Two Broken Hearts
67 O Inferno de Dante
POV Bella
— Você provocou a ira de gente importante, Bella.
— Quem? _ eu perguntei, tentando ganhar tempo para pensar em uma forma de fugir dali. Olhei de soslaio para a janela atrás de mim, mas os cacos de vidro ainda eram potencialmente perigosos e eu não conseguiria driblar Jacob armado mesmo se não estivesse com as mãos feridas.
Um pouco da minha força anterior havia voltado. Eu não sabia dizer o motivo, mas sentia que o meu cérebro estava lutando para não mergulhar direto para o abismo.
Agachado diante de mim, Jacob me encarou com cinismo evidente. E sorriu.
— Gente que gostaria de ver você morta. Eu não iria tão longe, sabe? Não iria lucrar com a sua morte. Existem outras formas de usar você para fazer o Edward pagar.
— Pagar pelo que? _ eu ignorei a ameaça oculta nas palavras dele. “Outras formas”. Imaginar quais seriam as outras formas me fez estremecer.
Eu olhei para o corredor atrás de Jacob e cogitei que aquela seria uma péssima rota de fuga. Mesmo se eu conseguisse distraí-lo, não estava em condições de correr uma distância tão grande. A realidade ainda ameaçava se desprender de mim como se eu estivesse dividida entre dois universos distintos. Quanto tempo havia se passado? Pareciam horas, embora provavelmente não fossem mais do que alguns minutos. Apesar de, agora, conseguir focar o rosto dele com mais clareza, eu ainda não tinha o pleno domínio do meu corpo.
Jacob travou o maxilar e seus olhos se tornaram subitamente hostis. Eu havia colocado o dedo na ferida. Talvez não devesse ter feito aquilo, mas, no momento, ainda parecia a minha melhor chance.
— Edward e eu temos uma diferença a resolver.
— Que diferença?
— Uma discussão que não terminou muito bem _ ele esclareceu, os olhos escurecendo e tornando-se distantes. Eu o havia enviado direto para a raíz do problema. Outro lugar, outro tempo. E precisava mantê-lo lá por tempo suficiente.
— Você está fazendo isso... por causa de uma discussão entre amigos? _ eu tentei soar incrédula, mas não estava sendo sincera. Eu podia imaginar Jacob agindo como um lunático por qualquer razão.
— Não foi só uma discussão _ ele objetou, se inclinando para mais perto e retornando a calma anterior. _ Você é uma menininha da cidade, Bella, mas eu sou um homem da fazenda. Eu aprendi a lidar com as coisas de outra forma. Para gente como eu, a vingança é o único jeito de resolver as coisas _ simplificou. _ Edward me ferrou. E agora eu vou ferrar ele.
Jacob estendeu o braço e segurou o meu pulso, me puxando de encontro a ele. Eu tentei não ceder e permanecer imóvel, mas sua força era grande e ele acabou me sacudindo como uma boneca de pano. Eu dobrei o outro braço para trás do corpo e tateei pelo chão, os ferimentos abertos raspando nos fragmentos de vidro caídos da janela. A dor voltou, débil, mas estava lá. Por algum motivo, aquilo me pareceu bom. E, por algum motivo, também, eu sabia que não poderia deixar Jacob descobrir.
Quando encontrei o que queria, soube que tinha uma chance. Jacob me encarou, confuso, quando o caco de vidro o atingiu, rasgando o seu rosto. Ele me soltou, instantaneamente, levando a mão ao machucado.
— Sua filha da puta _ ele rosnou, chocado.
Eu comecei a me erguer, arrastando as costas contra a parede de concreto, mas meus pés espadanaram no chão sem sinal de coordenação. Minha boca tinha um gosto horrível e a respiração vinha em ondas irregulares de pânico.
Jacob me atingiu com um tapa e lágrimas rolaram pelo meu rosto. Meu corpo escorregou de volta para o chão.
Ele ficou de pé, se aproximando até que eu precisei levantar a cabeça para fitá-lo.
— Não se preocupe. Eu não pretendo usar isso em você _ ele disse, tocando a arma repousada no coldre _ eu tinha certeza de que aquilo não era motivo de alívio e gemi quando senti o meu corpo ser erguido do chão com facilidade _ Mas vamos torcer para que não haja nenhuma emergência, não é mesmo? Seria uma pena usar uma coisinha dessas em você. Tenho idéias melhores, Bella. E agora estou me sentindo especialmente criativo. Graças a você.
