Two Crowns
37 Capítulo XXXVI
Notas iniciais

Me remexi na cama, sentindo todo o meu corpo fazer um estalo. Ouch. Minha coluna doía, minhas mãos doíam, minhas pernas doíam, meu abdômen doía, minha clavícula doía feito o inferno, minha cabeça latejava de dor de cabeça, meus olhos pareciam pesados, e acima de tudo: eu não tinha certeza se queria descrever a dor que eu sentia lá.
Eu me sentia suja. Suja de mais. Sexo? Tudo bem, eu sabia que hora ou outra eu faria, era normal, era natural, mas aquilo... Era loucura. Claro, eu tinha gostado, era... não sei, diferente? Eu gostava de Caleb, mas era... loucura. Meu cérebro dava voltas, e meus olhos insistiam em ficarem fechados. Eu conseguia ouvir a respiração tranquila do homem ao meu lado, dormindo tranquilamente. Um pensamento rápido veio em minha mente, Nathan, Caleb, Dimitri, até mesmo Arthur... Meu foco havia sido Nathan, ele morreu, passei semanas tentando reconstruir os pedaços de meu coração, juntamente à Caleb, e eu era extremamente agradecida por isso, mas... eu não havia dado chances. Desde o início, no início eu havia claramente aberto meu coração, mas ainda sim não era a mesma coisa. Alexa, mesmo quando Aaron foi embora, superou, e tinha estado com Daniel, agora havia Matheo.
Eu lembrava do convite, o casamento seria nesse fim de semana, e estávamos em uma quarta-feira. Até onde eu sabia dos preparativos, embarcaríamos para a Inglaterra no dia seguinte, no máximo na sexta-feira.
E eu lamentando tudo em minha volta. Alexa... Nós nunca havíamos conversado sobre isso, da mesma maneira que nunca havíamos conversado sobre Nathan, ou Matheo, ou qualquer outro homem nas nossas vidas.
Voltei meus pensamentos, notando que fugia do foco.
Abri os olhos lentamente, sentindo meu braço direito doer pela posição que eu estava. Caleb dormia de barriga para cima, uma mão em seu peito e uma em baixo de meu pescoço, completamente esticado na cama, a única coisa que cobria seu corpo era a cueca. Senti minha garganta secar com a visão.
Olhei em volta, notando que o quarto estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua e da iluminação de fora do palácio real, que jamais era apagada durante as noites, exceto em ataques rebeldes, quando eles mesmos apagavam. Estiquei o pescoço para ver o horário, mas parei no meio do caminho, ao notar que Caleb se remexia. Ele não podia acordar, ainda não. Eu precisava clarear meus pensamentos e descobrir o que iria fazer.
Eu o amava? Não. Eu poderia ficar com ele? Claro. Eu queria ficar com ele? Não tinha certeza.
Minha mente repassou as lembranças da noite anterior, categorizando tudo. Ok, eu havia começado tudo, e eu tinha que resolver o problema que havia criado. Não era bem um problema, é claro, era apenas um... contratempo. Como Alexa diria que era? Eu não tinha certeza, tinha medo de quantas palavras ela conhecia, e quantas poderiam explicar o que estava dormindo ao meu lado. Eu tinha que admitir, Caleb Vermont era lindo, e fazia um jus perfeito ao que diziam de franceses... E ainda sim eu não sabia. Ele havia sido gentil, quando eu sabia que era extremamente difícil para ele: ele não era acostumado com isso, ele era diferente. Ele estava aqui, incialmente, pela coroa, e então havia dado tudo por mim.
Eu sentia que os sentimentos dele por mim eram muito mais do que o contrário, e eu não queria magoá-lo por isso, não justo quando ele havia aberto seu coração pela primeira vez, creio eu.
Mordi a boca internamente... Entre ferir os sentimentos e descobrir o que eu faria com todos os outros príncipes de minha elite — com exceção de Matheo, já que este claramente nem precisaria mais estar na minha lista de elite, e sim na de Alexandra —, eu sentia que iria ferir os sentimentos de Vermont. Não que eu não me importasse com ele, mas eu havia notado que não tinha dado a chance para os outros, e o que havíamos feito na noite anterior... Eu beirava ao arrependimento e desgosto. Não do que eu havia feito, porque eu sabia que tinha gostado, mas... o desgosto de gostar. Confuso? Também acho.
Santo Deus, ninguém nunca me disse que homens eram complicados.
