POV Edward

Ver o corpo do meu pai naquele caixão foi uma experiência mais estranha do que eu tinha imaginado. Definitivamente, eu não estava preparado para a visão do seu rosto pétreo, os olhos cerrados e a rigidez do seu corpo de braços cruzados, honrosamente, sobre o peito.

Carlisle tinha sido vestido em um terno preto de corte impecável e tecido macio — o que os vermes se encarregariam de fazer proveito em breve -, que contrastava contra a pele branca, do jeito mais malditamente fúnebre possível. Eu podia apostar que o Coronel se encarregara de cada detalhe, não devido ao carinho que sentia pelo próprio filho — porque ele, obviamente, não sentia — , mas, sobretudo, para manter as aparências e garantir que tudo fosse feito seguindo o alto padrão dos Cullen.

O enterro aconteceu em menos de meia hora, uma cerimônia breve e respeitosa, onde estávamos presentes o padre, meu avô e eu.

A chuva ia e voltava, de tempos em tempos. O Coronel havia se abrigado sob um guarda-chuva preto e largo, mas eu permitia que as gotas, grossas e pesadas, caíssem livremente sobre os meus ombros quando desejavam.

O padre economizou no discurso, com certeza a pedido do Coronel, dizendo algumas palavras sobre o arrependimento pelos nossos pecados, a misericórdia e o perdão divino. E, é claro, a vida eterna. Eu agradeci, mentalmente, por ele não incluir um tópico sobre a bondade e o caráter do falecido, o que, é claro, não cabia.

Quando o ritual, finalmente, terminou, atiramos algumas rosas vermelhas sobre o buraco na terra em que Carlisle havia sido sepultado. A caixa de madeira polida desapareceu sob camadas espessas de terra preta e molhada. E então, ele se foi.

Seguimos para o mesmo local em carros separados, o Coronel e eu. Eu fui perdido nos meus próprios pensamentos e todos eles, nada espantosamente, me levavam a Bella. Meu coração se apertou, quando eu a imaginei, indo de casa para o trabalho, triste, solitária, magoada. Merda. Por que a vida tinha que ser tão difícil para nós dois? Por que sempre que as coisas estavam se acertando, o destino precisava recuar dois passos e nos colocar numa sinuca de bico?

O cemitério jazia dentro das propriedades da família, por isso, não demorou mais do que dez minutos para que o carro me deixasse na frente da casa onde eu vivera por quase toda a minha vida.

Antes de entrar, bati os pés na soleira da porta para me livrar da lama nos tênis e sacudi o cabelo encharcado da chuva. Foi quando me deparei com dois pares de olhos me encarando com cautela do outro lado da sala e meu maxilar trincou, o sangue esquentando.

— Eu sinto muito pela sua perda, Edward _ foi Ethan quem quebrou o silêncio, os jeans enlameados dos joelhos até as botas de couro no estilo cowboy.

A raiva cresceu dentro de mim, ganhando contornos que eu conhecia muito bem. Eu havia aprendido a conviver com ela, mas nunca tinha me preocupado em aplacá-la. Não seria, naquele momento, que eu mudaria meus hábitos.

— Seria inacreditável, se eu não conhecesse tão bem vocês! _ eu rosnei, partindo para cima dos dois a passos largos. _ Seus filhos da puta desgraçados _ eu disferi um soco e Dustin cambaleou para trás, surpreso, por eu quebrar o seu nariz de novo. Eu o segurei pelo pescoço, a circulação sanguínea tão intensa a ponto de provocar um zumbido no ouvido _ Vocês vão atrás de mim, me ameaçam, me mandam para o hospital, e agora vêm me dizer que sentem muito pela minha perda!

Dustin me encarava, com o resto vermelho. Ele nem ao menos tentou se defender. Havia fúria contida nos seus olhos, mas o bom senso dentro deles venceu. Talvez ele estivesse com medo de mim mas, o mais provável, era que tivesse medo do que o Coronel pudesse fazer se alguma decisão fosse tomada sem a sua ordem.

O Hulk costumava ser o soldado mais intimidante do meu avô. Enorme e cheio de músculos que costumavam aterrorizar os inimigos do seu patrão. Mas, agora, todos aqueles músculos estavam encolhidos e sua arrogância não significava nada.

— A culpa foi sua, Edward. Você pediu por aquilo _ Ethan justificou ao meu lado, me lembrando da sua presença e deixando ainda mais enfurecido.

Eu larguei o grandalhão e avancei dois passos para estrangular o outro filho da mãe, que não era muito menor. Ethan engasgou e tentou se livrar do aperto, mas não conseguiu. Fiquei encarando o seu olhar assustado, o pescoço vermelho com as marcas dos meus dedos. Eu não tinha a menor intenção de deixá-lo ir.

O Gladiador sempre havia sido o mais "pacífico" de todos. Não era exatamente uma novidade vê-lo tentar apartar uma briga entre Dustin e eu. Mas, agora, era ele quem estava no alvo. Eu vi, pelo canto do olho, o Hulk hesitar, provavelmente pensando em uma forma de me fazer desistir.

