Edward puxou o zíper da mala, enquanto eu assistia sentada na ponta da cama, pensando em um uma justificativa adequada para não deixá-lo partir. Uma hora havia se passado e eu ainda tentava digerir a notícia que nos colocaria afastados pelos próximos dias.

Seu pai estava morto. Eu tentei imaginar como me sentiria ao receber a notícia de que Charlie havia morrido. Uma nuvem negra e densa atravessou a minha alma. Fosse como fosse, eu ainda tinha fortes sentimentos em relação a ele.

Havia sido o Coronel a avisar Edward sobre a morte do pai. De acordo com Edward, o avô parecera abalado, mas ele não sabia dizer ao certo o quanto ele estava sendo sincero sobre a dor da perda. Carlisle e o pai nunca foram exemplo de uma relação familiar sadia. Não seria improvável que o Coronel estivesse blefando. Sobre a sua dor e, quem sabe, até mesmo sobre a perda em si.

Eu não podia eliminar a possibilidade de uma emboscada, depois de o avô de Edward passar o último mês a caça do seu neto e sucessor. E havia levantado a questão. Mas Edward estava certo de que ele falava a verdade, ao menos sobre aquilo.

— Você não precisa ir _ eu disse já pela terceira vez, quase perdendo as esperanças. _ Ninguém espera que você vá, Edward.

— Eu sei _ ele concordou, sucinto. _ Mas eu vou. Carlisle nunca teve amigos. Sem a minha presença lá, será apenas o Coronel e os empregados da fazenda.

— Quanto tempo você vai ficar? _ eu perguntei, um nó atravessando a minha garganta ao ver a batalha perdida.

— Muito pouco tempo _ os olhos dele se voltaram para mim e o que eu vi dentro deles, silenciou o meu desespero por um momento. _ Eu tenho um compromisso a honrar com o meu pai, Bella. Eu conheço bem o homem que ele foi, mas conheço também o homem que eu sou. Se eu não for a Maryland agora, então, ele vai ter vencido.

Se eu estivesse sendo racional, poderia dizer que ele estava certo. Que eu me orgulhava dele, que o admirava. Mas a minha intuição gritava que nós dois estávamos caindo em uma armadilha.

—-------------------------------------------------

Poucas pessoas cruzavam os corredores do aeroporto naquela madrugada de domingo. Eu consultei o visor do relógio. Meia noite e trinta e cinco. Estava aí um bom motivo. Eu recordei que, menos de três horas antes, Edward e eu assistíamos a um filme na TV, abraçados sob o cobertor quentinho e macio, minhas pernas ao redor da cintura dele, minha cabeça repousada contra sobre o seu peito.

Edward não quis esperar até o amanhecer. Conforme as instruções do Coronel, o enterro de Carlisle seria apenas na tarde seguinte, mas ele decidiu viajar naquela mesma noite e me fez ciente dos seus motivos para desejar partir logo. Edward queria velar o corpo do pai. E eu sabia que seria completamente egoísta exigir uma atitude diferente. Egoísta e inútil. Por isso não o fiz. Mas meu coração estava sangrando por dentro. Porque, àquela altura, tudo o que eu sabia a respeito do Coronel me assustava pra cacete e eu entendia que, no final das contas, ele estava vencendo uma pequena batalha, nos afastando, mesmo que brevemente.

— Eu preciso saber que você vai se cuidar _ Edward pediu, me encarando com severidade.

Eu trinquei os dentes com tanta força que os senti rangerem. Caramba, aquilo doía. As palavras que deveriam ser as minhas saíram dos lábios dele. Mais uma vez, Edward me deixava perplexa. Apesar do turbilhão dentro da sua cabeça, ele ainda estava colocando a minha segurança acima de tudo.

— Eu prometo _ assegurei, ficando nas pontas dos pés para beijá-lo de leve nos lábios. Então, fiz a pergunta que assombrava o meu coração desde o maldito telefonema: _ Você vai voltar, não é?

Meus nervos estavam esticados como uma série de fios de aço.

Edward pousou a mala no chão e tomou o meu rosto entre as mãos. O que eu vi nos seus olhos deveria ter acalmado o meu coração, mas não acalmou.

— São só alguns dias, Bella _ ele afirmou, com um sorriso consolador. _ O que pode acontecer?

Tudo. Absolutamente tudo. Só o que não podia acontecer, naquele momento, era a angústia crescente dentro de mim se aplacar. Eu sabia que o estava encarando com um terror sufocante, porque o meu coração parecia prestes a explodir. Eu mal conseguia respirar.

