Two Broken Hearts

36 Velho Conto de Fadas


Eu havia pego uns trocados na bolsa de Alice antes de sair, porque não queria acordá-la, mas tinha certeza que ela não ficaria chateada quando eu contasse o que havia ido fazer.

A manhã não estava tão fria quanto o a noite anterior, mas eu fiquei feliz por ter levado o casado de Gwen. A brisa suave era suficiente para arrepiar minhas pernas mal cobertas pelo short, enquanto eu esperava o ônibus no ponto quase em frente ao prédio. Não havia calçado os tênis e meu chinelo era emprestado como todo o resto.

Quando a condução chegou, eu subi e me sentei em um lugar perto da janela. A viagem seria longa, mas, pelo menos, não teria que pegar outro ônibus.

Incrível pensar que, em poucos dias vivendo daquele lado da cidade, as coisas já não pareciam tão estranhas ou ameaçadoras assim. Os edifícios e mansões suntuosas que eu havia deixado para trás na minha metade de NY pareciam um cenário de conto de fadas, quase como se eu os tivesse imaginado a vida inteira. Isso provava que a ação do tempo não era exclusivamente responsável por mudar um indivíduo. Precisar das pessoas, ter que pedir ajuda... fosse colo de amigo, consideração ou um lugar para ficar... havia resultado em uma mudança drástica na minha maneira de ver as coisas, muito mais do que vinte e um anos de inércia jamais foram capazes de realizar.

Eu nunca tinha sido uma patricinha fútil, uma garota egoísta ou mesmo mimada, mas ter vivido um conto de fadas, mesmo em tons de cinza, havia me cegado para a realidade da vida.

Dinheiro não compra tudo. Uma linda casa não traz a felicidade. Pessoas precisam de pessoas, ninguém vive sozinho. O ser humano é incapaz de sobreviver por si mesmo, por mais auto-suficiente que ele tente parecer. Quando o seu próprio lar se mostra incapaz de assegurar, ao menos, parte do amparo e da força que você precisa, então é chegada a hora de fazer suas malas e partir.

O ônibus me deixou a três quadras do endereço e eu precisei caminhar bastante. Isso foi ótimo, porque eu tive tempo para pensar duas vezes no que estava fazendo, mas não terminei perdendo a coragem. Eu estava agindo, pela primeira vez na vida, de cabeça fria e da forma certa ao mesmo tempo.

Sem ter bolsos para enfiar as mãos, cruzei os braços logo depois que os seguranças me reconheceram e abriram o portão. Eu me perguntei quanto tempo levaria para eles avisarem meu pai pelo telefone, mas na verdade, aquilo nem era mais importante.

_ Bella!

Ronda arregalou os olhos, assim que abriu a porta. Eu sorri e ela me puxou para dentro de um abraço apertado. Eu deixei minha cabeça desabar no seu ombro, suspirando e sentindo o seu cheiro agradável de panquecas. Dei ordens imediatas ao meu estômago para ele não roncar. Apesar de ele ter me obedecido, Ronda me ordenou que entrasse e fosse direto fazer um lanche.

_ Você está magrinha _ ela disse com os olhos marejados, encostada contra o balcão da cozinha. _ Ah, Bella... eu senti tanto a sua falta... essa casa não é um lar sem você.

_ Essa casa nunca foi um lar _ eu abri um sorriso amarelo, remexendo a panqueca quentinha no prato. _ Pelo menos não desde que minha mãe morreu.

Os ombros de Ronda arriaram e eu senti uma pontada de remorso. Estava sendo injusta com uma das muitas pessoas a quem eu devia toda a minha gratidão.

_ Não fala assim, pequena _ a voz dela ficou embargada e meus olhos imediatamente se encheram de lágrimas. _ Nós tentamos tudo por você. Theresa, John, Gretha, eu... nós amamos tanto você! Eu sei que amor de empregado não conta, mas...

_ Ah, me desculpa, Ronda _ eu me levantei e fui até ela, me jogando nos seus braços. Descansei minha cabeça no seu peito, enquanto a ouvia engasgar com aquela demonstração de afeto espontâneo. _ Vocês, provavelmente, foram mais do que eu mereci a minha vida inteira. Vocês foram incríveis comigo... eu não deveria ser tão mal agradecida. Tive pessoas maravilhosas a minha volta, eu tive quatro anjos...

_ Cinco, querida _ ela corrigiu, me segurando pelos ombros e me virando, suavemente, na direção da porta.

Esme estava parada na entrada, os cabelos presos em um rabo de cavalo dourado. Sua expressão era tímida e seu olhar para mim era hesitante. Ela parecia quase envergonhada de estar ali, na cozinha da própria casa, testemunhando uma prova de carinho que não era direcionada a ela. A postura tensa e retraída do seu corpo, o jeito cabisbaixo, gritavam o que ela pensava sobre si mesma naquele momento: indigna.

_ Oi, Bella.

Eu respirei fundo, sentindo os pulmões arderem enquanto segurava as lágrimas. Eu ainda não havia derramado todo o meu choro por Ronda e os meus outro quatro anjos, e agora aparecia Esme, obrigando o meu coração a sangrar de vez.

_ Oi, Esme.

Ronda deu um beijo delicado no topo da minha cabeça e se afastou, passando por minha madrasta na porta, sem dizer absolutamente nada. Ela nem precisava.

