reverter, nem que minimamente, a situação. — No que você precisa de mim?
— Eu iria mandar você e Alexandra terminarem seus projetos de governo, a primeira coisa que fariam quando subissem no trono.
— Esse projeto é bem antigo. — Adverti, e ele concordou. — Por quê começa-lo novamente?
— Julgo necessário que você ou sua irmã, como possíveis futuras governantes de Illéa, precisam ter um plano inicial completo para o governo.
— Eu não trabalho nele á meses, pai, Alexa também deve não trabalhar nele desde que a Seleção começou, pelo menos.
— Eu imagino. — Ele concordou. — Mas preciso que vocês voltem á trabalhar neles, e se quiserem, em mais algum. — Ele parou, olhando á sua volta e analisando sua estante de livros, mesmo que sentado na cadeira. — Você já terminou os livros que pedi?
— Um, o outro ainda estou na metade, e ainda tem outro, mas também já terminei dois dos primeiros diários de Illéa, e eu estou terminando o resumo do diário de America, do primeiro ano de reinado dela. — Ele concordou.
— Certo — Maxon se levantou de sua cadeira, indo até sua estante de livros e pegando dois exemplares, um que estava no topo, e um mais abaixo, colocando-os na minha frente, lado á lado.
História da Primeira e Segunda Guerra Mundial: O início ao fim.
Esse era o primeiro título do livro. O segundo tinha outro título, e bem menor: “Revoluções”.
— Também tenho outros livros importantes, escritos muito tempo atrás, Alexandra, obviamente, já leu todos esses. Eu estou trabalhando com você com anos de atraso, Alexa está bem á frente, e apesar de que ela não vá mais se casar com Aaron, ela ainda poderá se casar com o sucessor de um trono, sendo assim, você será a rainha.
— E se eu também me casar com um sucessor? — Não pude conter minha língua.
Maxon olhou para mim como se soubesse tudo o que eu fazia durante minhas aulas, o que eu estava fazendo pouco antes de Aaron e James brigarem, ou o que eu também estava fazendo pouco antes daquela reunião com ele.
— Então ou você ou sua irmã terão de convencer seus futuros maridos á deixarem o trono para o próximo sucessor. Ou, em alguns casos, vocês não poderão noivar com eles. A medida que a Elite estiver prestes á se formar, eu irei juntar todas as informações necessárias dos príncipes restantes, e então, quando a Elite estiver formada, você e sua irmã receberão todas as informações que precisarão sobre cada família, sua história, suas guerras e revoltas, apesar de vocês já saberem isso por causa de Silvia, e também informarei o histórico do país, no que ele seria bom e importante para nós.
Meu pais acima da minha felicidade.
Talvez tudo se tratasse apenas disso. Talvez eu e Nathan nunca fossemos ter uma real chance sobre tudo isso que estava acontecendo na minha vida.
— Compreendo. — Falei, analisando os dois livros de capas de couro á minha frente. Estavam muitos anos ali, e não pareciam ser muito utilizados, mas, seja lá para que Maxon Schreave havia os recomendado á mim, era importante.
— Então posso passar para a próxima etapa. — Ele colocou a mão por dentro do terno que usava, pegando uma chave dali, e então abrindo uma das gavetas de sua mesa, pegando uma pasta dali de dentro, e a abrindo, conferindo seu conteúdo.
Ele tirou uma das folhas dali de dentro, me entregando.
— Você sabe o que é isso?
— Estatísticas da população e de crescimento individual por casa após a queda de determinada casta. — Informei prontamente. Ele concordou, orgulhoso. Entreguei o papel novamente á ele, o mesmo que ele colocou dentro da pasta e a virou, me entregando.
— Quero um resumo disso em alguns dias. No máximo uma semana, assim como o resumo de mais dois livros. — Minha cabeça já latejava antes, mas levando em conta todo novo trabalho que ele havia me passado, eu duvidava que tivesse muito tempo para sair com os príncipes. Ao menos eu tinha um livro ainda sem resumo para que pudesse adiantar meu serviço. Em compensação, diários não eram considerados livros pelo meu pai, ao menos não os de minha mãe. Eu tinha os de Illéa, mas ainda não tinha uma opinião completamente certa sobre o que pensar de tudo o que havia lido. — Por hoje é só, Rosemarie. — Concordei, prestes á me levantar da cadeira, quando me lembrei de uma coisa.
— Pai? — Ele estava prestes a pegar outra coisa de dentro da primeira gaveta, antes de trancafia-la novamente, quando parou, me encarando, curioso. — Os sulistas, eles... Estão muito próximos? Onde foram vistos pela última vez?
Marcas de expressão se formaram no canto dos olhos de Maxon Schreave. A preocupação se tornou mais do que evidente em seu rosto, ela estava clara como água.