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POV Edward
Quando o táxi chegou, eu corri na frente de Henrietta para abrir-lhe a porta. A chuva havia recomeçado, suave mas constante. Eu olhei para o céu e previ que logo começaria um temporal e desejei poder chegar em casa antes que o céu se fechasse de verdade, mas sabia que não era possível.
Henrietta agradeceu e passou por mim quando eu lhe dei passagem, entrando no táxi. Eu entrei logo atrás dela e me sentei ao seu lado. Lá dentro era quente e aconchegante, porque a temperatura havia caído bruscamente do lado de fora.
Ela tirou o sobretudo que havia colocado minutos antes e o repousou sobre o colo, por cima da bolsa. Sua única mala, bastante volumosa, estava entre nós, sobre o banco, e atrapalhava bastante os seus movimentos. A minha, muito menor, eu havia colocado sobre o colo.
O taxista já não era o mesmo de quando eu cheguei pela manhã. Esse era muito mais velho, com longos bigodes brancos e a barba por fazer.
— Para onde? _ ele perguntou, nos olhando pelo retrovisor.
— Para bem longe daqui _ a ex-governanta dos Cullen disse, antes de dar o endereço correto: o aeroporto de Maryland.
Nos primeiros cinco minutos de viagem, Henrietta e eu olhamos pela janela sem dizer uma palavra. Eu não tinha mais o que me despedir em relação a fazenda, mas respeitei o seu silêncio, acreditando que o sentimento na expressão taciturna dela era uma saudade justificada.
— Deus, como eu fico feliz em ir embora desse lugar _ ela desabafou de repente, quebrando a tensão.
Eu voltei os olhos para a mulher ao meu lado, sem acreditar. Seus olhos, azuis e límpidos, também estava voltados para mim e a expressão no rosto dela era a de puro alívio.
— Para onde você vai agora, Henrietta?
— Para a casa da minha irmã, em Portland _ ela respondeu, com simplicidade.
— São mais de dez horas de viagem _ eu me espantei, olhando para as mãos de unhas curtas e bem feitas que ela tinha sobre o casaco. Ela tamborilava os dedos de forma ritmada e empolgada, contrariando qualquer expectativa anterior minha sobre o seu estado de espírito.
— É verdade. Mas eu vou passar em alguns lugares antes _ Henrietta se virou para a janela com um sorriso entusiasmo. _ Eu nunca fiz uma viagem na vida, Edward. Nunca saí desse fim de mundo. Quando meus pais morreram, eu tinha apenas dezenove anos e vim trabalhar para o seu bisavô.
— E como ele era? _ perguntei, curioso. Queria traçar um perfil psicológico a partir dos meus antepassados para entender um pouco sobre a personalidade do Coronel e de Carlisle.
Ela sorriu, compreensiva.
— Um homem maravilhoso _ definiu. _ Ambicioso, inteligente, sagaz para os negócios... mas piedoso e extremamente gentil. Foi uma honra trabalhar para o seu bisavô. Muito do tempo que eu passei nesta casa, após sua morte, foi em consideração ao Sr Edward.
Foi a minha vez de sorrir, satisfeito. Edward Cullen, o homem de quem eu havia herdado o nome não era, então, um completo babaca. Eu desejei poder ter conhecido o meu bisavô. O tempo havia colocado uma distância impossível de transpor entre nós e, a mim, havia sobrado a convivência com duas pessoas bem diferentes dele: o Coronel e Carlisle.
Sem conseguir me controlar, eu mergulhei em uma lembrança obscura do meu passado. Uma lembrança que eu desejava enterrar no fundo da minha alma atormentada, mas não podia.
Na noite em que eu comecei a traçar o inferno que carregava nas costas, eu havia passado em um bar nos limites de Baltimore. Havia deixado Dustin, Ethan e Jacob para trás. Eu pretendia ficar só, me recusava a ter companhia. Jacob havia tentado me impedir de sair, porque ele sabia que eu cometeria um erro. Eu estava possuído por um espírito de fúria incontrolável e queria provocar o caos.