Tudo bem, eu conversaria tranquilamente com Caleb... e pediria para ele pegar leve. Não iríamos tão longe na nossa relação, aquilo havia acontecido, mas no momento não se repetiria, e, quando se repetisse, se, é claro, ele pegaria leve. Eu ainda era Rosemarie Schreave, independentemente de seus... gostos. Eu havia agido de forma diferente, eu não era aquela, e eu não tinha certeza nem de quem era, pra falar a verdade.
Meu Deus, minha mente estava uma loucura. Certo. Priorizar informações, vamos lá, Rose, Silvia te ensinou isso, o reino primeiro, então emoções, vamos lá, Alexa consegue. Você consegue, não é tão difícil...
Caleb acordou.
Senti meu sangue gelar em segundos e voltar a esquentar ainda mais rápido.
Ele piscou, confuso, e então olhou para o relógio.
— Não consegue dormir? — Perguntou, voltando o olhar para mim. Dei de ombros.
— É. — Caleb estreitou os olhos. — Precisamos conversar. — Ele suspirou, enquanto eu me arrumava, permitindo que ele tirasse o braço de baixo de mim. Me sentei na cama, cruzando as pernas e encarando ele. Não me importava de estar apenas de roupas íntimas, estava claro que ele não precisava de nenhum foco, e ele já tinha visto até de mais. Caleb também se sentou, esfregando os olhos e então acendendo o abajur na mesa de cabeceira ao seu lado.
— Fale. — Ele virou seus olhos para mim. Minha garganta secou novamente.
Caramba, que tipo de governante eu seria se ficasse em pânico com apenas o príncipe — que nem era o herdeiro — da França me encarando?
Rosemarie Schreave, respire fundo. Senti minha mente brigando comigo mesma, mas consegui falar.
— Eu gosto de você. — Ele levantou as sobrancelhas, enquanto eu bufava. — Não, Vermont, não estou dizendo as três comuns e extremamente famosas palavras, estou tentando explicar o que eu estou pensando. — Ele concordou, fazendo um gesto de que era para eu continuar. — Veja, você esteve do meu lado quando Nathan, você sabe, morreu. E antes de você havia ele, e antes dele eu tinha inúmeros príncipes para me preocupar, nunca parei para pensar em todas as opções e sentimentos que acontecem por aqui. Já amei Arthur Gravesen, já me importei com William, já saí com Dimitri, e tem você. Me importo com todos, e realmente gosto de você, mas sinto que não estou dando chances para eles. — Caleb parecia pensativo, e então focou o olhar novamente em mim.
— É pelo sexo, não é? — Ri fracamente, sentindo a ansiedade.
— Não. — Neguei. — É estranho para mim, isso é verdade, Caleb, mas não vou dizer que não gostei, porque sim, eu gostei — ele concordou levemente, me instigando a continuar — mas... — ele concordou, parecia entender. — Eu fui criada no poder, você tem noção de como eu me sinto permitindo tudo isso?
Ele concordou, eu podia ver seu pomo de adão subir e descer, ele juntava as peças.
— Imagino como se sinta.
— Não estou dizendo que não quero você por perto, você sempre esteve, e é injusto pedir para você se afastar, acho que nem mesmo eu conseguiria isso, mas...
— Você quer espaço o suficiente para saber todas as suas opções. — Concordei com a cabeça.
— Até mesmo Arthur. — Caleb me deu uma olhada feia, fazendo um sorrisinho fraco se abrir em meu rosto.
— Por que aquele babaca ainda está aqui? — Ri fracamente, olhando para a varanda de meu quarto.
— Porque eu mantive Matheo, enquanto Alexa manteve Arthur. — Caleb resmungou um palavrão.
Ah, os palavrões.
— Mas... Alexa não está com ele. — Caleb parecia confuso.
— Ele é o melhor amigo dela, assim como Matheo é meu melhor amigo.
Caleb me deu um sorriso sacana.
— Fiquei sabendo disso, foi ótimo conversar com Matheo. — Estreitei os olhos.
— Não, você não fez nada que...
— Claro que não, eu só descobri que você andou pedindo informações sobre mim. — Revirei os olhos para ele, podia ver que ele sabia de mais.
Decidi deixar isso passar, estava cansadíssima, mas sabia que não conseguiria mais dormir, o quarto estava extremamente bagunçado, e minha mente não parava, inclusive meu corpo dolorido.
— Estamos bem, então? — Perguntei, olhando novamente para Vermont. Ele fechou a mão em punho, segurando-a na frente. Levei dois segundos para entender que ele queria que eu batesse minha mão na dele.
Bati a mão, vendo ele sorrir.
