Two Broken Hearts
84 Contra a Parede
Nos últimos meses, Charlie havia acompanhado uma investigação minuciosa sobre as atividades de Esme no centro de saúde.
Como ele contava em uma das duas cartas que deixou com Reynolds — lacrada para ser lida apenas junto ao testamento -, ele desconfiava de desvios frequentes nas finanças, além de manobras nos orçamentos do lugar. O Centro, aliás, não pertencia legalmente a Esme, como eu sempre acreditei, sendo de propriedade de Charlie, que o havia entregue a esposa para que esta o administrasse.
"Os lucros do Centro de Saúde nunca foram de meu interesse", Reynolds leu as linhas deixadas pelo meu pai, enquanto eu observava Esme ferver de raiva do outro lado da mesa com os dentes trincados, "Assim como, em momento algum, eu me importei em custear os gastos que me foram apresentados para sua manutenção.
Todavia, outros acontecimentos me forçaram a iniciar uma investigação e me colocaram a par dos atos hediondos cometidos pela minha esposa. Atos estes que eu descreverei aqui para leitura póstuma e total proteção dos meus bens, garantindo que estes jamais cheguem até ela".
Reynolds fez uma pausa e respirou fundo.
"A cerca de três meses, eu ouvi boatos de que Esme estava tendo um caso extra-conjugal. Boatos que circulavam entre nossos amigos e vizinhos.
Questionada a respeito, minha esposa prometeu que não passavam de fofocas, jurou o seu amor e lealdade por mim e se mostrou indigada por sequer ter sido cogitada aquela possibilidade.
Eu acreditei em sua palavra, porém, suas atitudes suspeitas, saídas sempre sorrateiras e desculpas desconexas me levaram a procurar um detetive particular.
Ele a seguiu por algumas semanas e qual não foi minha surpresa ao perceber que a infidelidade de Esme era a menor das suas traições?
A frequência de suas idas ao banco e visitas ao escritório do meu contador, Denis White, me levou a levantar outras questões sobre a mulher com a qual vivi nos últimos quase trinta anos. E, para minha total perplexidade, descobri que Esme não somente estava desviando dinheiro da Casa de Saúde de minha propriedade, como alterando contas e orçamentos. Nossa conta conjunta no banco também se encontrava zerada.
Estas constatações me causaram espanto. O pagamento recebido mensalmente por minha esposa pelos seus trabalhos como administradora da Casa de Saúde é uma soma considerável. Eu me perguntei por que motivo ela precisaria de tanto dinheiro para ter que recorrer a esvaziar nossa conta conjunta.
Foi quando eu ouvi falar pela primeira vez de Jacob Black.
Eu engoli seco. Meu pai sabia a respeito de Jacob e conhecia a sua relação com Esme.
Charlie conhecia melhor aquela história podre do que eu imaginava.
Um arrependimento imenso corroeu minha alma e eu comecei a questionar o que seria diferente se eu tivesse seguido os meus instintos e me aberto com ele antes que fosse tarde demais.
Entre todas as minhas culpas, aquela seria a maior e, certamente, a que eu carregaria para o resto da vida.
"Jacob Black era uma espécie de capacho de Esme. E também seu amante. O detetive particular trazia para mim, semanalmente, fotos e relatos dos encontros fortuitos dos dois: almoços e jantares em restaurantes afastados da cidade, encontros em motéis da cidade.
Minha esposa, que sempre se mostrou tão digna e recatada, nunca passou de uma fraude, uma farsa.
Mas a pior decepção de todas foi quando eu soube do acidente envolvendo minha única filha, Isabella Swan. Um incêndio, não criminoso de acordo com a mesma.
Minha filha estava cruelmente enganada.
Quando eu conheci Esme, em um leito de hospiral, ela me fez acreditar que era uma pessoa totalmente diferente do que se mostrou nos últimos meses. Eu fui cego, arrogante e presunçoso.
Durante anos, Esme envenenou minha relação com Bella. A morte da minha primeira esposa me tornou um homem fragilizado e psicologicamente instável. Agora eu percebo que as palavras, os conselhos de minha segunda esposa garantiram que eu permanecesse assim, especialmente em relação a minha filha.
