_ Casados? _ minha voz falhou de repente. Era uma ideia tão repugnante que apenas mencioná-la em voz alta me provocava uma ânsia na boca do estômago _ Esme é casada com o meu pai, Edward.

_ Não de verdade _ ele soou friamente, como se já tivesse superado a questão. _ Pelo menos não um casamento válido.

Não podia ser. Não fazia o menor sentido.

_ Sem chances _ eu descartei a ideia. _ Meu pai não assumiria um relacionamento com Esme se ela ainda estivesse presa a outro homem. Esse não é o perfil de Charlie _ e era verdade. Apesar de tudo, Charlie não gostava de quebrar regras. Monogamia era apenas uma delas.

Edward correu os dedos pelos cabelos, claramente procurando uma forma de me fazer aceitar os fatos. Então, seus olhos se apagaram e ele olhou para mim com uma certa apreensão.

_ Eu não estou dizendo a você que Charlie sabe toda a verdade a respeito.

Ah, merda.

Eu engoli em seco, tentando superar o nó duplo dentro da minha garganta. Pela primeira vez, eu estava com medo de ter sido injusta com o meu pai. Até que ponto ele seria culpado naquela história?

Se Charlie não sabia a verdade, aquela declaração fazia dele apenas mais uma vitima. E Edward sabia de tudo... tudo. Mas não fez nada para reparar os danos.

_ Então, meu pai também foi enganado pela sua mãe _ concluí, sentindo o meu coração se desfazer em pedaços.

A mulher que eu havia escolhido amar com mãe não passava de uma psicótica mentirosa que não amava ninguém, exceto a si mesma.

O olhar de Edward veio impregnado de desprezo e uma certa vergonha. Olhei para ele de volta, agradecida por alguém compartilhar dos mesmos sentimentos que eu.

_ Carlisle nunca daria a ela o divórcio. Isso não seria bom para a imagem da família, sabe? _ ele explicou, com um olhar duro _ E Esme... bom, Esme sairia perdendo se enfrentasse meu pai na justiça.

_ Perdendo?

Edward respirou fundo, desviando os olhos para um ponto na parede atrás de mim. Eu era capaz de perceber o quanto ele estava infeliz por remexer naquela história e admirava o seu esforço, embora não pudesse esquecer que ele também estava enfiado nela até o pescoço.

Eu estava cansada e desapontada. Com Esme, com Edward e comigo mesma, por ter sido tão cega sobre tudo e sobre todos.

O rosto dele se enevoou e sua voz saiu amarga.

_ Você não sabe nada a respeito dos Cullen. Eu passei todo esse tempo tentando manter você longe de problemas, Bella... bem, talvez essa não seja mais uma opção _ ele lamentou e eu estremeci. _ Especialmente não agora que eles sabem a seu respeito. Agora que sabem... o quanto eu estou envolvido com você.

Eu sabia que Edward não estava me culpando por ter me metido em sua vida. O que ele pedia, na verdade, eram desculpas por ter me enfiado em uma encrenca da qual eu não fazia nem ideia.

_ Droga, Bella! Eu disse a você que era perigoso.

Eu exalei um suspiro, procurando uma forma de lidar com a situação. É, ele havia dito. Várias vezes. Mas, aparentemente, o coração e o cérebro eram partes não interligadas da anatomia humana.

Eu dobrei os joelhos, enlaçando-os com os braços. Olhei para a sua mão, resistindo ao ímpeto de segurá-la. Ele estava tão perto, mas parecia miseravelmente longe agora.

_ É como dizem por aí... _ eu dei de ombros, erguendo o canto da boca em um sorriso que não escondia a minha mágoa. _ É sempre melhor saber a verdade.

A expressão sombria de Edward dizia o contrário mesmo antes de ele abrir a boca.

_ Não quando a verdade pode matar você.

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_ Todo mundo tem um hobby, Bella. Algumas pessoas adoram cozinhar. O meu avô gosta de manipular vidas. Ele sente prazer em controlar tudo ao redor dele e coleciona as pessoas como se fossem moedas.

Eu assenti, ainda sem entender como me encaixava naquilo. Por que a minha vida correria perigo? Eu não conhecia o avô de Edward. Por que ele poderia querer me fazer algum mal?

_ O Coronel é um homem de negócios. Ele controla toda a atividade agropecuária da cidade de Baltimore. Indiretamente, ele dá um jeito de controlar as outras áreas também.

_ Ele é um homem influente _ eu concluí.