— Claro que sim, pirralha. — Levantei as sobrancelhas para ele. — Ordem de sucessão, eu e Matheo sabemos. — Estreitei os olhos para ele, então suspirando. — Mas... — Ele continuou. — Não me peça para esquecer nada do que fiz, porque não vou. — Revirei os olhos para ele, jogando as pernas para o lado e fazendo uma careta de dor. Caleb segurou meu pulso, me fazendo virar o rosto para ele. Ele puxou meu rosto, apenas me dando um selinho e então parou, o rosto a centímetros do meu. — Eu não quero dificultar as coisas, Rose, você conheceu quem eu sou, mas eu posso ser melhor. Não vou fazer nada que você não queira, e eu preciso saber o que você não quer. — Concordei com a cabeça, assentindo lentamente. — Mas eu não vou foder só mamãe e papai! — Bufou, se afastando, enquanto eu gargalhava alto, então tapando a boca com a mão, tentando ouvir passos próximos do quarto.
— Relaxe, Vermont, se nós acabarmos casados, no contrato resolveremos esse tipo de coisa. — Ele me deu uma olhada clara.
— Você não é louca de colocar isso no contrato de casamento. — Pisquei para ele, me levantando da cama. Ouch. Doía só ficar em pé.
Ouvi a risada dele.
— O que eu disse na última noite, mesmo? — Ouvi ele falar, rindo baixinho.
Me virei, dando uma olhada feia para ele.
— Cale a boca, Vermont. — Andei o mais rápido possível até o banheiro, fechando a porta e então olhando-me pelo espelho.
Caramba, eu ia precisar de muita maquiagem.
Fui até meu espelho de corpo inteiro no banheiro, parando em frente à ele e apertando levemente minha cintura.
Ouch.
Comecei a encher a banheira, então penteei meu cabelo, escovei os dentes, entrei nela, relaxei um pouco, tomei um bom banho, saí dali de dentro, coloquei um roupão e fui para o quarto.
Caleb dormia tranquilamente em minha cama, com a mão em meu travesseiro. Olhei no relógio, vendo que eram quatro horas e cinquenta e dois minutos. Eu ainda tinha, ao menos, trinta e oito minutos antes de virem ao meu quarto.
Abri minha mesinha de cabeceira, a que estava ao lado de Caleb, e peguei os papéis, indo até minha escrivaninha e me sentando.
Como resolver os problemas de um país quando eu não conseguia sequer resolver os problemas do meu coração?
Simples. País primeiro, coração em segundo.
Os sulistas pareciam ter parado por um tempo, e isso era ótimo, mas... Ainda haviam outros problemas. Comida, pequenos levantes, educação, treinamento policial, quebras de segurança... E não acabava por aí.
Só notei que já tinha amanhecido quando senti alguém beijar minha bochecha. Caleb estava ao meu lado, sorrindo e segurando a calça do terno.
— Nunca aceite quando dizerem que você seria uma péssima governante. — Ele passou a mão pelo meu cabelo, então se afastou, dando de ombros. — Bom dia, Schreave.
Abri um sorriso tranquilo, sentindo o cansaço me dominar.
— Bom dia, Vermont. E obrigada. — Ele deu de ombros, indo até o banheiro e durante o trajeto pegando suas roupas na mesa de centro de meu quarto. Ele fechou a porta, e meu olhar se voltou para o papel em minhas mãos.
Apoiei o rosto em minhas mãos, fechando os olhos.
Matheo Delacroix era o primeiro na sucessão do trono.
Isso significava que, sendo o que tinha mais chances, na minha opinião, eu subiria ao trono de Illéa.
Como eu comandaria o país?
Daniel também era o primeiro na linha de sucessão.
Senti o pânico começar a me dominar, enquanto eu abaixava a cabeça, fechando os olhos na mesa.
Levantei a cabeça quando ouvi o trinco da porta do banheiro virar, então olhando para a pasta de papéis e fechando-a.
Caleb olhou para mim, com a gravata em mãos e então olhou para o relógio.
— É bom eu ir para meu quarto. — Concordei com a cabeça, sorrindo fracamente. Ele me deu um beijo em minha testa, então olhou para meu pescoço e fez uma careta. — Maxon vai me matar se ver isso. — Sorri fracamente, mas estava prestes a ter um ataque de pânico. A linha de sucessão...
— Talvez eu deva sair assim mesmo, sem maquiagem, sabe... — Ele revirou os olhos, apertando meu ombro e se virando, abrindo a porta e me dando uma olhada antes de se virar e sair, fechando a porta.
Olhei para meu espelho da penteadeira, deixando minhas pastas em cima da cama e indo até ele, abrindo a gaveta e pegando a base e o pó.
Amarrei o cabelo, então levantei o pescoço, abrindo o roupão levemente e passando a base, então o pó.
Bem melhor.
