Two Broken Hearts
75 Razão ou Coração?
POV Edward
A casa de Sarah Lasser ficava na 27th, esquina com a Terceira Avenida, um antigo prédio de tijolos que contrastava com a rua moderninha, cheia de pubs no estilo londrino.
O Blue Smoke ficava mais a frente, quase na esquina com a Avenida Lexington, e era onde Sarah trabalhava. Era um restaurante espaçoso, informal, do tipo que servia hamburgueres e frango frito com cerveja, e onde se ouvia um maravilhoso rock'n roll até à uma da manhã, o som progredindo gradualmente para um blue de classe.
Eu atravessei a rua, pensando nas orientações que Bella havia me dado uma hora antes: "Seja incisivo, mas não o ameaçe. Não queremos que ele saia correndo". Era fácil para ela dizer aquilo, já que nunca havia precisado ir contra os seus instintos. Mas, para mim, lutar contra o meu gênio mau era a porra de uma maldição. Um serviço dos diabos. Bella era sempre calma e controlada e o meu lado inteligente dizia que eu devia escutá-la e seguir os seus conselhos.
Mas o meu lado inteligente era fraco e raramente vencia uma partida.
Eu tinha feito minha lição de casa sobre Sarah Lasser. Garota de classe média, bastante decente e não muito esperta, tinha largado a faculdade e fugido de casa com o ex namorado, Fernando Alvarez, um garçom mexicano dez anos mais velho e com temperamento violento. O namoro tinha, eventualmente, terminado, mas as relações com sua família permaneceram cortadas. Atualmente, Sarah morava sozinha e se mantinha com dignidade, trabalhando como garçonete. Ela estava se dando bem, na medida do possível.
Até conhecer Jacob Black.
Quando a ruiva abriu a porta, seus olhos se arregalaram e ela empalideceu levemente. A garota pareceu procurar pelas palavras certas, mas elas não lhe ocorreram, então continuou em silêncio, me encarando e esperando que eu falasse primeiro.
— Posso entrar? _ perguntei, com a voz mansa de quem não procurava colocá-la numa encrenca.
— Jake não está _ ela engoliu em seco, movendo os olhos de um lado para o outro, parecendo avaliar a probabilidade que tinha de me dispensar sem um confronto direto.
Foi quando eu percebi duas coisas.
A primeira era que Sarah já sabia que eu não era, de forma alguma, quem eu dizia ser. Provavelmente, também tinha sido avisada de que eu era potencialmente perigoso e estava se esquivando de mim.
A segunda era que Jacob Black estava ali dentro, escondido.
Eu reparei no trinco grande pouco acima dos nós brancos dos seus dedos e no menor, quinze centímetros abaixo, e espalmei as mãos contra a pesada porta de madeira antes que ela a trancasse. Num reflexo, Sarah a empurrou com força contra mim e quase conseguiu me colocar do lado de fora.
Sem querer machucá-la, eu forcei a entrada com o ombro e ela acabou cedendo, sem alternativa.
Atrás de Sarah, Jacob tinha uma arma apontada para a minha cabeça. Eu ouvi o gatilho e fiquei imóvel.
— Você é insistente, Edward _ ele observou, impassível. _ Mas está muito longe de casa. Não deveria se arriscar tanto. Entre.
Eu pensei em uma boa resposta para dar a ele, mas a prudência me mandou calar a boca. Entrei de vez no apartamento, notando como a sala era pequena e organizada, coisas que combinavam com o que eu havia aprendido sobre o comportamento de Sarah.
Eu olhei para a garota, os cabelos ruivos e cheios parecendo brigar com as feições do rosto diminutas e tive, subitamente, muita pena dela. Ela não tinha sorte com os homens.
— Fecha a porta _ Jake deu a ordem e ela cerrou ambos os trincos, os dedos trêmulos mostrando que não estava exatamente a vontade com os planos dele. _ Agora, vai se sentar. No chão. De costas para a poltrona.
