Two Crowns
7 Capítulo VI
Notas iniciais

Honestamente, acho que a melhor parte da minha manhã foi a aula de violino.
Como minha mãe havia desmarcado minha última aula, eu tinha uma hoje, e me encontrava segurando o violino em uma das salas do primeiro andar. A Rainha nunca se atrasava, mas aparentemente hoje era o dia de mudar alguns hábitos. Mas não foi a rainha quem passou pela porta. Foi um homem que eu nunca havia visto em toda a minha vida. E ele tropeçou assim que passou pela porta.
Soltei o violino que tinha em mãos, caminhando rapidamente até o homem e ajudando-o á se levantar.
— Tudo bem com o senhor?
— Sim, Vossa Alteza. Peço desculpas por isso.
— Senhorita. — Corrigi-o — E não há nada á se desculpar, coisas assim acontecem. — Eu era a prova viva disso. — Onde está minha mãe? Aconteceu algo com ela?
— Não, não, senhorita. — Ao menos ele sabia como mudar o vocativo rapidamente. — Eu sou seu novo professor de música.
— E qual seria seu nome? — Por que America Schreave havia decido mudar isso de uma hora para a outra?
— Nathan Archbald, senhorita. — Concordei com a cabeça, abrindo um sorriso fraco e me virando, indo até o violino.
Eu tinha que cuidar com a visão de seus sorrisos, ou eu acabaria tendo mais um problema para cuidar. E isso não seria uma coisa boa. Já tinha homens de mais na minha vida, e um proibido não ia ser nada bom. Ao contrário disso, ia ser muito pior do que horrível. E desaprovador.
Céus, eu sequer estava pensando nele dessa maneira? Qual era o meu problema?
Talvez a seleção estivesse mudando meus conceitos, e isso não era nada correto.
— Imagino que você saiba tocar violino perfeitamente bem, afinal, é seu instrumento favorito, e é pelo mesmo motivo que passaremos para outro instrumento. Qual você gostaria de tocar? — Olhei para ele soltando um suspiro. Ele podia ser bonito o quanto quisesse, mas ainda sim tinha que seguir com seu trabalho e ordens que lhe foram dadas.
Olhei os instrumentos disponíveis e abri um sorriso fraco. Eu odiava pianos, mas hoje parecia interessante tentar entender um lado de Alexandra Schreave.
Afinal, tocar um piano não deveria ser tão difícil assim, certo? Alexa fazia parece fácil.
Aparentemente, eu estava enganada. Grande novidade.
Logo após a aula, tive uma reunião com meu pai e minha irmã, assim como alguns conselheiros, e após isso um chá com minha mãe. Parecia que mamãe queria conversar com suas filhas separadamente, como normalmente não faria.
Algo estava muito errado por aqui, e eu ia descobrir.
Eu podia ser a filha mais irresponsável e que não sabia muitas coisas sobre governar, mas estava curiosa de mais para agir como a filha que eu era, e eu sabia de uma única coisa: mamãe tinha alguns diários antigos, desde a época da seleção. Eu ia lê-los.
E então o almoço passou, e eu me encontrava em um encontro com ninguém mais, ninguém menos que Caleb Vermont.
Ele era bonito, inteligente, e acima de tudo, ela legal.
E talvez bonito fosse pouco para o que ele era.
— Tudo bem, então você está me contanto que não gosta de tomar banho? — Ri um pouco com essa.
— Não, eu estou contando que os franceses não gostam disso. É meio que uma tradição do nosso continente. É nojento.
— Absolutamente. — Ele riu comigo, enquanto eu aproveitava a sensação de ter alguém segurando meu braço.
Nós estávamos andando por um dos jardins, o mesmo que eu havia visto Alexa com Aaron, e eu sentia meus saltos insistindo em esmagar meus pés.
— Como são as coisas por aqui? — Ele perguntou após um silêncio ter se instalado.
— Hm... O dia a dia? — Dei de ombros. — É normal, quer dizer, não sei exatamente como é em si, sei que gosto de estar aqui, tendo essa vista incrível, mas ao mesmo tempo me preocupo com tudo o que está acontecendo por volta de mim, com essas disputas políticas de outros países, com possíveis guerras á serem travadas. Me preocupo muito com tudo, e acabo notando que as coisas estão caindo mais para piores do que boas. — Eu me sentia Alexa, me sentia ela por me preocupar com essas coisas em determinados momentos, já que, apesar de eu não ser a sucessora ao trono, ainda tinha minhas chances. E apesar de não ter muitas ideias sobre estratégias políticas, com o que eu sabia, sabia que as coisas que aconteciam á minha volta não eram nada boas. Mesmo com a queda das castas mais baixas, ainda não parecia bom o suficiente. Sabíamos das pesquisas e... Parei com tudo.
