Notas iniciais
Capítulo novo no dia seguinte para compensar meus últimos posts muito distantes um do outro. Estou desculpada? :)

A casa era tão pequena pelo lado de dentro quanto parecia do lado de fora. Talvez menor. A sala era um cubículo onde mal cabiam um sofá verde puído, de dois lugares, e uma tv de catorze polegadas sobre uma cadeira com pernas de ferro. Eu segui Edward para além dela, sem saber ao certo se ele estava me levando para conhecer o lugar ou estava procurando alguma coisa. De qualquer forma, fui no encalço dele. Não me parecia certo simplesmente que ele me deixasse para trás.

Seguimos por um corredor estreito, onde havia uma geladeira pequena e um fogão de quatro bocas. No fim dele, estava o quarto. Edward entrou nele e tirou a camisa, atirando-a sobre o colchão coberto por um lençol fino. Não existia uma cama. O colchão ficava no chão.

_ Bem vinda ao paraíso dos plebeus _ ele zombou, abrindo uma das três gavetas da cômoda de madeira gasta que ficava no canto do quarto. De lá, ele tirou uma camiseta preta se mangas, cheirando-a antes de vestir _ Nick me deu a noite de folga, mas eu não vi motivo para aceitar. Bom, agora eu vejo.

Nick. O dono do Seven. Eu fiquei parada a porta do quarto, indecisa entre o que deveria fazer. Entrar e sentar? Onde, no chão ou no colchão? Deveria pedir para tomar um banho? Eu estava impregnada de poeira de estrada, mas não tinha nem mesmo certeza se ficaria ali. Em todo caso, eu ainda podia ir para a casa de Alice! Em um bairro tão ruim quanto aquele. Ela e a irmã, Gwen, viviam uma situação tão difícil... não seria justo siḿplesmente aparecer por lá, pedindo abrigo. Até porque eu não tinha um emprego e imaginava que não fosse uma tarefa tão simpes conseguir um. Principamente com meu altíssimo grau de experiência: ZERO VÍRGULA ZERO.

Edward veio até a porta do quarto e me encarou com um par de olhos provocadores.

_ Vou tomar um banho. Quer vir junto?

Precisei tossir antes de voltar a falar.

_ Acho que posso esperar você terminar.

Ele deu de ombros, esbarrando em mim ao passar pela porta ridiculamente estreita. Meu braço se sentiu a vítima de um incêndio criminoso. Fogo, fogo, fooooogo!

_ Não temos muita água quente por aqui, mas vou tentar deixar alguma coisa para você porque sou um cavalheiro _ ele disse com um risinho descarado, antes de fechar a porta do banheiro.

Eu tinha certeza de poucas coisas a respeito de Edward Cullen. E uma delas era: não, em hipótese alguma, haveria água quente quando ele terminasse o maldito banho.

Saber daquilo não me prepararou para o momento em que eu liguei o chuveiro. Finas agulhas de gelo atingiram minha pele em cheio e eu dei um pulo. Inferno! Fiz duas tentativas de mergulhar na coragem sob o jato forte de água, mas só na terceira obtive sucesso. "Pelo menos, o jato é bom", pensei ironicamente. Meus dentes tiritavam e o meu corpo todo se arrepiava. Imaginei Edward escutando do outro lado da porta e consegui reprimir todos os xingamentos que me vieram a mente. Não estava tão ruim assim... estava? Eu podia tomar um banho frio sem bancar a porra da patricinha mimada.

Lavei os cabelos sem shampoo ou condicionador, porque não havia nenhum artigo de higiente ali, com exceção de uma barra de sabonete quase intacta. Provavelmente, Edward a havia colocado ali durante o seu banho. Eu a usei para me lavar, sem bucha, sem esponja, apenas mão e pele. Eu faria o melhor trabalho com o que eu tinha, exatamente como uma médica voluntária em alguma missão na África. Afinal, era uma boa analogia. Se eu não era capaz de cuidar de mim mesma em situções adversas, como seria capaz de tomar entre as mãos a vida de outra pessoa?

Quando terminei o banho, lembrei que não havia pego uma tolha. Deslizei a cortina do box e dei um grito.

O Cullen estava na pia, fazendo a barba.

_ Filho da puta!

Ele deu uma risada rouca.

_ Engraçado, muita gente diria o mesmo.

Edward se virou na minha direção e eu me enrolei na cortina, tremendo dos pés a cabeça. Seu rosto ainda mostrava traços de espuma de barbear, mas a maioria já havia sido removida. Assim como a barba rala que existia antes. Há quanto tempo ele estaria ali?

_ Por que você não fez isso enquanto estava aqui dentro?

Ele sorriu.

_ Com frio, Ursinhos?

Trinquei os dentes. De repente, eu tive a visão de nossos corpos ensanguentados no chão da sala. Ao por do sol, como no duelo de algum antigo filme de faroeste.

_ Você tem uma tolha? _ perguntei, depois de respirar fundo. Muito fundo.

Edward arqueou as sobrancelhas e deu de ombros, voltando a se concentrar em seu reflexo no diminuto espelho quebrado pendurado na parede, logo acima da pia.

_ Claro, a minha. Mas você pode usar, vai, eu deixo.

Olhei ao redor. Um vaso, um box com chuveiro e uma pia com espelho, onde um cachorro dotado de polegares opositores voltava a deslizar a gilete, dessa vez sobre supostos fios remanescentes próximos ao maxilar.

Tive vontade de chorar.

_ Onde está?

_ No quarto, em cima da cama _ ele apontou o próprio rosto com a expressão de quem se desculpa. _ Se eu não estivesse tão ocupado...

_ Já sei, já sei! _ gritei, arrancando a cortina dos trilhos e molhando o banheiro inteiro enquanto marchava até o quarto. _ Você vai limpar isso, Cullen! Você! Depois não diga que eu não avisei. VOCÊ!

