Two Broken Hearts
65 Amor e Recompensa
O Coronel era um homem forte para os seus sessenta e tantos anos. Forte e temperamental. Enfrentar o seu mau gênio era praticamente impossível, por isso, as pessoas frequentemente preferiam se submeter a ele.
Houve um tempo em que eu era uma destas pessoas. O Coronel me criou como a um filho querido, o filho que Carlisle nunca havia sido para ele. Eu era forte, ágil e inconsequente. Julgava ter uma personalidade forte como a do meu avô. Burrice. Eu era só um boneco de massa como todos os outros. Apenas mais um Ethan ou um Dustin. Ou um Jacob. Eu era completamente obcecado pela forma como o Coronel lidava com as coisas, como resolvia seus assuntos. Eu era um servo obediente do Coronel, guiado por amor, admiração e uma devoção incondicional a ele.
Quando eu me mudei para Nova York, por ordem do Coronel, eu me hospedei em um flat confortável no centro da cidade. Consumi minhas primeiras semanas em festas, garotas e bebidas, torrando a mesada que ele depositava na minha conta tão rápido quanto conseguia. Meu avô não fez objeções. A sua riqueza era uma fonte inesgotável e ele não se incomodava em lançar mão dela quando preciso. Naquele tempo, o Coronel era um avô firme, mas ainda generoso e amável. Além disso, ele tinha planos maiores para mim e eu conhecia a maioria deles.
Mas não todos, claro. Nem a intensidade da sua obsessão por ela. Esme.
— Pode se sentar, Edward _ ele pediu e eu atendi seu pedido.
O Coronel fez o mesmo, apoiando as costas contra o encosto da cadeira e cruzando os braços sobre o peito. Atrás da mesa de madeira do escritório, ele era o mesmo homem que eu lembrava. Intimidante e, às vezes, mesmo, assustador.
— Eu poderia começar essa conversa com um sermão, Edward _ ele disse, abrindo uma gaveta e sacando, lá de dentro, uma carteira de charutos. Os seus favoritos: cubanos _ Um sermão sobre você ter traído a minha confiança, o amor que eu depositei em você todos esses anos. Você pode imaginar como eu me senti?
Eu rangi os dentes.
— Posso imaginar. Da mesma forma que eu me senti quando seus capachos começaram a ir atrás de mim, em Nova York.
O meu avô fez um muxoxo e um gesto de desprezo com a mão.
— Bobagem. Você sabe que eu precisava conseguir a sua atenção de alguma forma. Quantos telefonemas meus você ignorou, Edward? Quantas vezes você dispensou os meus emissários com um chute bem no meio do rabo? _ ele tirou um charuto de dentro da caixa e o cortou, antes de acendê-lo. Eu senti o aroma do fumo impregnar o ambiente e resisti a vontade doida de meter a mão no bolso de trás da calça e acender um cigarro. _ Você é a única pessoa nesse mundo com a qual eu me importo. E merda, você sabe disso! Eu daria minha vida por você, Edward. Por que, diabos, virou as costas para mim?! _ ele gritou, a testa franzida e o charuto apertado entre os dedos.
Eu havia refletido muito a respeito e, até hoje, não tinha uma resposta coerente. Não sabia, ao certo, quando o conceito que eu tinha do meu avô havia se desintegrado diante dos meus olhos. Quando ele me enviou a Nova York, o propósito me parecera bastante razoável. Desgraçar Esme e sua família perfeita. Ela havia me desgraçado primeiro, merda. Nada mais justo do que fazer a mamãezinha provar do seu próprio veneno.
Depois das primeiras semanas na cidade, porém, eu tive o primeiro gostinho da liberdade. E isso não teve nada a ver com as noitadas no Seven e outros bares ou com as mulheres que levava para a cama no flat alugado com o dinheiro do meu avô. De repente, bastou estar longe do Coronel, para eu me sentir realmente vivo pela primeira vez na vida. Para eu sentir que, finalmente, RESPIRAVA. Só que, na medida em que eu me sentia livre para desenhar os meus próprios passos, a culpa me atormentava, me perseguia. Eu devia TUDO àquele homem. Absolutamente tudo. Até mesmo a minha sanidade.