Tirei o roupão, ficando apenas de roupas intimas e conferindo meus braços e pernas, não, não havia nada muito marcado ali. Conferi meu corpo atrás, também não havia nada por ali. Tinha uma pequena marca, impossível de se ver, em meus pulsos. Fora isso, não havia nada tão forte em meu corpo, doía apenas internamente.
Coloquei o roupão novamente, indo até minha estante pessoal de livros e pegando o livro que estava estudando.
Me deitei na cama, arrumando o travesseiro e começando a ler. As batidas na porta vieram nem segundos depois, mostrando que as criadas já estavam ali.
— Podem entrar, senhoritas. — Fechei o livro, me levantando da cama, enquanto elas olhavam em volta, confusas.
— Você já estava acordada, senhorita? Poderia ter nos chamado. — Dei de ombros.
— Não foi problema, só preciso de ajuda com a maquiagem e vestido, acho que vou ficar com um coque no cabelo. — Elas concordaram, me vestindo tranquilamente com um vestido nude, com um decote normal, ele tinha furos nos ombros, mas seguia ao longo de meus braços, parando pouco antes dos cotovelos.
Olhei para Ester, fazendo-a me encarar, prontificada.
— Poderia informar à nova secretária de um encontro com Dimitri Ivanov? No horário que ele estiver disponível, por favor. — Ela concordou, fazendo uma reverência rápida e saindo dali em segundos. Carmyrin e a outra garota, que eu sempre insistia em esquecer o nome, continuaram trabalhando em mim.
A maquiagem foi feita, o vestido colocado, o cabelo arrumado, e então subi nos saltos.
Passei pela porta do quarto rapidamente, descendo as escadas; precisava descobrir algumas informações sobre os príncipes, o que eles gostavam, o que pretendiam, precisava rever entrevistas e... precisava falar com Arthur. O casamento de Aaron era esse fim de semana, e eu não conseguia tirar da cabeça que deveria ir com ele.
Parei em uma janela do segundo andar, observando o jardim.
Ah, não. Arthur bebia e tinha um cigarro em mãos, e parecia estar muito mal. Eu não conseguia ver seu rosto, mas sentia que ele tinha grandes olheiras.
Eu não era a causadora disso, era? Senti meu coração se partir outra vez, o motivo era Arthur, é claro, mas a culpa, dessa vez, era minha. Eu estava prestes a descer as escadas e ir até o encontro dele quando vi Alexa aparecer ao seu lado.
Ok, entendido. Foi quando senti uma mão em meu ombro, vendo Caleb ali.
— Precisamos conversar. — Levantei as sobrancelhas para ele, vendo seus olhos negros. Havia acontecido algo.
— Fale.
Ele olhou para trás, os príncipes saíam de seus quartos.
— Não aqui. — Concordei, enquanto ele mostrava o braço e caminhávamos pelo corredor. Ele desceu as escadas, e então saímos pelo jardim leste, caminhando por ele e parando próximos à um banco.
— O que foi? — Ele olhou sobre meu ombro, e então olhou para mim.
— Alexa sabe sobre minhas escapadas pelo seu quarto, assim como o guarda Leger. — Concordei, o que havia de mais? Esperei ele continuar. — Ela me pediu par atirar a roupa e conferiu as marcas. Ela sabe que você dormiu comigo. — Concordei lentamente, entendendo. Parei, encarando ele em seus olhos. Ele estava escondendo algo de mim.
— O que mais tem? — Ele negou com a cabeça.
— Nada. — Cruzei os braços, encarando-o, fria.
Ele bufou.
— Eu tinha a cópia da chave de seu quarto, e tive que entrega-la à ela. — Dei de ombros, concordando. Ele ainda continuava escondendo algo. Caleb me encarava, mostrando que tinha terminado. — É só. — Levantei as sobrancelhas, vendo a inquietação em seus dedos. Ele estava excluindo algo de seu depoimento. — Não tem mais nada, Rose. Por favor. — Ele passou por mim, mas segurei seu braço com força, me fazendo ele virar par ame encarar.
— O que ela falou? — Ele negou com a cabeça.
— Não faça isso. — Pediu. Havia acontecido algo entre ele e Alexa.
— Vocês... — Senti meu coração desvanecer. Ele negou com a cabeça, incrédulo.
— Claro que não, Rose! Eu não faria isso. — Ele continuava ignorando o que eu queria saber. — Me deixe ir, para seu próprio bem. Não vou jogar você e sua irmã em uma guerra. Não.
Eu ia retrucar quando ouvi algo de dentro do palácio. Caleb voltou seu olhar para mim, me dando sua mão, enquanto eu tentava acompanhar seus passos rápidos.
