Two Crowns
12 Capítulo XI
Notas iniciais

Nunca dormi tão maravilhosamente bem como naquela noite. Ainda que tivesse dormido pouco, somente quatro horas até o sol raiar, parecia ter compensado as horas em claro que a Seleção me causara. Quando abri os olhos, tive a visão incrível de um Aaron ainda inconsciente. Ele sorria. Levantei-me delicadamente, evitando qualquer barulho, e vesti meu roupão.
— Lexi... — o loiro revirou na cama, abrindo os olhos. — Fique aqui mais um pouco...
— Não posso. Se me pegarem aqui... Deus, Aaron, se me pegarem aqui, provavelmente mandam você embora. — sentei-me a seu lado e lhe dei um selinho. — Tenho que ir.
— A dor da despedida é tão doce que poderia lhe dizer adeus eternamente. — ele suspirou, acompanhando-me até a porta.
— Não cite Shakespeare como se fosse seu. — dei risada. — Não gosto que associe nosso relacionamento ao de Romeu e Julieta.
— É um relacionamento? — Aaron perguntou, abraçando-me.
— Tem dúvidas?
Ele me deu um último beijo e eu me esquivei para o salão do segundo andar. O sol já nascia, o que implicava o aquecimento da guarda. Isso era bom: nada de homens curiosos e subordinados de meu pai fazendo questionamentos, ou pior, tirando conclusões precipitadas sobre minha presença naquele andar.
Assim que abri a porta, deparei-me com Lorena, Iris e Violet olhando-me curiosas. Não pude conter o sorriso e rapidamente adentrei o quarto, trancando a porta e me jogando na cama. Ainda que fingissem estar distraídas com os afazeres diários, eu via a pergunta por detrás de seus olhos.
— Não aconteceu nada, meninas. — dei risada. Foi a permissão para que elas se sentassem em minha cama e me enchessem de perguntas.
— Ah, vamos lá, sua definição de nada, e a minha definição de nada não são a mesma coisa. — Violet comentou, seus cabelos roxos desprendiam-se do coque, tamanha era a empolgação.
— Tudo bem... — suspirei. — Digamos que eu entrei sem bater no quarto dele. E ele estava trocando de roupa. E ficou só de cueca na minha frente. — comecei a corar. — Vocês não fazem ideia de como ele é sexy.
— Ai. Meu. Deus. — Iris gritou, tendo a boca tampada por Lorena.
— Mas... E aí... — Lorena começou a corar também. Lá vem pergunta bomba. — Rolou... Aquilo?
E pensar que as leis da virgindade ainda existiam no país.
— Não! — dei risada. — Tudo tem seu tempo.
— Você tem razão — Violet me encarou. — Quero dizer, pode até achar que não, mas já pensou na possibilidade de se apaixonar por outra pessoa? Eu não gostaria de ter... Bem... Feito aquilo com alguém que eu descobrisse que não amava de verdade. Não que seja o caso, só que pode acontecer...
— Violet! — Iris gritou. O que tinha de simpatia, tinha de escandalosa. — Não fique colocando essas ideias na cabeça dela, Alexandra já tem muito que se preocupar...
— Meninas... — foi minha vez de falar — Acho que estamos atrasadas. Pelo barulho, Rose já está descendo as escadas.
Tomei um banho e elas me ajudaram com o vestido. Deixei os cabelos soltos por conveniência — e para esconder as marcas arroxeadas da noite anterior, é claro. — e só passei um batom claro. Não queria perder mais do meu tempo naquele quarto. Coloquei sapatilhas, ainda que soubesse que deveria usar saltos, e desci até o primeiro andar, trombando com Gabriel.
— Olá, raio de sol. — ele sorriu. — Como passou a noite? Parecia estar tendo um sono agitado.
— Meu Deus, Gabe, não faça esse tipo de piada em voz alta. — resmunguei, contudo seu sorriso de malícia me fez rir um pouco. — Foi uma ótima noite.
— Notei. — ele mordeu o lábio inferior. — Não deixe tio Maxon ver essas marcas roxas aí. — Sim, Gabriel chamava meu pai de tio. Eu chamava o pai dele de tio. Nossos pais haviam se pegado no passado. Mas ok. Nada muito absurdo.
