POV Bella

Instintivamente, eu me arrastei para a outra ponta do sofá, tentando colocar uma distância entre mim e a cozinha, de onde tinha vindo o último barulho. Eu podia sentir os músculos do meu corpo enrijecidos de tanta tensão.

Outro reflexo me fez estender a mão para o telefone sobre a mesa da sala e eu o agarrei com tanta força que os meus dedos chegaram a doer.

Eu fui caminhando de costas, a passos curtos, lentos, ouvindo cada respiração que saía da minha boca. No silêncio da casa, aquele som parecia alto o suficiente para trair a minha localização. Eu desejei que aquilo não fosse verdade. Fosse quem fosse que estivesse ali dentro não estava bem intencionado e eu precisava estar um passo a frente naquele jogo de gato e rato.

A sonolência que antes comandava o meu corpo já havia me abandonado completamente. Eu me virei de frente para a janela aberta e soube que aquela era a minha melhor chance. Lá dentro, tudo era penumbra e medo, mas a lua emanava um facho de luz que tornava lá fora muito mais atraente e seguro.

Determinada a não perder tempo, eu me debrucei sobre o parapeito e dei um forte impulso para subir, mas voltei atrás com um urro abafado de dor e desespero quando agulhadas atingiram as palmas das minhas mãos. Explosões de vermelho se seguiram atrás dos meus olhos e eu me inclinei para frente, gemendo, enquanto o sangue fluía entre os meus dedos.

Erguendo os olhos, constatei o que antes havia sido disfarçado pela penumbra. Cacos de vidro estavam espalhados pelo peitoril. Eu não havia esquecido a janela aberta. Ela havia sido quebrada. Mas, em momento algum, eu havia escutado o estampido do vidro se partindo.

Todas as perguntas dentro da minha cabeça não eram páreo para a dor lancinante que eu estava sentindo. Cacos de vidro cortavam a minha carne e eu agachei, pestanejando e arfando. Sentada no chão, comecei a retirar os maiores, um a um.

O som de passos chegou até mim, distante e abafado. Meu cérebro havia entrado no modo co-piloto e os meus olhos relutavam em permanecer abertos. Pelos umbrais que dividiam a cozinha da sala, a sombra de um homem se aproximava devagar.

Eu engoli em seco. De repente, uma sede inexplicável havia transformado a minha garganta no próprio Deserto do Sahara. Tentei me colocar de pé, mas não conseguia ordenar as minhas pernas que se movessem. Levantei a cabeça devagar na direção da janela e, embora estivesse a apenas um metro de distância, esta me pareceu uma ideia absurda. Eu estava lenta... mole. Tentei encher os meus pulmões de ar, mas ele havia desaparecido.

— Quem... é... você? _ as palavras pareciam saídas de outra pessoa, não de mim.

— Quem é você... o que você quer... por que está fazendo isso comigo? E bla bla bla, bla bla bla, bla bla bla _ a figura debochou e alguma coisa dentro de mim se acendeu e apagou muito rápido. Por um momento ínfimo, eu reconheci o dono da voz, mas o reconhecimento se desfez tão depressa quanto um punhado de areia arremessado ao vento. _ Eu achei que você fosse menos previsível, Bella. Eu achei mesmo. Mas agora entendi porque o Edward se apaixonou por você...

Ele deu mais um passo a frente e, dessa vez, a luz da lua iluminou o seu rosto e o fez entrar no meu campo de visão.

— Você é gostosa e burra, facilmente manipulável. Esse sempre foi o nosso tipo preferido de mulher, sabe?

— Jacob.

O mundo saiu e depois retornou ao foco. Jake abriu o seu sorriso costumeiro de predador e se agachou, ficando no mesmo nível que eu.

— Sentiu minha falta, gata? Sabe, contra a minha vontade, eu tenho que admitir: sua boquinha carnuda faz falta pra caralho. Eu gostava do nosso jogo.

— O que você... o que você... o que...?

— Ahn, o que? _ ele colocou a mão ao redor do ouvido em forma de concha _ Você está tentando me dizer alguma coisa? Porque eu não estou entendendo merda nenhuma _ o cenho dele franziu, mas os olhos brilhavam de divertimento _ Você devia parar com essas drogas, Bella. Sabe, ficar se dopando assim ainda vai acabar com você.

A compreensão me atingiu com a força de um golpe no estômago. A vitamina que eu havia preparado antes de ir me sentar na sala para assistir tv. Eu havia tomado um copo grande na cozinha e, depois, me sentara no sofá da sala, enrolada no edredom, até pegar no sono.

Jacob havia me drogado. Eu não tinha a menor chance de escapar. Olhei para as palmas das minhas mãos, cheias de minúsculos cacos de vidro, e me encostei contra a parede, subitamente cansada. Flashes começaram a se propagar dentro da minha cabeça, como raios cruzando de um lado ao outro.

O mundo real ia e vinha muito depressa. Nele, estava Jacob me encarando com uma astúcia cruel, como o caçador que assiste pacientemente a agonia da sua presa.

O desespero começava a ceder a medida que a minha percepção se desintegrava.

