Notas iniciais
Hey, guys, Drama Queen aqui. Cá está o maior capítulo da história — até agora —, e espero que gostem. POR FAVOR, não se esqueçam de comentar. Temos 75 leitores e nem 20% deles comentam, o que nos deixa REALMENTE chateada. Entendemos que muitos não tem tempo, mas publicamos uma vez na semana! Todos conseguem arrumar um tempinho. Deixo aqui meu agradecimento especial para Jaque Hoffman, pela recomendação. Nos vemos nas notas finais.

— Feliz aniversário, princesa.

Foi a primeira coisa que ouvi ao abrir os olhos. Estava completamente ciente do corpo seminu de Aaron às minhas costas, de seus braços me envolvendo com firmeza e de seus lábios em meu pescoço, revezando-se entre beijos e palavras. Deus, eu mal era capaz de acreditar que acordaria daquele jeito todos os dias, pelo restante da minha vida.

— Muitíssimo obrigada, senhor. — virei-me na cama, encontrando olhos verdes sorridentes. Aparentemente, eu não era a única a ter uma incrível noite de sono. — Não sabia se você iria se lembrar, pra falar a verdade.

— Mais fácil eu esquecer o meu. — ele me deu um selinho e se levantou da cama. Pegou uma caixinha no bolso do fraque. Meu coração parou. — Eu disse que só estava esperando seu aniversário de dezoito anos, Lexi.

— Você não vai fazer isso. — sentei-me à beirada da cama, os pés tocando o chão frio de mármore. Peguei o roupão sobre a cabeceira e coloquei sobre a camisola, cobrindo os braços. Era uma manhã fria.

— Já estou fazendo. — ele se ajoelhou à minha frente, já vestido. Uma pena. — Alexandra Schreave. Lexi. Faz catorze anos que nos conhecemos, se minha memória não falha. Não posso dizer que me lembro daquele momento, porque convenhamos que isso foi há muito tempo. Durante esses catorze anos, você me cativou. Cativou com suas brincadeiras, com suas palavras sempre certas, com seus sorrisos que iluminavam até o céu mais acinzentado de toda a Inglaterra. E durante as últimas semanas, cativou-me ainda mais profundamente. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas, disse-me uma vez. E você se tornou responsável por mim. Cativou-me como mulher, não como menina, e é ao lado dessa menina mulher que o menino homem dentro de mim quer viver para o resto da vida. Eu amo você, eu quero você, eu preciso de você. Alexandra. Lexi. Você aceita se casar comigo?

— Aaron Edward Thompson, eu não poderia querer outra coisa.

Ele sorriu divinamente e, Deus, se meu sorriso ela capaz de iluminar a nebulosa Londres, o sorriso do inglês era capaz de ofuscar o Sol de Angeles. Seus dedos estavam trêmulos, e demoraram-se em minhas mãos ao colocarem o anel. Eu conhecia aquele anel: tinha uma história linda. Estava na família de Aaron desde o fim da Terceira Guerra Mundial, mas era muito mais antigo. Era o anel que Napoleão Bonaparte dera à noiva ao pedi-la em casamento. Resistira a Quatro Guerras Mundiais. E pertencera à mãe de Aaron, que descanse em paz.

— Anos atrás, quando eu pensava sobre esse momento, acreditava que fosse ter um “não” como resposta. — o loiro se levantou, puxando-me para seu peito. — Eu amo você, Lexi. Com todas as minhas forças.

— Eu também amo você, Aaron. — abracei-o, sentindo o cheiro de madeira e sabonete que sempre me inebriava. — Com todas as minhas forças.

O inglês saiu logo depois. Era pouco mais de seis da manhã, e eu bem sabia que meus pais entrariam pela porta do meu quarto a qualquer momento, o que não levou muito tempo para acontecer. Maxon e America entraram sem bater, seguindo de uma das serviçais — Iris —, que apenas deixou a bandeja no criado mudo e saiu. Papai e mamãe se sentaram um de cada lado meu, abraçando-me de forma calorosa.

— Feliz aniversário, Alexa. — Maxon beijou minha testa e deixou uma caixinha em meu colo. Tinha o embrulho prateado e um laço azul. Pela experiência, eu arriscaria dizer que a de Rose era dourada com laço vermelho.

— Parabéns, minha filha. — America me deu um abraço lateral meio desajeitado. — Mal consigo acreditar que meu bebê já está fazendo dezoito anos. Estou me sentindo tão velha...

— Sem drama, mãe. — revirei os olhos, pegando a caixinha em mãos. A curiosidade falou mais alto e eu a abri. Havia uma peça minúscula entalhada em madeira. Quanto a tirei da embalagem, notei do que se tratava: um carimbo real, daqueles usados para marcar a cera quente.

— Acho que já está grande o suficiente para ter acesso a isso. — papai explicou. — Rose também ganhará um, pedi que fizessem dois.

Concordei e agradeci, recebendo mais um beijo de cada. Logo depois, foram ao quarto de Rose. Gabriel Leger aproveitou a deixa para dar me matar de susto ao me abraçar por trás, a mão tapando minha boca.

— O corpo ou a vida. — ele sussurrou, logo depois me soltando e me abraçando com força. Muita força. Força exacerbada. — Feliz aniversário, pirralha.

— Cale a boca, Gabe. — revirei os olhos, dando-lhe um soco no ombro. Doeu em mim, mas nem fez cócegas nele. — Obrigada.

— Vai me agradecer quando vir o que lhe trouxe... — ele sorriu com o canto dos lábios, os olhos verdes cheios de malícia. — Lembra quando éramos pequenos e encontramos aquela passagem que levava da biblioteca secreta diretamente a um salão de armas? Mas que então começamos a acreditar que era ilusão nossa, porque nunca mais encontramos o lugar?

— Claro que eu lembro, passei dias tentando entender aquilo. — cruzei os braços. — Tirei livro por livro daquela estante, procurando algum mecanismo de abertura. Nada.

— Voilà. — ele riu, estendendo-me a mão. Havia algo minúsculo e prateado em sua mão: uma chave. — Funciona assim: você coloca a chave debaixo da estante, na lateral. Tem uma fechadura, lá. Gira duas vezes e arrasta o móvel. A passagem abre. Quando sair, coloca a estante no lugar, vira a chave duas vezes para o outro lado, tira da fechadura e leva embora. Simples.