— Estou muito ferrada? — fiz um muxoxo. Gabe passou as mãos por meus cabelos, ajeitando-os.
— Quase nada. — ele me deu uma piscadela, afastando-se. — E coloque um gelo nisso aí. Até amanhã some. — dito isso, desapareceu.
— Senhorita, devo alertá-la de que tem que manter sua cabeça na Seleção? — a voz de Silvia soou estridente atrás de mim. Deus, que mulher irritante.
— Senhora... Perdão, senhorita... — apelei. Silvia nunca havia se casado, e não por não querer. — Devo alertá-la de que eu sou a possível sucessora do trono e não gosto de receber ordens sobre o que eu devo ou não fazer da minha vida?
Ela se calou. Tudo bem, eu não fora muito educada. Entretanto, estava revoltada demais só de pensar na possibilidade de mais alguém querendo me afastar das pessoas que gosto. Papai e mamãe já estavam trabalhando muito nisso.
— Imaginei que não. — completei. — Algo importante a me dizer, Silvia?
— Apenas que Sua Majestade, seu pai, gostaria de vê-la, Vossa Alteza.
— Obrigada. — sorri de modo abusivamente falso e fui até o escritório de Maxon. Desde nossa discussão que não conversávamos decentemente. Talvez ele quisesse fazer as pazes.
Bati à porta, contudo não esperei resposta. Girei a maçaneta e entrei. Maxon e America conversavam, vozes baixas. Possivelmente confirmando o que haviam planejado para mim. Sentei-me à frente deles e pigarrei. Só então notaram minha presença.
— Alexa. — papai sorriu. Tinha um sorriso lindo, não culpava mamãe por ter se apaixonado. Entretanto nem isso me fez sorrir de volta. — Será que pode, por favor, voltar a ser quem você era?
— Você quis que eu fosse assim. Pediu por isso quando me impediu de ficar com Aaron e me obrigou a participar dessa Seleção idiota. — bufei. — Só estou analisando tudo mais friamente, como você e mamãe quiseram.
America colocou a mão sobre o ombro do marido. Eles não pareciam ter dormido bem. Uma pena, eu dormi.
— É sobre isso que queríamos conversar. — mamãe se pronunciou. — Queremos que retome suas atividades relacionadas à administração do país.
Abri a boca para protestar, mas papai me cortou.
— Você precisará de tudo isso para governar ao lado do senhor Thompson, não?
Eu estava sonhando. Só podia ser isso.
— Estão falando sério? — questionei — Estão realmente dando permissão para que eu e Aaron...
— Ele possui, disparadamente, o maior número de votos do povo, filha. — America comentou. — O discurso dele foi sincero. Tocou muita gente. E o que Aaron disse sobre deixar tudo por você... Bem, pensamos que talvez ele pudesse deixar a Inglaterra para Emma.
Eu não estava sonhando.
— Todavia — papai começou. Claro, haveria alguma coisa. — Isso não é uma permissão para um casamento. Eu e sua mãe apenas queremos dizer que se, ao final da Seleção, ele continuar sendo sua escolha, nós permitimos.
Não pude conter um abraço apertado nos dois. Aquilo era uma dádiva. Algo de muito bom acontecera para fazê-los mudar de ideia, e eu não faço ideia do que seja. Mentira. Isso cheira à tia May.
— Não se esqueça de que você tem que dar uma chance para os outros tentarem, Alexa. — America sorriu para mim e eu concordei com um aceno, saindo em disparada logo depois.
Era incrível ver o salão cheio em todas as refeições. Nos dezessete — quase dezoito — anos que eu morara no castelo, a maioria das refeições eram feitas nos próprios quartos, quase nunca sentávamos todos à mesa. Tirando a ceia de Natal e o feriado de Ação de Graças, poucas vezes o salão tinha um número tão grande de pessoas quanto durante a Seleção. Era uma das poucas coisas das quais iria sentir falta.
Sentei-me e, logo em seguida, os serviçais começaram a trazer os pratos de café-da-manhã. Aos poucos, os príncipes também se sentaram em suas mesas de quatro lugares. Alguns conversavam animadamente, outros pareciam simplesmente ignorar a presença de todos. Corri meu olhar pelo salão, procurando por Aaron. Queria não ter encontrado. Ele se sentava com Van Persen, Gravesen e Delacroix; boa coisa não sairia de lá.
