Two Crowns
39 Capítulo XXXVIII
Notas iniciais

Eu sentia olhos em mim. Tudo bem, eu havia tirado fotos sozinha indo ao jatinho que nos levaria para Londres, havia entrado na igreja lado a lado com Arthur, haviam comentários. Minha irmã não estava presente, sabiam da nossa Elite, tinham palpites... E lá estava eu.
O mundo era muito cruel, diga-se de passagem. Eu podia ver os olhares sob mim, mas poucos eram os que me interessavam. Arthur ria tranquilamente de um pequeno comentário de Dimitri, William parecia tranquilo na mesa, mas tenso ao mesmo tempo. Eu conseguia ver seu pescoço, de lado, e via que sua nuca estava tensa. Matheo parecia se morder de vontade de virar sua cadeira e coloca-la ao lado de Alexandra. Ele tinha algumas razões para fazê-lo, é verdade, e, se eu bem sabia, eles poderiam passar muitos anos assim. Alexa parecia completamente inerte a situação ao seu redor durante a janta, mas eu estava completamente ativa.
Durante o caminho, eu notava que não era a Arthur que queria ao meu lado. Jamais diria isso em voz alta sem ter total certeza, é claro, mas... Eu sentia isso. Queria dar uma chance à ele, e já havia garantido isso ao mesmo, mas ver o casamento de Aaron me mostrou o quanto a realeza poderia ser frágil. A noiva tinha solitários quinze anos, e isso havia me deixado em choque. Se eu e Alexa tivéssemos nascido após um herdeiro, esse seria nosso destino. Talvez não com essa idade, talvez não assim, mas hora ou outra seria. Não teríamos opção, mesmo que nosso pai quisesse dar-nos. Não teríamos esse direito, porque éramos apenas mulheres no caminho da sucessão ao trono que nunca seria nosso. Era essa a lei da natureza.
Londres não era fria no início de dezembro. Ela era calorosa durante a tarde, mas quando a noite chegou eu conseguia sentir o frio, mesmo que com alguns pequenos aquecedores ligados dentro do salão.
Aaron estava radiante. Tão radiante que eu sentia inveja pura.
Eu tentava ignorar os olhares. Tentava desviá-los. Arthur nem se importava em manter seus olhares longe de mim, mas eu já imaginava isso. Dimitri era mais discreto, exatamente como William. Meu problema era Caleb. Queria dizer para ele parar, pedir para que o fizesse. Também queria implorar para que ele me chamasse para uma dança. Queria dançar com Arthur, William, Dimitri. Não queria dançar com Caleb.
Meu Deus, eu estava tão bipolar que doía em mim. Não tinha certeza do que queria assim como tinha certeza.
Eu realmente precisava encontrar uma bebida. Infelizmente, nenhum Schreave era conhecido por beber, então nenhum garçom se arriscou em colocar uma taça sequer mais pesada na nossa mesa. Era triste, admito. Ao menos uma vez na vida eu conseguia entender porque pessoas bebiam. Vi Caleb desviando seu olhar de nossa mesa, e até ele tinha um copo de vinho em mãos. Foi quando senti uma mão em meu ombro.
Virei levemente a cabeça, notando Aaron Thompson mostrando-me a mão.
— Aceita esta dança, futura rainha de Illéa? — Revirei os olhos para ele, me levantando e aceitando sua mão.
Ele passou a mão por minha cintura, começando a dançar comigo.
Graças a Deus a música não era lenta.
Ele dançava tranquilamente, mas podia ver que ele queria falar algo.
— Desembuche, Thompson. — Ele sorriu levemente, desviando de um casal um tanto quanto desgovernado.
— Como ela está? — Soltei um suspiro.
— Bem. Eu gostava de vocês dois juntos, devo dizer, mas eu realmente tenho que bater palmas para Matheo. — Aaron revirou os olhos.
— Não seria porque você e ele são mais próximos que meros amigos? — Levantei uma sobrancelha para ele.
— Se você está dizendo que ele é um dos meus amigos mais importantes, é claro que é por esse motivo. — Ele se separou de mim, me girando e então voltando o braço, me puxando para perto novamente.
Eu podia ver o quanto ele estava cansado de ser rei. Já havia visto isso nos olhos de meu pai.
— Daniel também faz bem à ela, sabe? — Ele concordou, guiando-nos para fora do círculo que se formava no centro da pista de dança. — Arthur é ótimo em ajuda-la à superar... — Senti minha garganta travar. Aaron concordou levemente com a cabeça, me observando atentamente.
— Você sabe que vai subir no trono, não sabe? — Engoli em seco, não ia conseguir falar.
— Eu espero que isso não aconteça. — Ele revirou os olhos, enquanto eu firmava minha mão em seu ombro. Eu não tinha a exata coordenação motora para dançar uma música levemente lenta com o rei da Inglaterra enquanto conversávamos sobre o futuro de meu país, meu e de minha irmã gêmea pela qual ele já havia sido apaixonado. — Vamos falar de você. Como ela é? — Aaron revirou os olhos, mas sorriu levemente.
