POV Edward

A solução viável parecia ser chamar um táxi para me buscar na fazenda, mas eu duvidava que ele chegasse a tempo de me tirar dali com vida. Então, comecei a caminhar para fora dos limites da propriedade do meu avô, o que não me parecera tão absurdo a princípio, mas, após quarenta minutos sob o tempo instável de Baltimore, tinha se mostrado extenuante.

Enfim, alcancei a rodovia principal. Sinalizei para o primeiro carro que atravessou a estrada e, de forma previsível, ele nem chegou a reduzir a marcha. Eu era um homem adulto, desconhecido e potencialmente perigoso, com a aparência fodida de quem havia atravessado o Saara levando chutes na bunda.

Em parte disso, eu deveria ser grato a Dustin e Ethan. Minhas costelas ainda doíam miseravelmente, obrigado por perguntar.

Um ônibus cheio de líderes de torcida foi o segundo veículo a passar pelo lugar. Longe de ser uma comédia de sexo adolescente, minha vida vivia alternando entre os filmes de ação, terror e drama barra pesada, então o ônibus seguiu em frente ignorando o meu polegar estendido na estrada poeirenta. Um das garotas levantou o dedo do meio com uma careta de repulsa para mim.

É, eu não estava na minha melhor forma.

Tentei fazer uma ligação para Bella e, para foder de vez a minha mente, o telefone tocou, tocou e ela não atendeu. Onde ela estaria àquela hora? Era um domingo e Bella não trabalhava aos domingos. Talvez estivesse na casa de Alice, desabafando sobre o namorado escroto e filho da puta, que sumia no fim de semana para encontrar um avô que não valia porra alguma.

Por algum motivo, depois de toda a merda e frustração, eu estava feliz. Feliz porque, depois de tanto tempo, finalmente sabia a verdade, por mais dolorosa e esmagadora que ela fosse. Além disso, eu começava a me sentir o velho Edward de novo. Decepcionado, magoado e chutado por todo mundo que deveria me amar. Mas forte. E pronto para um recomeço.

Por mais irônico que pudesse parecer, o motorista que parou para mim era o feliz dono de um Chevette 66. Eu caminhei uns dez metros até o carro, para descobrir, surpreso, uma senhora de cabelos brancos e óculos pendurados na ponta do nariz.

Franzi a testa, sem entender a piada divina. Eu havia sinalizado para motoristas de caminhões, líderes de torcida possivelmente fogosas e todo tipo de gente barra pesada.

— Edward? _ ela sorriu sobre o ombro, fazendo sinal para que eu entrasse.

Eu dei um passo reticente para trás e olhei no banco traseiro do carro. Não havia mais ninguém lá. Olhei ao redor e também não vi nenhum dos homens do Coronel.

— Não se lembra de mim? Sra Charlotte.

Eu inspirei pela boca, me sentindo um idiota. Mas um idiota sortudo. Passei as mãos pelo cabelo, agradecendo a Deus pela primeira vez na minha merda de vida e entrei no carro, apressado, antes que ela mudasse de ideia.

A Srta Charlotte tinha sido minha professora no ginásio de Baltimore, mais de dez anos antes. Ela costumava me repreender por quase tudo, já que eu era um fedelho mimado e egocêntrico, mas também era a pessoa mais paciente que eu já tinha conhecido. Ela deveria ter uns sessenta anos na época, o que não a tornava mais jovem agora.

— A ação do tempo foi muito cruel comigo? _ ela perguntou, adivinhando o teor dos meus pensamentos.

Eu sorri de um jeito estúpido, ainda surpreso por aquele golpe de pura sorte.

— Nem pensar. A senhora está linda. Como são seus alunos agora? Ainda está dando aula?

— É claro _ ela respondeu com simplicidade. _ Não saberia fazer outra coisa. Dá pra me imaginar sentada na poltrona de casa com agulhas de crochet?

Eu balancei a cabeça. É claro que não.

Eu me lembrava do humor seco da Sra Charlotte, das piadas que ninguém entendia, do seu jeito triste e solitário. Mas me lembrava especialmente do Chevette 66 que ela costumava dirigir. O mesmo carro o qual estava no volante agora.

Minha velha professora do ginásio e eu passamos os minutos seguintes relembrando velhas histórias. O tempo correu depressa. Quando eu percebi, estava diante do Aeroporto Internacional Thurgood Marshall, de Baltimore.

Nós nos despedimos e eu pulei para fora do carro, o coração prestes a sair pela boca enquanto eu torcia por um assento vago num vôo prestes a decolar.

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— Cancelados?! Os vôos não podem ter sido cancelados. Não todos eles. Você precisa encontrar alguma coisa pra mim.

A atendente jovem e sorridente por trás do balcão se manteve impassível.