Carlisle havia chegado bêbado outra vez, trazendo duas prostitutas para casa. Do meu quarto, eu ouvi os três transarem e ouvi também quando a situação tomou outro rumo.
Eu havia acabado de me arrumar. Tinha marcado de tomar umas cervejas com os caras e já estava com as chaves do carro na mão, quando o choro e os gritos começaram.
Engoli em seco e fechei os olhos. Por um segundo, fiquei travado na porta, pensando nos gritos de Esme que me acordavam na madrugada. Na ocasião, eu era apenas uma criança. Agora, eu era um homem feito.
Eu corri para o quarto de Carlisle, pronto para arrombar a porta, mas não foi necessário. Ela estava entreaberta e bastou empurrá-la. As duas mulheres estavam acuadas em um canto, nuas, a maquiagem borrada pelas lágrimas. Meu pai, de pé diante delas, brandia o chicote que usava para fustigar os cavalos. Na outra mão, havia uma garrafa de uísque pela metade. Os olhos dele brilhavam de satisfação.
— Eu vou castigar vocês, suas putas! Vou castigar e depois matar todas vocês _ ele berrou, fazendo descer o chicote sobre o rosto de uma das mulheres. Um vergalhão surgiu no lugar e ela berrou de dor.
Eu estremeci com o estalo. A amiga olhou para mim, apavorada e indefesa, as mãos estendidas suplicando ajuda.
Eu voei pelo quarto e pulei sobre Carlisle, derrubando-o. A garrafa se espatifou ao nosso lado. De relance, eu vi quando as mulheres deixaram o lugar, enquanto eu imobilizava o meu pai no chão.
— Edward, seu maldito! Você é um filho da puta! Sabe disso, não é? Seu maldito...
Eu rosnei, desferindo um soco impensado, sem medir a minha raiva ou a força que vinha dela.
Carlisle desmaiou. Eu fiquei um tempo sobre o seu corpo, esperando que acordasse, sem saber o que fazer. Nossas brigas nunca haviam chegado muito longe. Quando criança, eu me trancava no quarto ou procurava a proteção do Coronel depois de levar uma surra. Adolescente, eu ficava muito mais tempo na rua do que na sua companhia.
Por fim, abandonei meu pai caído no chão e saí de casa, uma raiva crescente tomando conta de mim.
Jacob apareceu de repente, bloqueando a porta do meu carro para que eu não pegasse o volante. Eu estava transtornado e ele viu isso nos meus olhos. Eu o empurrei e ele me empurrou de volta, sem ceder. Eu dei um soco nele, que me olhou incrédulo.
“Vou relevar, porque sei que você está fora de si”, ele disse, mas eu notei que havia conseguido o que queria: deixar alguém com um pouco da raiva que eu mesmo estava sentindo.
“Você é tão viado e covarde”, eu o provoquei. “Vive cheirando o rabo do meu avô, achando que ele vai fazer de você o braço direito dele, mas esquece que isso tudo um dia vai ser meu”, eu sorri, arrogante. “Um dia, você vai estar lambendo o meu saco também, cachorrinho”.
Eu vi a raiva borbulhar e explodir dentro dele. Jake partiu para cima de mim e nós caímos no chão. Antes que um de nós matasse o outro, Dustin e Ethan apareceram e separaram a briga.
Eu entrei no carro, cego pelo ódio, mas ouvi bem as palavras de Jacob enquanto eu dava a partida.
“Nunca vou ser o seu cachorrinho, Cullen. Nem o seu, nem o de ninguém”.
Fui parar em um bar, longe dali, e bebi sozinho pelo resto da madrugada. Quando o lugar fechou, eu procurei um cara que entendia bem de tatuagens e havia trabalhado em um estúdio em Los Angeles anos antes. Foi quando comecei o inferno. Em três semanas, o desenho estava pronto. Eu queria retratar o que vinha vivendo desde o maldito dia em que respirei pela primeira vez e a simbologia de Dante pareceu adequada.
No dia seguinte a nossa discussão, eu tentei conversar com Jacob, mas ele me ignorou completamente. Eu estava arrependido e achava que as coisas voltariam ao normal em algum momento. Nós éramos melhores amigos, ele acabaria me compreendendo.
Eu estava errado.
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