Two Broken Hearts
37 Gelo e Fogo
Notas iniciais
A terça-feira havia chegado e, com ela, uma chuva fina e um frio de arrepiar os ossos.
Meu desejo inicial foi o de permanecer deitada, embaixo da manta quentinha e macia que Gwen havia me emprestado na véspera, mas em algum plano consciente do meu cérebro, eu enxergava que aquela ali não era eu, mas sim, uma versão recém-descoberta de alguém que, às vezes, eu queria ser: a garota leve e despreocupada, que colocava a diversão em primeiro plano e a faculdade em segundo.
A Bella que eu conhecia – a que eu sempre conhecera – era uma pessoa tão apegada aos seus deveres e obrigações, sempre tão pressionada, tão submissa, que com os acontecimentos recentes, ela vinha ameaçando seriamente pifar, se desconectando pouco a pouco do corpo ao qual estivera ligada a vida inteira. Enquanto isso, a versão hardcore da Bella vinha assumindo, vez ou outra, em piloto automático. Uma festa, um bar, uma bebida. Um lance mal resolvido com dois motoqueiros bonitões e talvez perigosos.
Meu medo é de, algum dia, ela tomasse o controle de vez, porque eu não saberia como reagir àquilo. Eu não era Alice, alegre e corajosa, se jogando de cabeça na vida. E também não era Gwen, com seu estilo punk de fim de semana. Eu era uma garota tipicamente nerd e controlada, e não conhecia nada a respeito do mundo no qual estava mergulhando agora.
Sentei na beirada da cama e balancei Alice, suavemente, tentando acordá-la.
_ Eu não quero, Bella...
_ Não tem que querer. Você tem que ir.
Ela resmungava, sonolenta, e rolava de um lado para o outro, tentando se livrar de mim. Puxei o cobertor quando o colocou sobre a cabeça, e a baixinha bufou, mau-humorada.
_ Você tá me saindo a pior irmã mais velha do mundo!
Eu sorri.
Gwen estava dormindo na outra cama, com um fone de ouvido na orelha e o outro pendurado, caído sobre a barriga. Eu podia escutar o som de um rock melódico, estilo Whitesnake, saindo do seu celular. Seu cabelo rosa estava todo embolado e ela roncava baixinho, mas de boca aberta.
Eu havia ficado com o sofá, daquela vez, e nem achei tão ruim assim. Não tinha o conforto da cama, mas me dava alguma privacidade e me garantia uma tv com controle remoto.
Eu me deitei ao lado de Alice, espremendo-a contra a parede para que ela me desse algum espaço. A baixinha grunhiu, revoltada.
_ Vai dormir na sua cama...
_ Ninguém vai dormir aqui _ eu assegurei. _ E se você continuar bancando a preguiçosa, eu vou ser forçada a cantar a música do elefantinho.
Seu cotovelo bateu contra as minhas costelas e eu dei um gemido. Gwen se mexeu do outro lado do quarto. Eu esperei, mas ela não acordou.
_ Que elefantinho? _ Alice perguntou, e pela sua voz, já estava quase entregue ao sono de novo.
Eu pigarreei para limpar a garganta e coloquei os braços atrás da cabeça, antes de começar.
_ Um elefante incomoda muita gente! Dois elefantes incomodam, incomodam muito ma-ais! Três elefantes incomodam muita gente! Quatro elefantes incomodam, incomodam, incomodam...
_ Tá, já entendi! _ seu corpo saltou da cama como uma mola, até que ela estava sentada, esfregando os olhos e bocejando.
_ Tá vendo? Não foi tão difícil assim.
Eu entreguei a ela o copo e ela bebeu todo o iogurte antes mesmo de falar qualquer coisa.
Meia hora depois, estávamos no ônibus a caminho da faculdade e ela tagarelava sem parar, como sempre. A maior parte da conversa eram amenidades, coisas do dia a dia. Alice queria falar sobre tudo e perguntar sobre tudo, exceto assuntos relacionados a Jasper Hale. Apesar da sua absoluta recusa em conversar sobre ele, eu estava feliz por ela ter voltado a matraquear sobre o que quer que fosse.
Ela quis saber sobre minha briga com Charlie e eu aproveitei a longa viagem para contar sobre os meus últimos dias, especialmente o tempo passado com Edward.
_ Você e o barman sexy do Seven'n Seven? O filho de Esme???