O sorriso de Edward foi seco.

_ 'Influente' nem começa a descrever o meu avô. Durante anos, eu admirei o Coronel. Ele era o meu herói, o único exemplo que valia a pena seguir _ ele admitiu e não parecia envergonhado enquanto viajava para um passado distante em penamentos. _ Eu sou filho de um covarde, um bêbado com uma vida conturbada e um péssimo temperamento. E minha mãe... bom não convém crescer sabendo que você é o filho de uma prostituta espertalhona.

Passei a língua pelos lábios, sentindo-os subitamente secos.

_ Esme.

_ Meus pais se conheceram em um bar nos arredores da cidade. _ Edward explicou, tão friamente que parecia contar a história da vida de outra pessoa. _ Minha mãe havia acabado de chegar a Baltimore, dizendo ser filha de um rico fazendeiro de Rockville. Meu pai, pra variar, estava bêbado demais pra conferir a história. Eles tiveram um romance rápido, umas poucas semanas, antes de se casarem em uma pequena capela local. Quando o Coronel descobriu, ficou irado e mandou Carlisle anular o casamento. Meu pai bem que tentou, mas Esme surgiu com um argumento bastante interessante.

_ Estava grávida _ eu arrisquei, nem um pouco abismada agora que conhecia a verdadeira índole da minha madrasta.

_ Exato. Meu pai convidou-a para morar com os Cullen e Esme atendeu prontamente_ Edward explicou. _ No fundo, ele achava que a gravidez era apenas uma farsa que se revelaria em breve. Sua preocupação era não deixar a família cair no falatório da cidade. Para sua surpresa, a barriga de Esme cresceu e, em nove meses, nasceu o primogênito de Carlisle Cullen.

Uma centelha de emoção atravessou o seu rosto e eu não soube decifrar qual era. Indignação, vergonha, revolta. A história de Edward era digna dos mais diversos adjetivos.

_ A essa altura, o Coronel já havia confirmado que Esme não tinha qualquer ligação com o ramo da agricultura de Rockville _ ele sorriu, sarcástico. _ Ela era uma prostituta espertalhona dali mesmo, de Baltimore. Mas meus pais continuaram juntos em nome das aparências, durante seis anos.

_ E depois?

_ Depois, Esme se cansou.

_ Do dinheiro dos Cullen? _ eu duvidei.

Os olhos de Edward se iluminaram com se, finalmente, eu estivesse pela primeira vez penetrando o universo sombrio da sua família. Eu estava começando a entender como a roda girava por ali. E cada vez mais, os meus sentimentos por ele se tornavam conflitantes. Amor, compaixão. E uma pontada de decepção porque ele sabia. Ele sabia o tempo todo.

_ Do temperamento explosivo de Carlisle _ Edward esclareceu numa entonação sinistra. _ Das surras constantes. Dos abusos. Quando ele descobriu sua... antiga profissão, resolveu torná-la sua prostituta pessoal. Meu pai é um zero a esquerda, um fraco, humilhado e rejeitado pelo próprio pai. Entre todos, ele é o capacho que o Coronel mais despreza.

Eu assenti e ele se remexeu, inquieto. Depois, mergulhou num silêncio reflexivo.

_ E você? Você disse que admirava o seu avô _ eu não podia imaginar alguém que admirava um homem que não tinha respeito pelos sentimentos dos outros.

_ Eu o adorava _ Edward admitiu sem hesitar. _ O Coronel me colocou em um pedestal desde o primeiro minuto de vida. Seu neto homem, aquele que viria para perpetuar o nome dos Cullen, para dar continuidade aos negócios. Ele criou Carlisle sob o seu chicote, mas isso não adiantou, porque meu pai cresceu vivendo a sua sombra. Comigo ele agiu diferente _ seus olhos faiscaram, retomando a memória. _ Eu fui sua cobaia numero dois e ele sabia que não podia falhar. O Coronel nunca foi rude comigo, e foi bem menos exigente, também. Como um avô de verdade. Me levava para os torneios de baseball do colégio e assistia comigo as partidas profissionais pela televisão. _ seu sorriso mostrava que as lembranças provocavam saudades dolorosas. _ Quando virei adolescente, ele me levava para negociar com fornecedores. Dizia que eu era o cérebro da família. Eu acreditava nele. Confiava no que ele dizia ser certo pra mim.