Ela me manteve reticente em relação ao comportamento de Bella e à sua capacidade de decidir por si mesma. Querida Bella, eu sinto muito. Nestes documentos, existe uma carta endereçada a você. Nela eu me desculpo, porque jamais comseguiria viver o suficiente para expressar em palavras como eu lamento pelo nosso tempo perdido.
Esme me aconselhou a afastar você de nossa companhia quando o seu relacionamento com Edward Cullen veio ao nosso conhecimento. Mas foi decisão minha, naquele dia terrível em que Edward e eu brigamos, expulsar você da minha vida.
Eu escondi o rosto entre as mãos e arfei, sentindo uma dor esmagadora no peito.
"Se eu soubesse o que eu sei hoje, se enxergasse o que enxergo, as coisas seriam muito diferentes.
Quando você me contou sobre o incêndio na casa em que Edward e você viviam, eu pude juntar os pontos. O relacionamento com Jacob, que eu descobri ser uma espécie de capanga do avô do seu namorado, me alertou para o fato de que Esme tinha intenções ainda mais doentias em relação a nossa família.
No início, achei que ela estivesse tramando contra Edward. Depois, percebi que seria muito mais vantajoso para ela se pudesse tirar você do caminho."
— Ele sabia... ele sabia...
Pisquei rápido, tentando conter as lágrimas. Não consegui e elas desceram pelo meu rosto a medida que eu entendia o quanto o destino havia sido cruel comigo e com Charlie. Nós dois possuíamos uma informação poderosa capaz de mudar o rumo das coisas. Mas nós dois nos calamos. E demos margem para que Esme prosseguisse com a sua crueldade sem fim.
— Charlie também fala sobre um possível envenenamento _ Reynolds franziu o cenho, me olhando com tristeza. _ Ele desconfia que sua madrasta tenha sido responsável pela sua doença.
— Isso é ridículo _ Esme deu de ombros. _ A polícia não vai provar nada, porque não há nada para provar.
Eu olhei para ela, meu coração explodindo tamanho o ódio que eu estava sentindo.
_ Ele sabia! Por isso você o matou! Sua vagabunda assassina! _ eu berrei, ficando rouca _ Desgraçada! Era isso o que ele queria falar comigo naquele jantar mas você não deixou! Você matou o meu pai!
Eu saltei da cadeira e agarrei Esme pelo cabelo por cima da mesa.
— Me solta!
— Sua vadia! _ eu torci e puxei o seu rabo de cavalo até ouvi-la gritar _ Você destruiu a minha família. Eu vou acabar com você.
Eu não quis me conter. Não precisava mais. O mundo de aparências no qual eu vivia, o conto de fadas borrado e frágil como vidro, estava finalmente acabado.
E aquilo tinha suas vantagens.
Ergui minha mão no ar e a lancei contra o rosto de Esme, repetidas vezes, estalos altos ecoando pela sala. Ela arregalou os olhos, o rosto em choque, tentando se proteger sem sucesso enquanto eu me lançava sobre a mesa, para cima dela.
Quando terminei, eu estava acabada. Exausta e sem fôlego, eu sorri para a imagem de uma Esme muito diferente da que eu conhecia, descabelada e desnorteada. Quando se desequilibrou, ela deu um passo para trás, mas Reynolds a pegou pelo pulso sem deixar que ela recuasse mais um centímetro.
— Onde você pensa que vai Esme? _ ele perguntou com um olhar feroz.
Era como se um enorme peso tivesse sido retirado dos meus ombros. Eu estava em paz.
— Não sei o que é mais prazeroso _ suspirei, cerrando os punhos. _ A sensação da minha mão dormente ou as marcas dos meus cinco dedos nessa sua cara de vadia dissimulada.
Esme me encarou, fervilhando de raiva. Lágrimas ameaçaram rolar, mas minha madrasta as conteve, erguendo o queixo que tremulava enquanto ela tentava procurar palavras para me atacar.
Finalmente, percebeu que estava derrotada demais para dizer qualquer coisa.
O detetive Burns apareceu na sala nesse exato momento, com Edward em seu encalço.
— Bella, você está bem? _ Edward perguntou.
— O que está acontecendo? _ o policial hesitou.
Meu coração batia descontroladamente.
Esme se debatia, tentando se livrar do aperto do advogado.
Eu respirei fundo, sentindo a dor no meu peito diminuir gradualmente.
— Policial, é melhor você prender essa mulher. Porque, senão, eu sou capaz de matá-la.
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