Two Crowns
2 Capítulo I
Notas iniciais

Abri os olhos, arrependendo-me instantaneamente de tê-lo feito. A luz por trás das cortinas evidenciava o início de um novo dia. Não um dia a mais, mas um dia a menos. Um dia a menos para que pudesse ser eu mesma, antes que o palácio se tornasse uma anarquia completa. Invocando de outra dimensão todo e qualquer resquício de coragem, levantei-me da cama e destranquei a porta do quarto, permitindo a entrada das criadas. A verdade é que mesmo tendo convivendo com as três nos últimos meses, eu ainda não havia guardado o nome delas.
— Senhoritas — sorri quando elas adentraram o quarto, trazendo o café-da-manhã e o que parecia ser um vestido novo. Não entendia direito a insistência em fazerem um vestido por dia; havia muitos que eu nem tivera a chance de experimentar. — Qual o meu cronograma para hoje?
— Vossa Alteza — as três responderam em uníssono, fazendo a reverência e me servindo. Uma delas, aparentemente a líder, prosseguiu — Vossa Majestade, sua mãe, pediu encarecidamente para adiar as aulas de piano para amanhã, pois ela está ocupada na preparação da festa da chegada dos príncipes.
E cá está meu martírio: os príncipes. Ou melhor, a Seleção. Resumidamente, é uma tortura que consiste na obrigação de conviver com trinta e cinco homens desconhecidos — no meu caso, príncipes desconhecidos, vejam que animador —, e escolher um futuro marido. Degradante para minha fama de independente, é claro. No entanto, eu havia me comprometido a isso, e teria que cumprir.
Engoli os croissants sem muita vontade, tomando o suco por cima para facilitar a deglutição, enquanto as serviçais preparavam meu banho. Eu era completamente capaz de fazer isso sozinha, e de fato odiava que invadissem minha privacidade, mas meu pai insistia. É assim que uma princesa deve se portar, ele repetia toda vez que eu insistia para que não. A ideia de que adentrassem meu quarto, porém, era mais assombrosa.
Fiquei por quase meia hora submersa, tentando esquecer os problemas: os planejamentos, os bailes, as festas, as aulas, as estatísticas, e principalmente a Seleção. Maldita hora que decidi bancar a filha boazinha e aceitar a imposição de meus pais sobre a única real escolha que eu poderia fazer na minha vida: meu noivo. Contudo, ficar remoendo sobre meus atos não adiantaria em nada minha atual situação. Levantei-me e me sequei, permitindo que as moças me vestissem. Pelo menos o vestido era azul. Eu gosto de azul. Talvez o vestido fosse propositalmente azul, ao que parece, seria um longo dia.
— Ansiosa com a Seleção, Alteza? — uma das criadas, aparentemente a mais nova, perguntou. As outras duas lançaram um nítido olhar de reprovação, mas permaneceram caladas. — Perdão, não é de meu interesse.
— Não se preocupe com isso — sorri, tentando puxar algum ar enquanto elas fechavam o espartilho — E, sim, estou ansiosa, de certo modo. É uma experiência única, sem dúvida. Creio que vá mudar muito a rotina de todo o palácio.
— Com certeza! — ela exclamou, animando-se com o assunto. A verdade é que eram extremamente raros os momentos que surgiam alguma conversa entre nós. — Alguns dos criados já começaram a fazer apostas sobre quem serão os dois escolhidos. Se me permite dizer, todos nós estamos em dúvida entre vários príncipes, para a senhorita Rosemarie. Mas a senhorita tem um gosto mais complicado, então acho que vamos ter que esperar a chegada dos príncipes para começar a definir melhor a situação.
Não pude conter uma risada. Minha aversão à Seleção era tão grande que até os empregados notavam que seria eu a solteirona ao fim dela. E, claro, Rose seria a indecisa que, se pudesse, escolheria dois ou três. O engraçado era que meu id, meu ego e meu superego concordavam com os criados, também. Quando elas terminaram, rapidamente se retiraram. Sorri em agradecimento, e pela primeira vez, perguntei:
— Perdoe-me a memória fraca, mas qual é mesmo seu nome? — olhei para a garota nova. Corajosa ela, pensei comigo mesma.
— Meu nome é Lorena, senhorita Schreave — ela sorriu e se retirou, levando consigo a bandeja que havia trazido meia hora atrás.
Terminei de prender o cabelo da forma que mais me agradava e passei um batom nos lábios. Normalmente, eu passaria quase uma hora terminando de me arrumar, mas algo no aviso de minha mãe sobre adiar as aulas de piano para a organização da festa instigava-me. Coloquei uma sapatilha — usufruindo dos últimos momentos sem precisar dos sapatos com enormes saltos — e me encaminhei em direção ao escritório de minha mãe — e, com escritório de minha mãe quero dizer salão das mulheres, porque ela tomou posse do lugar.