Senti minha cabeça pender, e me lembrei de meu café. Onde ele estava? Minha mãe provavelmente havia se esquecido do mesmo, assim como eu.
— Sua guarda pessoal é de vinte homens, assim que você pisa para fora das portas desse palácio. Quando cavalgando, dez homens já foram escalados para fazê-lo com você. Outros dez ficam por volta da entrada dos estábulos, e outros trinta estão espalhados pelo terreno. Me diga você, Rosemarie, eles estão muito perto? — Minha cabeça doía ainda mais.
— O quão perto?
— Algumas horas a pé. Não muito. Mandei alguns homens há alguns dias para averiguarem. Nenhum deles voltou. — Passei a mão pelos meus cabelos, preocupada. — O que você faria? — Olhei para ele, surpresa.
— Eu... — Parei, pensando, tinha começado uma frase, precisava termina-la. Vamos lá, o que você faria, Rose? Perguntei para mim mesma, tentando pensar numa solução lógica, prática, e que não nos levasse para a morte iminente. — Proteger o palácio. Temos a realeza de quase todos os países do mundo aqui dentro, quando eles forem embora, proteger cada um deles até o aeroporto. Quando nossos guardas voltarem, cercar cada perímetro do terreno do palácio com o maior número possível de homens. Fazer pontos estratégicos de guarda por entre a floresta, sendo assim, se algum deles aparecer, saberemos antes mesmo de eles notarem. — Parei com tudo, notando uma coisa, a mesma que Maxon havia notado. — Não temos homens o suficiente.
— Exatamente. Pense com o número de homens que temos. — Aí complicava ainda mais.
— Proteger primeiro o que temos dentro do palácio, e assim que a realeza seguir seu caminho, o maior número de guardas possível de ser deslocado entrar em uma missão até onde os rebeldes estão, ou pelo menos até onde foram vistos pela última vez. Então, dependendo a vantagem ou desvantagens que estivermos, criar um falso ataque á eles, quando na realidade estão fugindo para o castelo, para que possam informar o que viram lá. Caso estejam em vantagem, eles devem atacar e capturar algum ou alguns de seus líderes. — Maxon sorriu.
— É uma boa estratégia, vou pensar sobre ela, obrigada, Rose. Vá dormir. — Saí rapidamente dali, mal me despedindo dele. Estava, literalmente, caindo de sono.
Fui até meu quarto, encontrando com minhas criadas cansadas. Elas apenas me trocaram, e avisei á elas que não passaria a noite em meu quarto, e sim no de minha irmã. Assim que saíram dali, guardei a pasta que tinha em mãos em baixo de meu travesseiro, arrumando a cama tão perfeitamente quanto estava anteriormente. Deixei os livros dentro de uma das gavetas de minhas mesinhas de cabeceira, e então fui até o quarto de Alexa.
Bati fracamente na porta antes de entrar, vendo minha irmã deitada na cama, com um travesseiro abraçado em seu corpo. Ela chorava descontroladamente.
— Saia daqui. — Ordenou em minha direção. Apenas fechei a porta, sob o constante olhar dos guardas.
— Não. Vim dormir com você. — Ela bufou, mas não protestou. Não sei se pela minha voz, ou por desistência, mas apenas abriu espaço na cama para que eu me deitasse junto á ela.
Eram quase seis da manhã quando ela finalmente pegou no sono, e eu também.
Alexa precisava de alguém que a confortasse, de ao menos um abraço que pudesse ser verdadeiro o suficiente para que ela acreditasse que houvesse ao menos uma chance de ainda existir felicidade para ela.
Nós duas descemos um tanto quanto atrasadas para o almoço, mas levando em conta o horário que todos foram dormir, eu imaginava que ninguém fosse tomar café da manhã, então a maioria estava um pouco atrasada, também, e ao que parece, as cozinheiras tinham ficado decepcionadas com isso, afinal, um banquete de café da manhã inteiro havia sido feito para nada. Mas, levando em conta que normalmente distribuíam a comida que sobrava para os miseráveis, era um bom motivo para não comermos.
O palácio estava uma correria, várias malas sendo carregadas de um lado para o outro, príncipes se despedindo de seus pais, outros já cabisbaixos pela partida deles... Estava complicado de resolver as coisas, mas eu precisava fazê-lo.
Hoje era o dia de meu primeiro encontro com Fillipe Astor.
Ele não parecia ser uma pessoa ruim, e muito menos feio. Era apenas... comum de mais. Não havia nada de atrativo nele, apenas política, economia e hobbys baratos que qualquer ser humano no planeta podia ter. Era um dos príncipes que logo, logo, sairia da Seleção. E levando em conta o tanto de interesse que Alexa estava no momento, não faria diferença alguma para ela. E... Além do mais, Marrocos? Com certeza, nem de longe, era um país que eu gostaria de morar.