_ Sim, Ali. Mas não foi nada demais _ respondi, em parte sendo sincera, em parte mentindo descaradamente. _ Nunca iria dar certo.
Alice balançou a cabeça, rejeitando a idéia.
_ Porque você está vendo as coisas do jeito errado. Aquele cara e você são perfeitos um para o outro!
Eu ri, cética.
_ Você ficou louca? Nem conhece ele direito. Nem eu conheço, pra falar a verdade. Edward é um mistério sobre pernas _ eu admiti. _ Além disso, nós somos opostos...
_ Opostos perfeitos _ ela suspirou, com um par de olhos brilhantes. _ Edward é o seu yin e você é o yang dele. Escuridão e claridade. Água e fogo. E não adianta negar, ele já contaminou você.
_ Me contaminou?
_ Sim! _ ela exclamou, vibrante _ Sejamos sincera, Bellinha. Eu adoro você, mas sua vida era meio patética antes desse cara chegar. Da faculdade para casa, de casa para a faculdade... só saía arrastada por mim e nunca se divertia, nunca mesmo.
_ Isso não é verdade _ eu reclamei, ofendida.
_ Ah, é verdade sim... e você sabe! Esse barman misterioso apareceu pra virar o seu mundo do avesso, transformar o seu universo em um caos. Semanas depois de ele ter aparecido na sua vida e olha você... livre! Finalmente, livre! _ ela olhava para mim, me desafiando a dizer o contrário _ Ele mexe com você.
Eu suspirei, começando a me sentir incomodada com o rumo da conversa. Os últimos dois dias sem ver Edward estavam sendo um alívio. E um tormento. Quantas vezes eu não havia pensado em ir até a vila de Ruth para ver como ele estava? Na véspera, me peguei girando a chave de Gwen na porta, mas me contive e voltei para o sofá.
_ Eu não disse que ele não mexia _ suspirei.
Ela negou com a cabeça, investigando com os olhos.
_ É mais do que isso. Você não pode esconder de mim... é mais do que desejo ou curiosidade. Esse cara já está na sua cabeça e não vai sair, Bella. Desista! Você está completamente apaixonada por ele.
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Procurei me concentrar nas aulas, mas as palavras de Alice não saíam da minha cabeça.
Eu podia admitir que Edward me interessava, me excitava e que, de certa forma, a sua história — nebulosa, intrigante, soturna — despertava em mim um frenesi que eu nunca havia sentido. Eu não me considerava uma garota curiosa, mas a história de Edward trazia uma aura de fascínio e mistério a qual eu simplesmente não conseguia ficar imune.
Mas quanto aos meus sentimentos por ele... tudo ainda era muito confuso. Em vários momentos, eu me pegava tentando decifrar a natureza das emoções que ele provocava em mim. E a sua profundidade. Apaixonada? Não, não era possível. Nós éramos tão diferentes que aquilo só poderia ser piada! A possibilidade de viver um relacionamento sério com ele já havia rondado minha mente, mas como uma situação surreal em um universo paralelo. Nosso falso namoro havia comprovado o quanto éramos incompatíveis. Exceto, talvez, quando ele me tocava ou beijava. Aí, então, nós éramos realmente yin e yang, claridade e escuridão, água e fogo. Distantes, éramos inúteis, solitários, excluídos. Juntos provocávamos uma explosão, um verdadeiro Big Bang um na vida do outro!
Suspirei, frustrada, e descobri que estava roendo a ponta da caneta, distraída, enquanto o professor de Patologia Clínica nos dispensava da última aula do dia.
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Menos de cinco minutos depois, Alice e eu cruzávamos os portões da faculdade, conversando sobre as provas de fim de ano, o assunto Edward momentaneamente deixado de lado. O tempo ainda estava frio, um vento mais forte fazia as folhas balançarem nas árvores. Eu fechei a jaqueta, desejando também ter calçado botas naquela manhã, em vez dos tênis.
Ao olhar para o outro lado da rua, me surpreendi ao ver que Jacob aguardava na calçada oposta ao prédio da Columbia. Minha segunda surpresa foi em relação a moto parada atrás dele. Não era a mesma Fan de sempre.
Eu segurei o braço de Alice e a puxei em direção a rua. Eu tinha apenas a leve impressão de que a baixinha me observava, admirada, enquanto atravessávamos para o outro lado.
