Two Broken Hearts
64 Velhas Amizades
POV Edward
Ver o corpo do meu pai naquele caixão foi uma experiência mais estranha do que eu tinha imaginado. Definitivamente, eu não estava preparado para a visão do seu rosto pétreo, os olhos cerrados e a rigidez do seu corpo de braços cruzados, honrosamente, sobre o peito.
Carlisle tinha sido vestido em um terno preto de corte impecável e tecido macio — o que os vermes se encarregariam de fazer proveito em breve -, que contrastava contra a pele branca, do jeito mais malditamente fúnebre possível. Eu podia apostar que o Coronel se encarregara de cada detalhe, não devido ao carinho que sentia pelo próprio filho — porque ele, obviamente, não sentia — , mas, sobretudo, para manter as aparências e garantir que tudo fosse feito seguindo o alto padrão dos Cullen.
O enterro aconteceu em menos de meia hora, uma cerimônia breve e respeitosa, onde estávamos presentes o padre, meu avô e eu.
A chuva ia e voltava, de tempos em tempos. O Coronel havia se abrigado sob um guarda-chuva preto e largo, mas eu permitia que as gotas, grossas e pesadas, caíssem livremente sobre os meus ombros quando desejavam.
O padre economizou no discurso, com certeza a pedido do Coronel, dizendo algumas palavras sobre o arrependimento pelos nossos pecados, a misericórdia e o perdão divino. E, é claro, a vida eterna. Eu agradeci, mentalmente, por ele não incluir um tópico sobre a bondade e o caráter do falecido, o que, é claro, não cabia.
Quando o ritual, finalmente, terminou, atiramos algumas rosas vermelhas sobre o buraco na terra em que Carlisle havia sido sepultado. A caixa de madeira polida desapareceu sob camadas espessas de terra preta e molhada. E então, ele se foi.
Seguimos para o mesmo local em carros separados, o Coronel e eu. Eu fui perdido nos meus próprios pensamentos e todos eles, nada espantosamente, me levavam a Bella. Meu coração se apertou, quando eu a imaginei, indo de casa para o trabalho, triste, solitária, magoada. Merda. Por que a vida tinha que ser tão difícil para nós dois? Por que sempre que as coisas estavam se acertando, o destino precisava recuar dois passos e nos colocar numa sinuca de bico?
O cemitério jazia dentro das propriedades da família, por isso, não demorou mais do que dez minutos para que o carro me deixasse na frente da casa onde eu vivera por quase toda a minha vida.
Antes de entrar, bati os pés na soleira da porta para me livrar da lama nos tênis e sacudi o cabelo encharcado da chuva. Foi quando me deparei com dois pares de olhos me encarando com cautela do outro lado da sala e meu maxilar trincou, o sangue esquentando.
— Eu sinto muito pela sua perda, Edward _ foi Ethan quem quebrou o silêncio, os jeans enlameados dos joelhos até as botas de couro no estilo cowboy.
A raiva cresceu dentro de mim, ganhando contornos que eu conhecia muito bem. Eu havia aprendido a conviver com ela, mas nunca tinha me preocupado em aplacá-la. Não seria, naquele momento, que eu mudaria meus hábitos.
— Seria inacreditável, se eu não conhecesse tão bem vocês! _ eu rosnei, partindo para cima dos dois a passos largos. _ Seus filhos da puta desgraçados _ eu disferi um soco e Dustin cambaleou para trás, surpreso, por eu quebrar o seu nariz de novo. Eu o segurei pelo pescoço, a circulação sanguínea tão intensa a ponto de provocar um zumbido no ouvido _ Vocês vão atrás de mim, me ameaçam, me mandam para o hospital, e agora vêm me dizer que sentem muito pela minha perda!
Dustin me encarava, com o resto vermelho. Ele nem ao menos tentou se defender. Havia fúria contida nos seus olhos, mas o bom senso dentro deles venceu. Talvez ele estivesse com medo de mim mas, o mais provável, era que tivesse medo do que o Coronel pudesse fazer se alguma decisão fosse tomada sem a sua ordem.
O Hulk costumava ser o soldado mais intimidante do meu avô. Enorme e cheio de músculos que costumavam aterrorizar os inimigos do seu patrão. Mas, agora, todos aqueles músculos estavam encolhidos e sua arrogância não significava nada.
— A culpa foi sua, Edward. Você pediu por aquilo _ Ethan justificou ao meu lado, me lembrando da sua presença e deixando ainda mais enfurecido.
Eu larguei o grandalhão e avancei dois passos para estrangular o outro filho da mãe, que não era muito menor. Ethan engasgou e tentou se livrar do aperto, mas não conseguiu. Fiquei encarando o seu olhar assustado, o pescoço vermelho com as marcas dos meus dedos. Eu não tinha a menor intenção de deixá-lo ir.