Rebeldes Sulistas. Eu lembrava disso. Era um dos tópicos de um dos diários de America, Alexa havia feito esse tópico no resumo que havia me feito, e... Como meus pais não tinham me contado? Isso era um assunto sério!
— Entendo — Caleb falou, e notei que ele havia pensado sobre o que eu havia dito. — Illéa é um país muito mais recente que a França, entendo como deve ser complicado, e ainda há pressão... Deus, imagino o quão complicado seja.
— É, é bem complicado. — Falei, pensativa.
Se os Rebeldes Sulistas haviam decidido voltar á ativa após tanto tempo, era muito mais do que preocupante. Na época que havia a divisão de rebeldes sulistas e nortistas, os sulistas eram letais.
Caleb olhou para mim por alguns momentos, pronto para perguntar algo, e então parou.
— Sim? — Olhei para ele, segurando seu braço e fazendo-o parar de caminhar.
— É que acredito que todos os príncipes tenham visto fotos de você e sua irmã antes de escolherem vir para cá ou não, mas eu já havia visto você ao vivo, já tínhamos conversado algumas vezes... Só que você estava diferente.
— Diferente como?
— Menos preocupada. Mais focada em tentar esquecer quem era. Eu notei isso quando conheci você. Esperava que talvez ainda tivesse algo disso em você.
Isso me pegou de surpresa. Sabia que já conhecia alguns dos príncipes, mas seria assim mesmo? Eles lembravam mais de mim do que eu deles?
Eu sequer conseguia me obrigar a lembrar quais já conhecia, e quais não.
Eu já conhecia Caleb, e era por isso que havia convidado-o para um encontro, mas não sabia quantas vezes tínhamos nos encontrado, e só lembrava de uma, ou duas.
E se eu saísse com mais algum príncipe que já conhecia, mas não lembrasse de tê-lo feito?
Céus, eu estava ferrada.
— Bem, acho que talvez eu tenha crescido... Ou... Não faço ideia. — Ri fraco, mas na realidade não havia notado essa diferença em mim, eu me esforçava para fazer com que me vissem de forma mais responsável, um pouco perto de Alexa nesse quesito, mas normalmente me saía péssima nisso. Será que eu estava me enganando em relação á ser responsável? Á ter mudado? — Acho que todos mudam com o que pode ou não acontecer na vida deles.
Ele pegou meu braço novamente e me puxou pelo mesmo, trancando nossos braços e olhando para frente, vendo o sol reluzir por cima das copas das árvores.
— E o que teria acontecido na sua vida para você mudar? — Outra pergunta que me pegou de surpresa.
Por que ele estava tão interessado? Eu nem sequer era a sucessão ao trono — claro que os príncipes não sabiam disso, exceto por Aaron —, e Alexa com certeza fazia o tipo de grande parte dos príncipes ali.
Ah, eu estava agindo de forma relutante, podia notar, estava animada com a seleção, mas estava com medo dela.
Céus, eu só tinha notado isso agora?
Estúpida.
— Não sei. — Olhei para ele e abri um sorriso animado. — E o que teria acontecido para você vir para cá?
Ele abriu um sorriso refletido no meu e respondeu como se fosse a coisa mais simples do mundo:
— Illéa não é só um país em desenvolvimento. Tem herdeiras muito lindas. — Minhas bochechas com certeza pareciam tomates.
— Esses elogios são da natureza francesa? Eles são ótimos. — Mordi a bochecha por dentro, tentando conter uma risadinha nervosa. — Obrigada. — Pude abrir um sorriso verdadeiro. — E por falar nisso, você poderia mudar seu corte de cabelo, faria você ser muito mais bonito.
Ele revirou os olhos para mim, e então eu já sabia que qualquer resquício de meu nervosismo tinha desaparecido.
Olhei em volta, vendo os guardas em posição, e já pude notar a diferença de sua organização.
Fazia total sentido.
Eu tinha que conversar com Maxon Schreave, e logo.
