Quando eu cheguei à casa de Charlie, Rhonda me recebeu com uma xícara de chocolate quente. Eu nunca recusaria nada que partisse dela, muito menos chocolate, então agradeci e, depois de abracá-la pela segunda vez, sentei à mesa da cozinha com a xícara fumegante entre as mãos para esperar Esme.

Quando minha madrasta veio se juntar a mim, Rhonda pediu licença e saiu de cena. Eu sabia que, a despeito de todos os anos de convivência, ela gostava de ser discreta. Charlie apreciava aquilo e, por isso, a mantinha conosco. Por isso e por que Rhona havia sido como uma mãe para mim após a morte de Rennè.

_ Bella, é tão bom rever você! _ Esme abriu um sorriso aliviado. Exatamente o sorriso que uma mãe abriria ao rever sua filha depois de muito tempo. Os gestos dela sempre me comoviam e eu me levantei, rapidamente, para abracá-la e beijar seu rosto. _ Está tudo bem com você? Está precisando de alguma coisa?

Eu neguei com a cabeça.

_ Não foi por isso que eu vim. Preciso falar com você a respeito de Edward.

A expressão dela mudou sutilmente. Observei o alívio e o prazer em me ver darem lugar ao desconforto. Ela tocou a orelha esquerda, ajeitando o brinco com uma única pedra de diamante que meu pai havia lhe dado de aniversário. Era um presente caro e sofisticado, que combinava perfeitamente com os dois.

_ O que houve com Edward? _ Esme perguntou, enquanto puxava uma cadeira para se sentar do outro lado da mesa. _ Ele está em apuros?

_ Talvez _ eu respondi. _ Não. Talvez, não. Com certeza, Esme. Edward está encrencado e precisa muito da sua ajuda.

_ Da minha ajuda? _ ela estreitou as sobrancelhas, parecendo em dúvida _ Eu duvido que Edward precise da minha ajuda, querida. E eu duvido que ele a queira também.

Cheguei a cadeira para frente, inclinando o meu corpo para frente e tomando as mãos da minha madrasta entre as minhas. Ela não hesitou em segurá-las, sorrindo para mim com uma doçura que era característica de Esme.

_ Talvez ele não saiba o quanto precisa de você, Esme... do seu amor.

_ Edward me odeia _ ela fez uma careta de desagrado. _ Não é de se espantar, eu fui uma mãe horrível.

_ Não _ eu discordei, tomando as suas dores. _ Você foi uma mãe incrível!_ "para mim", eu quis acrescentar, mas travei aquele pequeno comentário descabido. _ Você tomou uma decisão ruim no passado, mas isso não desmerece a mulher maravilhosa e gentil que você sempre foi.

O sorriso dela se intensificou e seus olhos brilharam. Eu apertei as mãos de Esme com mais força entre as minhas, desejando que ela soubesse o quanto era importante na minha vida e o quanto podia ser importante na vida de Edward também.

_ Eu espero ter sido uma boa mãe pra você _ ela disse num fio de voz emocionado, beijando minha mão entrelaçada na sua. _ Mas é tarde demais para Edward e eu. Quando ele veio até essa casa, eu acreditei realmente que a nossa história juntos pudesse ter um final feliz. Achei que Edward seria capaz de passar uma borracha no passado e escrever um futuro ao meu lado. Como eu fui burra...

_ Não, Esme _ eu discordei outra vez. _ Isso não foi um ponto final. Vocês ainda não se entenderam, mas precisam. Pelo bem de Edward. Ele está sufocado com o ódio que pensa sentir de você. Isso é nocivo para vocês dois, mas especialmente para ele. Você não se preocupa com os sentimentos do seu filho?

Ela me fitou com total atenção. O sorriso havia sumido inteiramente do seu rosto.

_ Você tem um coração enorme, Bella, mas siga o meu conselho: não se preocupe demais com Edward. Ele está na estrada há muito tempo. Já aprendeu a se virar.

Aquelas palavras me perturbaram. Eu fiquei em silêncio por um longo tempo, olhando para as belas mãos de Esme espalmadas sobre a mesa. Mãos de unhas bem cuidadas, manicuradas e pintadas. Ela começou a tamborilar sobre o tampo de madeira.

_ O que você quer dizer com isso?

_ O que eu disse _ ela sorriu com indulgência, como se falasse com uma criança. _ Edward vem de um longo caminho. Ele tem bagagem. Charlie e eu... você pode detestar seu pai, agora, mas é verdade... nós criamos você sob uma redoma, meu amor. Nós evitamos que você se ferisse ou se magoasse.

_ Você está errada _ eu retruquei. _ Charlie me magoou muito.

