Two Broken Hearts
35 Novos e Velhos Amigos
Estranho me ver, agora, na garupa da moto de Jake a caminho do apartamento de Gwen e Alice. Eu havia passado os últimos fins de semana fugindo do seu assédio no Seven'n Seven, mas pensar naquilo, agora, remetia a lembrança a um passado muito mais distante.
A brisa da noite transformou-se em uma rajada de vento, enquanto ele acelerava e nós deslizávamos sobre o asfalto. O apartamento não era nada longe do Rockets Bar, então, eu não precisei me preocupar demais com o fato de estar envolvendo a cintura de Jake com tanta força entre os braços. Eu não sei dizer se ele fazia de propósito, mas cada curva era feita mais fechada do que a anterior, de forma que eu precisava me agarrar mais a ele se quisesse evitar a sensação de frio na barriga quando a moto se inclinava demais sobre a pista.
Com certeza, Jake entendia de direção perigosa do mesmo modo que eu poderia dar aulas sobre direção defensiva. Quando paramos em frente ao apartamento, eu estava engasgada com o meu próprio coração, pulsando no meio da garganta.
Tirei o capacete de Jake — ele não tinha um extra e parecia não dar a mínima por não estar usando nenhum agora -, e ignorei minhas pernas bambas enquanto descia da moto. De repente, eu não queria mais parecer tão fraca. Não por ele ou por Edward, nem mesmo por meu pai. Mas, pela primeira vez na vida, eu queria ser mais forte do que era por mim. Por isso, respirei fundo e controlei a sensação de que o meu estômago estava se desmanchando.
_ Fico te devendo uma _ agradeci, devolvendo o capacete.
Ele sorriu, prendendo o equipamento ao suporte da moto, ainda sem a mínima intenção de usá-lo.
_ Fica tranquila. Eu sei cobrar favores.
Eu não sabia se ele tinha a intenção de descer da moto e cobrar o favor agora mesmo, mas instintivamente dei um passo atrás.
O seu sorriso apenas se alargou.
_ Ah, Isabella _ Jake balançou a cabeça, fingindo decepção. _ Quando você vai parar de me tratar como se eu fosse o lobo mau?
Eu olhei para ele. A jaqueta de couro, envolvendo a pele morena, e o seu olhar escuro sugeriam apenas incertezas. Jake era bonito. Não pouca coisa, não "bonito na média". Ele era bonito a ponto de atrair olhares e repelir confiança. Aquele tipo de beleza que parece tão bem vinda quanto perigosa e acaba, ou assustando ou escravizando.
Dei um segundo passo para trás, sentindo a segurança do meio-fio sob as botas de Gwen.
_ E como eu vou ter certeza de que você não é mesmo o lobo mau?
O som da sua gargalhada rasgou a noite. Ele me deu uma piscadela e acelerou a moto, lançando uma última olhada pelo retrovisor.
_ Esse é o charme da coisa. Você não pode ter certeza.
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A primeira coisa que vi, quando entrei no apartamento, foi que Alice estava chorando.
Gwen estava abraçada a ela no sofá, que parecia frágil encolhida contra o corpo da irmã. Eu fechei a porta e me aproximei das duas, sentando-me do lado oposto da baixinha.
_ O que houve, Ali?
Ela fungava e esfregava o nariz com as costas da mão, os olhos vermelhos e inchados. Estava usando um vestido de verão verde-claro, que eu ainda não conhecia. Provavelmente, uma das poucas peças discretas no guarda-roupa de Alice, que costumava ser delicada apenas até o seu lado perua ter a chance de dar as caras.
_ Foi o Jas.
_ O que ele fez?! _ meu tom de voz aumentou consideravelmente e Gwen me olhou espantada.
Alice continuou nos braços da irmã, mas me entregou sua mão, que eu segurei entre as minhas. Elas estavam quentinhas e úmidas das suas lágrimas. Eu quis matar Jasper por machucar alguém tão adorável e especial quanto aquela garota, me dando conta, mais uma vez num espaço de tempo relativamente pequeno, do quanto eu gostava dela.
Gwen exalou um suspiro exausto. Ela ainda não havia trocado de roupa, nem sequer tirado a maquiagem. O mais provável é que tivesse chegado em casa e surpreendido a irmã caçula daquele jeito.
Foi Alice quem me respondeu, com um olhar decepcionado.
_ Foi o que ele não fez, Bella...
Em poucos minutos, fiquei sabendo o que Gwen já sabia. Alice me contou sobre o seu fim de semana trágico, onde os pais do namorado tinham sido arrogantes e presunçosos com ela.
_ Ele me consolou, fez promessas, foi carinhoso... _ ela enumerou nos dedos com o olhar perdido. _ Mas não me defendeu uma única vez! Depois que voltamos da praia, achei que as coisas fossem melhorar um pouco, com Jas disposto a ficar ao meu lado. Mas ele só continuou naquele silêncio obediente durante todo o almoço e o resto do dia, enquanto o casal monstro me bombardeava de perguntas e indiretas horrorosas!
Eu a puxei para o meu colo e beijei o topo da sua cabeça. Ela se deixou ficar lá, o cabelo castanho e repicado com cheiro de maresia. Gwen havia ido preparar um chá para nós três.
_ Com uma família assim, Jasper não deve estar acostumado a se rebelar, Ali _ eu tentei amenizar os fatos. _ Para ele, também, deve ser tudo muito novo.
_ Ah, Bella, fala sério! _ ela se irritou, o pequeno queixo todo contraído _ Quem pode ser assim tão obediente com pais tão cruéis?