Chegamos rapidamente lá dentro, com meus saltos em mãos.
Alexa estava sendo segurada por dois príncipes, e parecia o demônio em pessoa. Arthur afastava Andrew e Patrick.
E eles foram embora, liberados da seleção praticamente instantaneamente, sem dó ou piedade. Assim que eu e Caleb fomos liberados, prensei ele contra a parede, minha mão à centímetros de seu rosto. Ele abriu um sorriso falso.
— Você é ótima em manter as aparências. — Ele tirou minha mão de seu peito, abaixando minha mão de seu rosto. — Não vou falar, Rosemarie. Me expulse, vamos lá. — Engoli em seco, piscando e então respirando fundo, sentindo a raiva subir.
— Eu vou descobrir.
— Boa sorte. — Ele sorriu falsamente, enquanto eu me virava e ia diretamente para as escadas, subindo tão rápido que fiquei surpresa ao chegar no terceiro andar.
Fui diretamente até Gabe, que conversava com uma de minhas criadas. Ele parou quando me viu, e pude ver ele tencionar os ombros. Parei em sua frente, virando o rosto.
— Você já sabe porque eu estou aqui, desembuche. O que Alexa fez? — Gabe olhou para trás de mim, provavelmente para os guardas. Carmyrin, a criada, foi dispensada rapidamente, enquanto eu puxava ele pelo terno para dentro de meu quarto e trancava a porta.
— Se ele não te falou, não sou eu que vou falar. — Senti as pontas de meus dedos ficarem dormentes, por causa dos punhos fechados.
— Leger. — Minha voz saiu lenta e clara. — Não me faça perder a paciência. Dois príncipes acabaram de serem expulsos, um cara está bebendo, e eu aposto que é por mim, tenho um casamento para ir, tenho quatro homens para me preocupar, e, por incrível que pareça, quero socar alguma coisa. — Gabe olhava para mim como se avaliasse a situação, e então soltou um suspiro.
— O que aconteceu? — Senti meu lábio tremer, mas mantive a postura firme.
— Se ninguém te falou, não sou eu que vou falar. — Ele bufou.
— Eu apontei uma metralhadora para Caleb, droga! — Olhei para ele, confusa.
— Por quê?
— Para colocar medo, assim que ele se colocaria no devido lugar, Alexa precisava saber o que ele estava fazendo e... — Levantei a mão, pedindo para ele falar.
— Ok. — Abri a porta, fazendo com que Gabe me olhasse confuso.
— Você não está chateada. — Parecia uma pergunta e uma afirmação, as duas ao mesmo tempo.
— Ele pode ficar no seu lugar por um tempo, pelo menos. Fora. — Vi Ester caminhar pelo corredor, ela parou, confusa, ao ver que eu expulsava alguém do quarto, mas ao ver meu olhar tranquilo para ela, ela continuou.
Ester parou em minha frente, olhando para Gabe rapidamente e então voltou seu olhar para mim.
— Você tem um encontro com Dimitri quinze minutos após o café da manhã, princesa. — Concordei com a cabeça, e logo ela se foi. Gabe continuou dentro do quarto.
— O que está chateando você? — Gabe olhou para mim, parando em minha frente e fechando a porta. Meu lábio tremeu novamente. — Rose... — Sua voz se acalmou, mas ele não tentou se aproximar, apenas me encarou olho no olho.
— Daniel e Matheo são os primeiros na sucessão de seus tronos, Gabe. — Senti meus olhos se enxerem de lágrimas, por que eu estava chorando? — Alexa sabe como governar, eu não! Ela tirou dois homens da elite num piscar de olhos, e mandou em todo mundo, ela vai ser uma governante incrível, sempre soube como agir, eu? Eu não sei nada! Não consigo nem descobrir uma mísera coisa de um príncipe que eu me importo!
Ele me abraçou, me prendendo entre seu terno.
— Nenhum governante é igual, Schreave.
— É por isso que existe a diferença entre os bons e os ruins. — Retruquei, sendo esmagada pelos seus braços.
— Você não é das ruins.
— Como sabe? — Ele se afastou, sorrindo para mim e olhando para meu quarto.
— Ouvi umas conversas sobre isso. Meu pai, seu pai. — Levantei as sobrancelhas. — Maxon acredita em você, Rose. Eu também. Você deveria. — Cruzei os braços, virando o rosto.
— Não consigo nem me concentrar na elite, como me concentrarei num país inteiro? — Ele sorriu, olhando para si mesmo e apontando para seu corpo, como se ele fosse a solução.
