Eu fui chamada para prestar depoimento na delegacia no dia seguinte.

Quando voltei para o apartamento de Alice, Edward me aguardava, andando de um lado para o outro, ansioso.

— Ainda bem que o detetive Burns não viu você nesse estado ou você estaria depondo agora também _ eu declarei, ainda irritada pela tensão daquele dia.

Edward correu até mim e me tomou nos seus braços. Sentir o perfume dele e o calor que emanava do seu corpo aliviou um pouco a minha tensão, mas não completamente. Me incomodava que mesmo a quilômetros de Esme e representando menos uma ameaça para ela do que ela para mim, minha madrasta continuava me encurralando contra a parede e me envolvendo em suas intrigas.

— Nesse caso, acho que eu seria previamente condenado _ Edward franziu o cenho, se afastando de mim e segurando meu rosto entre as mãos. _ Vou prestar depoimento esta tarde.

Eu fechei os olhos e gemi, puramente frustrada.

— Eu estou odiando tudo isso _ grunhi, trancando o maxilar. _ É ela quem merece ser julgada e condenada, Edward. Não nós.

— Eu sei.

Mas ele não parecia nem perto de estar tão furioso quanto eu e constatar isso só serviu para me irritar ainda mais.

— Por que você está tão conformado?

Edward deu de ombros.

— Não somos culpados, Bella. Vamos cooperar com a polícia e tudo vai ser esclarecido.

— Pena que eles não podem ouvir você agora _ eu resmunguei, afundando no sofá e batendo no assento ao lado até que ele fizesse o mesmo.

— Quem sabe não colocaram uma escuta em você? Talvez no colarinho dessa blusa elegante. De quem era, da sua avó?

Eu sorri.

— Engraçadinho. Achei que uma blusa como essa me faria parecer confiável.

— Ou uma homicida patricinha _ ele brincou, mas se arrependeu quando me viu abaixar a cabeça. _ Me desculpe. Piada idiota, péssimo momento. Entendi.

Eu assenti.

Ele tomou minhas mãos entre as dele e eu encostei a cabeça em seu ombro, fechando os olhos.

— Eu ainda não acredito que Charlie se foi.

—Compreensível _ ele concordou. _ Meu pai não era a melhor pessoa do mundo e foi difícil me acostumar com a ideia. Como foi hoje?

Eu suspirei, arrasada.

— Eles estão tentando nos implicar de todas as formas. Parece que a morte do meu pai não aconteceu num rompante de fúria ou num acesso súbito de medo. Esme tinha um plano.

Edward concordou, deitando a cabeça sobre a minha e enrolando os seus dedos carinhosamente nos meus.

— Talvez não tenha sido um acesso súbito de medo, mas eu não acredito que ela venha planejando isso há tanto tempo. Talvez a sua volta para aquela casa tenha deixado ela apavorada e feito ela garantir o seu próprio plano B.

— Como assim?

— Acho que ela estava com tanto medo de você contar a Charlie o que sabia que decidiu garantir um meio de por fim a vida dele antes que ele soubesse. Um fim rápido, apenas caso precisasse. Então pegou a toxina no centro médico e a guardou dentro de casa. Quando nós voltamos, anunciando que iríamos ficar, ela percebeu que não tinha escapatória.

Eu ergui minha cabeça e o observei, devastada.

— Então se a gente não tivesse voltado, meu pai...

— Se acalma, Bella _ Edward pediu, segurando meu queixo e beijando meus lábios amorosamente. Ele encostou a testa na minha. _ Esme é uma víbora. E quando uma víbora decide atacar não há nada no mundo que consiga pará-la. Ela queria fazer mal a sua família e faria, de um jeito ou de outro.

— Quanto mais a gente tenta mostrar a verdade, mas essa bruxa se mascara. Ela virou o jogo contra a gente, Edward.

— Eu sei _ ele respondeu. _ Mas não vamos deixar que ela vença mais essa.

Eu o encarei, cética.

— Acho que ela já venceu.

À tarde foi a vez de Edward depor. Ele me ligou na saída da delegacia, parecendo bastante cansado.

— Esme acabou de chegar.

— O que? Vocês se cruzaram?

— Sim _ ele respondeu, com a voz abatida. _ E eu disse a ela que não conseguiria se safar dessa.

— Edward, você não pode fazer esse tipo de acusação numa delegacia!

— Eu sei _ ele admitiu, exalando um suspiro. _ Eu perdi a cabeça,me desculpe. Mas ninguém me ouviu, é sério. Só ela.

Eu hesitei.

— E o que ela disse?

— Nada _ ele respondeu, irritado. _ Apenas sorriu presunçosa. O que eu não daria pra arrancar o sorriso do rosto daquela...?

— Calma, Edward _ eu pedi, respirando fundo. _ A gente precisa manter a calma. Nossa prioridade agora é sair da mira dos policiais. Esme vai acabar caindo.

— Estamos esperando ela cair a tempo demais. Acho que está na hora de alguém derrubá-la.

Nas duas semanas seguintes, o detetive Burns fez visitas frequentes ao apartamento de Alice. Ele sempre estava procurando respostas para o quebra cabeças da morte de Charlie e, de uma forma ou de outra, parecia que eu acabava implicada em todas elas.

Esme havia induzido a polícia a acreditar que Edward e eu havíamos tramado a morte do meu pai. Os motivos variavam entre dinheiro e vingança. A medida que as investigações avançavam, ela saía do foco e nos deixava ainda mais em evidência.