Eu dei um suspiro irritado. Talvez, afinal, as coisas devessem ser resolvidas de acordo com a lógica de Bella. Talvez, não me sobrasse outra escolha, já que eu estava em óbvia desvantagem.
— E eu? O que acha de me deitar no chão e me fingir de morto? _ perguntei, sarcástico.
Jacob sorriu para mim, exalando ódio e violência. Eu já o havia visto de diversas formas. Sendo truculento, agressivo, irritado e cretino, mas nunca tinha presenciado tanta raiva vinda dele antes. E toda ela era dirigida a mim.
— Acho que você não vai precisar fingir, Edward.
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POV Bella
Adriana já havia deixado claro que eu não precisaria ir ao trabalho naquela semana, se não me sentisse em condições. Mas eu precisava me desligar de tudo por algumas horas e não havia um jeito melhor.
Na noite anterior, eu chegara a casa de Alice exausta. O jantar havia sido uma espécie de jogo de poderes, uma batalha discreta entre Esme e eu.
"Como a Guerra fria", Alice havia descrito. Exato. Como a Guerra Fria.
Minha madrasta havia ficado transtornada com a declaração de que Edward e eu voltaríamos a morar na casa do meu pai. Eu soube disso pela forma como a grande veia verde saltou no seu pescocinho branco, de uma forma que eu nunca havia visto. Esme sempre havia sido calma, delicada e cordata, mas a fúria assassina que eu vi estampada em seus olhos estava longe de ser um episódio de alucinação.
Eu acreditei que ela se oporia abertamente a nossa decisão, que choraria, reivindicaria, apresentaria objeções a Charlie. Mas minha madrasta me surpreendeu mais uma vez e fez exatamente o contrário. Engoliu a novidade com um gole de vinho branco e permaneceu em silêncio até o final do jantar.
Mas bastava olhar em sua direção para perceber, claro como água, o desconforto que havia se instalado nela. Além disso, a ruga de preocupação em sua testa mostrava que ela estava planejando um contra-ataque. Eu me preocupei com Alice e Gwen, imediatamente, do mesmo jeito que Edward quando recusara-se a viver no apartamento delas por uns tempos.
Pensei em recuar, mas procurei afastar aqueles pensamentos turbulentos e focar no que precisava fazer. Além disso, Edward e eu estaríamos juntos novamente sob o mesmo teto, o que me animava consideravelmente.
A noite sem ele havia sido a mais triste e vazia de toda a minha vida. Nós havíamos trocado mensagens até altas horas da madrugada, mas ele ainda se recusava completamente a dizer onde estava passando a noite, o que só me deixava mais e mais preocupada. Eu sabia que ele não queria que eu me angustiasse com a sua situação, mas estava agindo exatamente a favor do contrário.
Quando apareci no estúdio, fui recebida com surpresa pela minha madrinha.
— Sinto muito por tudo, Bella _ ela me abraçou, com evidente alívio na voz. _ Onde você está morando agora? Precisa de um lugar para ficar.
Eu expliquei a ela que não havia com o que se preocupar e que tinha voltado a morar com meu pai, provisoriamente. Ela transpareceu a confusão nos seus olhos, mas foi suficientemente discreta e não perguntou absolutamente nada. Em vez disso, ofereceu sua ajuda para o que eu precisasse.
— Obrigada, tia.
— Não precisa me agradecer _ ela assegurou. _ Sua mãe era como uma irmã para mim. Você tem certeza de que pode voltar a trabalhar? Não precisa de uns dias de descanso?
— Eu quero voltar o mais rápido possível. Estou ansiosa, de verdade.
Ela sorriu.
— Estou feliz que esteja gostando tanto do trabalho _ exclamou, parecendo mesmo radiante _ Mal dá pra imaginar que você era estudante de medicina. Parece tão a vontade com o ramo da moda!
Foi a minha vez de ficar surpresa, agora. De repente, me dei conta de que não pensava na faculdade há vários dias. A Columbia havia ficado para trás, num passado distante, cheio de pressões e cobranças dos quais eu havia me livrado.