— Como descobriu tudo isso? — perguntei, chocada, ao mesmo tempo que abria o colar que ganhara de tia May e guardava a chave lá. Ela disse para só abrir quando precisasse, contudo eu ainda não tinha visto o que havia em seu interior. Até temia olhar.

— Ser filho do chefe de segurança real tem lá suas vantagens. — ele deu uma piscadela. — Não deixe Rose saber disso. Ou melhor, não deixe ninguém saber disso. Tecnicamente, só existem mais duas: uma com meu pai, outra com o seu.

— A quem pertenceria essa? — questionei.

— Ao príncipe, imagino.

Gabriel saiu logo depois, deixando-me com um nó na garganta. A verdade é que eu e Rosemarie nem deveríamos estar na Seleção. Alguns anos atrás, mamãe engravidara novamente, e o médico dissera se tratar de um menino. Todavia ele nunca nasceu. Tudo fora providenciado: quarto, móveis e até mesmo os objetos reais. Como essa chave, como o carimbo. Maxon fazia de tudo para esconder de nós tudo o que fizera pelo filho, mas vez ou outra — como essa, por exemplo — encontramos objetos únicos, que princesas não deveriam portar. De certo modo, ainda dói. Não apenas por termos perdido um irmão, mas por acreditarmos que papai nunca confiará plenamente em nós, considerando o fato de sermos mulheres.

Gabriel estava, na verdade, poupando Rose. Ela ainda não superara.

Aproveitei o momento de paz para tomar um longo banho e me arrumar. Coloquei um vestido acinzentado de mangas longas, torcendo para que a noite não fosse tão fria. Rosemarie havia escolhido nossos vestidos, e eu duvido que ela tivesse previsto uma frente fria. Ninguém previra.

— Bom dia, princesa. — recebi um sorriso de Andrew ao descer as escadas. Ele me ofereceu seu braço e eu o segurei; o holandês nos levou para os jardins. — Dezoito anos? Meus parabéns.

— Obrigada. — suspirei. Ouviria os votos de aniversário pelo resto do dia, e por todos os príncipes. Precisaria de paciência. — Anda sumido.

— É, talvez. — deu de ombros. — Creio que você me chutaria daqui mais rápido que qualquer coisa se eu decidisse ficar no seu pé.

— Nisso está certo. — sorri. — Não sei porque minha irmã insiste em manter alguns príncipes por aqui. Não gosto deles, ela tampouco.

— Uma segunda chance, talvez.

— Talvez. Eu não dou segundas chances.

Acabei passando mais tempo que o esperado com Andrew. Era bom conversar com ele: alguém que ouvia sem querer bajular, que aconselhava sem querer tirar vantagem. Não pude deixar de me sentir mal quando seus olhos pairaram sobre o anel em minha mão. Minha inocência não era tanta para que eu não notasse a tristeza súbita que o dominou. Beijei-lhe a bochecha antes de voltar para o palácio: eu possuía dezena de presentes para abrir.

— Vossa Alteza — Kyle West interrompeu meu trajeto. — Feliz aniversário, senhorita.

— Ah, muito obrigada. — comecei a corar. Será que Rose havia falado algo para ele? Será que o príncipe Belga soube que era eu, e não era? — Como tem andado, senhor West? Espero que bem.

— Estaria melhor se me desse a chance de andar ao seu lado, senhorita Alexandra. — ele sorriu, envergonhado. — Perdoe-me por isso, mas eu ficaria muito feliz se Vossa Alteza me permitisse uma dança esta noite.

— Prometo-lhe a primeira, senhor West.

— Kyle — ele beijou o nó de meus dedos.

— Alexa. — sorri, prosseguindo meu caminho.

Entrei no quarto anexo ao meu. Lorena me dissera que todos os presentes enviados pelos príncipes estariam lá, e realmente estariam. O quarto, tão grande quanto o meu, estava cheio. O choque foi grande: de completamente vazio, fora a lotado. Respirei fundo e comecei a abrir as embalagens, uma a uma. Felizmente estavam nomeadas.

A primeira que abri, admito que escolhi pelo tamanho. Era gigante. Uma caixa de madeira da minha altura, mas com uns dois metros de largura. Chamei Gabriel, que me ajudou a abrir com o pé-de-cabra. Quase não acreditei quando vi o que estava lá dentro. Doze vestidos nas minhas tonalidades favoritas, cortados e costurados manualmente, com designs que eu reconheceria ainda que estivesse do outro lado do mundo: Milão, sem dúvidas. Tive a confirmação ao olhar a etiqueta. Daniel Blue.

— O cara gastou uma nota, hein. — Gabe riu. — Acha que talvez ele jogue no outro time? Estrou realmente precisando de umas roupas melhores.

Apenas revirei os olhos e continuei com os presentes. O segundo maior era de James Miller. Um porta-retratos com dezesseis fotos, daqueles de se pendurar na parede. Todas com paisagens incríveis, que eu imaginava terem sido tiradas da Polônia. Era um lugar bonito, tenho que admitir.

O próximo presente foi o de Caleb Vermont. Tratava-se de um quadro grande, e a assinatura no canto era tão conhecida que tive até medo de tocar a moldura. O olhar de Gabriel ainda fitava a tela, tentando descobrir porque lhe parecia uma tela tão conhecida.

Porque pertencia ao Louvre, apenas.

A maioria dos outros presentes eram joias — de prata, ouro, ouro branco, ouro negro — enfeitadas com pedras — safiras, ônix, rubis, esmeraldas, quartzos —, uma mais linda que a outra. William Davis me dera uma pulseira parecida com a que ele já havia dado à minha irmã. Alex Toil e Santiago Lands deram brincos deslumbrantes, impossível definir qual seria o mais bonito. Os colares ficaram por conta de Erik Nightwell e Patrick Hampson. Nicholas DanBrook — o garoto Ken — dera-me uma tornozeleira. Gostei da excentricidade.