Ela arqueou as sobrancelhas, dando de ombros.

_ Talvez. Mas nunca foi uma dor difícil demais, não é mesmo?

Meu coração doeu com aquela afirmação. Achei que minha madrasta, como uma das poucas pessoas que conhecia a fundo minha história, teria mais sensibilidade para interpretar meus sentimentos. Agora, ela dizia que eu não havia sofrido tanto assim. Aquilo era como um punhal atravessando o meu coração em cheio.

_ O que minha dor tem a ver com a dor de Edward? _ eu me surpreendi fazendo essa pergunta.

Para o meu espanto, ela não hesitou em responder.

_ Esse é o ponto, Bella. Você e Edward... _ para a minha surpresa ela bufou, balançando a cabeça em negativa. _ Me desculpe, como é absurdo imaginar vocês dois juntos numa mesma frase! Enfim, o seu pequeno sofrimento terminou quando Charlie e eu formamos uma família. Você pode ter suas diferenças com seu pai, as suas opiniões, o seu desagrado... e até a sua mágoa, mas acredite... nós demos o melhor a você, o melhor que os nossos corações partidos permitiam _ os olhos dela cintilaram, como se estivesse contando uma história que nunca havia contado antes, nem mesmo para ela. _ Edward não teve essa sorte, meu amor.

A naturalidade dela me deixou estarrecida. Ao mesmo tempo, eu senti a garganta queimar. Lembrei a foto do pequeno Edward escondida no quarto lá em cima, esquecida dentro de uma gaveta.

_ Edward teve o pai...

_ E o avô _ Esme concordou, com um sorriso que não chegou aos olhos. _ O Grande Coronel. Edward contou a você sobre ele?

Eu disse que não com a cabeça.

_ Pois pergunte a ele. Se você não conhece a história entre Edward e o coronel, então não entende nada a respeito do garoto.

Eu não sabia o que dizer, nem o que pensar. De repente, Esme estava diante de mim sendo completamente sincera pela primeira vez na vida. Revelando a sua história e a história do homem que eu amava, mas eu simplesmente não conseguia enxergar um forma de ajudar Edward. E ela se recusava plenamente a se envolver. Mesmo se tratando da vida do seu filho.

_ Você não o ama? _ eu perguntei, pronta para um olhar de surpresa, mas o que eu recebi foi outro sorriso indulgente e educado.

_ Existem várias formas de amar, Bella. Você ainda é jovem pra entender isso.

Eu balancei a cabeça lentamente, em negativa.

_ Eu nunca vou ter idade suficiente pra entender como uma pessoa é capaz de desistir do próprio filho.

Esme respirou fundo, com uma tranquilidade inabalável. Parecia qualquer um, menos a mulher deprimida e arrasada que eu havia visto nos últimos tempos. Ela, com certeza, parecia mais enérgica, mais firme, agora que Edward e eu havíamos deixado aquela casa. Como se a nossa presença, mais provavelmente a dele, estivesse intoxicando o seu ar, arruinando a sua saúde. Isso também era incompreensível para mim.

_ Tem certeza, Bella?

_ Tenho.

_ Nem mesmo a sua mãe? _ ela indagou.

Eu senti um nó atravessar minha garganta, como sempre sentia quando pensava a respeito de Rennè. Meus olhos se encheram de lágrimas, instantaneamente. Eu não imaginava que a conversa com minha madrasta fosse tomar aquele rumo.

Os olhos de Esme me encaravam do outro lado da mesa, aguardando o meu próximo movimento, como se nós duas não estivéssemos mais conversando sobre o tempo, mas jogando uma interessante partida de xadrez.

_ O que você está dizendo? _ minha voz saiu falha_ O que tem a minha mãe?

Ela torceu a boca, refletindo por algum tempo antes de cravar o segundo punhal no meu coração.

_ Sua mãe tinha você, Bella. Mas desistiu de todas as seguranças, todas as certezas, para tentar de novo. Para ter o segundo filho que ela tanto sonhava.

_ Não... _ eu balancei a cabeça, tentando afastar aquela névoa vivia rondando a minha vida. _ Não foi desse jeito! Ela não tinha como saber.

_ Sim, ela sabia, querida. Charlie me contou. O médico havia sido claro quando disse que ela não deveria ter outros filhos. Mas Rennè não quis escutá-lo. Ela queria um filho... um filho homem. Rennè não estava satisfeita e arriscou tudo pela família que ela acreditava, que ela sonhava.

_ Cala a boca! _ eu berrei, saltando da cadeira tão rápido que a derrubei _ As coisas que você está dizendo... você é completamente louca! Está tentando me colocar contra a minha própria mãe... como você tem coragem?! Edward tinha razão...