— Se eu soubesse o quanto você tinha ficado ainda mais bonita, teria feito meu pai mandar pedidos de casamento muito tempo atrás. — Ele admitiu, e soltei uma risada mais alta do que deveria.
— Bem, tarde de mais, agora você tem mais vinte e sete candidatos pra se preocupar. — Pisquei para ele. — Perdeu suas chances.
— Não completamente, ainda tenho algumas. — Ele sorriu para mim e alcancei seu rosto, lhe dando um beijo na bochecha. — Qual o motivo disso?
— Minha saída, preciso resolver algumas coisas. — Abri um sorriso verdadeiro para ele e soltei completamente meu braço do seu, mas não sem apertar sua mão por alguns segundos. — Espero que você possa ficar por mais um tempo.
Ele abriu um sorriso.
— Só vou embora quando você me chutar.
Meu sorriso espelhou o dele.
— Esperamos que isso demore bastante, não? — E com isso, caminhei pelo jardim e entrei no castelo.
Céus, eu podia perder meu coração agora mesmo. Eu havia conseguido sobreviver ao meu primeiro encontro sem nenhum erro.
Isso ia ser mais complicado do que eu havia pensado. Alexa realmente estava correta sobre algumas coisas — apesar de odiar admitir isso.
Logo após isso, fui para meu quarto e troquei de roupa, agora com uma trança no cabelo e com roupas de equitação.
William era um bom cavaleiro, eu tinha de admitir, ele quase havia conseguido ganhar uma corrida. Quase.
— Espero que você esteja pronta para uma revanche, porque eu estou completamente pronto. — Ele riu enquanto os cavalos tomavam um pouco de água.
— Estou completamente pronta. — Abri um sorriso convencido e levantei o nariz, provando que era capaz de vencer. — Só estou com um pouco de pena de vê-lo perder mais uma vez. — Provoquei-o.
— Ah, Princesa, veremos. — Ele rebateu e olhou para seu cavalo, acariciando sua crina.
Um guarda parou do meu lado e se abaixou até meu ouvido.
— Princesa, você tem uma reunião de estratégias com Sílvia e sua irmã em alguns minutos. — Soltei um suspiro.
— Infelizmente, Sr. Davis, teremos que deixar nossa revanche para um próximo encontro. Preciso ir. — Ele parecia um pouco desapontado, mas eu tinha que ir.
Ele se despediu de mim com um beijo em minha mão, e então montei em meu cavalo, indo diretamente para os estábulos e então indo para a aula.
O resto do dia se passou tranquilo, apenas antes da janta que algumas coisas foram descobertas para mim.
Um dos príncipes, com o nome James Miller, me chamou enquanto eu ia até o salão de jantar.
— Princesa?
— Sim? — Me virei para encara-lo, vendo um homem ruivo e sorridente me encarando.
— Como vai?
— Bem, e você? — Parecia que eu tinha mais alguém interessado em um encontro, e eu precisava do mesmo encontro, afinal, Alexa também já podia ter tido vários.
— Muito bem. — Ele abriu um sorriso ainda maior. — Só queria dizer que a hospitalidade é ótima, vocês tem ótimos empregados.
— Eu que agradeço, senhor. — Ele sorriu para mim, e estava prestes a passar pelo corredor e ir para o salão de jantar quando o chamei. — Sr. Miller, gostaria de me encontrar no jardim sudeste após o jantar?
— Seria uma honra, senhorita.
Abri um sorriso para ele e continuei meu caminho, mudando o rumo por alguns corredores para que James pudesse chegar primeiro.
Assim que Alexa se levantou da mesa de jantar, eu me levantei também, seguindo sua deixa, e fui para meu quarto, arrumando o cabelo e refazendo a maquiagem, e então fui para meu terceiro encontro do dia.
E ele foi péssimo.
Não que James fosse uma pessoa ruim, ele era muito legal. Quando não estava falando de Alexa.
Céus, foi patético. Ele não parava de falar dela, era óbvio que queria estar com ela, ou qualquer outra coisa, foi até estranho. Não durou nem uma hora — o que era ainda melhor, não aguentaria muito mais que isso.
Enquanto subia as escadas notava o quanto estava cansada, tinha tido “apenas” três encontros em um dia e eles haviam me desgastado completamente. E ainda tinha muitas coisas para pensar.
Eu me sentia Alexa.