Absolutamente riscado de minha lista. Eu sequer sabia porquê havia demorado tanto tempo para sair com ele e riscá-lo. Já devia tê-lo feito desde o início, no nosso primeiro encontro.
Eu estava indo até meu quarto, para que pudesse ler um pouco antes de meu próximo encontro, quando vi em um dos jardins Maxon e America. Os dois andavam de mãos dadas, rindo de alguma coisa. Ele puxou ela para perto, lhe dando um beijo longo e romântico, subindo suas mãos para seu rosto, segurando o mesmo enquanto se beijavam. Eu queria desviar o olhar, mas simplesmente não conseguia. Eles se afastaram, os dois sorrindo, parecendo genuinamente felizes, e continuaram andando pelo jardim, com ela rindo de alguma coisa que ele havia dito. Meus pais, o rei e rainha de Illéa, estavam ali, á alguns metros de mim, sendo felizes, sorrindo, nem que por alguns minutos, e eu estava morrendo de inveja deles.
Assim que admiti isso, tive que desviar o olhar e então seguir meu caminho. Eles tinham algo que eu gostaria de ter, mas que talvez nunca tivesse. Alexa tinha tido isso em suas mãos, e se esvaiu. O que o meu futuro tinha decidido? Eu não sabia de todos os problemas que meus pais haviam passado, mas o filho de um deles estava na porta do quarto de minha irmã.
Peguei o livro, lendo um pouco antes de um dos guardas avisar que Erik Nightwell estava á minha espera.
Nós dois fomos ao cinema do palácio. Seria algo bonito, mas era algo que não falava muito, algo sem muito contato, e eu não conhecia muito daquele príncipe ao meu lado, não houve muito o que dizer, mas ao menos ele não havia sido riscado de minha lista de maneira tão drástica quanto Fillipe. Ele ainda tinha suas chances para conquistar.
Eu estava indo até os estábulos, não para matar tempo, já que era tudo o que me faltava, mas sim para escovar uma das éguas, aquilo iria me acalmar, nem que um pouco.
Eu não fazia ideia de onde Alexa estava agora, mas á essa altura Aaron já devia ter voltado para a Inglaterra, e eu não fazia ideia de como ela estava por agora.
Não, na realidade, eu fazia, e muito.
Parei meus pensamentos assim que vi William Davis com um cavalo, passando a mão por sua crina de maneira amorosa.
— Boa tarde, Sr. Davis. — Cumprimentei ele, enquanto o mesmo fazia uma saudação dramática para mim.
— Olá, Princesa. Á que eu e o garotão aqui devemos a sua presença?
— Á nada, decidi apenas relaxar vindo aqui, e aparentemente, você teve a mesma ideia.
— Na realidade, eu estava pensando em montar, mas estava afim de apostar alguma coisa, e sei que nenhum dos homens aqui apostaria nada com um príncipe, já uma princesa... — Ele abriu um sorriso brincalhão. — Que tal, Rose? — Provocou. — Aceita o desafio, ou tem medo de perder para o príncipe e futuro rei da Austrália? — Revirei os olhos para ele.
— Nos seus sonhos você ganhará, Davis. Escreva o que eu estou dizendo.
Ele abriu um sorriso vencedor para mim, enquanto nós dois escolhíamos um cavalo e alguns dos empregados selavam os cavalos escolhidos, também arrumando a área do campo para a corrida.
Nós dois, quando paramos na linha de inicio — e chegada — estreitamos os olhos, olhando tudo o que correríamos e voltaríamos.
— O que vamos apostar? — Perguntei para ele, virando meu olhar do campo para seu rosto.
— Se eu ganhar... — Ele parou, pensando. — Eu quero duas horas do seu dia. — Ele era bom.
— Se eu ganhar... — Também parei, pensando. — Você terá que espalhar um boato do que é gay. — Ele estreitou os olhos para mim, agora ele tentaria ganhar á todo custo, mas por sua própria honra, e não para ganhar duas horas de meu dia. Era disso que eu gostava!
Assim que demos a largada, eu notei uma coisa: ele sabia a minha maneira de correr, e havia escolhido um dos melhores cavalos. Sabia que minha melhor égua estava indisposta e havia provocado de propósito. Por isso ele estava tão confiante de que ia vencer, porquê ele tinha manipulado tudo de maneira que fosse vencer. E ele venceu.
— Isso não é justo! — Bati o pé, conosco levando os cavalos até suas baias.
— A vida não é justa, meu bem. — Falou, irônico. Abri a boca e fechei, ciente de que parecia um peixe. — Duas horas de seu dia, quando será?