— Você não está sozinha, essa é a diferença. A coroa passará pra você logo após seu casamento, mas seus pais continuarão vivos. Você ainda terá à mim, e mesmo se Alexa estiver em outro continente, do outro lado do mundo, você acha que não temos telefones? Temos aviões, se necessário! Rose, você não está sozinha. Sei que a decisão final é sua, mas você não precisa pensar em tudo, ninguém pensa, até mesmo Alexa comete erros. — Olhei para ele, mostrando o óbvio. — Ok, nem tantos... Mas ainda sim ela precisou cometer muitos para aprender como ser uma boa governante. Erros acontecem, e eles foram feitos para que aprendamos. Relaxe, ok? Você ainda tem tempo. — Neguei com a cabeça, rindo fracamente.
— Gabriel... Ah, Gabriel. Temos seis integrantes da elite. — Ele entendeu a gravidade. — Na próxima dois sairão...
— E vai ser a escolha final. — Completou para mim.
— Exatamente.
Ainda estavam no palácio Matheo, Caleb, William, Dimitri, Daniel e Arthur. Os dois últimos eram da elite de Alexa, e ela precisaria tirar um deles, já que Matheo era meio à meio. Os quatro/três restantes eram da minha, e eu precisaria tirar um/dois deles.
Uma coisa por vez, Rose, uma por vez, vamos lá...
Gabe colocou a mão em meu ombro, olhando para mim.
— Se precisar, eu durmo com um deles, assim você tirará eles sem quebrar o coração. — Olhei para ele, então caindo na gargalhada. — De nada. — Piscou, dando um beijo em minha testa e então abriu a porta do quarto. — Você tem um café da manhã para comparecer, não?
Revirei os olhos para ele, indo até minha mesa e pegando a coroa, colocando-a na cabeça.
Passei por Gabe, mas ele continuou caminhando ao meu lado.
— O que você acha que eu seria se não tivesse nascido da realeza? — Gabe fez bico, segurando meu braço enquanto descíamos as escadas.
— Pobre? — Ri fracamente.
— Além disso.
Ele pensou.
— Uma música. Originalmente cinco. — Olhei para ele, levantando as sobrancelhas.
— Todos os Singers nascem com o dom, até mesmo você e sua irmã. — Mordi o lábio, pensando sobre isso.
Entrei no salão de jantar, vendo que Alexa já estava sentada em seu lugar.
Dimitri abriu um sorriso quando me viu, e logo em seguida eu já me via caminhando com ele pela biblioteca.
Ele parou em um corredor, entrando nele e se esticando, então pegou um livro e o tirou, mostrando-o para mim.
O título e o autor estavam em russo.
— Vamos lá, Roza, hora de te ensinar russo. — Levantei as sobrancelhas para ele.
— Você está brincando.
— Por que estaria? — Aumentei ainda mais minha expressão incrédula.
Ele abriu o livro, e então se sentou em um sofá comigo. No final, nós ríamos das palavras complicadas, e ele ria de minha pronuncia. Foi quando vi Maxon Schreave encostado em uma estante, e ele sorria para nós dois.
Dimitri quase empalideceu.
Me levantei, arrumando o vestido, e vendo Dimitri se levantar.
— Não queria atrapalhar vocês dois. — Ele olhou rapidamente para Dimitri. — Vou precisar dela num instante, já a devolverei. — Dimitri concordou, não se importando.
Segui meu pai pela biblioteca, e paramos no corredor em frente as portas da mesma.
— O casamento de Aaron Thompson ocorrerá no sábado, durante o anoitecer, em Londres, no palácio real. — Concordei com a cabeça, já sabia onde ele queria chegar. — Estaremos embarcando na sexta-feira, e voltaremos no domingo, iremos no jato da família real britânica, como um presente. Todos os príncipes da seleção, inclusive os que não fazem mais parte dela, foram convidados, como cortesia do Rei. — Eu me esquecia que Aaron já havia sido nomeado, já que seu pai estava morto. Maxon olhou para trás de mim. — Tudo bem? — Concordei com a cabeça. — A Rússia é um lugar bom. — Comentou, sorrindo brincalhão para mim.
— Não é como se você nunca tivesse tido um encontro com pelo menos uma garota de cada uma das nossas cidades. — Ele riu fracamente, dando e ombros.
— Você me pegou nessa. — Levantei as sobrancelhas para ele. — Fico feliz que tenha... superado. — Concordei com a cabeça, desviando o olhar.
— Ainda temos um país, não é? — Ele concordou, passando a mão em minha bochecha e piscando.
— Sua irmã e você são tudo para mim, sabe disso, não sabe? — Concordei com a cabeça.
— É claro. — Ele concordou, se afastando e seguindo pelo corredor.