_ O que houve? _ ela perguntou, os saltos das suas botas batendo contra o asfalto até que finalmente se calaram quando chegamos.
Eu não cheguei a responder. Jake abriu um sorriso predatório, a gola da jaqueta preta de couro puxada para proteger o pescoço do frio enregelante. Suas mãos estavam cobertas por luvas grossas de motoqueiro e os jeans que ele usava pareciam definitivamente gastos e muito atraentes.
_ Bella.
_ Jake _ eu sorri quando, finalmente, nos aproximamos. _ Moto nova? _ perguntei, enquanto Alice revezava olhares entre ele e eu.
Foi quando eu percebi que não havia dito uma palavra a ela sobre o encontro entre Jacob e eu no Rockats. Havia esquecido completamente de mencionar uma coisa e outra. Tudo o que ela devia saber, se lembrasse do fato, era que aquele era o amigo de Emmett que havíamos conhecido no Seven, uma noite.
De repente, minha relação com Jake pareceu tão complicada de explicar — e também tão absurda — que eu senti preguiça de esclarecer qualquer coisa.
_ É uma Yamaha R1. Top de linha _ ele explicou, todo convencido. _ Não é a coisinha mais bonita que você já viu?
Eu ergui as sobrancelhas, dando uma olhada na moto, mas logo tive a desconfortável sensação de que conhecia muito bem aquele modelo. Era a mesma moto que Edward usava. Senti um nó na garganta e respirei fundo para disfarçar que a informação havia mexido comigo.
Que coincidência estúpida! O meu tinha começado difícil depois de Alice querer bancar o Cupido com complexo de sinceridade, e agora, Jacob aparecia com a única merda de moto que eu não gostaria de ver na minha frente. Olhar para a R1 me fazia lembrar de que Edward não havia ligado ou me procurado nos últimos três dias, aparentemente satisfeito em ter se livrado de mim.
_ É linda _ eu disse, colocando as mãos nos bolsos traseiros dos meus jeans, tentando ignorar o nó na minha garganta.
Ao contrário da moto de Edward, preta, a de Jake era de um azul reluzente. Ela parecia luxuosa, chamativa e imponente, feita para se destacar e atrair olhares. A moto de Edward era a de um autêntico bad boy e a de Jake, parecia o xodó de um filhinho de papai mimado. Mas em meio às conversas furadas que Jake e eu havíamos tido no Rockats, havia ficado claro que, de jeito algum, ele era rico. Então, qual era a explicação para aquela moto?
Lembrei que Edward costumava debochar de dinheiro e privilégios, mas havia sido acusado de mimado pelo grandalhão com o nariz quebrado. Além disso, apesar de trabalhar como barman, ele também pilotava uma moto de último modelo. Quanto mais eu pensava a respeito, mais minha cabeça parecia a ponto de dar um nó.
_ Oi... Jake? _ Alice interferiu, uma sobrancelha presunçosamente arqueada. A julgar pela sua expressão, ela não estava gostando muito daquele encontro. O que me fazia pensar num motivo cabível, já que Ali estava sempre tentando conseguir rapazes para mim.
_ Oi _ ele disse a ela, seco, antes de dar dois passos adiante, rompendo a distância que havia entre a gente.
Em meio segundo, sua atenção era toda minha novamente.
_ Ei _ ele ergueu as mãos, segurando o meu rosto entre elas. Se ele se aproximasse mais um pouco, eu poderia sentir o hálito quente bater contra minha pele _ Eu senti saudades suas.
Seus olhos dentro dos meus fizeram eu sentir um tipo diferente de incômodo. Não era exatamente o alvoroço no estômago que Edward causava, mas não era exatamente ruim. Por algum motivo, no entanto, eu limpei a garganta e desviei os olhos, sentindo a obrigação de quebrar o clima. Com Jacob era assim: em um plano superficial, tudo parecia funcionar de modo mais fácil, mas alguma coisa dentro de mim estava disposta a fazer com que elas simplesmente não dessem certo.
_ Eu pensei em te dar uma carona _ ele deslizou o polegar pela maçã do meu rosto, a luva de couro aquecendo minha pele enquanto um ponto conhecido no meu estômago esfriava.
_ Ela está acompanhada _ a voz de Alice irrompeu atrás de nós, e eu voltei o rosto na sua direção.