O presente de Arthur foi um tanto quanto inusitado: uma gata. Sim, uma gata viva, daquelas de três cores. Lorena me explicara que o rei Dinamarquês enviara um avião só para trazer o felino. Era um bebê, mal abrira os olhos multicoloridos — roxos, verdes e azuis. Tinha uma coleira com um pingente de coração, e seu nome estava gravado: Ophelia. Eu sabia que era uma personagem de Hamlet, e que Hamlet era dinamarquês, mas o príncipe me surpreendeu.

Kyle West me presenteara com uma cesta de chocolates belgas. Não resisti à tentação e experimentei um. Eram simplesmente incríveis, não poderia negar. Kevin DeLuca, Denis Prado e Kol Peterson me deram livros. Estavam escritos em Irlandês, Espanhol e Grego, respectivamente. Eu levaria semanas para lê-los, contudo sem dúvidas que valeriam a pena. Os presentes não paravam por aí. Alguns acessórios de cabelos, maquiagens e enfeites decorativos que remontavam à seus respectivos países também se encontravam ali. Eu provavelmente precisaria de mais um quarto para guardar tudo aquilo.

Terminei de abrir tudo já na hora do almoço, sob as constantes reclamações de Gabriel. Não tenho culpa se para ser um armário você tem que comer a cada duas horas. Se ele se oferecera para ser o segurança meu e de Rose, deveria ser nosso escravo também: a regra é clara.

Prendi os cabelos e desci para o salão. Graças a Deus — e às dicas de Gabe — as marcas roxas haviam sumido da pele. Eu sabia que estava até um pouco adiantada, entretanto não queria correr o risco de perder a hora. Encontrei Aaron no primeiro andar. Leger deu-me uma piscadela e nos deixou a sós.

— Alguém está adiantado. — sorri, dando-lhe um selinho, sem se importar que alguém notara. — Cadê a pontualidade britânica?

— Perdão, Vossa Alteza, a conversa com meu pai ao telefone durou menos tempo do que eu esperava. — ele suspirou, sentando-se no divã. Sentei-me ao seu lado. — Meu pai mal conseguia falar.

— Como ele está? — perguntei, segurando sua mão. Seus olhos foram de verdes a cinza. Não era bom sinal.

— Não muito bem. — suspirou novamente. — Piorando. A idade não ajuda a se recuperar, sabe? Nenhum médico no mundo descobre o que ele tem, só se sabe que seus pulmões estão ficando cada vez mais fracos.

— Você quer voltar, Aaron? — toquei seu rosto, fazendo com que ele me encarasse. — Quer voltar para a Inglaterra? Eu tenho certeza que nossos pais entenderiam. Maxon abriria uma exceção, afinal eu já fiz minha escolha e...

— Lexi. — ele me interrompeu. — Acha mesmo que eu simplesmente abandonaria você sob o mesmo teto de outros vinte e quatro homens? Nem pense nisso.

— Ciumento. — sorri, levantando-me.

O inglês me acompanhou até a porta do salão, impedindo-me de entrar, porém. Suas mãos voaram para minhas cinturas e seus lábios tocaram os meus, lentamente. Foi um beijo demorado e quente. Poderia ser eterno, se não fosse minha irmã pigarreando ao passar por nós. Dei um último selinho no loiro e entrei no salão junto com Rosemarie, sentando-me junto a ela.

— Dormiu bem? — minha irmã me encarou com malícia, levando o copo de suco à boca. — Claro que dormiu. Por que não dormiria?

— Rose...

— E pensar que papai e mamãe provavelmente apostavam que eu quebraria as regras antes de você.

— Rose. — repeti. — Não pense em falar uma única palavra.

— Não vou. — ela deu de ombros. — Mas... Quero detalhes.

— Estamos noivos. — soltei a bomba. Não queria que outra pessoa, se não minha irmã, fosse a primeira a descobrir. Ela teve uma crise de tosse. Típico.

— Meu Deus, isso é sério? — ela sussurrou, na esperança de Maxon e America não ouvirem. — Alexa, vocês já...

— Não, Rose, nós não fomos para a cama, que coisa. — revirei os olhos. — E, sim, um tempo atrás ele me disse que estava esperando meu aniversário de dezoito anos para fazer o pedido, mas a seleção veio antes, então... Bem, então estamos desse jeito. Hoje de manhã ele finalmente pediu. — exibi o anel, discretamente.

— Eu aprovo vocês dois.

— Sério?

— Claro que é sério. Ele me deu, simplesmente, um dos cavalos mais caros do mundo. Raça pura e rara, treinado pelo melhor equestre da Inglaterra. — os olhos de Rosemarie brilharam ao falar.

— Santo Deus, Rose, como você é comprável. — dei risada e minha irmã riu junto. Almoçamos rapidamente: seria um curto dia para tantas coisas a serem feitas.

Passei algumas horas na biblioteca secreta, atualizando-me sobre os acontecimentos do Mundo. Ainda que soubesse estar à frente de Rosemarie nos conhecimentos gerais de política, não poderia ficar atrás nas atualidades. De fato, o mundo inteiro parecia estar de olhos na Seleção. Testei a chave que ganhara de Gabriel, e realmente funcionara.

A sala de armas não tinha uma janela sequer. Inteiramente iluminada por lâmpadas fluorescentes, lembrava-me um hospital. A diferença é que em vez de leitos, o local estava cheio de prateleiras; e as prateleiras, cheias de armamento pesado. Assim que meus olhos correram pelo local, reconheci algumas armas: Delta Fox, MP5, Shadow SRV, CFR, AK47, Socom Tatical e Viper Skeet estavam entre elas. Uma mais linda que a outra. Não consegui resistir ao impulso de pegá-las e mirar em um alvo na parede. Contudo o bom senso me impediu de atirar.

Segui as instruções de Gabe ao sair de lá. Havia gasto muito do meu tempo admirando as armas, e tal atitude despertara em mim um desejo intenso de voltar a treinar esgrima. Eu ainda tinha algo em torno de uma hora e meia antes de retornar ao meu quarto e começar a me arrumar. Animada com a ideia, saí da biblioteca secreta e corri em direção ao centro de treinamento.

Olhei pela janela, com uma bela visão do salão. Era grande e rústico, contrastando com o restante do palácio. Não possuía acabamento e era inteiro trabalhado em madeira. O lugar fora construído por causa de tio Gerad. Ele havia começado o treinamento comigo e com Rose quando éramos menores, mas minha irmã nunca fora chegada isso. Quando nosso tio decidiu sair de Angeles e visitar o mundo, todavia, as reformas do lugar pararam. Vez ou outra eu fugia para lá, treinando por conta ou com Gabriel. Ele era muito bom.

