Notas iniciais
Oi, sentiram minha falta? Hahaha. Aqui está mais um capítulo. Sinto muito pelo tamanho, não é, nem de longe, um dos maiores, mas o tempo e a criatividade só permitiram assim. Muitíssio obrigada a vocês, Lets, Lú e L Anon Mellark pelas recomendações lindas. — Drama Queen

Talvez estar livre de minhas obrigações políticas não fosse tão ruim quanto eu esperava. Eu tinha plena consciência do objetivo de meu pai ao me poupar de toda a burocracia monárquica: ele esperava que, assim, eu tivesse mais tempo para passar com os outros príncipes, e não somente com Aaron. E, até certo ponto, tinha de admitir que Maxon estava realmente certo.

— Qual sua cor favorita? — Andrew me perguntou. Havíamos adiantado nosso aparente encontro para a tarde, já que ambos estávamos livres.

— Azul, eu acho. — respondi — Escuro.

— Como meus olhos?

— Como seus olhos.

De fato, não tínhamos muito que conversar. Tentávamos nos conhecer melhor com perguntas do gênero, mas algo parecia não funcionar. Eu não tinha intimidade nenhuma com ele, ao contrário dos príncipes inglês e dinamarquês, por exemplo. Andrew Van Persen era um completo estranho. O silêncio foi tanto, que ele parecia estar incomodado.

— Tudo bem. — ele suspirou — Eu prometi que lhe contaria como consigo diferenciar as duas, então... Bom...

— Sem enrolações. — sorri, finalmente animada — Como sabe que não sou Rose?

— Primeiro: suas roupas. Você parece mais propensa a usar cores frias; Rose, quentes. — ele desviou o olhar para o jardim à frente. Parecia corar — E o modo como vocês se portam. Aposto que a senhorita conseguiria carregar uma pilha de livros sobre a cabeça em metade do seu dia, enquanto sua irmã... Bem... Ela é meio que relaxada. Você é tensa. Parece querer levar o mundo nos ombros.

— Pode não ser questão de querer. — dei de ombros — Já imaginou minha irmã governando um país? Ela não nasceu para isso. Mas nossos pais insistem em ensiná-la a ser a nova rainha de Illéa. — joguei a isca. É claro que se ele estivesse lá pela coroa, iria atrás dela.

— Sou o terceiro na sucessão do trono Holandês. Acho que te entendo. — ele sorriu, finalmente virando-se para mim. Segurou minha mão sem hesitar e continuamos andando. Eu não me sentia bem com aquela situação, mas havia prometido a meu pai que tentaria. Contudo, meu coração estava longe dali. Provavelmente num dos quartos do palácio. — Vocês têm belas tulipas aqui.

— Minhas flores favoritas. — mordi o lábio. — Com certeza as da Holanda devem ser muito mais bonitas que as de Illéa.

— Não posso afirmar com tanta certeza quanto a isso, mas as garotas daqui são absurdamente melhores que as de lá. — ele riu descontraidamente — Você gostaria da Holanda, Alexandra.

Não. Eu gostaria da Inglaterra.

— É, acho que sim. — eu não queria alimentar as esperanças do garoto, entretanto, ele estava sendo tão simpático que merecia a dúvida. — E você vai adorar a torta de morangos daqui. É divina. — mudei estrategicamente de assunto. Andrew gargalhou e continuamos pelo jardim.

A verdade é que o encontro durou mais do que eu esperava e, admitisse eu ou não, menos do que eu queria. No momento que coloquei os pés no palácio, meu pai veio em direção a mim, com a expressão de orgulho estampada no rosto. Revirei os olhos e o ignorei completamente, subindo as escadas. Se algo eu havia herdado do meu avô paterno era o orgulho. Assim que cheguei ao segundo andar, fui surpreendida por um toque no meu ombro.

— Delacroix. — murmurei ao me virar, cruzando os braços. — O que quer?

— Lexi. — ele sorriu. Canalha. Só Aaron me chama assim, e o idiota sabe disso. — Sempre tão doce e amável.

— Não sabia que o clima suíço ensurdece as pessoas. — mudei o peso do corpo para a outra perna. — O. Que. Quer? — falei pausadamente e o vi segurar um sorriso. Ele estava gostando de me tirar do sério.

— Só quero lhe entregar isso. — ele estendeu um pacote fechado a mim, azul com um laço prateado. — Feliz aniversário.

— É daqui três dias. — fui ríspida. Delacroix segurou minha mão e colocou a embalagem lá. Pesou mais do que eu imaginava.

— Eu sei. Só queria ser o primeiro... — seus lábios traziam um sorriso malicioso — Claro, Thompson provavelmente vai te dar na véspera, e seu cachorrinho, aquele polonês, vai lhe parabenizar dois dias antes. Gosto de estar um passo à frente.

— Está dois atrás. — foi minha vez de sorrir com malícia. Eu tinha a completa noção de que Matheo não seria tão lerdo a ponto de não saber sobre o que eu falava. — Talvez três.