Se eu não tomasse cuidado, seriamos uma cópia não apenas na aparência.
Assim que cheguei no segundo andar, um corpo colidiu contra o meu, o que quase me fez rolar escada a baixo, se o príncipe não tivesse me segurado.
— Princesa. — Ele falou com um sorrisinho no rosto. — Bom vê-la novamente.
Certo. O nome em seu broche dizia “Kyle West” e eu tinha quase certeza absoluta de que nunca tinha saído com ele, a não ser que ele estivesse contando nosso primeiro encontro após a chegada de todos os príncipes, algo que eu duvidava muito.
— Hm... Bom vê-lo novamente, também. — Eu sentia que não devia falar para ele que na realidade não tínhamos nos visto muito, queria saber o que estava acontecendo, e se estava falando com algum tipo de pessoa com problemas mentais, era a única explicação.
— Como vão as coisas, Rosemarie? — Ok, ele não achava que eu era Alexa.
— Bem, e com você? — Alexa! Eu já fazia alguma ideia do que tinha acontecido, só não entendia porque e como.
— Bem, também. — Ele abriu um sorriso — Como foi a cavalgada?
— Boa, obrigada.
— Foi bem rápida, até.
— É, já está um pouco tarde. — Com certeza havia sido Alexa. Era a cara dela. — Falando nisso, é melhor eu me retirar para meus aposentos. — Ele concordou com a cabeça e comecei a andar, mas me virei e olhei para ele novamente, e o mesmo continuava me encarando. — Gostaria de sair amanhã?
— Claro, adoraria.
— Certo, amanhã você será informado sobre isso. — Ele concordou e eu subi as escadas para o terceiro andar.
Amanhã eu falaria com Alexa, precisava falar com ela antes do encontro com Kyle.
Eu realmente estava exausta, porque assim que minha cabeça encostou no travesseiro, meus olhos pesaram e eu estava sonhando.
Acordei com o som da porta se fechando lentamente, vendo uma de minhas criadas sair de meu quarto, enquanto as outras duas arrumavam tudo de modo silencioso.
— Bom dia, Alteza. — Uma das duas que estava no quarto notou que eu havia acordado.
— Por que não me acordaram?
— Ainda não é hora, então decidimos deixa-la dormindo, senhorita.
— Ah, certo. — Soltei um suspiro, ainda não entendendo porque elas estavam tão cedo em meus aposentos. Não fazia muito sentido.
Me levantei, decidida que podia me arrumar mais cedo, e assim que as criadas terminaram de arrumar meu vestido, alguém bateu na porta.
Carmiryn abriu a porta, vendo meu mordomo ali.
— Senhorita, você tem aula de violino em trinta minutos, fico feliz em já estar acordada, sua mãe ficaria decepcionada em ver você perder o horário. — E isso soava como um discurso completamente planejado.
— Obrigada, vou me certificar de não chegar atrasada para garantir que minha mãe não se decepcione. — O comentário sarcástico, algo que não era muito de minha natureza, saiu antes de eu poder segurá-lo. E com isso, o mordomo se retirou.
As criadas terminaram minha maquiagem e a terceira apareceu.
— Desculpe-me, senhorita, mas fui entregar o bilhete que pediu ontem à noite. — Concordei, tranquila.
— Tudo bem. — Passei as mãos pelo vestido, me olhando no espelho que tinha á disposição em meu quarto.
O vestido era de um vermelho mais claro, quase rosa, ele tinha alças um tanto quanto grossas em meus ombros, e tinha um caimento leve, mas ainda sim um tanto quando aberto, o que era comum, e ainda sim não permitia usar sapatilhas, algo que realmente havia tirado grande parte de minha animação para o dia. Os saltos iam acabar me matando.
Morrer. E com essa pequena palavra perigosa, lembrei de um assunto sério que tinha que tratar com o Rei de Illéa.
Os rebeldes Sulistas poderiam decidir aparecer á qualquer momento, e eu sentia que talvez não estivéssemos preparados para isso. Não no momento. Não com vinte e oito príncipes em nosso teto.
Não com tantas vidas em risco.
Isso estava me preocupando, e logo, logo, eu poderia perder o sono por causa disso.
Céus! Eu estava me tornando minha irmã, e nem sabia os motivos disso.
Talvez a chegada dos príncipes tivesse mudado alguma coisa, ou o contato com eles, mas algo havia mudado. Eu só não sabia dizer o que era. Ainda.