Assim que passei pela porta, a surpresa: mais quatro ou cinco príncipes treinavam lá. Ao que parece, o ego masculino sempre exigia uma boa dose de adrenalina. Discretamente, fui para o vestiário. Devo admitir que deu um certo trabalho tirar o vestido sozinha e vestir as o uniforme de esgrima. Peguei meu sabre dentro do armário. Tinha pequenas marcas das pancadas no boneco de madeira, o que a tornava, de certa forma, única. Coloquei o capacete, a fim de manter o anonimato e voltei para o salão. Se queria lutar com homens, não poderia deixar que soubessem que sou mulher.

Assim que cheguei ao salão, uma luta se encerrava. O perdedor, que reconheci como sendo Julian Arnold, o chileno, sentou-se em um banco para observar a luta seguinte. Kol Peterson, contra o vencedor do duelo. Durou questão de segundos até também ser derrotado. Mais dois vieram após ele, cujas faces também estavam cobertas e, por isso, não reconheci. Os perdedores passaram a lutar entre si: aparentemente, era mais interessante.

Analisei os movimentos do príncipe vencedor, e rapidamente percebi sua vantagem: era canhoto. Grande coisa, pensei. Tio Gerad também é. Troquei o sabre de mão. Se ele estava acostumado a vencer destros, teria uma certa dificuldade com o lado ao qual atacar. Sua cabeça se virou em direção a mim e seus dedos se moveram, chamando-me. Quanta arrogância.

Posicionei-me à sua frente, observando cada movimento. Tinha a respiração inconstante, como se risse: possivelmente do meu tamanho e envergadura. Idiota. A luta começou com uma troca de acenos, já que estávamos sem juiz. Tenho de admitir que eu subestimara o príncipe em questão: ele era realmente ágil, com movimentos fluidos. Felizmente, parecia ter algum trabalho em atacar do outro lado.

O som do choque do metal revigorava-me. A cada movimento eu parecia ter mais energia e me aproximar mais de uma possível vitória. Ainda que meus braços fossem mais curtos, eu era mais rápida, possivelmente pelo tamanho. Desviava do sabre com certa facilidade, até que o atingi. Bem no peito. Só então senti sua lâmina encostada a meu uniforme. Por questão de milímetros ele perdera.

— Touché — ele riu, tirando o capacete. Não. Sem chance. — Sorte de principiante, imagino.

Matheo Delacroix.

Tirei meu capacete também, observando a surpresa em suas feições. Sorri, vitoriosa, soltando o cabelo, antes preso, sobre os ombros e segurando o sabre com mais força. O que aconteceria se eu perfurasse os olhos dele com aquilo? Além do suíço possivelmente nunca mais voltar a enxergar, é claro.

— Creio que não. — meu sorriso se alargou — Você que é ruim, mesmo. Muito a aprender, pouco a ensinar, Delacroix.

— Ah, Lexi... Creio que você ainda vá aprender muito comigo. — ele passou os dedos pelo cabelo. Era muita petulância. Levantei a mão em punho, prestes a atingi-lo novamente com o sabre, mas ele me puxou com a mão direita, de modo a prender meu braço com tal força que me fez soltar a lâmina. — Ambidestro, docinho.

— Não me chame de Lexi. — afastei-o com as mãos — Muito menos de docinho. Estamos entendidos? — dei um passo para trás, pegando o capacete e o sabre caídos e saí em direção ao vestiário. Estúpido.

Troquei de roupa rapidamente, colocando vestido sem o corpete. Não estava realmente interessada em gastar muito tempo ali. Já saía de volta ao palácio quando uma mão me segurou pelo punho. Não precisei me virar para saber de quem se tratava. Apenas puxei o braço com força e continuei a andar, mas Matheo não saí do meu enlaço.

— Alexandra, pare. Não quero te machucar, não de novo. — ele pigarreou e colocou-se à minha frente. Suas mãos tocaram meus ombros tão levemente que decidi lhe dar uma chance.

— O que você quer, Delacroix? — suspirei, encarando-o fixamente. Sempre acreditei que tivesse os olhos castanhos, até porque a ficha dele dizia isso, mas apresentavam uma tonalidade Hazel. Como os meus. — Diga logo, não tenho muito tempo.

— Primeiramente, desculpar-me. Por ter lhe machucado na piscina, por ter sido alguém tão estúpido. E a verdade é que sou estúpido porque sempre tenho agir de mil e uma formas diferentes, na tentativa de descobrir porque me odeia tanto. — suas mãos desceram de meus ombros para meus cotovelos, e ele se aproximou de mim um passo. Recuei, mantendo a distância. — Será que poderia ao menos falar alguma coisa?

— Eu lhe desculpo, se serve como consolo. Entretanto isso não muda em nada o que sinto por você: desprezo, ódio e, frequentemente, raiva. — cruzei os braços, livrando-me do toque dele. — Se quer saber o motivo disso, olhe para si mesmo, Delacroix. Você é imprudente. Faz tudo o que quer, do jeito que quer. Não pensa nas consequências, não pensa em como vai afetar as pessoas a seu redor com sua atitude. Não sabe nem o que pretende fazer com sua vida. Não é porque vai se tornar Rei da Suíça que seu futuro está definido, deveria saber disso. E, se sabe, não faz nada para mudar. É por isso que te odeio. É por isso que não suporto sua presença. Todos os príncipes aqui tem planos para o seu país: planos nos quais trabalharam anos e anos no aprimoramento. Menos você. É um derrotado, pois desistiu antes de tentar. Eu não suporto derrotados.

— Eu estudei. — o moreno desviou o olhar, encarando qualquer coisa que crescesse em meio à grama verde. — Estudar medicina genética. É o que eu faço desde os oito anos. — Matheo levou a mão ao cós da calça. — Sabe minha tatuagem? Ela tem um significado. Eu venci a doença de Huntington. É um distúrbio neurológico hereditário caracterizado por causar movimentos corporais anormais e falta de coordenação. Sabe, não tem cura. Mas de algum jeito eu aprendi o suficiente para conseguir manipular meus próprios genes. Trabalhei anos num remédio que curasse, e não só prolongasse minha vida. Foi isso o que fiz, enquanto você e os outros príncipes aqui se afundavam em livros sobre guerras.