Maldito foi o momento que dei as costas para ele e saí andando. Não durei sequer dois passos. Suas mãos se firmaram em minha cintura, e um arrepio involuntário percorreu minha coluna. O infeliz tinha pegada. Seus lábios se aproximaram de minha orelha, roçando levemente a pele da nuca.

— Não me subestime, Alexandra.

— Não subestimo. — soltei-me rapidamente e acelerei os passos, chegando à escada. — Eu tenho certeza que não tem potencial pra ser algo mais que um pedaço de mau caminho.

— Sou o mau caminho inteiro, querida.

Subi as escadas apressadamente, na certeza de corar. Não vergonha, raiva. Raiva por quê? Digamos que eu e Matheo temos uma história nem tão longa e nem tão complexa. Mas é uma história, e basta uma história para nos marcar. Delacroix sempre fora o príncipe mais mimado e manipulador, dentre todos que conheço. Senhor de si, dono da razão. E é isso. A história acaba mais ou menos aí. Não suporto a presença dele. Sinto a falsidade presente em oito a cada dez palavras. Matheo tem todas as mulheres do mundo a seu dispor. Ele consegue. Sempre conseguiu. E minha meta é não ser mais um troféu para a coleção do ego dele.

— Alteza — Lorena me cumprimentou quando adentrei o quarto. Apenas respondi com um sorriso fraco e me joguei na cama. A passos rápidos, a garota se aproximou de mim e me ajudou com o vestido. — Imagino que queira seu jantar no quarto.

— Na verdade, vou dormir. — olhei o relógio na cabeceira. Sete e quarenta e dois. — Estou exausta, e creio que minha mãe irá me lotar de serviços amanhã. Importa-se em se retirar mais cedo?

— É claro que não. — ela deu um meio sorriso. Lorena parecia estar na minha cabeça. — Quer que eu deixe a porta entre seu quarto e o do futuro príncipe acidentalmente aberta?

— Eu apreciaria muitíssimo. — sorri largamente. — O que aconteceu com as outras duas, Lorena? — perguntei, notando a falta das outras criadas.

— Bem... — ela gaguejou — Elas acreditavam que a senhorita não apreciava tanto a companhia delas, então... Não sei como dizer...

— Pediram transferência de serviço? — ela concordou com um aceno. — Tudo bem. Fique à vontade para escolher alguém de sua confiança para o serviço, não precisa fazer tudo sozinha, sabe disso.

— Muito obrigada. — um sorriso singelo surgiu em seu rosto. Levando o vestido usado e uma bandeja em mãos, saiu rapidamente do quarto.

Era só esperar.

Sete e quarenta e três. Sete e quarenta e quatro. Quarenta e cinco. Quarenta e seis. Sete. Oito. Exatamente seis minutos, que pareciam passar tão lentamente quanto eras. Meus ouvidos estavam aguçadíssimos, eu não poderia falhar. E então um clique. Quase imperceptível. Levantei-me da cama e vesti o roupão, andando lentamente até a porta que dava para o outro quarto. Abri-a, observando um lindo e sorridente Aaron surgir do outro lado.

— Olá. — ele sorriu, encostado ao batente. — Quanto tempo, não? Vem sempre aqui?

— Só quando você vem. — sorri, aproximando-me um pouco mais de modo involuntário. — Demorou.

Ele revirou os olhos. Tinha tanto de mim nele, ou tanto dele em mim, que já parecíamos um só. Eu sentia como se fôssemos. Ajeitei um fio de cabelo atrás da orelha, corando. Pela primeira vez em quase dezoito anos eu simplesmente não sabia o que fazer ou dizer.

— Está linda. — ele me deu um selinho, e eu o puxei para meu quarto. Deitamos na cama, eu aninhada em seu peito.

— Estou sem maquiagem, penteado, e até mesmo sem alguma peça de roupa que valorize meu corpo. — bufei — Não minta para mim, Aaron Thompson.

— Você está de camisola. Eu daria todas as maquiagens e penteados do mundo para lhe ver desse jeito todas as manhãs. — o inglês pigarreou. — Sabe que amo você.

— É. — sorri — Eu sei.

Ao contrário do que pensava, ele sorriu. E sorriu mais do que se eu tivesse respondido que também o amava. Aaron me surpreendia a cada momento, e era isso de que eu precisava. Não apenas naquela semana, ou naquela Seleção. Eu precisava daquilo para o resto de minha vida.

O dia seguinte se arrastou mais que qualquer um de minha vida. A princípio, o plano era passar o dia todo no salão das mulheres. Claro que eu aproveitaria a desculpa do sono de beleza para poder dormir. Acontece que o príncipe inglês ficou até muito tarde no meu quarto. Eu estava exausta. Infelizmente, logo pela manhã, tudo começou a dar errado.

