Notas iniciais
Olá, meus amores! É sexta-feira, mas eu já não aguentava de ansiedade! Em primeiro lugar, perdoem-me pela demora. Sei que já falamos 1001 vezes, mas esse ano está muito apertado para Cams e eu. Ela no terceiro, eu na faculdade. Tenso. De qualquer forma, obrigada pela paciência! Vamos tentar acelerar, mas não garantimos nada. Creio que as Malexers vão amar o capítulo! Sem mais delongas, e sem mais spoilers... Aproveitem! — D. Queen

Acordei um tanto quanto sufocada nos braços de Matheo. Era estranho tê-lo ali, ainda que já fizesse mais de um mês que não dormíamos uma noite sequer separados. Rose ainda estava vivendo o impasse entre seus príncipes, e dormia menos a cada noite que se passava, ainda mais depois do prazo que papai havia dado a ela: uma semana. Uma semana, porque o anúncio seria feito na véspera de Natal, e Maxon não queria que os reis passassem o feriado mais importante do ano longe de casa. Uma semana, porque Natal é família, e já estava na hora de termos a nossa.

Delacroix parecia um urso em cima de mim. Havia engordado alguns poucos quilos, muito provavelmente em sua tentativa — bem sucedida, diga-se de passagem — de me engordar também. Seus cabelos já cobriam completamente suas orelhas e, despenteados, boa parte de seus olhos. A barba por fazer já era uma constante, bem como seu sorriso e suas demonstrações sutis de amor. Ele me conquistava a cada dia.

— Bom dia — resmunguei, ajeitando-me melhor sob o casulo de cobertas. Lá fora nevava, e a lareira já não era o suficiente. Imagine quando for pra Suíça, Alexandra. — Dormiu bem?

— Como um anjo — ele riu, beijando-me a testa e puxando-me mais para si. — Eu poderia ficar horas aqui, só sentindo seus arrepios quando entra vento frio por baixo do edredom, sabia?

— Poderia, mas não vai — sorri, afastando-o com certa dificuldade e me levantando. — Vous pouvez y aller et faire quelque chose d'utile, s'il vous plaît?

Seus lábios se alargaram num sorriso e ele saltou da cama, vindo em minha direção, como um predador atrás de sua presa. Por mais que ele não dissesse, estava impressionado com minha recente evolução de pronúncia e facilidade em trabalhar com as palavras em francês. Sentenças maiores e mais complexas.

— Só porque pediu com jeitinho — brincou, passando os dedos por meus cabelos. — Acho que vou lutar um pouco. Vamos?

— Mais tarde, hm? — dei-lhe um selinho e fui para o banho enquanto ele pegava sua roupa de treinamento. As aulas de muay thai estavam fazendo muito bem ao suíço: condicionavam-lhe a energia que eu, muitas vezes, não tinha.

Maxon me manteve ocupada a manhã inteira com futuros projetos para Illéa. De fato, eu e Delacroix não havíamos tido um debate sobre como ficaria a situação dos governos. Na realidade, eu sequer havia dito a ele que era a herdeira do trono. Talvez fosse receio; talvez, apenas meu instinto de estar sempre um passo à frente, e mantendo outro atrás. Por mais que eu o amasse — e tal pensamento já não me atormentava mais —, era impossível não manter algo em meu controle quando se tratava dele.

De fato, eu já estava superfaturada daqueles projetos. Sempre a mesma receita: um bolo com todos os ingredientes, e sem gosto de nenhum. Era sempre assim em Illéa. Apenas projetos sociais, que visavam mais remendar os problemas do país que permitir o seu crescimento. Infelizmente, não seria nas próximas gestões que todos os problemas encontrariam sua solução.

Quanto mais eu lia sobre a fome, falta de saneamento básico e precariedade da saúde, mais eu tinha vontade de passar o resto dos meus dias numa potência mundial livre da pobreza. Eu não era Rosemarie. E, por pior que isso soasse, eu não tinha paciência para lidar com as carências. Rose conformava-se com o suficiente, e eu sempre almejara mais. E eu sabia que Illéa não me pertencia. Só faltava a coragem de dizer em voz alta e fazer o anúncio oficial.