As tatuagens nas minhas costas marcavam o inferno que havia sido a minha vida. Homens brigando com demônios. A porra do inferno de Dante. Um pai abusivo e alcoólatra, uma mãe omissa e, depois, ausente. Desprezado e abandonado no décimo círculo do inferno. E se alguém havia sido a meu favor, naquele momento, este alguém havia sido o meu avô. O Coronel havia segurado a minha mão e me puxado para fora do redemoinho, diversas vezes. Tudo isso me havia feito cego aos seus defeitos. Mas hoje, sentado diante dele naquele maldito escritório, eu não sabia dizer o que havia levado o meu avô a se tornar o meu defensor, o meu super herói sem capa. Seria o amor que sentia por mim... ou a certeza de que estava moldando o soldado mais leal e obediente de todos.
— Quando você saiu dessa fazenda, eu me senti um velho idiota e solitário, chorando pelos cantos com a falta do meu neto _ ele prosseguiu, abandonando o charuto no cinzeiro sem nem mesmo dar uma tragada. _ Mas eu sabia que nós tínhamos um acordo. Um intuito. Juntos. Achei que você quisesse destruir os desgraçadinhos tanto quanto eu, Edward! Aquela vadia iludiu e usou o seu pai. O meu filho que, agora, descansa embaixo da terra na companhia dos vermes! Você pode imaginar como eu me sinto, sabendo que você deu as costas pra mim quando eu mais precisei?!
Eu respirei fundo, tentando controlar as emoções que brigavam dentro de mim. Ele estava usando toda a história a seu favor. Eu devia ter ido preparado para aquilo. Eu conhecia o homem, havia crescido com ele. O Coronel não dava ponto sem nó.
— Você não vai me culpar por tentar viver a porra da minha vida, longe de toda essa merda _ eu inclinei o corpo para a frente na poltrona, querendo soar alto e claro. _ Não mesmo.
O homem me olhou, taciturno, como um deus do Olimpo. Impiedoso e soberano.
— Essa merda é exatamente o que você é, Edward.
Uma pedra rasgou a minha garganta por dentro. O medo de ele estar certo tomou conta de mim. E se o Coronel estivesse certo? E se eu estivesse simplesmente dando voltas, andando em círculos, tentando fugir do meu destino?
— Não _ eu respondi, meneando a cabeça para descartar a ideia. _ Isso é de onde eu vim. Mas não quem eu sou. Sabe... houve um tempo em que achei que devia tudo a você. Cada dia da porra da minha vida.
— E não acha mais? _ ele arqueou a sobrancelha, o rosto ficando vermelho _ Cada centavo que tocou o seu bolso até você ir para aquele diabo de cidade veio de mim, garoto. Até depois, na verdade. Não esqueça que você tentou me levar a falência quando quis bancar o príncipe em Nova York, assim que chegou lá.
— Aquilo é passado e eu me envergonho disso _ respondi com sinceridade, me erguendo para levantar da cadeira. O meu avô fez um gesto com a mão e eu voltei a sentar. _ Eu me arrependo amargamente.
Ele assentiu, parcialmente satisfeito. Sua expressão se tornou mais branda e ele refletiu um pouco antes de prosseguir a conversa.
— A contragosto, eu tenho que admitir que sinto um certo orgulho do homem que você se tornou, rapaz. Esse tempo fora fez você amadurecer. Eu reconheço e admiro isso.
— Jeito estranho de admirar o seu neto... _ eu observei, contrafeito _ mandando três brutamontes surrá-lo.
O Coronel franziu o cenho, me fuzilando com os olhos verde esmeralda que brilhavam, cheios de sarcasmo.