Saí de meu quarto pensando em porque minhas aulas estavam sendo tão cedo, principalmente antes do café da manhã, e assim que cheguei no salão, descobri que Nathan Archbald queria ouvir do que eu era capaz.
Acho que nunca fiquei tão feliz por pegar em um violino.
Pelo menos era algo que eu tinha certeza: sabia exatamente o que iria acontecer nos próximos minutos, sabia exatamente para onde ir e onde chegaria. Aquelas notas poderiam parecer simples para muitos, mas para mim eram incríveis. Ao menos naqueles pequenos momentos, naqueles pequenos momentos extremamente valiosos para mim.
Nathan observava meus movimentos de modo avaliador, mas quando terminei a música, me curvei para ele e recebi algumas palmas.
— Devo admitir, sua área, definitivamente, é o violino. Você toca muito melhor que qualquer pessoa que eu já tenha ouvido tocar em Illéa. — Olhei para ele e abri um sorriso.
— Você já ouviu muitos tocarem?
Ele concordou com a cabeça e abriu um sorriso tranquilo. Nesse momento eu tive inveja dele.
Eu havia ouvido poucas pessoas tocarem quaisquer instrumentos que sejam, minha mãe, minha irmã, eu mesma, e alguns músicos que já haviam estado em eventos no palácio. E também meus tios, irmãos de minha mãe. Como a mesma dizia, eu e minha irmã poderíamos ter o sobrenome Schreave em nossos nomes, mas ainda sim tínhamos o sangue dos Singer, e esse sangue tinha em seu DNA ótimos musicistas.
Para ser sincera, eu já havia saído do palácio apenas algumas poucas vezes. Três, de modo mais preciso, e nenhuma delas foi para ouvir músicos tocarem.
Eu também conhecia Angeles por causa de nosso terraço, caso contrário sequer saberia como era a cidade por fora.
America, minha mãe, como era óbvio, foi uma garota comum antes de ser rainha, e em alguns momentos, quando eu era menor, ela contava histórias. Contava como era a cidade e como todas as coisas eram. E era incrível ouvir aquelas histórias, mesmo que pedaços quebrados delas. Ou quando minha mãe se inscreveu na seleção, ou quando meus pais se conheceram pela primeira vez, ou tudo pelo que eles lutaram para conseguirem estar onde estiveram.
E estava aí outra coisa que eu invejava: meus próprios pais.
Voltei para a sala que me encontrava, vendo Nathan me observando com seriedade.
— Você já ouviu músicos de rua? — Perguntou quase que de modo cauteloso.
— Na realidade, não. — Eu me perguntava se ele seria capaz de imaginar o que eu estava pensando.
— Bem, espero que você tenha chances de ouvi-los um dia, eles podem não ser tão renomados quanto outros, mas realmente, existem alguns muito bons.
— Creio que sim. — Minha voz parecia ter saído mais desanimada do que eu gostaria, já que Nathan abriu um sorriso sem jeito.
— Sinto muito por tê-la feito pensar sobre isso. Por que não tentamos ensaiar uma música nova? Você compôs alguma coisa? Adoraria ver.
— Eu não componho. — Falei de modo que fosse um segredo, mas na realidade eu compunha, e escondia as partituras muito bem, também. Gostava de ensaiá-las sozinha, aquilo era uma coisa só minha.
— Certo. — E eu já me sentia culpada por ter feito ele se sentir mal, mas não ia desfazer aquilo, algumas coisas eram só minhas e eu pretendia continuar com aquilo por muito tempo.
— Minha irmã compôs alguma coisa ou outra no piano, talvez eu pudesse tentar, que tal? — Tentei tirar aquela tensão do ar, e consegui um pouco disso.
Ele concordou e me sentei no piano.
Caramba, como eu odiava aquelas teclas.
Logo após a aula, o café da manhã foi servido — com Alexa estranhamente atrasada, o que me impediu de conversar com a mesma antes do café —, mas assim que ela saiu, fui logo atrás.
Segui-a pelo corredor, o que fez a mesma parar quando ouviu meus passos.
— Rose? — Perguntou, surpresa por me ver ali.
— Alexa. — Cruzei os braços. — Gostaria de falar um pouco sobre Kyle West?
— Ah, isso. — Ela nem tinha a decência de negar!