— Aprendemos a amar com o tempo. — Concordei levemente, mas tinha sentido a evasiva. Ele podia já amá-la, assim como podia apenas estar ao seu lado por nada. Apesar de eu ter visto seus sorrisos e felicidade, já havia mentido muito bem. Eu estava confusa de mais para analisar tudo. Saber que estavam analisando cada passo nosso era ainda pior.
Uma coisa que eu pude notar foi que nenhum dos fotógrafos pediu uma foto nossa. Claro que eles queriam, estava óbvio, mas o rei provavelmente havia lhes dado uma ordem bem clara. Eu não duvidaria nada disso.
— Garanta que ela escolha corretamente, Rose. — Aaron me pediu, o rosto completamente sério. — Não há nada que ela possa fazer para mudar minha vida, mas eu ainda posso tentar melhorar a dela. — Concordei levemente, enquanto ele apertava minha mão. — Você dará uma ótima rainha. — Trinquei os dentes.
— Por Deus, por que todo mundo fala isso? — Aaron sorriu, mas foi nesse momento que a música começou a ser trocada e um dos fotógrafos veio até nós, pedindo uma foto.
Aaron parecia saber a resposta, e eu realmente não precisava ouvi-la.
Arthur aproveitou a deixa de eu já estar de pé e me puxou para uma dança, me girando animadamente pelo salão, assim como a música.
A próxima dança foi de Dimitri, que estava tão sorridente que eu sentia que seu rosto ia quebrar. Eu poderia dizer que ele havia bebido, mas isso era quase impossível — não o fato de ele beber, mas sim dele ser afetado por isso.
— Preciso de uma informação. — Pedi, enquanto ele levantava as sobrancelhas, rindo de uma última piada saudável. — Arthur. O que ele anda fazendo?
— Você quer dizer fazendo bebendo ou fazendo dentro do palácio real de Illéa?
— Ambos.
Dimitri deu de ombros.
— A primeira opção é por você. A segunda é simples. Ele faz de tudo. Ele lê, ele toca instrumentos, ele cavalga, ele nada, ele usa a academia, ele lê as notícias, ele planeja projetos, ele participa de algumas aulas que escolheu com Silvia, ele faz tudo. — Concordei com a cabeça. O assunto voltou a ser normal entre mim e Dimitri.
Eu confiava mais nele do que em William para perguntar sobre isso, e não estava no clima para perguntar para Caleb sobre isso.
Quando Dimitri me girou, Caleb me pegou na metade do caminho.
Dimitri não disse uma única palavra, apenas seguiu seu caminho, permitindo que Caleb me roubasse.
Eu tinha que dar uma chance para Dimitri, e garantir que Arthur tivesse meu coração aberto para si mesmo, também.
Ele depositou uma mão em minha cintura, a outra segurando minha mão direita. Coloquei minha mão esquerda em seu ombro, então permitindo que ele guiasse a dança.
— Tão quieta, Schreave. — Comentou.
Enquanto a conversa com Arthur se revezava entre brincar com que cores permitiriam num casamento da realeza e falar levemente mal do cabelo de determinadas convidadas, Dimitri era tranquilo, ele conversava sobre normalidade, apesar de estar empolgado de mais para ser normal. Caleb ia direto ao ponto, e eu não sabia se aquilo era bom ou ruim. Naquele momento parecia pender para o ruim.
— Tenho o que pensar. — Caleb concordou, apertando minha cintura enquanto a música lenta ficava ainda mais lenta. Ele manteve uma distância segura, e por um instante me permiti perguntar-me quanto autocontrole ele tinha.
— Imagino que sim. — Franzi os lábios, sentindo ele brincar com a ponta de meu corselete. Se alguém estava vendo, não havia demonstrado reação alguma. — Matheo ganhou o dia, sabe? — Comentou. Dei de ombros. — Sei que sabe porque.
Abri um sorriso inocente.
— Sei em partes.
— Compartilhe comigo.
— Você vai precisar de muito mais que um sorriso para isso.
Caleb ponderou suas opções por alguns instantes antes de me girar na pista de dança, fazendo uma demonstração e tanto de suas capacidades dançarinas. Ele me pegou na metade do caminho, mantendo o ritmo lento e ativo ao mesmo tempo, então me girando próxima ao seu corpo e colando eles.
— Isso não é tango, Vermont. — Sibilei. Nossos rostos estavam à centímetros um do outro.
— Te consigo uma garrafa de vinho até o fim da noite.
— Por que eu poderia sequer querer vinho? — Ele abriu um sorriso brincalhão, voltando nossos corpos à uma distância segura, como se nada tivesse acontecido.
— Eu precisaria de vinho para superar essa noite.
— Não é essa noite que me tormenta. — Ele concordou, sabia disso. A música foi acabando, enquanto eu notava que duas pessoas não estavam mais de costas uma para a outra. — Alexa admitiu que gostaria de se casar com Matheo. — Soltei. — Ela me contou durante a janta. — Caleb concordou, se abaixando numa mesura formal e beijando minha mão.