Os passos na escada paralisaram nós três ao mesmo tempo.

— Edward, você pode largar esse pobre garoto? _ a voz do Coronel soou tranquila e divertida, como um avô bondoso dando bronca nos seus três netos briguentos _ Vocês três são uma família desde sempre _ ele fez uma pausa, ponderando o que ia dizer. _ Bem, agora mais do que nunca, não é verdade?

Eu soltei Ethan, que tossiu, levando as mãos ao pescoço, enquanto tropeçava nos próprios pés. Então me dirigi ao Coronel, que havia interrompido seus passos na base da escada. Ele parecia a figura de um barão do café do século 20. Totalmente antiquado, mas ainda assim, poderoso e intimidante.

— O que quer dizer com isso?

Ele arqueou as sobrancelhas e não sorriu mais.

— Hulk, Gladiador! Vocês têm trabalho na cidade hoje. Já que vocês três só sabem ficar se mordendo, não quero ver a cara de nenhum dos dois até amanhã, fui claro? Meu neto e eu vamos ter uma longa conversa meu escritório _ ele se virou e seguiu na direção da sua sala, as mãos cruzadas nas costas. _ Agora, Edward. É do seu interesse.

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POV Bella

Deixei a casa de Charlie, aquela tarde, com a cabeça fervilhando. Nunca imaginei que meu pai pudesse me fazer aquela proposta, nem mesmo quando eu morava sob o seu teto. Ele tinha pessoas especializadas, totalmente capacitadas, trabalhando para ele. Por que não elegia um dos seus sócios ou diretores para o cargo de seu substituto?

Esme ainda não havia chegado quando eu saí, o que foi motivo para eu respirar aliviada por razões egoístas, mas motivo de preocupação quando eu pensava em Charlie sozinho, definhando naquela cama.

Pouco antes de eu sair, o médico havia chegado para examiná-lo e as notícias não tinham sido as mais animadoras. Meu pai tinha uma doença no sangue que vinha exterminando as células do seu corpo lentamente. E ele sabia disso, há quase cinco anos, mas não contara nada a ninguém. Charlie vinha escondendo aquele segredo de todos, enquanto seu estado de saúde só piorava. Nas últimas semanas, a doença tinha avançado assustadoramente, o que o obrigou a se abrir com Esme. Charlie, então, congelou seu cargo na empresa e pediu que o vice-presidente ficasse em seu lugar até que pudesse retornar às atividades. Por enquanto, ninguém sabia a respeito da gravidade da sua doença. Exceto minha madrasta. E agora, eu também.

Eu queria ficar zangada com Charlie por não ter confessado àquilo a ninguém antes, mas não conseguia. Eu podia me colocar em seu lugar, imaginar sua dor e sofrimento e, pela primeira vez em toda a minha vida, senti que meu pai havia feito alguma coisa verdadeiramente altruísta ao esconder a sua doença para não preocupar aqueles que o amavam.

A noite de domingo chegou e eu não tive mais notícias de Edward. Na verdade, nós não nos falávamos desde aquela manhã, quando ele chegou a Maryland. A saudade incendiava o meu peito como gás venenoso. Eu me encolhi no sofá da sala, enrolada no edredom que costumava dividir com Edward, e apertei os botões do controle remoto sem ter a menor ideia do que se passava na tv. Fiz isso até que os meus olhos pesaram e minhas pálpebras fecharam.

Pensando nele, eu adormeci.

Acordei com o som distante de um objeto caindo.

Abri os olhos, relutante e sonolenta, só para constatar, através da janela aberta da sala, que, lá fora, ainda estava escuro. Esfreguei os olhos. O relógio na parede marcava duas da manhã. Eu senti um tremor percorrer minha espinha e me encolhi ainda mais antes de descobrir que o edredom havia escorregado e, agora, jazia embolado no chão aos pés do sofá.

Revirei os olhos ao perceber que estava usando apenas uma camiseta de malha e calcinha e, talvez, por esse motivo, minha pele se arrepiou quando a brisa da noite invadiu a sala, balançando a cortina. Eu havia deixado a janela aberta? Que droga. Edward sempre havia sido categórico sobre suas regras de segurança. Ele era quase neurótico quanto àquilo.

Só que eu não me lembrava de ter deixado a janela aberta...

Outro barulho. Eu dei um pulo no sofá e um gemido escapou da minha garganta. Dessa vez, tinha sido mais perto e eu estava desperta o suficiente para me dar conta de que, de repente, não estava mais sozinha em casa.

Notas finais
Bom dia, meninas! Como vocês estão? Essas últimas semanas foram complicadas aqui no trabalho e, em casa, está impossível escrever por conta da minha princesinha, cada vez mais carinhosa e exigente de atenção hehe espero que tenham curtido o capítulo e gostaria de ouvir, como sempre, as opiniões de vocês, ok? Abraços e beijos! Até breve!