Eu só esperava que Matheo não fizesse questão de reinar dois países.

Almocei com minha mãe no salão das mulheres. America já nem me perguntava mais se já havia feito minha escolha, porque as longas madrugadas em meu quarto já haviam anunciado para todo o castelo quem era meu escolhido. Na realidade, ela até já sabia que eu mantinha Arthur como uma terceira opção para minha irmã, e como um ombro amigo. Afinal de contas, o dinamarquês também não queria voltar pra casa. Ele amava aquele lugar ensolarado, vulgarmente conhecido como Angeles.

Mamãe mostrou-me fotos que Astra havia nos enviado da Itália. Ela fora convidada por Daniel para passar algumas semanas lá, e não pensou duas vezes antes de ir. Eram um casal muito bonito, tenho que admitir.

— Sabe, — Meri começou — alguns boatos dizem que ele estão com o casamento marcado para agosto. O que acha disso?

— Isso é ótimo! — sorri — Eles parecem ser bem felizes juntos. Na realidade, acredito que foi o destino que os uniu, porque eu nunca acreditaria que minha prima se casaria antes de mim. Ela parece tão independente.

Os lábios de minha mãe se curvaram num sorriso.

— Eu nunca achei que você fosse se casar antes de Rosemarie pelo mesmo motivo, e olhe só — brincou, apontando para mim —, aliança no dedo. Já definiu uma data?

Senti minhas bochechas corarem, o que me levou a tomar mais um gole de suco, instintivamente. America Schreave poderia ser muito invasiva quando necessário, e aquele era um daqueles momentos. Coloquei as mãos sobre o colo e a encarei no fundo dos olhos azuis, já marcados com rugas de velhice.

— Matheo e eu estávamos pensando em abril... — sorri — Já do ano que vem.

Ela não pôde esconder a surpresa.

— Em quatro meses? — colocou a taça sobre a mesa, já tirando a caneta que prendia seu cabelo e anotando coisas em sua prancheta. — Okay. Quatro meses pra preparar o casamento da década. Santo Deus, preciso falar com Charlotte...

E saiu apressada, deixando-me sentada sozinha com a refeição.

Quase uma hora depois, eu já estava no centro de treinamento, acertando golpes e mais golpes em um boneco de silicone. Treinar luta corpo a corpo relaxava-me, ao passo que me fornecia a dose diária necessária de adrenalina para manter minha sanidade. Matheo havia me viciado em esportes, e praticava todos comigo. Uma companhia para todas as horas.

Acontece que decidi testar meus limites aquele dia, o que, diga-se de passagem, foi uma terrível ideia. Talvez fosse pelo fato de não ter feito toda a digestão da comida, talvez fosse pelo fato de ter treinado muito na tarde anterior, mas meu corpo foi atingido por uma tremenda onda de tontura. Os joelhos cederam e de apoiei no boneco, deixando o peso do corpo, lentamente, me levar ao chão. Respirava com dificuldade quando senti um par de braços me tirando do chão e me arrastando para a enfermaria, pouco antes de desmaiar.

Arthur.

— Por quanto tempo fiquei apagada? — piquei várias vezes, adaptando-me à claridade do ambiente.

— Cinco minutos — o loiro riu, passando a mão por meus cabelos. — Só tempo o suficiente para o doutor aqui tirar uma amostra de sangue e ligar você no soro. Pelos meus cálculos, seu namoradinho deve chegar em cinco... Quatro...

— Alexa! — Matheo suspirou ao me ver acordada. — Santo Deus, o que houve com você?

— Três segundos antes do tempo — brinquei, e Arthur sorriu. — Isso que é condicionamento físico.

— Coisa que pelo jeito você não tem — o dinamarquês levantou-se e beijou-me a testa. — Fique bem, ok?

— Obrigada — segurei sua mão, sorrindo. — Por tudo.