Pela primeira vez, eu não sabia o que falar.

— Matheo...

— Não diga nada, Alexandra. Não quero sua pena. Não quero ser digno de dó. É por isso que, além de meus pais e médicos, você é a única que sabe dessa história. E continuará sendo a única, entendeu? Aliás, até esqueça que eu disse isso. Sim, esqueça. Prefiro que me odeie a me olhar desse jeito e... De qualquer jeito, não faz diferença. Você está noiva, não é? Esse anel...

— Sim, eu estou noiva. — cruzei os braços.

— Isso quer dizer que não tenho chances.

— Isso quer dizer que nenhum de vocês tem.

— As chances nunca jogaram a meu favor, de qualquer forma.

Matheo me puxou pela cintura com um dos braços, enquanto o outro voou para minha nuca. Tinha as mãos tão quentes quanto o verão de Angeles. Sem me dar tempo de ração, tocou nossos lábios de forma violenta, bruta. Subi meus dedos para seu peito, forçando-o a se afastar.

Matheo Delacroix era muito mais forte.

A mão em minha nuca prendia-se aos meus cabelos enquanto seus lábios insistiam em tentar abrir uma brecha entre os meus. Só consegui fazê-lo recuar quando mordi seu lábio inferior com tanta força que senti o gosto do sangue.

— Nunca mais, durante toda sua vida, pense em fazer isso comigo, entendeu? — recostei-me à parede do palácio, recuperando o fôlego. — Nunca mais.

— Um dia você ainda vai desejar isso mais que qualquer coisa, Lexi. — Delacroix provocou, limpando o sangue da boca e se afastando. — Ah, e a história da doença era mentira. Não acredito que você realmente achou que fosse verdade. Manipular todo o DNA de um ser humano? Eu não sou Deus, só sou um vagabundo inconsequente qualquer. — Dito isso, saiu acariciando o lábio machucado.

Ah, eu estava nervosa. Absurdamente nervosa.

Subi de volta a meu quarto já com a certeza de estar atrasada. Eu deveria estar me arrumando antes do sol se pôr, e já era noite. Lorena, Iris e Violet, contudo, não pareciam tão preocupadas. Talvez eu tivesse subestimado a capacidade delas. Tomei um longo banho, deixando que todo o suor da esgrima fosse ralo a baixo. Lorena fazia meu penteado enquanto íris pintava minhas unhas e Violet dava os últimos retoques no vestido escolhido por minha irmã. Aparentemente, ambos seriam da mesma cor, mas de modelos diferentes.

Ao término do processo, olhei-me no espelho. Eu estava incrível. Há eras que não me sentia tão bem ao ver meu reflexo, admito. Dei um abraço de agradecimento em cada uma e as dispensei. Coloquei um par de brincos que havia ganhado de tia May em meu aniversário de dezesseis anos, a tornozeleira que ganhara do boneco Ken — que por sinal ficara linda em mim — e o anel que Aaron me dera. Era impossível não sorrir ao olhar para ele, brilhando em meu dedo anelar como joia qualquer jamais brilharia.

Respirei fundo e saí do quarto.

Gabriel Leger estava do outro lado da porta, utilizando um fraque costurado à mão. Tinha uma tonalidade azul-marinho que contrastava perfeitamente com o rosa perolado de meu vestido. Ele estendeu o braço direito e eu o segurei; Rose fez o mesmo com o esquerdo.

— Santo Deus, por que é que eu gosto de homens? — ele sorriu, dando um beijo na bochecha de cada e nos conduzindo escada a baixo. — Sério, jogar no outro time tem suas desvantagens. Dificilmente serei capaz de ver meu bofe num vestido sexy e achar bonito.

— Cale a boca, Gabe. — Rose riu. — Pelo menos você e Alexa têm um bofe.

— Ah, coitadinha... — o loiro sorriu — Você só tem vinte e quatro.

— Não acho que ela queira incluir o senhor Gravesen nesses números. — fiz piada. — Vinte e três. Um número muito ruim, permita-me dizer.

— Por que vocês dois simplesmente não ficam quietos e vão beijar os seus machos? — ela revirou os olhos. Ficar irritada facilmente era de família.

— Bem que eu gostaria. — sussurrei para mim mesma, mas algo no sorriso de canto de Gabriel deu a entender que ele ouvira.

Rosemarie fizera um trabalho incrível com o planejamento da festa: estava tudo maravilhoso. A decoração tinha tons róseos, combinando com nossos vestidos. As flores, tulipas e rosas, davam a coloração que faltava ao ambiente. As mesas redondas — de cinco lugares — eram separadas por um corredor largo, que mantinha os príncipes de um lado e o restante dos convidados, do outro; ou, ao menos, deveria manter. À frente do corredor que só então notei que funcionava também como uma área para a dança, estavam os músicos. Um piano, dois violinos, uma viola clássica, um contrabaixo, dois violoncelos, uma lira e três flautas. Música clássica.

— Só para você saber — minha irmã começou — As tulipas foram um presente de Andrew. As rosas, de Dimitri.

— Obrigada por avisar tão em cima da hora. — bufei. Gabe riu e sussurrou algo para Rose, fazendo-a rir também. — Por que você está aqui, Gabriel?

— Porque tio Maxon quer vocês seguras, é claro. E eu sou o segurança de vocês, caso não se lembrem.

— O que nosso incrível segurança poderia fazer trajando um fraque? — revirei os olhos. O loiro aproximou-se de mim e sussurrou.

— Tenho uma pistola no bolso interno e um revólver preso à minha meia. Acredite, eu poderia atirar em qualquer um aqui, e a pessoa nem veria o que o acertou.

— Atire no suíço, por favor. — comentei com um sorriso no rosto, já posando para o fotógrafo que se aproximava de nós.