— Você saberá. — Pisquei para ele, entregando as rédeas da égua para seu adestrador, um homem que eu já conhecia á um tempo, era Ashte, era um senhor, já, mas eu gostava dele para adestrar meus cavalos e éguas porque sabia que ele jamais usaria a força contra eles. Muitos adestradores não pensavam da mesma forma.
Me virei, saindo, mas ouvindo William gritar:
— Você é cruel, Schreave! Muito cruel! — Não pude conter minha gargalhada.
Passei pelos corredores com um sorriso bobo, então vendo Nathan passar apressadamente por um deles, com uma pilha de papéis em mão.
Olhei em volta, parando ele, que me olhou preocupado.
— Tudo bem, Srta? — Alguém podai estar nos vendo, era óbvio, apenas pela maneira como ele havia me tratado.
— Sim, eu apenas fiquei curiosa do motivo de tanta correria. — Ele abriu um sorriso sem jeito.
— Estou trabalhando em um projeto com a Rainha e Srta. Silvia, sendo assim, preciso entregar tudo quanto mais cedo possível. — Concordei com a cabeça, entendendo.
— Se quiser, posso ajuda-lo com algumas coisas. — Ele me olhou por alguns minutos, avaliando o que aquilo significava, e então concordou. Olhei em volta, respirando fundo e então me aproximando minimamente, com ele ficando tenso. Se fossemos pegos, nada iria acontecer comigo, mas com ele? Dependeria muito da situação que estivéssemos, e de quem tivesse nos pego. Estávamos no meio de um corredor do palácio real de Illéa, qualquer coisa podia acontecer á qualquer momento. — Em uma hora... — Falei baixinho. — A varanda de meu quarto estará aberta. Terceiro andar, você conseguirá subir, acredite. Preciso te mostrar uma coisa.
Ele parecia curioso, mas também estava preocupadíssimo.
— O que?
— Você verá. Se não aparecer, entenderei.
— E se alguém me ver? — Abri um sorriso convencido.
— Ninguém irá lhe ver, acredite em mim.
Organizei tudo para que nenhum guarda ficasse á postos por perto nesse exato momento em que havia falado á Nathan, e então fui para meu quarto para terminar o resumo do primeiro livro que já havia lido.
Eu havia tomado uma decisão. Permitiria que meu coração sentisse tudo que fosse sentido, e que tudo doesse quando fosse para doer, mas não me seguraria, me impediria por uma diferença de castas, afinal, elas estavam sendo erradicadas. Também, nada me impediria de ficar com Nathan. Dependendo da escolha de Alexa, ela poderia ficar no poder de Illéa, e eu me tornaria, mais tarde, uma duquesa ou qualquer outra coisa com um título importante na realeza, sendo assim, não teria importância me casar com um príncipe ou plebeu. Ninguém se importaria. E meu coração estaria bem, batendo feliz e realizado.
Eu estava tão concentrada em meus pensamentos que só notei a presença de Nathan quando senti duas mãos taparem meus olhos.
— Boa tarde, Alteza. — Abri um sorriso, recebendo um beijo na bochecha, quase no canto da boca.
Deixei o papel para trás, me levantando e o abraçando.
— Pra quê tudo isso? — Perguntou com a mesma reação que havia demonstrado anteriormente, ele ainda não tinha muita ideia do que pensar.
Abri um sorriso, indo até uma das portas que meu quarto levava.
— Você sabe o que tem do outro lado dessa porta? — Ele negou com a cabeça, agora mais curioso do que confuso. — É a porta que liga o meu quarto com o do príncipe, do meu futuro marido.
Ele engoliu em seco, enquanto eu me aproximava, passando a mão pelo seu rosto.
— Talvez você tenha mais chances de ter esse quarto do que imagina.
Levantei meu corpo, levando sua boca até a minha, mas ali não era mais um beijo romântico, lento, ou até mesmo um beijo que nos levava á ficar contra a parede. Era mais.
Nós giramos pelo quarto, enquanto eu sentia suas mãos em minha cintura, sem se importarem com qual caminho estavam percorrendo, e senti a cama bater atrás de mim, desci dos saltos antes de continuar, com ele por cima de mim na cama, os beijos descendo de minha boca até meu pescoço, até o decote.
Todo o meu corpo queimava, todo o meu corpo queria mais.
Ele subiu o rosto, chegando novamente até minha boca, onde parou, comigo o encarando.
— Você estava errado em pensar que não tinha nenhuma vantagem. — Ele aproximou nossas bocas.
— Qual é a vantagem extremamente superior e importante que eu tenho perto dos outros príncipes? — Perguntou, pressionando nossos corpos, apesar de cuidar com seu peso por cima de mim.
Abri um sorriso de quem sabia que estava fazendo alguma travessura.
— Você ganhou meu coração, Archbald.
Fale com o autor