Insinuações a esse respeito enchiam as páginas dos jornais. "Morte de famoso empresário: filha e namorado seriam os responsáveis?". Manchetes como essa estouravam nas manchetes dos tablóides sensacionalistas, mas eu sabia que seria questão de tempo até os jornais mais sérios terem a mesma opinião.

Eu havia conversado com Adriana e pedido um tempo para ela no trabalho. Ela se mostrou compreensiva como sempre, mas eu sabia que seria questão de tempo até que precisasse contratar outra pessoa para o meu lugar.

Esme não só havia conseguido colocarfim à vida do meu pai, como estava dando um jeito de destruir a minha também. Ela havia se revelado mestra na arte da manipulação. Edward e eu éramos meros fantoches.

No dia programado para a abertura do testamento de Charlie, o detetive Burns nos escoltou até a mansão. Ele disse que não deveríamos ficar ansiosos em relação a uma possível citação na herança, porque não poderíamos desfrutar de nada enquanto não provássemos nossa inocência.

— Achei que era a justiça quem deveria provar a nossa culpa _ eu disse, olhando através da janela dentro do carro a paisana.

O detetive Burns sorriu de canto e Edward segurou a minha mão entre as suas.

Fomos os últimos a chegar ao local. A casa de Charlie, que agora parecia qualquer coisa para mim menos a minha própria casa, estava aparentemente vazia, com exceção das pessoas reunidas ao redor da mesa de jantar.

À cabeceira estava Reynolds, advogado do meu pai. Acima do peso, calvo e sempre bem barbeado, eu o conhecia há anos. Ele era uma presença frequente, entrando e saindo do escritório de Charlie discretamente desde a minha infância.

Do seu lado direito, estava Esme. Ela parecia qualquer coisa, menos abatida, enfiada em um vestido Marc Jacobs preto e branco, sapatos de salto agulha super altos e um rabo de cavalo com um franja longa e penteada de lado.

Ela usava os brincos de pérola da minha mãe. Quando notei, um nó atravessou minha garganta e eu precisei recorrer ao auto controle para não saltar sobre ela por cima da mesa. Ficamos sentadas frente a frente e, a todo momento, ela me lançava um olhar ansioso onde eu podia ver os cifrões reluzindo.

Edward não tinha permissão para entrar e precisou aguardar na sala de tv junto ao detetive Burns. O Boston Celtics estava jogando contra o Miami Heat. Eu não sabia se ele gostava de basquete, mas sabia que, de um jeito ou de outro, seria impossível se concentrar no jogo.

— Bem, Sra Cullen... Srta Swan, vamos dar início a abertura do testamento de Charles Swan.

Esme e eu aguardamos em silêncio. Ela pousou os cotovelos sobre a mesa, se parecendo um pouco com uma criança cheia de expectativas para um dia de sol no parquinho. Eu queria correr para a sala, trazer o detetive Burns pelo colarinho da camisa e mostrar para ele a cara de pau daquela impostora, mas tive que me contentar em ignorar sua postura frívola e aguardar enquanto Arthur Reynolds folheava diversos documentos sobre a mesa com os óculos pendurados na ponta do nariz.

Por fim, ele exalou um suspiro, tombando as costas de encontro ao encosto da cadeira. Seu olhar parecia reflexivo e, ao mesmo tempo, estranhamente distante dali.

Quando voltou a falar, sua voz saiu embargada e as palavras emocionadas.

_ Charlie era mais do que um cliente, ele era um grande e maravilhoso amigo. Nas últimas semanas, eu procurei entender sua perda. Um homem forte, inteligente e, até onde eu tinha conhecimento, perfeitamente saudável. Mas não entendi. Então passei a tentar aceitá-la _ ele olhou de Esme para mim com os olhos vermelhos por trás dos óculos de metal e eu senti minha garganta arranhar. _ Eu achei que tivesse aceitado. Até ler isso. Charles conversou com alguma de vocês sobre os seus últimos desejos, recentemente?

Eu neguei com a cabeça.

— Creio que teria conversado... se houvesse tido tempo _ Esme envenenou o ar, me observando com o cenho franzido. _ Infelizmente o seu tempo sobre a terra foi interrompido precocemente.

Eu respirei fundo e desviei os olhos para o advogado que me devolveu o olhar. Sua expressão de indignação e revolta. Eu reconhecia os sentimentos porque eram os mesmos que eu encarava no espelho durante cada dia das últimas semanas.

— Infelizmente sim _ Reynolds concordou, observando as próprias mãos espalmadas sobre a mesa. _ Mas quem fez isso irá pagar caro. Os documentos que eu tenho aqui trazem provas que, se corroboradas pela justiça, podem colocar um bandido na cadeia por muitos anos.

Esme se remexeu na cadeira, corrigindo a postura. O sangue que fluía lindamente pelas maçãs do seu rosto desapareceu de repente.

— Provas? Do que você está falando? Que provas? _ indagou, lívida, enquanto observava o advogado cautelosamente.

Reynolds olhou para mim com o semblante desolado.

— Eu vou ler para vocês alguns dos documentos. Outros serão entregues diretamente a polícia para esclarecimento do assassinato de Charles Swan.

Notas finais
Boa noite, meninas! E agora, o que diz esse testamento sobre a morte do Charlie hein? Que provas são essas que o advogado mencionou? Tudo muito misterioso, mas será revelado no próximo capítulo. Surpresinhas feias mas nem tão estarrecedoras pra muita gente hehe Beijinhos e até lá!