Suas últimas palavras soaram frustradas. Eu, finalmente, estendi a mão e ele entendeu o recado, segurando-a dentro da sua. Nossos dedos se entrelaçaram e ele sorriu para mim. Um lindo sorriso torto e triste.

_ Quando você percebeu...?

_ Que estava sendo manipulado?

Eu senti a garganta arranhar, mas assenti.

_ Eu tinha três grandes amigos em Maryland. Dustin e Ethan são irmãos. Os pais deles trabalham como peões na fazenda. Eles tiveram prazer em entregar os filhos para trabalharem para o Coronel quando fizeram dezesseis anos _ Edward franziu a testa, com um olhar repreensivo. _ O Coronel treinou os dois para o que ele chamava de "serviços domésticos" e eles ganharam apelidos: Hulk e Gladiador. Logo a fama deles se espalhou pela cidade. Se você devia alguma coisa ao Coronel, era melhor pagar de alguma forma. Ou haveria um acerto de contas.

Eu não conhecia o Coronel, mas aos meus olhos, agora, surgia uma espécie de deus dos menos favorecidos. Um homem temido e respeitado nos quatro cantos da cidade. Alguém que exercia seu poder pela força e não admitia ser contrariado.

Edward me observou com curiosidade por um momento, antes de voltar a falar.

_ Um ano depois, o Coronel resolveu reforçar o time. Foi quando ele trouxe um novo garoto recém chegado a cidade, sem nenhum dinheiro e com muita disposição para fazer "o que fosse preciso".

Eu exalei um suspiro, fechando os olhos. A imagem de um jovem de jeans e sorriso presunçoso surgiu diante deles.

_ Jacob Black.

_ Touché.

Os pelos da minha nuca se arrepiaram. Eu lembrei de como havia encontrado Edward caído naquele quarto, machucado e inconsciente.

Quando a ficha caiu, os meus problemas com Charlie se tornaram pequenos e sem importância.

_ Jake e os outros capachos vieram atrás de você naquele dia?

Edward sorriu, aliviado por eu ter chegado àquela conclusão sem que ele tivesse que dizer as palavras.

_ Um romance de ficção muito fodido _ sua risada saiu parecida com um rosnado e ele estendeu a mão para apanhar o maço de cigarro no chão, ao lado da sua carteira. _ Minha vida é como a porra de um Stephen King, Bella. Mergulhar na história te dá pesadelos.

Ele acendeu o cigarro e deu uma tragada curta antes de soltar a fumaça em forma de anel.

Porra. Eu queria dizer que Stephen King não sabia nada sobre pesadelos. Em vez disso, mordi a bochecha por dentro para segurar o soluço que faria tudo em mim desabar.

Rastejei para frente e, dessa vez, fui eu quem tomei Edward nos braços, afundando meus lábios nos dele com voracidade. Queria fazê-lo esquecer... queria obrigá-lo a não pensar em mais nada daquilo. Queria ensiná-lo a deixar o passado no lugar ao qual ele pertencia.

_ Eu estou terrivelmente apaixonada por você, Edward Cullen _ sussurrei, encostando a cabeça contra o seu peito e ouvindo o seu coração pulsar.

Seus dedos tocaram os meus cabelos e eu prendi a respiração, aproveitando a sensação.

_ Eu achei que você teria ódio de mim depois de ouvir essa história.

Eu afundei ainda mais contra ele, sentindo o calor do seu corpo me envolver. Eu poderia aprender a conviver com aquilo... o seu corpo quente, o seu toque rápido, o seu beijo lento e profundo.

_ É meio excitante estar envolvida com um bad boy, sabe? _ eu sorri, deixando de lado o fato de que eu ainda deveria estar desapontada com ele por não ter sido sincero desde o início.

_ Você é boa demais para mim, Bella. Se eu fosse bom e correto, eu manteria minhas mãos longe de você.

Eu respirei fundo, com um sorriso se formando em meu rosto, e deixei que seu cheiro, nicotina, menta e algo mais, impregnasse minha pele.

_ Graças a Deus, você não é.

Edward franziu a testa, depois deu uma gargalhada rouca e alta. Estava tentando soar descontraído, quando eu sabia que aquela história ainda era o poço escuro que o puxava para baixo.

_ Sabe.. houve um tempo em que eu realmente fui um bad boy _ ele admitiu, levantando um par de olhos vazios na minha direção. _ Hoje eu não sei mais quem eu sou.

Notas finais
Olá, meninas!! Pouco tempo para escrever, peço desculpas :( o que acharam do capítulo? Respondam pelos reviews, bjsss