Eu ainda podia ouvi-lo rir baixinho quando, finalmente, alcancei a tolha jogada no chão do quarto. Bati a porta com força. Tentei a tranca.

Estava quebrada.

Edward me surpreendeu ao me levar para seu lanchinho na casa de Ruth, às quatro em ponto como ela pediu. A princípio, eu fiquei sentada em silêncio na ponta da poltrona da sala de estar, pequena mas aconchegante, me sentindo indesejada. Afinal, a própria Ruth não havia me convidado. Ela também não fez nenhum avanço na tentativa de reparar esse "engano". Desde que haviamos chegado, seus carinhos e mimos eram todos e relação ao Cullen. Para mim, restava um olhar de canto desconfiado e, vez ou outra, uma palavra meramente educada.

_ Biscoitos?

_ Sim, obrigada _ aceitei, não por gentileza mas porque estava morrendo de fome.

Havíamos saído de casa depois das duas da tarde e eu sequer havia tomado café. Meu estômago roncava. Quando levei um dos biscoitos de menta e chocolate de Ruth aos lábios, tive a sensação de morder um pedaço do paraíso.

_ Está... hm, muito gostoso.

Merda. Eu falei mesmo de boca cheia?

_ Estão incríveis como sempre, Ruth. Obrigado _ Edward disse como um perfeito lorde inglês, me olhando daquele jeito debochado. _ Foi o que você quis dizer, certo, Bella? _ ele apontou para o próprio ouvido, com expressão falsamente constrangida _ Não sei se ouvi direito, havia muito farelo na sua boca...

_ Cala a boca, babaca.

Ruth me direcionou um olhar espantado.

Ah não, por favor! Aquilo só podia ser um pesadelo.

Devoramos uma travessa inteira de biscoitos e um jarro de chocolate quente, a despeito do calor daquela tarde. O verão em Nova York não chegava a se parecer como férias na Flórida, mas o dia estava quente para os nossos padrões. "Nao o suficiente para um banho gelado, mas...", reprimi a lembrança para não ceder a tentação de atirar o jarro vazio sobre a cabeça ainda mais vazia do Cullen.

Eu usava o short jeans e a camiseta com a qual saíra de casa. A verdade é que ainda não me sentia segura para dar um endereço a Rhonda, embora soubesse que deveria resolver a situação com urgência. Eu precisava de roupas limpas. E precisava da minha agenda. Pensar nela me devolvia parcialmente a noção de segurança e estabilidade de que eu tanto precisava.

_ Ela é uma foragida da polícia.

As palavras de Edward me trouxeram de volta a realidade.

_ Quem? O que? Eu sou o que?!

Ele deu uma gargalhada sonora. Ruth rolou os olhos de mim para ele e, então, de volta para mim. A palavra estampada em seus olhos era "Manicômio".

_ Estava só tentando trazer você do país das maravilhas, Alice _ Edward se virou para a senhora idosa, sentada ao seu lado no sofá. _ Bella é a filha do meu padrasto. Eles tiveram um desentendimento, logo voltarão a ficar bem, mas... enquanto isso, ela precisa de um teto. Por isso, pedi que ficasse aqui. Eu não poderia deixá-la sozinha nas ruas, entende? _ ele fez olhos de cachorro pidão e eu rosnei por dentro _ Ela é da família.

Eu deslizei ainda mais para a ponta do sofá, fitando os grandes olhos azuis de Ruth. A despeito de sua desconfiança habitual em relação a mim, ela encarou-me de volta com certa boa vontade. Estava, fialmente, me dando uma chance.

Eu sorri, parecendo tão desamparada quanto me sentia.

_ Eu não sou uma criança mimada. Tenho vinte um anos, sou universitária e pretendo encontrar um emprego... em breve. E eu não teria deixado minha casa se não fosse mesmo necessário, entenda, por favor. Meu pai e eu... nós não concordamos em muitas coisas. Coisas importantes. E uma delas é o Edward _ olhei para ele, que me observava tentando manter a expressão neutra. Mas eu sabia que ele estava tudo, menos neutro naquele momento. _ Ele acha que Edward é uma má pessoa. E eu, bom... honestamente eu não acho.

Ruth soltou um "oh" engasgado. Ela parecia realmente emocionada, mas do que eu esperava após o meu pequeno discurso.

_ Entendo. Agora, eu entendo _ ela se voltou para Edward, que ainda tinha os olhos pousados sobre mim. _ Ela é uma garota corajosa, nossa! Você tem sorte, Edward. Que irmã valente você tem, cuide bem dela!

Foi a minha vez de engasgar. Graças a Deus pelos biscoitos terem acabado...

Edward desviou os olhos de mim para Ruth, subitamente constrangido. Seu olhar de segundos atrás havia sido tudo, menos fraternal.

_ Obrigado, Ruth _ ele disse, com gravidade. _ Ela vai ser minha prioridade a partir de agora.

Notas finais
Boa tarde, meninas! Gostaram do capítulo? Acho que esses dois mereciam se entender um pouquinho, mesmo que eu ainda não possa esclarecer as motivações de um para o outro ainda. Estão gostando mesmo da fic? Os rumos estão agradando? Seus reviews me deixaram muito felizes :) Já vou pedindo desculpas por ter deixado pendente alguns reviews antigos :( mas o netbook emprestado que eu estou usando é muito falho, então estou respondendo os reviews atuais pelo celular. Talvez tenhamos post amanhã... vou confessar que esse capítuo saiu com 3.145 palavras, então eu o cortei mais ou menos ao meio. Não me matem! Questão de estética e estratégia literária rsrs Comentem a fic, por favor, meninas! Beijinhos