A verdade é que, quando se trata da realeza, uma festa nunca é apenas uma festa. É uma prova de fogo: ou você se porta como uma princesa, ou a população não lhe enxergará como uma. Simples lógica, complicado procedimento. Nada de tirar os saltos, não importa o quanto seus pés doam. Nada de ficar sentada por muito tempo. Nada de comer antes dos convidados. Nada de tirar o sorriso do rosto. Nada de passar mais tempo com alguém que com outros. Nada de sumir das câmeras — até porque Illéa assiste às nossas vidas como se fosse um Reality Show —. Nada de evitar algum convidado. Nada de falar de política, bem como nada de falar de coisas fúteis.

Parece difícil? Acredite, não é nem a metade.

— Ah, não... — Rose encarou algo ao longe. — Mamãe não fez isso.

Sim, mamãe fez.

Assim que vi Emma e Heidi, entendi o que minha irmã quisera falar. America Singer — visto que tal atitude não poderia partir de mais ninguém — convidara a família dos príncipes para a festa. Não a família toda, notei pelo número aproximado de convidados, apenas dois membros de cada uma. Olhando melhor pelo ambiente, notei que os príncipes conversavam com os pais e irmãos.

— Vamos ter que conhecer todos eles? — resmunguei. — Eu nem conheço boa parte dos príncipes.

— Comece pelos que conhece, então. — ela suspirou — E não vá diretamente à Emma e Heidi. Pode ficar tudo muito evidente.

Dei um suspiro — mais um, aliás — e fui até Maxon e America, e o estante da família de mamãe. Parei no meio do caminho. Estavam de mãos dadas, dando risada e curtindo o ambiente livre de tensões. Pareciam tão felizes juntos. Mamãe ria tanto que era possível notar as rugas que se formavam no cato de seus olhos, e a iluminação deixava bem evidente os fios grisalhos que já surgiam na cabeça de papai. Eu, de fato, nunca dera tanta atenção a momentos como aqueles. Eram íntimos demais. No entanto, quanto mais eu me aproximava de Aaron, mais eu desejava ter um casamento como de meus pais.

Falando em Aaron, ele não parecia tão bem. Notava-se um clima pesado entre ele e as irmãs. Eu sabia que se tratava do pai dele: sempre piorando; mas não havia nada que eu pudesse fazer por eles, se não permanecer reconfortando-os. Decidi seguir o conselho de Rosemarie e fui procurar por outros príncipes. Minha cabeça girava, em busca das melhores escolhas a serem feitas. Por um momento, lembrei-me do último Jornal Oficial, e de como Arthur deixara claro seu amor por Rose. Fui até eles.

Arthur Gravesen era filho temporão. Seu pai morrera cinco anos atrás, e sua mãe, dois. O primeiro por conta da idade, a segunda, da bebida. Não era segredo que a mãe do dinamarquês se afogara num bom uísque desde a morte do marido, entretanto, quem a culparia? Cumprimentei seu irmão mais velho — rei da Dinamarca — e sua cunhada. Axel era tão loiro e tinha olhos tão escuros quanto os de Arthur. Karen, porém, tinha cabelos negros como a noite e olhos tão verdes quanto safiras. A genética teria muitas opções com os futuros filhos do casal.

Logo depois, cumprimentei a rainha e o rei da Itália. Daniel era a perfeita mistura de Nicoletta e Pietro Blue. Não era segredo que a rainha italiana era uma grande amiga de mamãe, então me permiti passar um tempo a mais com ela antes de conhecer Leander e Valerie West. Os pais de Kyle eram extremamente simpáticos, só que toda essa burocracia monárquica já estava me deixando louca.

Finalmente fui até Aaron, Emma e Heidi. Emma, a filha do meio, era exatamente como pai: cabelos e olhos cor castanho chocolate. Tinha alguns meses a menos que Rose e eu, contudo aparentava ter até mesmo alguns meses a mais. Heidi, dois anos mais nova que Emma, parecia ter minha idade. Tinha os mesmos cabelos cor de areia e olhos esverdeados de Aaron — e da mãe, Elizabeth —, ainda que o formato do rosto fosse mais parecido com o de Emma: redondo e suave, enquanto o do filho mais velho era anguloso e mais quadrado, por conta do maxilar.

— Quanto tempo, não? — sorri, dando um abraço em cada uma.

— Nem me diga! — Emma brincou, e Heidi riu junto. A mais nova sempre fora tímida, até mesmo com Rosemarie. — É bom que você esteja cuidando do grandalhão, Alexa.

— Ele quase não dá trabalho. — brinquei — O que tem de novo para me contar? Tio Charles já quer prometer sua mão a alguém ou já percebeu que isso é loucura?

— Acredite ou não, ele só está esperando Aaron voltar para começar os preparativos para meu casamento. E com preparativos, quero dizer: um noivo. — ela revirou os olhos — Aconteça o que acontecer, mantenha meu irmão aí por mais uns quatro anos.

— Não creio que isso será possível — o inglês riu ao meu lado. Pelo como como enfiara as mãos nos bolsos, estava fazendo um grande esforço para não ficar de mãos dadas comigo. — Estou certo.

— Certíssimo! — sorri diante à confusão das princesas. — Não quero esperar tanto tempo para me casar.

— Vocês... — foi Heidi quem perguntou. — Isso é sério?

— Seríssimo. — mordi o lábio, indicando o anel, discretamente. — Estamos noivos. Claro, meus pais não sabem, mas não faz diferença. A escolha final é minha, ele só precisa se controlar até lá.

Ao longe, percebi o olhar de minha irmã se desviar da família real australiana para mim, num sinal de alerta. Eu já havia passado tempo demais ali.

— Acho que você tem que ir. — comentou Aaron, constatando a mesma coisa. — Ainda vou ter minha dança?

— Todas que quiser. — sorri, retirando-me de lá e partindo para uma nova seção tortura.

A dança foi simplesmente a melhor e a pior coisa em toda a festa. A melhor porque nos poupava de conversar com as famílias reais e fingir que os filhos eram extremamente queridos por nós duas. A pior, porque tínhamos que dançar com todos os vinte e cinco príncipes e eu já não aguentava mais ficar em pé naquele salto.

— Kyle — sorri, no momento que o primeiro príncipe me tirou para dançar. Eu quase recusei, todavia havia lhe prometido a primeira dança. — Aproveitando a noite?