Entrei novamente na biblioteca, vendo Dimitri olhar um quadro.
Parei ao lado dele, analisando a cena. Era uma pintura do museu do Louvre, um dos poucos museus importantes do mundo que havia ficado intacto após tantas guerras. Era uma vista de fora dele, durante a noite.
Dimitri olhou para mim, então sorriu.
— A França é o lugar perfeito, não é? É bem mais importante que a Rússia. — Olhei para ele. — É mais calorosa, também. É bonita. — Soltei um suspiro.
— Não estou escolhendo os príncipes pela sua importância internacional, Dimitri. — Ele olhou para o quatro novamente. — Se eu estivesse, poderia ter tentado com Aaron. — Ele suspirou.
— Alexandra tentou. — Concordei com a cabeça.
— Gosto de você.
— E também gosta de Caleb, William, Arthur... — Respirei fundo.
— Mas eu não estou num encontro com nenhum deles. — Dimitri concordou, abrindo um sorriso. — O que acha de almoçar depois de um banho de piscina? — Ele aumentou um sorriso.
— Parece perfeito.
Fui para meu quarto, colocando um maiô, então peguei uma toalha e vi Ivanov já me esperando, nos pés das escadas.
Desci até ele enrolada na toalha, ele tinha um calção de banho, e eu sabia que todos os príncipes usavam e abusavam da nossa academia pessoal. Todos eles estavam em ótima forma.
Me sentei na borda da piscina, então tirando a toalha. Conferi a água antes de me levantar e dar a volta nela, indo até a borda lateral da piscina e olhando a marcação de natação. Ivanov encarava a cena, esperando pelo que eu ia fazer. Me apoiei na borda, e então mergulhei, lembrando das aulas de natação.
Dei uma volta antes de parar na borda, vendo Ivanov me encarar sorrindo.
— Muita prática com natação? — Dei de ombros, enquanto ele sorria e pegava impulso. — Quero ver você me ganhar. — E então pulou dentro da piscina. Respirei fundo, me virando e começando a nadar com tudo. Virei rapidamente, voltando o caminho e nadando até a borda, mas ele tinha pelo menos dois metros de vantagem, e ganhou de mim.
Dimitri era uma ótima companhia.
Nós almoçamos no jardim, comendo tranquilamente.
— Por que você está arriscando que todos os príncipes saibam que estamos num encontro? — Ele perguntou, tomando um gole do suco de laranja. Dei de ombros.
— Acho que todos já entenderam que isso é a Elite, e hora ou outra eles saberiam que todos tem alguma relação com as princesas. — Dimitri concordou, os guardas se moviam na formação, analisando o perímetro. Estávamos ao ar livre, bastava um tiro e ambos cairíamos, mortos.
— E... o que fez você mudar de ideia? Parecia bem focada em Caleb.
— Exatamente isso. — Abri um sorriso tranquilo. — Eu estava focada de mais em Vermont. Acho que isso ainda não deveria acontecer, tenho outros príncipes para conhecer. — Ele concordou, comendo mais um pouco antes de eu falar. — E você? O que te fazer estar aqui? — Ele levantou o olhar, dando de ombros.
— Você. — Desviei o olhar, sorrindo fracamente. Ouvi sua risada fraca. — Sucessores... Ah, eles são impossíveis. Eu sou o futuro rei da Rússia, mas é provável que eu nem chegue à subir no trono. Aqui vocês sobem no trono após o casamento, assim como a Inglaterra, nós subimos no trono quando nosso antecessor morre, como era a Inglaterra nos períodos primordiais. — Acendi, compreendendo. Caleb, William e Arthur não eram sucessores, Dimitri era. Matheo e Daniel também. Meio à meio na elite. Eu me perguntava se a população já sabia as listas... a elite de quem...
Eu também me perguntava como seriam os jornais quando o escolhido fosse revelado.
Dimitri e eu ficamos ainda mais um pouco na rua, até eu me despedir, ainda havia outra coisa que precisava fazer. Eu sentia falta daquilo.
Subi para meu quarto, colocando a roupa de cavalgada, soltando meu cabelo e fazendo uma trança mal feita nele. Segurei o capacete em mãos, então olhando pelo espelho para minha mesinha de cabeceira.
Me virei, indo até a segunda gaveta e abrindo-a, tirei os papéis, então puxando o fundo falso e pegando a arma.
Eu havia ido cavalgar e tínhamos sido atacados, se isso acontecesse novamente eu não estaria indefesa. Não completamente. Desci as escadas, indo tranquilamente pelo caminho para o jardim, vendo os guardas já montados em seus cavalos, ao longe. Passei pelo centro de treinamento, então parando ao ouvir tiros. Olhei em volta, então empurrei as portas, passando pelo hall de entrada e indo até a área de treinamento, vendo Arthur mirando com a arma.