Como Arthur já havia declarado seu nítido interesse por minha irmã em rede nacional, talvez fosse o único que tentasse separar alguma briga que rolasse ali. Aaron provavelmente pensava que Andrew também estava interessado em Rosemarie, e como sabia do meu ódio pelo suíço, sabia que Matheo não representava grande ameaça. Todavia aquele infeliz poderia facilmente provocar o inglês, e possivelmente o holandês ajudaria e... Deus. Que eles não se matem, amém.
Na mesa ao lado, sentavam-se Davis, Vermont e Blue. Vez ou outra os dois primeiros lançavam algum olhar de ódio em direção a Arthur, que não notava — ou não parecia notar, afinal, ele gosta de causar uma polêmica —, enquanto Daniel simplesmente parecia focado em comer seu croissant. Não muito distante deles, senhor Ken parecia ter uma conversa animada com James Miller, Santiago Lands e Fillipe Astor. Em que língua um moldávio, um polonês, um argentino e um marroquino conversavam? Eu não faço a menor ideia.
Gastei mais tempo observando as pequenas “panelinhas” que se formavam do que comendo, de fato. Porém, aquilo era muito divertido. Rose iria dar boas risadas se estivesse lá, o que me deixou curiosa: onde infernos estava minha irmã?
Saí do salão quando percebi que já gastara tempo demais à toa e que não conseguiria falar com Aaron tão cedo. Pensei nas mil e uma coisas que poderia fazer antes de volta à minha rotina após a festa. Por um momento, decidi passar a manhã na biblioteca e ajudar Rosemarie durante a tarde, mas o dia estava tão bonito que optei por fazer algo que cinco minutos depois me arrependeria: nadar.
Coloquei meu biquíni azul hortênsia, xingando-me mentalmente por ter colocado meu maiô para lavar. Eu odiava usar biquíni, ainda mais com o castelo cheio de príncipes. Vesti uma saída de praia longa, não estava afim de comentários sobre minhas pernas. Não vou dizer que não gosto, seria mentira, no entanto fico sem reação quando essas coisas acontecem.
— Olha só que me enobrece com sua adorável presença. — ouvi uma voz atrás de mim no momento que cheguei à piscina. — Senhoria.
Delacroix segurou minha mão e beijou meus dedos. Eu queria dar-lhe um soco. Senti meus dedos formigarem em busca do seu rosto. Ele estava pedindo por aquilo, cedo ou tarde.
— Sinto que minha mão vá necrosar. — cuspi as palavras, virando-me de costas e tirando o roupão. Dei uma rápida olhada para o suíço e vi que ele já estava apenas de sunga e passava protetor. Maldição, eu havia esquecido o protetor. O suíço sorriu discretamente quando voltou a me encarar. — Perdeu alguma coisa aqui?
— Não, só estou um pouco impressionado. — ele deu de ombros. — Achei que princesas tivessem o corpo mais bonito.
Idiota.
— Pois é, eu acreditava que todos os príncipes tivessem corpos perfeitos quando vi o de Aaron, mas você é a prova de que eu estava enganada. — sorri. — Também achei que tivessem um gosto literário melhor. — provoquei.
— Leitura entediante? — ele mordeu o próprio lábio, contendo uma risada.
— Demais. — prendi o cabelo. — Se importa de passar protetor nas minhas costas?
— Seria uma honra, princesa. — ele se aproximou e em questão de segundo senti suas mãos sobre meus ombros. Lentamente elas desceram em círculos, subindo novamente, num movimento repetitivo. — Assim está bom?
— Tanto faz, só não quero estar queimada amanhã. — virei-me de volta, incapaz de não notar a tatuagem que o suíço possuía sobre um dos oblíquos. — Veni, Vidi, Vici? Um tanto quanto ousado, não acha?
— Vim, vi e venci. — ele sorriu. — Latim.
— Eu sei o que significa. Só parece arrogante demais.
— É por isso que não gosta de mim? — ele jogou o protetor sobre uma das espreguiçadeiras e me encarou. — Porque pareço arrogante.
— Por isso também. — dei de ombros. — Não gosto de muitas coisas em você. Aliás, não gosto de nada em você. E não me sinto na necessidade de fingir que gosto, como minha irmã finge. Não preciso disso.