— Sempre um prazer, Srta. Schreave. — E então saiu dali.
Alguns outros príncipes, reis, entre outros, pediram para dançar comigo, assim como minha irmã. Precisávamos agir como diplomacia, exatamente como dizia no currículo que recebíamos no momento que nascíamos — junto com o sobrenome, sabe? —, então todas as danças foram aceitas. Mas algo martelava em minha mente. Talvez a bebida que Arthur mantivesse em mãos, o sorriso alegre de mais de Dimitri, que pensando por um lado parecia extremamente falso, talvez a tranquilidade de William. Algo parecia errado com a minha elite, mesmo que o contrário dela fosse Matheo, e não Arthur. Nada parecia se encaixar.
Desisti de pensar em encaixar as peças do quebra cabeças quando o último acompanhante soltou minha mão, se despedindo. Me sentei na mesa, notando que a festa continuava à mil.
Até mesmo a realeza precisava comemorar, precisávamos de festas.
— Com licença. — Nem dois minutos após me sentar falei isso. Alexa parecia curiosa, mas não disse uma única palavra. Meu pai estava ocupado na mesa do rei da Inglaterra, minha mãe dançava com o pai de alguém importante. Eu não queria saber quem era aquele velho, pra ser bem honesta. Outras damas de companhia, entre outros, na mesa, não fizeram uma pergunta sequer. Sequer me olharam com curiosidade, apesar de com certeza sentirem-na.
Passei por todo o local, atravessando o salão enorme e seguindo para a rua.
Olhei em volta, vendo a varanda e vendo alguns degraus de escada logo em seguida.
Segui por eles, mesmo que a varanda em si já estivesse vazia. Parei nos degraus, vendo duas espreguiçadeiras lado à lado, com uma mesa de centro pequena e de vidro entre os dois.
Me sentei ali, me permitindo descansar os pés por alguns minutos, e apreciando a visão de tudo o que eu tinha.
Londres era linda, mas se tinha algo ainda mais lindo que Londres era seu céu. Não podíamos ver as estrelas por causa da luz da cidade, mas ainda sim ele era lindo. A lua estava completa, e por alguns minutos eu me sentia completamente livre de problemas, príncipes ou países. Diplomacia não importava, mesmo com a música de fundo tocando e deixando claro uma das maiores demonstrações de poder do mundo: o casamento por alianças.
Talvez tudo se resumisse à isso, no final das contas.
Meu pai havia se casado com minha mãe, por, no início das contas, paz entre o governo e o país que o mesmo governava, assim como havia sido por gerações de governantes. Aaron estava se casando com uma garota de quinze anos para apaziguar rebeldes, já que todos os países os tinham. Nossa seleção acontecia para que tivéssemos no que entreter o povo.
Eu quase consegui acreditar que era uma pessoa normal. Quase. Até que vi uma sombra se formar à minha esquerda e ver uma das garçonetes contratadas fazer uma mesura para mim.
— Princesa Rosemarie. — Ela mostrou a bandeja que segurava. Uma garrafa inteira de vinho tinto e uma única taça de cristal estavam sobre a bandeja dourada.
Ela depositou o conteúdo na mesa de vidro ao meu lado, então abriu o vinho e despejou até chegar na metade do copo.
— Isso não sairá daqui. — Ela concordou.
— O Sr. Vermont garantiu isso, senhorita. Precisa de mais alguma coisa? — Neguei com a cabeça, e ela desapareceu ao subir as escadas.
Peguei a taça de cristal, levando-a até a boca.
Na manhã seguinte voltaríamos à Illéa. Na manhã seguinte eu voltaria ao total drama que era a Elite.
Eu queria, realmente queria, voltar a ser aquela garota que tinha um único pretendente no coração, e um único problema. Mas eu não era mais ela, e eu tinha decisões à tomar.
Bebi mais alguns goles, sentindo a amargura subir pela minha garganta.
Quais eram as chances de Alexa se casar com Arthur quando havia declarado seu amor em claro e bom som para Matheo? Ou quando ela havia entregado seu corpo para Daniel?
Eu teria que ter muita sorte para ambos quebrarem seu coração, e eu sequer queria isso.
Bêbada eu podia admitir:
Todos falavam que eu seria uma boa governante quando subisse ao trono, e eu digo quando porque muitos já sabiam o que se passava dentro de nossa elite.
Alexandra Schreave ser tornaria a rainha da Suíça ou Itália — eu, particularmente, preferiria a Suíça —, e Rosemarie Schreave subiria ao trono de Illéa.
Não é como se eu estivesse morrendo de ansiedade pra Elite acabar, também.
E eu ainda tinha uma garrafa inteira de vinho pra terminar antes de apagar e voltar para meu perfeito e inquebrável mundo.
Mesmo se eu quisesse, estaria presa à Illéa, e em um dos últimos casos, algum dos príncipes deveria renunciar ao seu cargo como rei, permitindo que eu ou Alexa ficássemos em Illéa para comandar o nosso país.
Realmente, a dor de cabeça só ainda não havia chego porque eu não tinha terminado de beber.
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