Engoli em seco, ia precisar falar com ele agora. Queria deixar para mais tarde, após de espairecer o que precisava, mas agora parecia a melhor opção.
Parei na área de treinamento bem ao seu lado, pegando os protetores de ouvido e levantando minha arma. Apoiei o braço exatamente como Alexa havia ensinado, e consegui acertar dentro da marcação... Mas eu não ia ficar gastando minhas balas. Me virei, vendo Arthur me encarar.
Tirei o fone, enquanto ele fazia o mesmo, abrindo um sorriso tranquilo, mas podia notar o quanto estava cansado.
— Anda me seguindo, Schreave?
Sorri fracamente.
— Claro que não, você que insiste em estar nos lugares mais inusitados possíveis. — Dei de ombros. — Mas vale a pena, queria perguntar algo para você. — Ele concordou com a cabeça.
— Pergunte.
— Você me acompanharia ao casamento de Aaron? — Ele piscou, parecendo em choque.
— Eu... tenho um problema. — Ele finalmente falou, comigo levantando as sobrancelhas em resposta. Ele não queria ir comigo?
— E... qual seria? — Ele deu de ombros.
— Lexi me pediu a mesma coisa. — Abri a boca, ficando levemente em choque.
— Ok... eu peço para outro príncipe me acompanhar, sem problemas. — Dei de ombros, mas ele negou. Minha garganta secara, novamente.
— Nem, sei como podemos resolver isso. — Franzi o cenho, confusa.
— Como?
— Gênio, vou acompanhar as duas. — Olhei para ele, então sorrindo.
— Sério?
— Claro. — Ele sorriu de volta, dando de ombros.
Parei por uns segundos, batucando no apoio ao nosso lado.
— Pare de beber. — Me ouvi dizer, vendo seus olhos ficarem tensos.
— Como você sabe?
— Vi você mais cedo, hoje. — Ele suspirou, olhando em volta.
— Por que se importa? — Soltei um suspiro.
— Porque sim.
Ele parou, por um mísero segundo, e então olhou para mim. Nós dois nos encaramos, nenhum dos dois quebrando o contato visual.
— Você querendo que eu vá ao casamento, se preocupando... O que aconteceu com aquela coisa de afastar-se? Eu achava que já tinha perdido essa batalha.
Soltei um suspiro.
— É complicado se afastar quando seu coração diz outra coisa. — Pude ver um lampejo de sorriso em seu rosto, mas ele não o liberou.
— Isso significa que você está me dando uma segunda chance? — Suspirei, cedendo.
— Sim, mas isso também significa que eu acabo com você caso quebre meu coração novamente. — Ele sorriu, e caramba, eu tinha me apaixonado por aquele sorriso muito tempo atrás.
— Obrigada. — Dei de ombros. Olhando para minha arma no balcão e pegando-a, colocando ela na cintura. Ele olhou para a minha roupa, e então para o capacete apoiado na entrada.
— Vai cavalgar? — Perguntou, enquanto eu concordava. — Me espera? — Ele tirou a arma, já caminhando para a entrada.
— Claro. No centro de treinamento. — Ele concordou, saindo de lá rapidamente, pegando o paletó do terno na entrada, ao lado de meu capacete. Pude vê-lo pelas janelas, correndo em direção ao palácio.
Olhei para a arma dele, no balcão ao lado da minha.
Eu esperava não estar partindo o meu coração, mas... principalmente, o dele.
Olhei para a arma, colocando os protetores e pegando a arma de Arthur.
Levantei ela, apontando-a bem para o centro e soltando toda minha respiração. Destravei-a, então segurando no gatilho e apoiando o ombro, sentindo o solavanco ao apertar o gatilho. Errei.
Aaron Thompson. Errei. Ele vai se casar. Errei. Ele quebrou o coração de minha irmã ao partir. Errei. Senti o gosto amargo em minha boca. Caleb Vermont. Errei. Conferi o pente, notando que estava descarregado, e preenchi-o novamente. Apontei a arma outra vez, mirando-a de novo. Arthur Gravesen. Errei. Dimitri Ivanov. Errei. William Davis. Errei.
Soltei um suspiro, então respirando fundo e soltando o ar.
Nathan Archbald. Acertei.
Abaixei a arma, vendo o tiro certeiro na mira.
Estava na hora de eu começar a agir como uma governante, não como uma garotinha que chora pelos cantos quando perde alguém que se importa.
Estava na hora de aprender com os erros.
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