— Você gosta de mim. — ele sorriu. Provocava-me.
— Eu odeio você.
— Cuidado, ódio é amor reprimido.
— Meu Deus, Matheo? Por que você insiste nisso? Pare de ser tão idiota e de jogar tão baixo. — comecei a me irritar. — Eu odeio você, odeio tudo sobre você. Pare de fingir que dá a mínima, que não faz tudo isso só para me deixar brava, que não me provoca só para me irritar. Ser um completo estúpido não fará com que se destaque aqui, está cheio de príncipes tanto quanto, senão mais estúpidos que você aqui.
— Eu gosto de você. — ele me encarou. Tinha um sorriso zombeteiro nos lábios. — Essa é a parte que eu te beijo?
— Qual é o seu problema?! — gritei, minha mão voando para seu rosto em um belo tapa. Não consegui dar o segundo, porém. Ele segurou meus braços com apenas uma mão, enquanto alisava a marca vermelha da bochecha com a outra. — Solte-me, seu idiota!
— Sem chance — ele riu. Canalha. — Agora tenho um motivo para segurar. Não espera que eu solte tão cedo.
— O. Que. Você. Quer? — perguntei pausadamente, tentando me acalmar. Odiava ficar irritada.
— Você fica muito sexy quando está brava. — ele aproximou seus lábios de minha orelha, enquanto eu esperneava. — Irresistivelmente sexy.
— Solte-me. Agora. — por incrível que pareça, ele soltou. — Você me machucou.
— Perdão por isso. Não tive a intenção. — ele riu. — Ah, e, a propósito, seu pescoço fica bem sugestivo com essas marcas roxas.
Soltei o cabelo por reflexo. Droga.
— Sério? Você me rebaixa, subestima-me, provoca-me, agride-me, e ainda tem a audácia de se intrometer no que faço ou deixo de fazer? — revirei os olhos. — Arrogante.
— Linda.
— Idiota.
— Sexy.
— Vá se ferrar.
— Essa foi baixa. — ele mordeu o lábio. — Quando é a hora que a gente se beija, mesmo?
— Nunca. — Aaron gritou, aproximando-se de nós. Até então, não havia percebido como nossa discussão havia chegado num volume tão alto. — Ele está te atormentando, amor?
O inglês tinha uma expressão calma. Qualquer resquício de raiva que eu tivesse foi embora no momento que meus olhos encontraram os seus e ele pronunciou tais palavras. Era calmante. Viciante.
— Na verdade, Delacroix já estava de saída. — olhei-o ameaçadoramente.
— Claro, Lexi. — uma última provocação. Eu iria queimá-lo vivo. — Até logo, princesa. — ele sorriu e saiu.
— Ele te chamou de...
— Sim. — fechei a cara, abraçando-o. — Chegou na hora certa. Eu não entendo o problema dele, juro. Parece que só quer atenção.
— Ignore-o. — Thompson brincou com meus cabelos. — E me desculpe por essas marcas, não pensei na hora.
— Tudo bem, isso não poderá nos trazer problemas. — sorri, passando os braços por cima de seus ombros. — Papai e mamãe decidiram aceitar minha escolha.
— Sobre nós? — ele ficou boquiaberto. — Sério?! Sério mesmo?!Meu Deus, Lexi, isso é...
— Eu sei. — Aaron puxou-me para mais perto, beijando-me delicadamente. Deus, como eu adorava aquele beijo, adorava aqueles braços, adorava tudo nele. Nossas línguas se tocavam, nossos corpos se chocavam. Alguém poderia estar vendo? Sim, e possivelmente estavam. Mas que se dane! — Aaron... — sussurrei, afastando-me. — Só não quebre as regras, tudo bem?
— Não perderia a chance de ter você. — ele sorriu. — Nesse caso, não perderia você.
— Ainda bem que sabe que sou sua. — sorri. — Eu te amo.
E foi a vez dele responder.
— Eu sei.
De fato, acabei ajudando Rose em pouca coisa. Eu havia a subestimado: minha irmã dera conta sim de preparar uma festa em dois dias. Talvez estivesse no sangue. Quando subi para me deitar, sabia que tinha que descansar. Todavia, não é fácil quando se tem um príncipe à sua espera para uma noite de “quases lá”.
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