Esme e eu nos observamos por algum tempo, em silêncio. Eu reparei que ela ainda conservava as mesmas olheiras das últimas semanas e, embora sua aparência não fosse descuidada, ela já não era mais aquela mulher cheia de vida e vaidosa, com seus vestidos exuberantes e as jóias caras. Continuava linda, no entanto, como no dia em que nos conhecemos no hospital, quando Charlie esteve internado.

Nos últimos tempos, eu havia me preocupado demais com os segredos de Esme, com o seu passado, e acabei deixando de lado o maior mistério de todos. Eu nunca havia entendido como o seu sorriso poderia conter a imensidão do sol dentro dele. Mas continha. E o sol se espalhou por todo o lugar, quando eu rompi a distância entre nós e a enlacei num abraço apertado.

_ Eu vim agradecer a você _ disse, me esforçando para manter as lágrimas presas na garganta. _ Eu vim agradecer tudo o que fez por mim, por ter cuidado de mim todos esses anos.

_ Ah, Bella...

_ Me desculpa, Esme... eu fiz uma coisa horrível quando saí daqui sem olhar para trás. Eu não vi que não estava atingindo apenas o meu pai, eu não considerei os sentimentos das outras pessoas. Os seus, os de Rhonda... os de ninguém. Eu só pensei em mim mesma, só quis me rebelar contra a autoridade do meu pai. Deveria ter levado em conta as outras pessoas que eu ia ferir no caminho.

Ela apertou o rosto contra o meu e eu senti suas lágrimas deslizando e molhando o meu rosto também.

_ Eu entendi perfeitamente, querida. Eu me preocupei, mas entendi. Sei o quanto você sofria nessa casa. Sei que que precisava encontrar a você mesma e fico orgulhosa de vê-la tão diferente... tão forte e amadurecida. Eu amo você, Bella.

Ela segurou os meus braços e me afastou o suficiente para olhar nos meus olhos. Então, prosseguiu:

_ Eu me encantei com a criança solitária naquele quarto de hospital... cuidando de um pai que estava morto por dentro, implorando por um pai que não queria reagir. E eu amo você desde o dia em que descobri a coisa mais óbvia do mundo.

Tentei me desvencilhar do nó apertado na minha garganta, mas parecia improvável. Meu coração parecia a ponto de explodir no peito.

_ o que?

_ Eu nunca fui sua madrasta, Bella... porque eu fiz uma escolha muito tempo atrás. _ ela sorriu, iluminando tudo. _ Eu escolhi ser sua mãe.

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Charlie estava na empresa, então a casa era nossa naquele momento. Minha e das pessoas que me amavam de verdade. Subi até o meu antigo quarto e fiquei surpresa por não sentir nenhum vazio ou tristeza. Era apenas um quarto. Assim como aquela era apenas uma casa, como outra qualquer. Com exceção das pessoas que viviam ali dentro, é claro.

Separei algumas das minhas coisas e coloquei em duas malas. Depois fui até o quarto de Edward. As coisas dele também ainda estavam lá. Mesmo sabendo que não tinha o direito de mexer em nada, um sentimento me impeliu a entrar e, dessa vez, não foi curiosidade. Não perdi tempo remexendo gavetas ou vasculhando bolsos de calças. Apenas peguei a única coisa que queria e saí.

Quando desci as escadas, me deparei com quatro pares de olhos me encarando. John veio me ajudar prontamente com as malas, mas antes que ele pudesse pegá-las, eu segurei a mão dele e fiquei na ponta dos pés, para dar um beijo em seu rosto.

_ Obrigada, John. Por tudo.

Fiz o mesmo com Theresa e Ronda, e ambas me abraçaram demoradamente. Gretha não trabalhava mais conosco e eu senti não poder me despedir dela. Em algum momento, sabia também que deveria procurar os meus avós para dizer o quanto os amava. Quantas vezes, nos últimos anos, eu os havia visitado? Como a gente podia esquecer tão facilmente das pessoas que eram importantes?

Esme me aguardava ao lado de Ronda e foi a última pessoa de quem eu me despedi. Ela me olhou com um par de olhos luminosos e eu não saberia dizer se por causa das lágrimas ou do orgulho que dissera sentir por mim. Eu havia contado que estava vivendo na casa de Alice, mas omiti os dias passados na casa de Edward. Aquela história era só minha e dele, e de mais ninguém. Esme me fez prometer que pediria ajuda caso precisasse.

Eu sorri. Pedir ajuda fazia parte da minha rotina agora e eu não me envergonhava disso, mas, assim como um bebê, precisava dar os meus passos se, algum dia, quisesse aprender a andar de verdade.

_ Seja feliz, Bella _ ela disse, enquanto John e eu atravessávamos a porta de casa, indo em direção ao mundo real.

Não levei o carro, não aceitei dinheiro. Pode parecer um ato de orgulho, mas estava longe disso. Estava mais próximo de ser uma coisa chamada independência.

Notas finais
Boa tarde, meninas! Gostaram do capítulo? Quem já esperava que esse fosse o destino na nossa Bella, hein? Pois bem, a fic vai ganhando novos contornos agora, e a Bella vai tentar encontrar o seu caminho. Não posso dizer que os próximos passos dela serão todos acertados, mas... ao longo da vida, a gente aprende errando também, não é? hehe Obrigada por acompanharem e deixarem seus reviews! Beijos!!