— Não realmente. — ele colocou uma mão em minha cintura e a outra na minha própria mão. Valsa. — Meus pais ficam falando a todo momento no meu ouvido sobre o que tenho que fazer para conquistar uma princesa. Isso é simplesmente insuportável. Por outro lado, estou feliz em revê-los. Creio que eles ficarão longe por um bom tempo depois dessa noite.

— A Seleção tem lá suas desvantagens. — dei de ombros. — Perdoe-me se por desventura eu errar algum passo. O que esses sapatos têm de lindos, têm de desconfortáveis.

— Está desempenhando um belo trabalho com eles. — ele sorriu — Eu não teria conseguido ficar tanto tempo assim.

— Posso fazer uma pergunta?

— Até vinte, princesa.

— Como sabe que sou eu, e não Rose? — questionei, curiosa. Os vestidos eram da mesma cor, e nós duas nos portávamos excelentemente bem.

— Rose não teria escolhido como primeira a família de Arthur Gravesen. — ele brincou. Nitidamente, todos os príncipes sabiam na relação de ódio que rolava ali.

No fim das contas, dançar com Kyle foi relaxante. Ele não tocava no assunto da seleção, nem do aniversário, nem de nada que me deixasse com os nervos à flor da pele. Era praticamente um conversa casual entre bons amigos, o que me deixou, em parte, aliviada.

No momento que Kyle se soltou de mim, James Miller já me tirou para dançar. Sem pedido nem nada do tipo. O polonês tinha um jeito meio desengonçado, o que me tranquilizou. Tudo o que eu não queria era um dançarino profissional me arrastando para o salão.

— Ah, Alexandra, você está maravilhosa essa noite. — ele comentou, admirado. — Não que não esteja todas as outras, e todos os dias, porque de fato está.

— Gentil de sua parte, senhor Miller. — respondi, seca. Simplesmente odiava o modo como ele se jogava a meus pés.

— Por favor, me chame de James. — ele sorriu de orelha a orelha. — Ou do modo que quiser, é claro. O importante é que Vossa Alteza se sinta o mais confortável possível.

Graças a Deus a música foi curta. Andrew veio logo em seguida.

— Obrigada pelas tulipas. — passei meus braços sobre seus ombros, já que ele havia colocado as duas mãos em minha cintura. Algo dizia que o ciúme de Aaron devia estar queimando em suas veias com a imagem, mas eu não tinha como simplesmente afastar o holandês, ainda mais com as câmeras sobre nós. — São lindas.

— Flores para uma flor. — ele riu. — Piegas demais, credo. Soou como o polonês babaca quando fala de você.

— Ele fala de mim? Constantemente?

— E de como seus olhos são incríveis quando você sorri, de como tem dentes perfeitos, de como o caimento do seu cabelo nas costas é sexy e de um monte de outras baboseiras do tipo.

— Que idiota. — revirei os olhos. — Okay, eu deveria estar xingando o babaca pelas costas, só que não é possível entender porque minha irmã não o manda embora.

— Talvez ela esteja perdidamente apaixonada por ele, é claro.

— Claro que está. — fui irônica. — Afinal, onde é que está minha irmã?

Andrew correu os olhos pelo salão enquanto girávamos. Nem sinal de Rosemarie. Não estava com nossa família, nem dançando, nem com a família de outros príncipes. Gabriel observava-me de longe, e, ainda abraçada com Van Persen, soletrei R-O-S-E em libras. Ele apenas respondeu com um sorriso torto que significava: não está aqui, e, onde estiver, está fazendo coisa errada.

Talvez ela esteja voltando a ser a filha que quebra as regras.

— Acho que é a minha deixa. — o holandês comentou quando a música parou. — Você dança bem.

— Eu danço pessimamente, não me iluda. — dei-lhe uma piscadela e saí da pista, pegando uma taça de água. Não queria ser o centro das atenções no salão.

Onde infernos estava Rosemarie?

Não tive muito tempo para pensar sobre isso, porque Astra me puxou para um abraço. Astra tinha cabelos tão vermelhos quanto tia Kenna e mamãe, ainda que tivesse olhos negros de James. Por vezes, Rose e eu sentíamos inveja da família: as únicas a não ter o cabelo cor de fogo. Com o tempo, porém, toda essa inveja foi passando, resumindo-se a meros: “e se”.

— Veja só se não é minha priminha mal-humorada — ela riu, enquanto eu a abraçava de volta. Astra era quatro anos mais velha que eu e minha irmã, o que a colocava na média de idade dos príncipes. Ainda que ela não dissesse, eu sabia que estava admirada com alguns deles.

— Veja só se não é minha prima que decide nos abandonar para tirar fotos da natureza. — sorri — Sério, Astra? Morar no meio da floresta pra fotografar animaizinhos?

— Acredite, fico mais confortável lá que com um vestido desse. — ela mordeu o lábio. — Esse corpete é tremendamente apertado.

— Nisso tenho que concordar com você. — sorri.

— Não se mexa agora: gatinho na área. Acho que vai dançar mais um pouco, aniversariante.

Olhei para trás, na esperança de encontrar Aaron. Ledo engano.

— Eu não suporto aquele garoto. Acredita que ele tentou me beijar a força? — baixei o volume da voz, evitando que ele ouvisse qualquer coisa.

— Se fosse comigo, não precisaria de tanta força não. — ela riu. — Convenhamos, Alexandra: não o conheço para saber ao certo como é a personalidade, mas se for um décimo do que é o corpo...

— O corpo dele nem é tão grande coisa assim. — cruzei os braços, ignorando o olhar e o sorriso malicioso de minha prima.

— Não precisa fingir que não gostou, Lexi. — ele riu ao pé de meu ouvido, o que fez Astra rir também. Ele lhe estendeu a mão. — Prazer, Matheo Delacroix.

— Astra Orders — a garota se impressionou quando os lábios do suíço tocaram sua mão. Possivelmente, esperava apenas um aperto de mão. — O prazer é meu.

— Senhorita Orders, importar-se-ia de me emprestar Alexandra por um momento?

Ela nem respondeu. Não tiveram tempo. O moreno já me conduzia de volta a pista de dança. De modo delicado — exatamente, delicado, acreditem ou não —, ele colou seu corpo ao meu, suas mãos em minha cintura. Meus braços em seu peito eram a única coisa que garantiam um espaço entre nós. Filho da mãe. Eu não poderia soca-lo em rede nacional.