Não que não fosse engraçado, é claro, eu imaginava como deveria ser ver alguém caindo nisso.
— Você de passou por mim! — Minha voz se elevou pouco mais do que deveria, e tratei de baixa-la. — Não acredito nisso, Alexa! — Na realidade, pouco me importava com isso, só precisava ter o básico de informações para que o encontro no dia seguinte não parecesse um completo desastre. — Você está me devendo uma, você sabe. — Ela revirou os olhos, mas concordou, algumas criadas passaram ao nosso lado, resmungando um “Altezas” e saindo rapidamente dali, provavelmente imaginavam que uma discussão estava prestes a aflorar. O que não era bem uma suposição correta. — Logo devo me passar por você, e você só vai descobrir no momento certo. — Ela sorriu tranquilamente, era algo comum para mim. Eu, de todas as maneiras, também deveria esquecer de avisa-la. Era algo comum de mim. Era.
Queria mudar algumas coisas, queria ser capaz de algumas coisas, queria mesmo.
— Me fale sobre essa conversa e sobre as características que notou dele, assim vou saber mais o que ter para quando me encontrar com ele e não parece uma completa idiota.
— Relaxe, Rose. Eu acabei me passando por você por ter parado na varanda dele. — Ao ver meu olhar, ela completou. — Longa história. Era algo mais seu, então decidi me passar por você ao invés de passar uma impressão errada á ele. — Mas é claro. Fazia sentido, ao menos. — Bom, vamos ao que você quer saber: ele é inteligente, muito bonito — como se eu não tivesse notado isso. — Tem belos músculos, e é legal. Ele é normal. Ele também ajudou você á fugir para a rua e ir cavalgar — Isso explicava muito. — Ele também gosta de tocar guitarra e cozinhar, a propósito. Mas é meio óbvio que não o faz. — Ela vez uma pausa. — Imagine que bonitinho vocês dois casados e ele cozinhando para você? — Ela riu.
— Ah, cale a boca, Alexa! — Mas também não pude conter as risadas.
— Ok, ok. Acho que é tudo isso, mas se eu lembrar de mais alguma coisa, lhe aviso.
— Ok, era isso. Estou atrasada.
— Para que? — Abri um sorriso maroto.
— Para meu encontro com Kyle.
Ela abriu um sorriso um tanto quanto malicioso e, após isso, meu encontro com Kyle aconteceu.
Ele era uma pessoa incrível, e acabamos que por parar na sala de música, com ele tocando uma guitarra.
— Céus! Pare, por favor! — Falei rindo de suas tentativas falhas de conseguir tocar alguma coisa. Ele gostava da guitarra, mas ele era absurdamente péssimo.
— Tudo bem, vou desistir. — Ele guardou a guitarra rindo, e olhou em volta. — Você toca violino, certo? — Concordei com a cabeça. — Por que não tenta?
Soltei um suspiro, pensando se seria grosseria de minha parte negar o pedido.
Com certeza.
Peguei o violino e arrumei ele, começando á tocá-lo.
Quando terminei a música, Kyle me observava em choque.
— O que? Eu fiz algo errado?
Ele piscou algumas vezes antes de me encarar.
— Pelo contrário, senhorita. Você toca... você é a pessoa mais incrível que eu já vi tocando. E eu digo isso para qualquer instrumento. Na minha vida toda. — Ele falou fazendo pausas e dando ênfase no que dizia. — O que você não é capaz de fazer, Rosemarie Schreave?
— Hm... Andar com um livro na minha cabeça. Sou péssima nisso. — Ele me acompanhou na risada, e guardei o violino. — Obrigada, mesmo, ninguém nunca me elogiou tão bem assim. — Na realidade, já haviam feito isso hoje, e eu sentia que meu ego continuava a aumentar com isso, mas também me sentia no dever de fazer Kyle se sentir único. Todos os príncipes mereciam isso, mesmo que fosse um pouco... cruel de minha parte, eles mereciam algo do tipo, afinal, estavam dividindo as garotas com outros inúmeros príncipes, e não faziam ideia de como o jogo estava.
— É uma pena, deveriam lhe ouvir tocar mais, assim, veriam que você é uma incrível violinista.
— Você vai acabar me fazendo ficar sem jeito. — Ele riu de mim e então fomos interrompidos por um mordomo.