A começar por James Miller. Deus, aquele garoto deve sofrer de algum problema mental. A cada passo que eu me afastava, ele se aproximava dois. Insistia ferrenhamente em puxar assuntos que eu não queria debater. O polonês me seguiu até o salão, onde me deu um presente. Delacroix estava certo. Para variar.

De tão cansada, nem abri o presente. Pedi à Lorena que o deixasse junto com o que ganhara do príncipe suíço. Era melhor que não abrisse por um tempo: sem dúvidas que, o que quer que a embalagem contivesse, iria me deixar mais nervosa. E ninguém me suportaria. Respirei fundo e adentrei o grande espaço, repleto de espelhos. Normalmente era o escritório de minha mãe, mas parecia um spa na ocasião.

— Uau! — sorri — Devo perguntar a razão?

— Eu não sou razão suficiente?

Era tia May. Corri para abraçá-la, sem me importar com os sapatos que ficaram pelo meio do caminho. Ainda que a família de mamãe morasse bem próxima a nós, eu quase nunca via minha tia favorita. Ela sempre viajava pelo mundo, o que ocasionou na ausência dela em diversas datas.

— Alexandra! — America gritou — Vai acabar matando sua tia com esses modos!

Revirei os olhos e me afastei rapidamente, dando lugar para Rose abraçá-la. Nós realmente sentíamos falta de tia May. Por mais que tivesse o dobro da nossa idade, ela sempre fora nossa conselheira, além, é claro, de um diário para o qual podemos contar todos os segredos com a certeza de que não serão revelados.

— Tia May, quanto tempo! — Rose ainda a sufocava com um abraço de urso. Eu via mamãe começar a corar. Acontecia sempre que agíamos desse jeito. Talvez, ter passado muito tempo entre nobres fez-lhe esquecer das coisas mais simples. Não, não esquecer; mas apenas... Estranhar. — Vai ficar para nosso aniversário, né?

— Por que outra razão eu viria, hein? — ela sorriu, analisando eu e Rosemarie, lado a lado. — Santo Deus, vocês duas estão acabadas. O que tem dado para elas, Ames? Essa aqui — tia May apontou para mim — parece que não dorme há dias. E você, querida — mexeu no cabelo de Rose — parece que levou outro tombo daquele seu cavalo.

— É a Seleção, May — mamãe explicou, pacientemente. Contudo, nossa tia não parecia dar muita importância àquilo. — Todos sentem os efeitos na pele.

Eu até concordaria com minha mãe em outras situações, mas não ali. Fizera uma promessa a mim mesma que a evitaria — e papai — o máximo possível. Eu sabia que havia o dedo da ruiva na decisão de Maxon, afinal, sempre fora minha mãe que contara as histórias sobre como a Seleção é um passo importante e nos faz ver que nem sempre o que acreditamos ser amor, de fato é. Eu odiava aquela baboseira. Era pretexto para que eles influenciassem minhas escolhas, sem que eu percebesse.

— Eu realmente preciso do meu sono de beleza... — comentei, recebendo um olhar de apoio vindo de minha irmã. Aparentemente, não era a única que estava passando as últimas noites em claro.

— Okay, okay. Mas primeiro os presentes! — tia May nos entregou duas caixinhas. Arqueei uma sobrancelha para Rose, e logo percebi que ela também estava confusa. — Vão! Abram logo!

O presente era um colar. Não um simples colar, mas daqueles que se guardam fotos. Há muito tempo não via daqueles por Illéa. Era lindo, trabalhado numa tonalidade de prata velho. O meu e de minha irmã eram idênticos, não fosse pelas letras que se encontravam gravadas no verso. A e R; nossas iniciais. Estava prestes a acionar o mecanismo de abertura quando a mão quente de nossa tia me segurou.

— Que... — eu estava confusa.

— Só abra quando achar que precisa.

Tia May e seus mistérios.

Coloquei o colar no pescoço, admirando o modo como as cores combinavam com minha pele. Titia sempre dera presentes ótimos, ainda que só Deus saiba onde ela arranjava algumas coisas, como os livros de ficção antigos que ela me dera dois anos atrás. Sorri com o pensamento, só então notando a inquietude de America.

— O que você tem, mãe? — Rose perguntou, poupando-me de quebrar minha promessa.

— Não é nada demais... — ela suspirou, sentando-se e se virando para nós. Okay. Era algo demais sim. — Mas... Bem, o aniversário de vocês está chegando, e ao mesmo tempo preciso que amadureçam mais nas funções de uma rainha...

— Ela quer que façamos a nossa festa. — expliquei, resumidamente. — Posso até te ajudar Rose, mas, dessa vez, a responsabilidade é sua.

O choque tomou conta de suas feições.

— Por quê? — milésimos de segundo depois, Rosemarie compreendeu.

Eu iria até o fim por Aaron, ainda que isso implicasse ter de abdicar o trono por minha irmã.

Notas finais
E então, o que acharam do capítulo? Alguma crítica? Algo a acrescentar? Não se esqueçam de comentar. Tumblr com maiores informações: http://two-crowns.tumblr.com/