Edward percebeu e seu olhar se tornou muito mais grave. O sorriso no seu rosto se fechou.

— Ei, o que foi? O que eu posso fazer para você confiar em mim?

Não havia coisa alguma que eu pudesse dizer a ele naquele momento. Nada que o fizesse repensar e ficar. Todos os meus argumentos haviam sido chutados para longe pelas suas justificativas muito sensatas. Edward estava sendo um homem honrado. E eu? Eu estava me esforçando para não bancar a menina tola e mimada, mais uma vez. Mas, meu Deus, como aquilo doía.

Eu tinha certeza de que passaria os próximos dias tentando reunir os cacos da minha dignidade se implorasse que ele não partisse. Mesmo assim, o orgulho parecia ser um preço pequeno a pagar e eu me perguntei o quão longe estaria disposta a ir.

— Eu preciso de você aqui _ minha voz soou infantil e eu quis morder a língua. _ Eu estou tentando não parecer inútil ou covarde, mas é assim que eu sou. Você tinha razão sobre mim, Edward. Eu sou fraca. Mas, inexplicavelmente, quando você está ao meu lado, eu sou uma pessoa diferente.

Edward claramente não esperava por aquilo. O choque estampado no seu rosto fez o monstro da vergonha crescer dentro de mim. Merda. Eu simplesmente tinha aberto a boca e deixado escapar tudo. Todas as insanidades dentro da minha cabeça torturada haviam saído pelos portões, uma a uma. Tão logo eu disse, quis retirar tudo o que eu falei. Não porque cada palavra não fosse verdade, mas porque eu desejava desesperadamente que não fossem. E eu estava trabalhando para que não fossem, mas ainda precisava de tempo.

Os dedos de Edward se enrolaram ao redor do meu cabelo. Eu olhei para ele como se quisesse gravar cada centímetro do seu rosto na minha mente, para sempre. Achei que ele me beijaria e, provavelmente, ele teria feito aquilo, mas estava ocupado demais, naquele momento, garantindo a integridade do meu coração partido.

— Você é minha prioridade, Bella. Você é meu número um _ ele garantiu, sem tirar os olhos dos meus nem por um segundo. _ Você está dizendo que eu fiz de você mais forte, mas você fez de mim um homem. A nossa relação vai estar sempre em primeiro plano. Eu te amo e nunca faria nada para magoar você.

O nó aumentou de tamanho até virar uma bola de vidro com pontas afiadas arranhando a minha garganta.

— O que acontece se eu pedir para você ficar? _ perguntei, porque eu realmente precisava saber.

Ele não hesitou.

— Eu vou ficar.

Eu assenti.

— Mas estará perdendo uma parte de você mesmo, não é? Uma parte importante.

Ele sorriu triste e abanou a cabeça para frente e para trás.

— Você entendeu.

O último anúncio para o vôo de Edward foi feito. Era agora ou nunca. Ele não fez nenhuma menção de se mover e eu soube que estava falando a verdade sobre colocar os meus sentimentos em primeiro plano. Aquilo me deixou profundamente emocionada, porque eu nunca havia sido o bastante para ninguém.

Eu respirei fundo.

— Boa viagem, Edward. Me ligue quando chegar.

Eu fiquei na ponta dos pés e dei um beijo suave e demorado em seus lábios, os punhos trêmulos cerrados ao lado do corpo. Depois disso, sem dar a chance de prolongar a dor da despedida, eu virei as costas e caminhei para longe dele, as lágrimas escorrendo pelo rosto num pranto silencioso.

(Uninvited, Alanis Morissette)

“Como qualquer pessoa ficaria
Eu estou lisonjeada por sua fascinação por mim
Como qualquer mulher de sangue quente
Eu quis um objeto simplesmente para almejar

Mas você
Você não é permitido
Você não foi convidado
Um infeliz desprezado.”

Notas finais
Boa tarde, meninas! Gostaram do capítulo? Bella extremamente frágil, mas a intuição dela sobre a partida de Edward é ruim e muito forte. E o Edward? Agiu conforme vocês esperavam? Talvez o próximo capítulo se divida em pov dos dois, mas ainda não é uma certeza. Vocês gostariam de ver isso? Espero que estejam gostando da fic, logo logo teremos um novo capítulo! Bom fim de semana, bjs! P.S: eu já usei essa música em outro capítulo, mas quis repetir um trecho da letra, é muito amor e a cara dos dois!