— Senhorita, o Rei gostaria de vê-la em seu gabinete. E gostaria que fosse rápida. — Concordei com a cabeça, enquanto o mordomo se postava na porta, esperando por mim.
— Nos vemos mais tarde. — E me retirei dali sem delongas, deixando Kyle para trás e indo para o gabinete de Maxon Schreave.
Bati na porta três vezes antes de entrar, vendo meu pai sentado atrás de sua mesa, arrumando seu paletó.
— Bom dia outra vez, Rose.
— Bom dia, pai.
Me sentei na sua frente e esperei.
— Quero conversar com você sobre alguns assuntos sérios, conversei eles com sua irmã pouco tempo atrás, e agora é sua vez. — Certo, deveria ser algo sobre o governo ou política, por isso Alexa havia sido a primeira.
— Gostaria de falar antes. — Ele concordou um tanto quanto confuso, devo dizer.
— Os Sulistas estão de volta, não estão? — Sua surpresa foi memorável.
— Como você sabe disso, Rose?
— Eu imaginei, já que tenho informações sobre os diários da mamãe, e então você e ela estavam tão preocupados, principalmente com a segurança... Acabei supondo isso. Estou errada?
Ele passou a mão pelos cabelos, suspirando.
— Não, não está.
Eu ainda desejaria estar.
— Mas não é sobre isso que quero falar. — Ele continuou após alguns momentos de hesitação. — Eu estou, oficialmente, lhe treinando para subir ao trono de Illéa.
— O quê?! — Minha surpresa foi ainda mais memorável que a dele quando falei sobre os sulistas. — E quais seriam os motivos?
— Demorei tempo de mais para notar que estava dando mais estudo para Alexa, criamos vocês duas de formas diferentes, e não é algo correto á se fazer. Mesmo que você seja algumas horas mais nova que sua irmã, você tem tanto direito pelo trono quanto ela. Principalmente se ela se casar com um herdeiro do trono de outro país. — Aaron. Maxon sabia.
— Mas... Eu... Eu não sei nem por onde começar, não sei por onde seguir, não sei nem se serei capaz de fazer decisões caso ela se case com ele, não... Não sei se conseguiria ser uma rainha.
Maxon abriu um sorriso paternal, e aquilo desfez minhas dúvidas.
— Você é capaz, sim, Rose, você só não acredita nisso. Ficaria surpresa com o quanto de pessoas que confiam em você e que não hesitariam em deixar suas vidas em suas mãos.
— Mas... Eu não nasci para ser rainha, Alexa nasceu, ela sabe de tudo, sempre se lembra das coisas e sabe como agir em caos e decisões com pressão, mas eu? Eu sempre fiz as coisas erradas.
— Você tem total controle sobre suas decisões, Rose, e é errando que você irá aprender, caso contrário Alexa não seria o que é hoje, também. Quero que vocês duas tenham foco na Seleção, mas quero que você se foque na política também. Rose, você é capaz, só não está acostumada com isso, nós dois sabemos disso, sua mãe sabe disso, Alexandra sabe disso. E olhe para quem você é filha, sabe da história de sua mãe e sabe que ela não teria nada para ser a Rainha de Illéa. Onde ela está agora? — Ele esperou eu responder.
— Ela é a Rainha de Illéa. — Falei com um tom de obviedade.
— O que você está esperando? Eu e sua mãe conversamos, Rosemarie, e acredite ou não, você e Alexandra são duas garotas incríveis, e são igualmente capazes de governar esse país. — Um suspiro saiu. — Gostaria de começar pela economia ou pela educação?
Levantei as sobrancelhas para meu pai, o que fez o mesmo abrir um sorriso.
— Vamos pela educação.
Eu não acreditava que estava fazendo isso.
Desde que eu tinha nascido, eu era acostumada a ser tratada como a segunda na sucessão — ao menos pelos que sabiam sobre isso e quando o assunto era isso —, estava acostumada á ter em mente Alexa com uma coroa na cabeça e cuidando da papelada, e ela realmente tinha perfil para isso.
Mas agora as coisas havia mudado, e eu tinha ainda mais chances de subir ao trono.
Eu estava ainda mais assustada.
Pior, eu estava aterrorizada.
Mas eu não iria estragar isso. Haviam me dado uma chance, e eu queria tentar.
Acho que eu sabia o que tinha mudado.
Eu queria tentar, queria ter minhas próprias chances.
Agora eu sabia.
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