Os espelhos na entrada sempre me fascinavam. Chamem-me de egocêntrica e narcisista, mas eu poderia ficar observando os reflexos durante horas. Todos os detalhes, cada fio de cabelo, cada sarada escondida pelas finas camadas de pó. Parei em frente ao maior, olhando em meus próprios olhos.
Meu nome é Alexandra Schreave. Alguns podem me chamar de Alexa. Somente uma pessoa de Lexi, mas não vem ao caso. Sou filha de Maxon e America Schreave. Irmã gêmea de Rosemarie Schreave. Princesa de Illéa. Um. Hoje é quinta-feira. Amanhã começa a Seleção.
E, novamente, pensar na Seleção fez minha cabeça girar. Se um ser humano é as escolhas que faz, e eu não faço escolha alguma, quem de fato sou?
— Alexa — a voz de minha mãe soou do outro lado, interrompendo pensamentos um tanto quanto depressivos. — O que faz aqui? Ainda não são nem mesmo oito horas. Deveria estar descansando, amanha vai ser um dia longo.
— Por que não me quer aqui? — suspirei, indo direto ao ponto. Odiava quando minha mãe ficava dando mil e uma voltas, na tentativa de me persuadir subconscientemente. É claro que eu não iria embora tão cedo.
— Filha... — ele levou as mãos aos olhos esquecendo-se da maquiagem, o que ocasionou em uma cômica expressão quando percebeu o que havia feito — Estamos organizando a festa de chegada dos príncipes, mas você não pode participar, porque isso revelaria detalhes sobre eles, o que poderia influenciar na sua escolha e...
— Mãe, não há festa de chegada dos príncipes. — cruzei os braços, orgulhosa de mim mesma por ter pegado sua mentira logo no começo. — Por que não me quer aqui?
— Seu pai e eu estamos discutindo estratégias... Tivemos uns problemas quando eu participava da Seleção, e parece que eles estão voltando. Mas você não tem que se preocupar, não por hora. Está tudo sob controle, Alexa. Aproveite seu último dia como uma garota normal.
Garota Normal.Como se houvesse muita coisa normal em se ser uma princesa. Revirei os olhos e saí de lá, sem ao menos responder algo à America. Muitas vezes, ela e meu pai me tiravam do sério. Quando se tratava de assuntos políticos, eu ainda era uma criança. Mas ao que parece, com dezessete — ou melhor, dezoito, daqui algumas semanas — anos, eu já poderia encontrar o amor da minha vida e começar uma família. Ridículo. Mas eu não deixaria as coisas assim.
Os príncipes chegariam à noite, mas só poderíamos conhecê-los no dia seguinte. Certo. Provavelmente eu eliminaria dezenas logo no primeiro dia, se dependesse apenas de mim. Claro que Rose enrolaria até o último segundo e ficaria com dó de mandar os rostinhos bonitos embora. Fraca. Talvez eu pudesse tirar uma vantagem básica dessa euforia, no entanto. Corri de volta ao palácio. Papai estava ocupado, então o escritório dele estaria vazio. Mas eu não pegaria as fichas, claro que não. Sou a filha que faz tudo certo. Minha irmã, por outro lado...
Subi as escadas correndo, até o quarto de Rose, no terceiro andar. Os guardas olharam-me com estranhamento — normalmente, eu era a princesa que não corria —. Provavelmente os cérebros deles estavam atrapalhados, com a possibilidade de Rose ter fugido pela janela ou algo do tipo. Então eles viram as cores do vestido e tudo pareceu ficar mais nítido. Sem relutar, permitiram-me entrar. Rose estava jogada sobre a cama, tendo dificuldades para entrar nas suas calças de cavalgada. Era cômico.
— Não diga nada para a mamãe. — ela demorou a notar minha presença, e o susto que levou foi ainda mais engraçado. — Eu não deveria estar cavalgando hoje, tenho uma pilha de livros para ler até... Bem, até o meio-dia. Meio que faz umas semanas que ela me passou.
— Não se preocupe, ela está ocupada com umas questões burocráticas. Papai também. Vão levar o resto do dia naquilo... E se você quiser, pode pegar a minha calça. Eu não uso, mesmo. Pode ser verde, mas é melhor que usar as suas de quando era criança. — dei de ombros — E, se quiser, posso resumir os livros pra você, só pra fingir que leu e não levar o sermão se todo começo de mês.
— Tudo bem... — Ela me olhou, desconfiada. Não digo que sem motivos, todavia. — O que você está querendo? Se isso é sobre me fazer desistir da Seleção, já digo que pode esquecer, vai ser algo muito divertido e você deveria...
— Não é isso. — revirei os olhos. Segunda vez em meia hora; estava quebrando meus recordes. — Só queria lhe avisar que papai está resolvendo coisas do governo. Ele e mamãe ficarão ocupados o dia inteiro. No escritório dela, cercados de dezenas de secretários que não os permitirão se livrar das responsabilidades tão cedo.
— E? — ela perguntou. Lerda. Dei-lhe mais uns segundos. — Ah...
Sem nada a acrescentar, saí em direção ao meu quarto e esperei.
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