_ Edward nunca teve razão _ cada palavra soou tranquila na sua voz. _ Isso porque ele nunca soube o suficiente pra formar uma opinião sobre mim _ Esme respirou fundo, fechando e depois abrindo os olhos, como se estivesse em um dilema sobre o quanto deveria confessar a seu respeito. _ Escute bem, Bella, eu não sou um monstro. Sou a mesma Esme de sempre... a mulher que criou e amou você como se fosse sua própria filha. Mas você me fez perguntas... eu só estou tentando ser sincera.

Minhas mãos tremiam. Minhas pernas tremiam. O meu corpo inteiro tremia. Era como se eu tivesse sido atingida por uma descarga de eletricidade, cada palavra de Esme era como um raio me partindo em pedaços. Eu me arrastei até o balcão da cozinha e me apoiei contra ele, com o maxilar trincado.

_ Então, foi isso o que aconteceu com você? _ perguntei, quando achei que era capaz de controlar minha própria voz, mas ela saiu rouca e deprimida. _ Você deixou Edward para trás porque desejava uma família... melhor?

Esme exalou um suspiro alto, unindo os cotovelos sobre a mesa e apoiando o queixo nas mãos em concha.

_ Você está simplificando tudo. Mas tudo bem _ ela assentiu. _ E saiba que isso não é um crime, Bella. Não nas leis do meu Estado ou de qualquer outro.

Senti o estômago revirando.

_ Eu não posso ficar aqui mais nem um minuto.

Ela deu de ombros.

_ A casa é sua também. Volte quando quiser conversar mais.

_ Eu nem sei o que dizer... _ rosnei, deixando as palavras escaparem como se fossem veneno me intoxicando. _ Nem sei como colocar em palavras o nojo que eu estou sentindo de você, agora.

_ Tudo bem _ ela olhou para mim com frieza. _ Eu também sinto nojo de mim de vez em quando.

Eu queria dar o fora dali. Lembrei dos momentos maravilhosos que havia passado ao lado de Esme. Seu carinho, sua paciência, todos os seus gestos de amor. Que tipo de monstro se escondia dentro dela? Achei que minhas pernas não fossem obedecer, mas, assim que dei o primeiro passo, os outros vieram com facilidade.

Me afastei em direção à porta da cozinha, sentindo os olhos dela cravados nas minhas costas.

_ Eu nunca tive como agradecer a você, Bella. Acho que esse é o momento.

Aquelas palavras me fizeram parar, mas eu continuei de costas, sem estômago para encará-la.

_ Agradecer pelo que?

_ Você facilitou tudo _ sua voz chegou até mim, leve, como se ela estivesse cantarolando as palavras. _ Colocar Edward no passado me deixou bastante fragilizada, eu confesso... como eu disse, não sou o monstro que você está pensando. Deixar um filho pra trás é algo muto doloroso, de verdade. Mas quando encontrei você naquele hospital, tão solitária, uma garotinha bonita e triste pela perda da mãe e a doença do pai... então, eu soube... você era tudo o que eu procurava. Minha chance de recomeçar.

Minha cabeça girou e eu voltei a andar, agora mais depressa.

_ Você é doente... acho que eu vou vomitar.

Eu já estava chegando na sala. Procurei Rhonda com os olhos, mas não a encontrei. Continuei andando na direção do saguão de entrada, quando a voz de Esme chegou até mim, vinda da cozinha.

_ Eu me apaixonei pela linda garotinha no hospital, Bella! Qual é o pecado nisso?

Eu balancei a cabeça, não concordando ou discordando, apenas me dando conta de que não havia realmente mais lugar para mim naquela casa. Conferi a porta e estava destrancada. Obrigada, Rhonda.

Saí para a luz do dia, deixando o vento levar para longe tudo o que eu estava sentindo naquele momento, todo o peso no meu coração.

Esme estava errada a respeito de Edward. Ele precisava, sim, da minha ajuda. E eu ficaria ao seu lado. Não o abandonaria.

Nunca mais.

Notas finais
Boa tarde, meninas! Esse capítulo fluiu hoje dos meus dedos e eu não resisti a postá-lo hehe vamos deixar o pov do Edward para outro momento, não se preocupem. E então, vocês esperavam algo assim vindo da Esme? Eu acho que não, hein rs é claro que ainda tem mais caroço nesse angu, nada é tão simples assim, mas a trama esta se revelando e ganhando um climinha de reta final. Mandem reviews, por favor, dizendo o que acharam! Sempre fico ansiosa pelas críticas de vocês :) obrigada pelo carinho e pelo tempo que dispõem para ler a fanfic. Beijos gratos!