— Olha só pra você, Edward... falando agora como a porra de um viadinho. Brutamontes? Oh, sim. Agora você é uma virgem pura e indefesa, tentando segurar o cabaço entre as pernas _ ele apoiou os cotovelos sobre a mesa e escondeu o rosto entre as mãos, como se a nossa conversa o tivesse levado a exaustão _ Estou disposto a deixar essa merda toda para trás, Edward. Estou disposto a esquecer as nossas diferenças. Eu tenho esperança em você. Tenho esperança no homem de fibra que eu criei, o homem capaz de fazer o que é o preciso.
— Disposto a esquecer? _ eu ri, sem humor algum _ Eu não sou mais esse homem, Coronel.
— Será que não? _ ele ergueu o canto da boca num sorriso nocivo _ Eu sei que você quer, tanto quanto eu, acabar com a raça daquela maldita que botou você no mundo... o único ato de decência que ela teve na vida, aliás. Você acredita que ela pensou em tirar você de dentro da barriga, Edward? Ela queria matar o bebezinho dentro dela. Ela te odiava desde antes de você nascer.
Eu não estava preparado para ouvir nada daquilo e as palavras dele cortaram o meu coração.
— Você vai deixar ela se safar dessa? Com toda aquela grana e o narizinho em pé de quem andou cheirando estrume? _ ele bateu na mesa e o som encheu a sala como um trovão _ Bosta nenhuma! Vamos dar um jeito na piranha, Edward! Juntos. Eu sei que você anda arrastando uma asa para a enteada dela _ ele grunhiu, parecendo contrafeito. _ Tudo bem. Não vou me meter na sua vida pessoal. Se você gosta de dormir com o inimigo, o problema é seu.
— Sim, Bella é um problema meu _ eu assegurei. _ E os meus sentimentos por ela também. Por isso, fiquei longe dela, Coronel. E fique longe de mim.
Ele sacudiu a cabeça, frustrado, e o silêncio se instalou entre nós por um tempo prolongado até ele voltar a falar.
— Eu sempre considerei você uma maldita pérola nascida do meio da bosta. E isso é um elogio... Deus sabe que é uma merda de um elogio, mas é. E o que eu vejo agora? Um projetinho de homem sentimentalóide.
Eu sorri, encarando o meu avô com uma audácia que eu nunca havia tido antes.
— Sabe... de todas as coisas que você me disse, desde que eu voltei, essa foi a única que fez sentido_ eu me recostei na poltrona, cruzando as pernas e sorrindo com uma arrogância satisfeita. _ Eu sou um homem totalmente diferente, agora, Coronel. E você é o mesmo merda que eu conheço desde o dia em que nasci. A diferença é que, agora, eu te enxergo de verdade, enxergo essa coisa podre e cancerosa que você tem por dentro.
Ele se levantou da cadeira em um rompante furioso.
— Seu bastardo! Vou te dar um chute no rabo tão bem dado...
— Não precisa se dar ao trabalho, vovô— eu me levantei da poltrona com uma calma determinada. _ Eu já estou de saída.
E estava mesmo.
Eu nunca mais colocaria os pés naquela fazenda. Pensar nela como a minha casa havia sido um erro gigante. Cada dia que eu vivi ali havia adoecido e secado um pedaço do meu coração até eu me transformar num homem desprezível, vazio, oco. Mas uma centelha da criança que eu havia sido ainda estava acesa dentro de mim, brilhando no escuro, esperando, esperando. O Coronel a havia aprisionado no seu amor falso, cheio de interesses. Um amor que esperava ser recompensado no momento certo. A sua proteção, o seu carinho, a sua generosidade... tudo havia sido um investimento e ele esperava retorno, com juros e correção.
Eu finalmente havia aprendido a máxima: lar é o lugar onde o coração da gente está.
O meu coração estava esperando. Em Nova York. E eu me dedicaria a passar o resto da vida tentando reconstruir os pedaços quebrados dentro de mim. Ao lado dela.
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