Eu não respondi. Apenas arqueei as sobrancelhas, olhando diretamente nos olhos dela.
Aos poucos a carinha zangada de Alice se desmanchou em uma expressão encabulada.
_ Ah... mas é diferente com você... totalmente.
_ Diferente por que? _ eu provoquei.
Ela deu de ombros, então exalou um suspiro derrotado.
_ Acho que só porque você é minha amiga mesmo.
Eu sorri, apertando ela de leve pelos ombros.
_ Exato. Você não enxerga os meus defeitos porque nós somos amigas. Mas Jasper também tem problemas... ele só precisa superar. E você pode ajudá-lo a superar todo esse respeito exagerado pelos pais.
Ela semicerrou os olhos com um sorriso maquiavélico.
_ Respeito nada, é medo mesmo. Ele tá se cagando de medo dos ditadores!
Eu ri, concordando, enquanto sentia a pequena relaxar dentro do meu abraço. Era bom dar uma de irmã mais velha para Alice vez em quando. Senti uma pontada de inveja de Gwen por não poder ter uma relação daquelas com alguém.
_ Se você passar segurança para ele... se mostrar que está ao lado dele, que os seus sentimentos são sinceros, ele vai ficar mais a vontade pra ser ele mesmo na presença dos pais. E pra contestar os ditadores.
_ Hitler e Stalin! _ ela acusou com um olhar furioso _ Erguendo o dedo para mim e me dizendo que eu não era boa o suficiente.
Eu dei um beijo estalado no seu rosto, rindo da sua cara birrenta.
_ Você é boa o suficiente, Ali. Você é mais do que isso, na verdade... é tão boa que algumas pessoas têm medo de ficar muito perto e se contaminar com a sua bondade. São pessoas amargas e desprezíveis, que querem continuar amargas e desprezíveis _ eu senti as palavras deixarem o meu coração em um fluxo de amor e sinceridade. _ E tem mais: você é tão boa em se rebelar! Por que não ensina ao Jasper como é bom finalmente soltar as amarras?
Ela abriu um sorriso triste, os olhos se tornando luminosos do jeito errado. Sem saber o por que, o meu coração se partiu ao meio e eu senti imediatamente pena dela.
_ Se você soubesse que tipo de amarras eu soltei, Bella, ia ver o quanto eu realmente sou boa nisso.
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Alice e eu dormimos no quarto, naquela noite. Gwen ficou com a sala. Alice revelou, abismada, que aquele era mesmo um fato inédito, porque Gwen fazia questão de dormir em seu quarto todas as noites.
Pela manhã, haviam mais cinco chamadas perdidas no meu celular. Eu tinha deixado o aparelho na sala, no silencioso. Mais uma vez, todas eram de Esme. Nenhuma do número do meu pai ou sequer do telefone de casa. Também não havia nenhuma de Edward, mas eu não conseguia me lembrar se ele tinha, ou não, o meu numero. Era provável que não.
Eu me levantei, tomei um banho e vesti short e blusa emprestados por Alice. Ela já estava acordada, agindo naquele ritmo letárgico de quem havia se acabado em lágrimas na noite anterior.
Eu estava morrendo de pena da baixinha, mas não via outra forma de ajudar, além do combo colo, sorvete e conselhos. O estado emocional dela também me impediu de contar as últimas novidades na minha vida, então a única coisa que Alice ficou sabendo foi que Charlie e eu havíamos brigado e, por isso, eu tinha passado a noite ali.
Era uma segunda- feira e nenhum de nós estava com vontade de ir para a faculdade. Gwen estava se arrumando para a Escola de Teatro e, mais tarde, tinha uma infinidade de mesas para servir em uma lanchonete a duas quadras de lá. Embora Alice ainda desconhecesse a gravidade da briga entre Charlie e eu, Gwen já havia sacado o suficiente para me oferecer abrigo pelos próximos dias. Agora, sim, eu estava cogitando, seriamente, arrumar um emprego. Não estava a fim de abusar da gentileza de ninguém.
_ Você pode vir trabalhar comigo, talvez _ ela opinou, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo. _ Exige menos do que ser, sei lá... bartender.
Eu estava deitada em uma das duas camas de solteiro no quarto, enquanto ela observava o próprio reflexo no espelho, minuciosamente. Obviamente, eu não tinha o menor talento para ser bartender. Lembrei de Edward e da loura selvagem no Seven e quase soltei uma gargalhada ao me imaginar fazendo malabarismos com copos e garrafas. Muita gente, com certeza, sairia ferida antes de eu ser demitida no fim da primeira noite.
_ Pode ser _ eu respondi, mas ainda não estava certa. Provavelmente, eu também não me sairia muito bem equilibrando bandejas e não queria arriscar o emprego de Gwen por me indicar.
Alice estava deitada na sala, ignorando todo o nosso barulho. Ela ainda estava triste, mesmo depois de todo o incentivo que demos a ela na noite anterior. Minha vontade era ligar para Jasper e ter uma conversa franca com ele, mas Alice me proibiu quando eu mencionei minha ideia e, de qualquer forma, eu não tinha mesmo o seu numero.
Quando Gwen saiu, eu olhei para o relógio e percebi que já eram nove da manhã. Era, oficialmente, o meu primeiro dia matando aula.
Passei o resto da manhã largada em uma das camas, enquanto Alice dormia sem parar na outra. A depressão dela estava me matando. Minha impotência estava me matando. Não saber o que seria da minha vida estava me matando.
Então eu levantei da cama, peguei uma jaqueta de Gwen emprestada e saí do apartamento em silêncio.
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