Two Broken Hearts
2 Manias e Neuroses
A tempestade não veio.
Passei o resto da manhã no quarto, quieta e desconfiada. As bonecas me olhavam, muito convidativas, mas eu não tinha coragem de mexer um músculo. Na hora do almoço, Ronda veio me buscar e não tive escolha. Desci as escadas, camuflada na barra da sua saia, esperando pela voz de trovão que agora meu pai parecia usar para tudo.
Almocei sozinha à mesa, como já era costume. Antes de subir para o quarto, perguntei à Ronda por Charlie e ela me disse que ele havia ido se deitar com uma forte enxaqueca. Não tive coragem que perguntar sobre a briga, meu coração ainda estava apertado por ser a causadora daquela discórdia.
Antes de ir para o quarto, espiei pela porta do escritório, só para ter certeza de que ele ou Brahms não estivessem ali. Vendo que estava sozinha, fui até a mesa e devolvi a foto amassada de Rennè para o porta-retrato. Imaginei se Charlie ficaria muito aborrecido por eu a ter estragado. Não tive tempo de pensar muito porque logo ouvi passos atrás de mim.
_ Achei que você tivesse seus próprios retratos da sua mãe.
Com um nó na garganta, me virei na direção dele, mas permaneci estática, sem me aproximar um centímetro. Pelo contrário, se não tivesse uma mesa enorme de madeira atrás de mim, com certeza teria recuado.
_ Tenho certeza de que vi um álbum inteiro no seu quarto _ ele insistiu.
Seu cabelo estava grisalho, os olhos velhos e entristecidos. O rosto estava marcado por vincos profundos. Ele pouco passava dos trinta anos.
Parado à porta, Charlie esperava uma justificativa plausível vinda de uma criança de cinco anos. SUA FILHA de cinco anos. E eu estava engasgada com minhas próprias palavras. Fazia mais de um ano que nós não falávamos um com o outro.
_ Essa é... diferente.
Eu esperei que ele me questionasse, mas Charlie permaneceu em um silêncio que não era nada contemplativo. Ele queria ouvir o resto da história.
_ Eu gosto dessa _ confessei, timidamente. _ Ela olha pra gente. E... acho que tem alguma coisa nela porque você também gosta.
Ele continuou me observando em silêncio por um longo momento. Eu mexia os dedos dos pés e das mãos, e mordia a boca, tentando prever as conseqüências dos meus atos. Um castigo? Uma surra? Qual seria a punição por roubar uma foto da nossa mãe-anjo da guarda?
_ É diferente.
Charlie estava olhando dentro dos meus olhos. Ele cruzou os braços como se quisesse manter a distância entre nós, mas deu alguns passos na minha direção. Me segurei para não sair correndo.
_ Sua mãe tinha essa mesma mania de morder o lábio quando ficava preocupada _ Charlie abriu um meio sorriso, triste, de partir o coração. _ É uma das pequenas coisas que sinto falta.
Franzi a testa, sentindo um enjôo breve. Aquilo era tristeza? Medo? Dor? Tinha vontade de correr para fora do escritório, me trancar no quarto e ignorar o ar derrotado do meu pai, na mesma medida em que queria poder abraçá-lo e confortá-lo, confessar que eu sentia a mesma coisa, a mesma saudade sem tamanho de alguém que eu mal chegara a conhecer.
_ A mamãe é um anjo? _ foi a única coisa que me ocorreu dizer.
Achei que, de alguma forma, seria um bom jeito de continuar a conversa. Pela minha curta experiência de vida, os adultos adoravam falar sobre mães que se tornavam anjos.
_ Quem disse isso? Ronda? _ ele pareceu surpreso.
Neguei com a cabeça, mas não quis acusar ninguém. Não pretendia meter meus avós em encrenca se a notícia fosse falsa. Eu mesma poderia conversar com eles depois se Charlie desmentisse tudo. E eu tinha certeza, embora não soubesse o por que, que meu pai era o único capaz de confirmar aquilo.
Para o meu total espanto, ele descruzou os braços e se ajoelhou no chão, ficando quase da minha altura. Com a testa franzida e os olhos brilhantes, parecia tão sem jeito quanto eu por, depois de tanto tempo, precisar manter um diálogo. Mas ele estava tentando. Estava tentando de verdade. E hoje, quando relembro essa história, eu o admiro enormemente por isso.
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_ Bella, é só a porcaria de uma festa.
_ Não posso ir, Ali. Eu já disse. Tenho aquele trabalho do Dr.Collins ainda pra fazer. Você, por acaso, já terminou? _ perguntei, ligando a carga de ironia no nível master.
Eu sabia que Alice andava ocupada demais com a anatomia em nível prático para ter tempo de se preocupar com ela em nível teórico. Anatomia de bocas, essa era a sua especialidade.
Estávamos no pátio aberto da Columbia, que funcionava como estacionamento. Dez minutos depois de chegar, eu ainda estava procurando o C4, mas o pátio estava lotado de autos e precisei acionar o alarme para identificá-lo no meio dos outros.
Pronto, lá estava. Preto e reluzindo de novo, o mimo dado por Charlie, semanas antes, como adiantamento pelo meu aniversário de vinte e um anos, que viria a acontecer em poucas horas.
Alice entrou do lado do carona e eu assumi o lugar do motorista. Quando girei a chave, o motor entrou em ação silenciosa. A máquina era mesmo impressionante.
Com as aulas do dia finalmente encerradas, Alice voltaria para o apartamento minúsculo que dividia com a irmã mais velha, Gwen, uma garçonete com aspiração à atriz de vinte e poucos anos. As duas haviam chegado à Nova York três anos antes, a fim de dar um empurrão definitivo na carreira de Gwen.