O Gladiador sempre havia sido o mais "pacífico" de todos. Não era exatamente uma novidade vê-lo tentar apartar uma briga entre Dustin e eu. Mas, agora, era ele quem estava no alvo. Eu vi, pelo canto do olho, o Hulk hesitar, provavelmente pensando em uma forma de me fazer desistir.
Os passos na escada paralisaram nós três ao mesmo tempo.
— Edward, você pode largar esse pobre garoto? _ a voz do Coronel soou tranquila e divertida, como um avô bondoso dando bronca nos seus três netos briguentos _ Vocês três são uma família desde sempre _ ele fez uma pausa, ponderando o que ia dizer. _ Bem, agora mais do que nunca, não é verdade?
Eu soltei Ethan, que tossiu, levando as mãos ao pescoço, enquanto tropeçava nos próprios pés. Então me dirigi ao Coronel, que havia interrompido seus passos na base da escada. Ele parecia a figura de um barão do café do século 20. Totalmente antiquado, mas ainda assim, poderoso e intimidante.
— O que quer dizer com isso?
Ele arqueou as sobrancelhas e não sorriu mais.
— Hulk, Gladiador! Vocês têm trabalho na cidade hoje. Já que vocês três só sabem ficar se mordendo, não quero ver a cara de nenhum dos dois até amanhã, fui claro? Meu neto e eu vamos ter uma longa conversa meu escritório _ ele se virou e seguiu na direção da sua sala, as mãos cruzadas nas costas. _ Agora, Edward. É do seu interesse.
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POV Bella
Deixei a casa de Charlie, aquela tarde, com a cabeça fervilhando. Nunca imaginei que meu pai pudesse me fazer aquela proposta, nem mesmo quando eu morava sob o seu teto. Ele tinha pessoas especializadas, totalmente capacitadas, trabalhando para ele. Por que não elegia um dos seus sócios ou diretores para o cargo de seu substituto?
Esme ainda não havia chegado quando eu saí, o que foi motivo para eu respirar aliviada por razões egoístas, mas motivo de preocupação quando eu pensava em Charlie sozinho, definhando naquela cama.
Pouco antes de eu sair, o médico havia chegado para examiná-lo e as notícias não tinham sido as mais animadoras. Meu pai tinha uma doença no sangue que vinha exterminando as células do seu corpo lentamente. E ele sabia disso, há quase cinco anos, mas não contara nada a ninguém. Charlie vinha escondendo aquele segredo de todos, enquanto seu estado de saúde só piorava. Nas últimas semanas, a doença tinha avançado assustadoramente, o que o obrigou a se abrir com Esme. Charlie, então, congelou seu cargo na empresa e pediu que o vice-presidente ficasse em seu lugar até que pudesse retornar às atividades. Por enquanto, ninguém sabia a respeito da gravidade da sua doença. Exceto minha madrasta. E agora, eu também.
Eu queria ficar zangada com Charlie por não ter confessado àquilo a ninguém antes, mas não conseguia. Eu podia me colocar em seu lugar, imaginar sua dor e sofrimento e, pela primeira vez em toda a minha vida, senti que meu pai havia feito alguma coisa verdadeiramente altruísta ao esconder a sua doença para não preocupar aqueles que o amavam.
A noite de domingo chegou e eu não tive mais notícias de Edward. Na verdade, nós não nos falávamos desde aquela manhã, quando ele chegou a Maryland. A saudade incendiava o meu peito como gás venenoso. Eu me encolhi no sofá da sala, enrolada no edredom que costumava dividir com Edward, e apertei os botões do controle remoto sem ter a menor ideia do que se passava na tv. Fiz isso até que os meus olhos pesaram e minhas pálpebras fecharam.
Pensando nele, eu adormeci.
Acordei com o som distante de um objeto caindo.
Abri os olhos, relutante e sonolenta, só para constatar, através da janela aberta da sala, que, lá fora, ainda estava escuro. Esfreguei os olhos. O relógio na parede marcava duas da manhã. Eu senti um tremor percorrer minha espinha e me encolhi ainda mais antes de descobrir que o edredom havia escorregado e, agora, jazia embolado no chão aos pés do sofá.
Revirei os olhos ao perceber que estava usando apenas uma camiseta de malha e calcinha e, talvez, por esse motivo, minha pele se arrepiou quando a brisa da noite invadiu a sala, balançando a cortina. Eu havia deixado a janela aberta? Que droga. Edward sempre havia sido categórico sobre suas regras de segurança. Ele era quase neurótico quanto àquilo.
Só que eu não me lembrava de ter deixado a janela aberta...
Outro barulho. Eu dei um pulo no sofá e um gemido escapou da minha garganta. Dessa vez, tinha sido mais perto e eu estava desperta o suficiente para me dar conta de que, de repente, não estava mais sozinha em casa.
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