— Acho que eu não sabia do que era capaz _ admiti, aliviada como se tivessem removido um peso dos meus ombros. _ Nem do que eu gostava.
— Você não sabia quem era realmente _ ela intuiu, com um olhar sábio e experiente, que combinava perfeitamente com a mulher deslumbrante diante de mim. _ Você está se descobrindo, Bella, e é maravilhoso fazer parte disso. Na verdade, tenho uma proposta pra você.
Ela pediu que eu me sentasse e eu ocupei a cadeira do outro lado da sua mesa. Ela se sentou de frente para mim, se parecendo menos com a minha madrinha e mais com a minha chefe, novamente.
Eu me sentei reta, tentando parecer profissional. Estava usando um tailleur Stella McCartney vermelho de mangas curtas, uma escolha que Jocelyn, na recepção, classificara como bastante atrevida e original. Vindo daquele falcão da moda, eu me senti nas alturas.
Além disso, minha maquiagem era bastante diferente de quando eu entrara no escritório de Adriana Heche pela primeira vez. Naquela manhã, eu abandonara completamente o nude. Estava a fim de me arriscar. Optei por tons mais escuros, um esfumado sutil em preto e marrom terra e um batom vinho que Edward havia categorizado como "de enlouquecer".
Eu estava parecendo, no mínimo, cinco anos mais velha. Mas de um jeito incrivelmente bom.
— Eu tive uma ideia, mas preciso saber se você topa _ disse, subitamente ainda mais animada. _ Preciso de alguém de confiança para supervisionar um desfile em Paris, no próximo mês.
Eu pude ouvir o barulho do meu queixo batendo direto no chão.
— Mas... e Jocelyn? Achei que ela fosse o seu braço direito _ me peguei repetindo as palavras de Alice que tanto haviam me irritado. Mas, desta vez, era verdade e bastante cabível. Jocelyn entendia muito melhor sobre o assunto e, obviamente, era melhor preparada para a função. Além disso, ela idolatrava completamente Adriana e ficaria decepcionada.
Também havia outra questão. Uma que, para mim, representava maior gravidade. Meu pai havia pedido que eu administrasse suas empresas depois que ele partisse. O jantar havia me mostrado um Charlie mais animado e dinâmico, mas, quando a refeição terminou, ele tinha me chamado até o seu escritório para perguntar se eu havia pensado em sua oferta.
Charlie disse que eu deveria começar a ser preparada o quanto antes. Seus olhos estavam vazios e haviam perdido completamente o brilho, quando estas palavras saíram da sua boca. Eu sabia o que significavam. E sabia também o peso que se instalaria sobre mim, outra vez, se eu aceitasse a proposta. Administrar um patrimônio sobre o qual eu nada entendia, pelo qual nunca me interessara... uma coisa que eu não amava, sobretudo.
Não haveria paixão alguma. Apenas negócios.
Meu pai confiava em mim para que eu cuidasse das empresas. Adriana confiava em mim para supervisionar seu desfile.
Meu coração já havia escolhido a resposta. Mas minha cabeça discordava completamente dela.
— Jocelyn está de casamento marcado _ Adriana esclareceu com um sorriso contagiante. _ Fui eu quem a apresentei ao noivo, aliás, três anos atrás. Diogo Cezarano, um italiano irresistível, bellissimo— ela fez sotaque para falar e eu acabei rindo, mas minhas mãos ainda tremiam. _ A cerimônia é em três semanas e eu dei a ela mais duas para aproveitar sua lua de mel, na Europa. Ela ficou muito agradecida. No momento, é mais importante para ela do que o desfile. Mas eu te garanto: supervisionar esse desfile vai fazer deslanchar a sua carreira na Heche.
— Minha carreira? _ eu perguntei, me controlando para não morder o lábio e demonstrar o nervosismo que estava sentindo.
— Sim _ minha madrinha sorriu com cumplicidade. _ Eu acho que você é uma ótima assistente, Bella, mas posso pensar em cargos melhores para você com o decorrer do tempo. E eu diria que Paris é o primeiro passo da sua nova jornada.
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