Ele assentiu e saiu. Eu sabia que meu melhor amigo e meu noivo não se sentiam muito bem na presença um do outro, mas eles estavam tendo alguma evolução nisso pelo último mês. Ao menos, já não sentiam o desejo de torturarem um ao outro, o que era um bom começo.

— O que houve com você? — Delacroix sentou-se ao meu lado, acariciando meu rosto delicadamente.

— É o que estou tentando descobrir — Dean Hudson se pronunciou. — Há quanto tempo não faz exames de rotina, Alexandra?

— Hm... — pigarreei — Uns seis meses, eu acho.

— É, já estava na hora de renovarmos, então... — sorriu, colocando a amostra de sangue na centrífuga. — Meia hora de soro, ok? Depois mando alguma enfermeira te tirar daqui. Mas, por favor, fique essa meia hora. Vai ser rápido. Eu só tenho algumas perguntinhas...

E as perguntas não acabavam mais. Dean e Matheo alternavam-se, um querendo saber mais que o outro. Apenas respondi-lhes de forma curta e rápida, e cochilei o restante dos trinta minutos, depois de muita insistência dos dois. A conversa deles ao fundo embalou minha soneca, que se prolongou por uma hora a mais do que o exigido.

— Como você se sente, anjo? — o príncipe perguntou no momento em que me retiraram da maca e me colocaram em pé.

— Estou ótima. Provavelmente foi só uma tontura passageira — puxei a manga da roupa de treinamento para baixo, cobrindo o lugar onde haviam colocado a agulha do soro. — Será que podemos jantar no quarto essa noite? Creio que temos coisas a conversar.

Ele apenas concordou e me levou escada acima. Passei alguns minutos no banho enquanto ele pedia para as criadas mandarem o jantar. Sequei-me e vesti o roupão felpudo, sentando-me a beira da lareira. Matheo fez o mesmo, servindo-se de uma taça de vinho e me oferecendo. Recusei.

— Tem certeza? — arqueou uma sobrancelha — Tinto, demi-seco. Seu favorito, certo?

— Certo — sorri. — Matheo... Acho que teremos que adiar o casamento. Ou adiantar, talvez.

Ele colou a taça sobre a mesa de centro, assumindo uma postura séria.

— Não vejo problemas nisso, mas poderia me dizer o motivo? — pediu-me.

Suspirei, tomando coragem e o encarei nos olhos.

— Talvez eu esteja grávida — Por seu rosto passou um turbilhão de emoções. Surpresa, incredulidade, felicidade. Sua boca abria e fechava sem saber o que falar, e seus olhos se enchiam de lágrimas. — Na viagem pra Suíça eu acabei errando na contagem da tabelinha. Um dia. Achei que não fosse fazer a diferença... Mas...

— Isso é maravilhoso — suas mãos seguraram meu rosto e seus lábios tocaram os meus por um longo momento, um beijo molhado pelas lágrimas e separado pelos sorrisos. — Podemos nos casar amanhã, se você quiser. Ou podemos apenas fugir. Você quem sabe. O que for melhor para o pequeno Thomas.

Não pude deixar de rir.

— Thomas? — arqueei uma sobrancelha. — Acha mesmo que a) é um menino e b) você vai escolher o nome? Não mesmo. Vai se chamar Chloe.

Ele pegou-me no colo delicadamente e me colocou sobre a cama, deitando-se sobre mim, apoiando-se em seus cotovelos para não soltar o peso do corpo sobre o meu. Beijou minha testa e o restante do meu rosto repetidas vezes, e acariciou meus cabelos até desfazer os cachos.

— Descobriremos em nove meses e, por mim, é o suficiente que venha com saúde.

E beijou-me intensamente, aproveitando uma das últimas noites em que teríamos algum sossego para o restante de nossas vidas.

Notas finais
O que acharam? QUERO COMENTÁRIOS! E, sim, estamos chegando ao fim... Foi uma longa jornada (afinal, alumas de vocês nos acompanham a mais de um ano, né?), mas AINDA não chegou ao fim. Até mais! — D. Queen