— Eu sinto muito pelas mãos _ Jacob disse, apontando com o queixo na direção dos meus ferimentos. _ Você esqueceu a janela do quarto aberta, então eu nem precisaria bancar o vândalo _ ele revirou os olhos _ mas eu precisava retardar suas reações... sabe... bloquear sua rota de fuga. Enquanto você ainda tinha qualquer chance de reagir, claro _ ele riu brevemente e então seu semblante se tornou sério. _ Em outros tempos, a gente poderia ter se dado muito bem, Bella. Mas hoje você é o animalzinho de estimação preferido do meu ex-melhor amigo e eu quero machucá-lo, sabe? Eu quero que o Edward sinta tanta dor que ele vai preferir ter morrido naquele dia na fazenda. O filho da puta. Ele vai me pagar.

Em um relance, eu vi o brilho da arma no coldre quando ele afastou a jaqueta de couro. Eu já não sentia medo, nem esperança, dor ou qualquer outra coisa. Só tentava me agarrar a realidade para descobrir uma forma de lutar contra Jacob.

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POV Edward

Eu não precisava arrumar minhas coisas, a mala ainda estava feita sobre a cama. Que bom, porque assim ganharia tempo e sairia mais rápido daquele inferno.

Quando alcancei a porta, olhei para trás por um breve momento.

O quarto me trazia algumas poucas boas lembranças, já que a maioria das minhas recordações era povoada pelos piores pesadelos. Carlisle já havia me batido ali quantas vezes na infância? Quantas vezes ali, naquela mesma cama, eu, adolescente, me deitara para pensar em minha mãe e por qual motivo ela me havia abandonado?

As melhores lembranças eram todas minhas e do meu avô, mas eu já não sabia como lidar com elas. Então, me despedi rapidamente do velho Edward e carreguei minha mala para fora do quarto em direção aos degraus da escadaria.

Encontrei Henrietta ao pé da escada, quando cheguei lá. Ela tinha as mãos cruzadas a frente do corpo e não usava o habitual avental.

— Boa tarde, Henrietta _ eu disse, batendo continência como costumava fazer nos velhos tempos só para irritá-la. _ E adeus.

Ela ergueu bem a cabeça e me olhou dentro dos olhos.

— Você está indo de verdade, dessa vez? Quer dizer, para sempre?

Eu dei um meio sorriso, assentindo.

— De verdade e para sempre.

O sol começava a brilhar lá fora, brigando para sair por entre as nuvens escuras que antes triunfavam sobre ele. Aquilo era exatamente como eu me sentia.

O sorriso que ela me lançou foi muito maior e mais franco.

— Ótimo. Eu também _ ela disse, me surpreendendo. _ Parece que escolhemos o mesmo tempo para libertar as amarras. Ou o tempo nos escolheu. Isso, sim, parece mais verdadeiro.

Eu arqueei as sobrancelhas, sem tentar disfarçar o espanto.

— Você está indo embora? Mas você está aqui há... quanto tempo?

— Muitos anos _ ela sorriu, compreensiva. _ Muitos mais do que você. Mas acho que nunca é tarde para assumir a nossa verdade, não é mesmo?

Eu assenti de novo, me sentindo um estúpido. Henrietta também não era feliz ali? Eu achava que a vida naquela fazenda era tudo para ela!

— Achei que você estivesse satisfeita em...

— Servir ao seu avô? _ ela completou, prestando atenção nas mangas da blusa bufante, que começou a abotoar na altura dos pulsos _ Eu não tenho problema algum em servir, Edward. Eu fui criada para servir, educada para ser leal. E eu fui. Durante muitos anos, fechei os olhos para todas as barbaridades que vi seu avô cometer, toda a crueldade e a maldade daquele homem.

— E então você decidiu ir embora?

Ela ergueu novamente aquele sorriso para mim e, dessa vez, havia um brilho triunfante nos seus olhos também.

— E então eu decidi ir embora _ repetiu, alinhando a blusa e a saia bem passadas. _ Eu já chamei um táxi. Então, se você quiser ir comigo, sinta-se bem vindo.

A ideia de ver Henrietta partindo era uma completa loucura. Partir junto com ela era o ápice da insanidade. Mas era fodidamente maravilhoso e libertador.

Eu não precisei responder, apenas a segui para fora.

"Hoje a tarde mesmo eu estarei com Bella", era tudo em que eu conseguia pensar enquanto esperava o táxi chegar junto a Henrietta do lado de fora da casa.

Notas finais
Boa tarde, meninas! Tudo bem com vocês? Então, eu tinha escrito só o pov da Bellinha hoje de manhã, mas resolvi incrementar com esse pov menor do Edward pra não matar tanto vocês. E aí, o que acharam do capítulo? Quem aí estava esperando um retorno do cafajeste do Jake? E será que ele está a mando do Coronel ou agindo por conta própria? Ele parece bem p. da vida com o Eddie, por que será hein? E o Edward por onde se encontra se já é domingo a noite no pov da Bella?? Hmmmmm. E o mais importante de tudo: será que a Bella se salva dessa? Mandem reviews! Beijos!