Ela tinha os braços cruzados e um olhar mau-humorado no rosto. Um olhar direcionado a mim. Alice estava me encarando e desafiando a dizer qualquer coisa diferente. Aquilo era tão atípico nela, que eu fiquei completamente sem ação. De repente, eu tive a estranha sensação de que estava exatamente entre os dois. Não apenas fisicamente entre os dois, mas no meio de uma guerra fria que tendia a esquentar em breve.
_ Ali _ a chamei, sem jeito, como se pudesse trazê-la rapidamente de volta para a Terra.
Os olhos dela se afastaram de mim para Jacob, com repúdio evidente.
_ Você vai com ele?
_ E por que não viria? _ ele perguntou, com a voz linear de quem não se deixaria tirar do sério com facilidade.
O olhar petulante dela morreu e se transformou em uma expressão vagamente inquieta enquanto encarava Jake e sua moto turbinada. Sua respiração parecia travada na garganta pelo modo como ela demorou a responder a pergunta.
Então Alice suspirou e me surpreendeu outra vez.
_ Não sei. Acho que eu descobri que não gosto de você.
_ Ali! _ eu a repreendi, perplexa. _ Você nem conhece o Jake!
Eu tinha certeza de que quando contasse que nós dois havíamos conversado no Rockats e agora tínhamos um relacionamento amigável, ela finalmente cairia em si. Mas no momento, falar a respeito parecia improvável. Alice estava totalmente convencida a não gostar dele, do jeito mais irracional possível.
_ Não preciso conhecer para saber que não confio nele _ ela soou como uma menina mimada e irritante.
Eu abri minha boca para protestar, mas Jacob foi mais rápido ao soltar uma risada curta e rouca.
_ Eu já ouvi opiniões melhores sobre mim, mas não vou ficar ofendido _ seu tom de voz tinha uma pitada de ironia, mas ainda estava a anos luz de ser tornar impaciente. Ele parecia um adulto condescendente dirigindo-se a uma criança com toda a calma e o controle.
Um instante de silêncio constrangedor se passou. Eu esperei que Alice se desse conta de que estava sendo irracional sobre o assunto ou que eu, enfim, acordasse, no sofá da sala, despertando daquele sonho digno de um episódio de Além da Imaginação.
Ali fechou os olhos e inalou profundamente. Seu rosto ainda era uma máscara de desagrado, mas agora ela parecia frágil e resignada.
_ Ótimo _ assentiu, apertando os lábios um contra o outro. _ Por que você não pega uma carona com ele, então? A gente se vê em casa, depois _ ela me lançou um olhar enviesado de advertência. _ Se cuida, Bella _ e virou as costas, caminhando para longe enquanto eu assistia, atordoada.
Que merda tinha acabado de acontecer?! Alice era, com certeza, uma garota geniosa e de temperamento forte, mas eu não estava acostumada a vê-la naquela encenação de menina imatura e arrogante. Nós éramos amigas há tempo suficiente para eu já ter conhecido aquele seu lado infantil, mas ele simplesmente nunca tinha dado as caras. Às vezes, ela era doce e frágil em excesso, contrastando com a personalidade normalmente enérgica. Aquela alteração em Alice, eu já estava aprendendo a reconhecer e, vez ou outra, me pegava pensando se aquilo não tinha a ver com o seu passado problemático.
Mas a arrogância e o pré-julgamento sobre as pessoas eram novidade para mim.
_ Podemos ir? _ Jake perguntou ao meu lado. Havia um sorriso cristalino afixado em seu rosto. Se eu não tivesse testemunhado o embate entre ele e Ali, poderia jurar que ele tinha acabado de chegar ali.
Eu me voltei para ele, sentindo um estranho desconforto. A maior parte do tempo, Jacob se mostrava caloroso e receptivo, mesmo quando se tornava insistente ao ponto de me incomodar. Mas, em outros momentos – momentos como aquele, precisamente -, sua expressão de tornava glacial e aquilo me assustava.
Eu assenti e subi na garupa da moto com a sua ajuda. Jake me passou o capacete, roçando os dedos na zona descoberta do meu pulso, de propósito. Eu quase rolei os olhos. Em um minuto, o Homem de Gelo; no outro, as gracinhas de sempre.
Seu sorriso parecia capaz de derreter um iceberg, enquanto ele dava a partida me olhando por cima do ombro.
_ Se segura. Eu não vou levar você pra casa.
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