As irmãs andavam passando por sérias dificuldades financeiras, vivendo apenas do salário de Gwen e das horas que Alice recebia como modelo viva na Escola de Arte da Columbia. A bolsa de Alice estava prestes a ser cortada devido às suas últimas notas terem ficado abaixo das exigências da universidade.
O fato é que minha amiga era um puta de um gênio, mas não andava se concentrando muito ultimamente. E eu estava preocupada.
_ Não terminei. Mas sei que a entrega é só na semana que vem.
_ Você já começou, pelo menos?
Ela bufou, revirando os olhos e jogando as mãos para o alto, dramaticamente.
_ Você bem que podia parar de bancar a mamãe de vez em quando! Quantos anos você tem, vinte e um ou oitenta e nove? Tem vovozinhas de dentadura e andador mais radicais que você, sabia?
_ Eu nunca disse que queria ser radical.
_ E o que você quer, então?
Achei que fosse uma pergunta retórica, por isso não respondi de imediato. Quando olhei para o rosto de Alice, no entanto, ela estava séria, esperando uma resposta plausível.
Infelizmente, nada do que eu dissesse a ela soaria plausível. Nós tínhamos formas diferentes de ver a vida. Alice era a garota de espírito livre e selvagem, a arrasadora de corações que se recusava a preocupar-se com qualquer coisa por mais de cinco segundos. E eu... bem, eu era Isabella Swan, uma porção de medo cercada de insegurança por todos os lados. Tudo o que eu conhecia sobre diversão eram os romances escondidos na terceira gaveta da estante do meu quarto.
Romances eróticos, a propósito.
Quem disse que uma garota anti-social não pode se divertir?
_ Você tem seis dias inteiros pela frente... e hoje é sexta, véspera do seu aniversário, Bella. Pelo amor de Deus! Saia de casa e se divirta _ ela fez um biquinho carente exagerado. _ Comigo.
Aquilo era tão a cara de Alice que eu fui obrigada a rir.
_ Você fica bizarra quando tenta ser meiga, sabia?
_ Eu sou meiga _ ela bateu os longos cílios de boneca. _ Então, você vai?
Assisti minha determinação ficando para trás junto com a estrada, conforme o C4 acelerava. Mais a frente, o sinal fechou e eu comecei a reduzir.
Alice ligou o rádio, soltando um uivo de prazer e batendo palminhas quando James Brown começou com seu “Get up, Get on up”.
_ Você é um ser do mal, Alice Brandon. Sabe disso, não é?
Ela riu alto, grudando o dedo no botão de volume até quase ficarmos surdas.
_ Like a sex machine ("pt. como uma máquina de sexo")! _ deu um berro além da música, alto o suficiente para chamar a atenção do louro atraente no Audi ao lado enquanto parávamos no sinal.
A propósito, aquilo também era a cara de Alice.
_ Meu Deus! _ embora estivesse corada até a raiz dos cabelos, explodi numa gargalhada perplexa. O cara sorriu, mas desviou o olhar, quase tão sem jeito quanto eu. _ Não sei se te avisaram, mas esse tipo de obscenidade foi a óbito no fim dos anos 70.
_ Esse é o problema, Bella _ ela sorriu de canto, safada. _ Você não se permite. Não agüenta ser criticada, por isso se limita. Além disso, “Sex machine” não é realmente uma obscenidade e James Brown nunca sai de moda.
_ Ok, Ali. Ok.
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Muito mais tarde, no meu quarto, eu ainda estava pensando na alfinetada de Alice sobre o meu comportamento. Eu sabia o quanto era insegura, estava perfeitamente consciente sobre isso. Mas não estava tão certa sobre ser limitada em relação a tudo. Bem, muitas vezes eu ficava na defensiva com medo de me magoar, aquilo era mesmo uma verdade. Mas não era um escudo de vinte e quatro horas, não é? Porque se fosse, Alice tinha razão... puta que pariu. Eu era mesmo uma chata.
Afinal, ali estava eu experimentando o novo par de Jimmy Choos que Esme me trouxera do shopping na semana anterior. Scarpins. Altos. Vermelhos. Sexy demais para mim... fiz um movimento para tirá-los, mas me obriguei a ficar sobre eles mais um pouco enquanto conferia a imagem formada no espelho.
Cabelos castanho-avermelhados, ondas suaves nas pontas. Preferi deixá-los soltos, ao natural, e agitei de um jeito que era quase selvagem. Olhos cor de chocolate e uma boca em forma de coração, atualmente coberta por um batom vermelho provocante. O vestido, um Stella Mccartney preto e branco, tinha um zíper que descia até a base da coluna. Tinha alças pretas largas e duplas e deixava minhas coxas quase inteiramente a mostra. Era outro dos presentes de Esme que eu tinha certeza de que jamais usaria... até aquela noite.
Bem, eu me encontrava perfeitamente dentro dos padrões da Srta Brandon e esperava que ela reconhecesse aquilo. Ali estava outro pequeno iceberg que eu precisava remover do meu caminho. Além de insegura e supostamente limitada... ainda era extremamente ansiosa, implorando por reconhecimento de todos os lados. Queria ser a amiga dos sonhos de Ali, a universitária prodígio da Columbia e a filha perfeita de Charlie e Esme. E quanto mais eu me desdobrava em uma dezena de Isabellas, mais me distanciava de saber, finalmente, quem eu era de verdade.
Às dez horas em ponto, eu saía de casa. Pegaria Alice às dez e meia e às onze estaríamos na festa. Dei a partida no carro.
Merda, merda, merda. Por que eu precisava ser sempre tão pontual?!
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