Two Broken Hearts
55 Um Novo Capítulo
Os dias que se seguiram foram fundamentais para a recuperação de Edward. Eu não queria deixá-lo sozinho, mas havia algo que eu precisava fazer.
Na quarta feira seguinte ao atentado, quando os primeiros raios de sol despontaram no céu, vesti os jeans Calvin Klein que havia ganho no último natal, uma blusa de seda preta e calcei meus mocassins mais confortáveis. Escovei os cabelos até eles parecerem apresentáveis e passei quase uma hora na frente do espelho, tentando descartar a jovem mimada e inexperiente que me encarava de volta no reflexo e formar a imagem de alguém distinta, determinada e absolutamente confiável.
Decidi partir em direção a Manhattan, embora ficasse a quase quarenta minutos de ônibus da vila. Por que eu tinha um plano. Dessa vez, eu tinha um plano e não ia deixar que ninguém se colocasse a frente dele.
O escritório de Adriana Heche ficava em um dos prédios mais altos da cidade. Assim que eu cheguei, me apresentei a recepcionista, uma loura magérrima com pelo menos um metro e oitenta de altura. Seu pescoço longo e corpo esguio me fizeram questionar por que estava sentada atrás de uma mesa, quando poderia facilmente estar desfilando nos maiores centros de moda do mundo. Para mim, ela era deslumbrante, mesmo dentro de um terninho Armani cinza chumbo de corte impecável e muito bem comportado.
— A Sra Heche irá recebê-la _ ela avisou, dez minutos após minha chegada, parecendo bastante surpresa, mas absolutamente educada e cordial.
— Me acompanhe, por favor.
Eu levantei da poltrona de couro amarelo e macio e caminhei atrás dela pelo tapete negro e felpudo que cobria desde o largo hall da recepção, passando pelos corredores ricamente decorados por quadros de Picasso e Dalí e vasos da dinastia Ming até o escritório de Adriana Heche.
Quando a loura da recepção empurrou a pesada porta de vidro que isolava o recanto criativo sagrado de Adriana, eu já havia tido uma boa visão do que havia lá dentro. Poltronas e puffs em cores quentes espalhados por todo o lugar e uma única parede vermelha onde ficava a enorme mesa em design moderno, ocupada por dois laptops, um aparelho e telefone e fax e alguns cadernos de desenho.
Adriana se levantou da mesa assim que me viu. Ela veio até mim com um sorriso de agradável surpresa e me abraçou quando eu o correspondi.
— Querida Isabella, há quanto tempo!
— Olá, tia.
Ela me conduziu para o interior da sala e os meus mocassins afundaram no tapete, constatando que ele apenas parecia ser o mesmo do restante do lugar, quando, na verdade, era ainda mais macio e suave.
Toda a decoração ali dentro havia sido escolhida para ser aconchegante e convidativa. E eu sabia que cada detalhe tinha sido escolhido pela própria Adriana, porque o seu bom gosto era incrível e ela possuía um olho clínico para aquele tipo de coisa.
— Eu estou tão feliz por você ter vindo! Mal acreditei quando Jocelyn anunciou sua presença. Pensei que não a veria tão cedo de novo _ ela admitiu, com um sorriso grande e honesto no rosto bonito de meia-idade. Seus cabelos haviam se tornado brancos, mas ela não os pintara, e agora tinham mechas acinzentadas que os deixavam sofisticados e estilosos.
Adriana Heche havia sido a melhor amiga de minha mãe nos tempos da faculdade. Quando Renneè se casou, Adriana veio de Pequim, onde iniciara sua, até então, pequena grife de alta costura para ser a madrinha do casamento da amiga. Quando eu nasci, aconteceu o mesmo.
Rennèe sempre podia contar com Adriana para o que precisava. Eu não tinha muito contato com a minha madrinha, mas esperava que ela estivesse disposta a fazer o mesmo por mim.
Nós conversamos amenidades durante uma hora e eu descobri que Adriana era a mesma pessoa agradável, inteligente e fácil de conversar que comparecia às minhas festas de aniversário quando eu era criança. Isso antes da morte de Rennèe.
— Por que você sumiu, tia Adriana? Eu não te vejo há...
— Pelo menos dez anos _ ela simplificou, com um sorriso pesaroso. _ Eu fiz algumas visitas a você após sua mãe partir, mas minha assiduidade foi seriamente prejudicada e eu sinto muito. De verdade. Mas sempre considerei você uma criança muito inteligente. Acho que, mesmo naquela época, você sabia o motivo do meu afastamento.
— Charlie _ eu respondi, sentada no puff amarelo vivo no centro da sala, tendo uma das maiores estilistas de moda do mundo sentada ao meu lado.
Ela assentiu.
— Charlie e eu nunca nos demos muito bem. Sua mãe o amava demais, no entanto _ ela admitiu. _ Ela via alguma coisa nele que eu não via.
Eu suspirei, voltando os olhos para a janela com vista panorâmica. A baía de Manhattan era uma visão espetacular do último andar do prédio.
— Eu duvido que ela pudesse ver alguma coisa boa nele agora.
O sorriso de Adriana murchou e ela voltou os joelhos para mim, segurando minhas mãos entre as suas. O toque foi acolhedor e reconfortante.
— Seu pai passou por uma perda terrível, Isabella. Eu nunca o considerei um homem fabuloso, mas... depois da morte de Rennèe, era difícil olhar nos olhos dele, sabe? _ ela fez uma pausa tímida antes de acrescentar _ No dia do enterro da sua mãe... foi a primeira vez em que eu olhei para Charlie e entendi que ele a amava de verdade.
Eu engoli em seco. Os tempos após a morte de minha mãe haviam sido mesmo difíceis. Lembrar deles ainda me causava arrepios. Quantas noites sem dormir e idas a psicólogos eles não haviam me custado?
Ela exalou um forte suspiro, soltando minhas mãos e se levantando do puff para ficar de pé e de frente para mim.
— Mas isso não é uma desculpa, sabe? Você é minha afilhada e eu deveria ter cuidado de você, participado da sua criação, ter estado ao seu lado no momento do luto e em todo o resto... eu fui uma péssima madrinha _ ela bufou de modo dramático, se auto-depreciando.
Eu ri, mordendo o lábio em seguida. Lembrei do que minha mãe costumava dizer sobre Adriana: ótima amiga, às vezes péssima influência e uma verdadeira rainha do drama. Ela era como uma versão mais velha de Alice e isso me fez confiar nela imediatamente.
— Se tiver alguma coisa que eu possa fazer por você, Isabella... _ ela olhou dentro dos meus olhos, com um apelo mudo para que eu tirasse aquele peso de tantos anos dos seus ombros. _ Qualquer coisa.
Eu sorri, me ajeitando no puff antes de começar a falar.
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