— Usou a mesóclise da década, parabéns. — resmunguei.

— Já pode parar de fingir que não gosta de estar comigo. — ele comentou, mas o ignorei completamente. Meus olhos estavam em Rose, que dançava com Kyle West. Ele me devia diversas explicações. — Sério que eu fui todo arrogante e você não vai ficar brava comigo?

— Han? Ah, eu quero mais é que você queime no inferno, mas disso já sabe. Cansei de gastar minhas palavras com quem não merece.

— Tudo bem, podemos usar a boca pra outras coisas. — ele mordeu o lábio inferior. Pude ver um corte no canto, contudo apenas segurei a risada. — Não vai mesmo me responder? — Continuei ignorando suas palavras. — Se não disser algo nos próximos segundos eu juro que...

— O que quer que eu diga? — revirei os olhos. — Tudo o que tenho para dizer gira em torno de como você é idiota. Prefiro falar de coisas boas.

— Vamos falar da sua prima então. — ele arqueou uma única sobrancelha. — Ela é gata. Não tanto quanto você, é claro, mas aposto que nos divertiríamos...

— Não fale de minha prima.

— Tudo bem, ciumenta. Eu me divertiria mais com você, disso tenho certeza.

— Sou uma negação na hora do sexo. Você odiaria. — bufei. — Satisfeito?

— Não minha pra mim, Alexandra. — ele provocou. — Eu já te vi de biquíni. Sabe o que dizem sobre pessoas com covinhas nas costas? — engoli em seco. Ele sorriu, aproximando sua boca de minha orelha. — Eu sei que sabe. Para a sua felicidade, eu também tenho.

— Quando penso que você não poderia ser mais idiota, vejo o que é estar errada.

Afastei-me quando a música acabou. Notei que Rose mal se livrara do belga quando William Davis a tirou para dançar. Olhei em direção ao palco, vendo Aaron conversar com o pianista. Segundos depois, o inglês estava ao meu lado, puxando-me para a pista. Rapidamente identifiquei a música: Canon in D, de Pachelbel. A primeira que aprendi no piano, e que, por sinal, fora ele quem me ensinara.

— Eu simplesmente odeio ver você abraçada com outros homens. — ele suspirou, apertando-me mais em seu enlaço. — Sei que é possessivo e ridículo da minha parte, não precisa falar.

— Não ia falar isso. — encostei minha cabeça em seu peito, apenas me deixando levar pelo ritmo lento. — Na verdade, eu ia falar que pretendo não te dar motivos para se sentir assim. Essa festa marca a última noite que participo da Seleção. Vou contar para meus pais que estamos noivos. Não tenho mais o que fazer aqui.

— Não posso lhe pedir isso, Lexi. — ele beijou minha testa. — Bem como também não posso negar que não vejo a hora de finalmente te fazer minha esposa, de todas as maneiras espirituais e carnais possíveis.

Um arrepio percorreu minha espinha. Eu também não via a hora.

Rose encarou-me. Mais uma vez, seus olhos brilhavam em alerta: hora de parar. A verdade é que a música já havia parado, porém eu permanecia nos braços de Aaron e não planejava sair de lá tão cedo. Só mais uma, movi os lábios para ela, que já havia trocado de parceiro. Era a vez de Caleb Vermont.

— Quantos filhos quer ter? — perguntei, voltando-me a me aninhar em seu peito.

— Quantos você quiser, é claro. — ele riu — Sou eternamente submisso a você, e repito: de todas as maneiras espirituais e carnais possíveis.

— Não sei quantos quero ter. — admiti — Mas essa questão de todas as maneiras espirituais e carnais possíveis parece ser excelente. — sorri. — Eu te amo.

— Eu também te amo, Alexandra. — Mais uma música se passou, rápida como o vento. Afastei-me, ciente de minha responsabilidade como princesa e membro da Seleção, mas o toque familiar despertou algo dentro de mim. — É Greensleeves. Dance comigo, Ana Bolena.

Ana Bolena foi uma rainha inglesa, a segunda esposa de Henrique VIII. Rés a lenda que o rei Henrique teria composto a música em homenagem a ela, conquistando-a dessa maneira. A morte de Ana Bolena foi trágica: executada por decapitação. Por conta disso, Greensleeves se tornou uma música folclórica, tocada sempre nas praças em dias de decapitação coletiva. Mesmo com todo seu fundo sombrio, ainda é uma das minhas músicas favoritas. E Aaron sabia disso.

— Não posso, meu Henrique. Vão começar a surtar se eu passar mais uma música com você. — olhei para o chão, desanimada, e afastando-me de vez.

— Só mais essa... — ele sorriu para mim, voltando a pegar minha mão.

E foi quando tudo foi por água abaixo.

Aaron, que estava na minha frente, de repente foi para o chão. Com o susto, dei um passo para trás, a ponto de ver um James Miller irritadiço. Não, não, não, não, não.

— Você não a ouviu? — ele peitou o inglês que já se levantava. — Ela disse que não. Se a princesa diz não, é não. Onde está sua educação.

O polonês o empurrou novamente, mas ele já esperava por isso. O loiro manteve-se firme e, com o braço direito, socou o ruivo bem na face. O grito ficou entalado na garganta. As câmeras correram para filmar a briga dos dois. Eu deveria ter dito a Aaron para não revidar...

O nariz de Miller começou a sangrar, entretanto ele não se deixou abater por isso. Insistia nos empurrões, enquanto Thompsom encarava as mãos em punho. Novamente socou o polonês, dessa vez, lateralmente. Eu estava sem voz. As palavras de Silvia ecoavam em minha mente: qualquer príncipe que se envolver em briga física com outro competidor será expulso, entenderam, meninas? Independente de quem começar a briga, esse tipo de comportamento é inaceitável.

E ali estavam James Miller e Aaron Thompson. Brigando em rede nacional.

Notas finais
Curiosidade: escrevi esse capítulo logo após a derrota do 7x1. Imaginem o meu estado emocional como hiper-mega-ultra-master-fã de futebol. Agora multipliquem por doze. É assim que pretendo deixar vocês pelos próximos capítulos incrivelmente depressivos. Amo vocês