Eu aguardei, os dedos tamborilando sobre a superfície de madeira branca reluzente, enquanto ela procurava por mais alguma informação no seu computador.

Consultei o relógio de pulso, coisa que vinha fazendo o dia inteiro, quase sem perceber. Eu havia aguardado quase meia hora para falar com ela em uma fila quilométrica. Toda a população de Maryland parecia ter se interessado subitamente por conhecer o Empire State.

— Eu sinto muito, senhor. Em virtude do mau tempo, o aeroporto cancelou todos os vôos nessa tarde. E no período da noite, estamos lotados. Todos os passageiros transferiram seus vôos para um horário mais tarde, quando foram informados _ ela era habilmente treinada para demonstrar empatia, mas, ainda assim, eu queria saltar sobre o balcão e pegar as passagens por conta própria. _ Posso incluir o senhor num vôo amanhã, se desejar. Às nove e quarenta e cinco está bom?

Eu espalmei as mãos sobre o balcão e me inclinei para frente, olhando dento dos seus olhos do jeito mais convincente possível.

— Eu não posso esperar até amanhã. Preciso de uma passagem para NY, ainda hoje. É um caso de vida ou morte _ Ok. Aquilo não era exatamente verdade. Mas eu sentia como se fosse morrer se não visse Bella dentro dos próximos dois minutos.

A atendente franziu o cenho e seus olhos fizeram uma análise rápida do estado maltrapilho em que eu me encontrava.

— O senhor está com problemas? Gostaria que eu chamasse a polícia?

Eu inclinei a cabeça para o lado e sorri para ela, procurando pelo nome no crachá preso ao uniforme.

— Sarah... correto? _ ela fez que sim _ Sarah, por favor, eu estou suplicando. Existe essa garota... e eu, bem, eu estou perdidamente apaixonado. Eu sou maluco por ela, faço qualquer coisa para vê-la feliz. Mas eu preciso de ajuda. Da sua ajuda.

Ela arregalou os olhos, surpresa com a intensidade das minhas palavras. Se eu pudesse me ver, meses antes, eu também estaria surpreso. Anos atrás, eu me daria um chute no rabo.

Sarah digitou por mais alguns segundos e, quando voltou a falar comigo, havia um brilho travesso nos seus olhos.

— O senhor já ouviu falar de Jump-Seat?

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Atrás da cabine de comando do avião havia um assento secreto chamado jump-seat. Eu já tinha visto o mesmo em filmes de ação na TV, mas nunca acreditei que pertencesse a vida real.

A atendente me explicou que o assento era destinado a mecânicos, engenheiros e outros membros da equipe que, eventualmente, pudessem prestar serviço de apoio ao piloto e ao co-piloto, ou ainda a funcionários autorizados a aproveitar o vôo para chegar aos seus destinos.

A minha maldita sorte recentemente conquistada me garantiu que nenhum destes profissionais estivessem presentes.

O silêncio do solitário jum-seat era quebrado somente pelos barulhos recorrentes da aeronave, como a aceleração dos motores, o ruído dos compartimentos se fechando após a decolagem ou o som do vento quebrado pelas asas do avião.

Cerca de uma hora depois de sair de Maryland, eu chegava à cidade de NY. O vôo tinha atrasado vinte minutos, tempo que o piloto levou para contatar a torre de comando e obter autorização para voar no tempo ainda instável. A chuva havia cessado há pelo menos uma hora, mas a previsão do tempo prometia um temporal madrugada adentro.

Ainda assim, decolamos. Eu decolaria mesmo se a terceira guerra mundial tivesse sido deflagrada por vias aéreas. Depois de horas e horas de espera no saguão do aeroporto, eu sentia com a força de um terremoto que Bella precisava de mim mais do que nunca. Era o tipo de convicção idiota, motivada de coisa nenhuma. Eu havia tentado falar com ela diversas vezes, mas seu celular só dava caixa postal. Provavelmente havia descarregado e ela nem tinha notado.

Não havia nada demais nisso.

Só que havia. Na minha cabeça, alguma coisa ruim havia acontecido a ela. Era como se eu pudesse escutar sua voz me chamando, pedindo que fosse salvá-la.

Notas finais
Olá, garotas! Aqui está mais um capítulo. Não demorei a escrevê-lo e resolvi liberar logo para vocês, já que ele se trata exatamente das dificuldades de Edward em chegar a NY, dos motivos pelos quais ele não chegou lá mais cedo. Pretendo responder seus comentários dos capítulos anteriores em breve, estou um pouquinho atarefada mas eu chego lá. Fico feliz por vocês estarem gostando e não se preocupem: no capítulo que vem saberemos o que aconteceu com a Bellinha. Beijo grande!