Two Broken Hearts
3 Eu Odeio Tudo em Você
Notas iniciais
“Está caindo
Estou gritando "madeira"
É melhor você se mexer, é melhor você dançar
Vamos fazer uma noite que você não vai lembrar
Eu serei aquela que você não vai esquecer” (Timber, Pitbull feat Kesha)
https://www.youtube.com/watch?v=hHUbLv4ThOo
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Quando chegamos à festa, tive um ímpeto quase irresistível de voltar para casa. Impossível entender por que Alice adorava tanto aquele tipo de coisa. Uma centena de estudantes imaturos se esfregando na pista de dança ao som de uma música desagradável e barulhenta.
_ Timber _ Alice berrou com os lábios colados no meu ouvido, enquanto eu retorcia o rosto numa careta. _ A música. Timber. Kesha… Pitbull…?
Eu fiz que não com a cabeça porque não fazia a menor idéia do que ela estava falando.
_ Você precisa mesmo sair de casa.
Estávamos num casarão de dois andares com escadas em caracol cheias de universitários fedendo a cerveja barata. Puffs e tapetes espalhados tentavam tornar o ambiente menos frio e mais aconchegante, mas a enorme pista de dança no centro do lugar tinha sido esvaziada para receber a multidão que agora disputava espaço no tapa. A luz era baixa, quase uma penumbra, e o cheiro de álcool embrulhava o meu estômago e parecia grudado no chão, no teto e nas paredes.
Alice puxou minha mão com força, quase estalando meu pulso.
_ Ali!
_ Desculpa. Você vai beber o que?
_ Hm.. cerveja? _ achei que estava abafando.
Ela me olhou de cara feia.
_ Cerveja não é pra você, Bella. Cerveja é pra gente como eu, que não precisa de nada mais que uma água com gás pra ficar alucinada _ ela abriu um sorriso de canto que dizia muita coisa. _ Espera aqui, eu volto logo.
Eu não queria esperar ali, não queria mesmo. Mas em um passe de mágica, Alice já havia desaparecido, e minha única opção, além de trabalhar o dom da paciência, era furar a pista na direção em que ela tinha sumido. Totalmente inviável com aqueles scarpins. Eu ia terminar espetando uma dúzia de pés no meio do caminho, se dependesse das minhas habilidades com saltos agulha.
Fiquei parada onde ela me deixou, alguns metros afastada da pista, quase em segurança.
Cruzei os braços, depois descruzei e olhei o relógio. Tarde, muito tarde. Era quase meu aniversário e eu estava ali, a quilômetros de distância, tentando provar alguma coisa a alguém. Não a Charlie ou Esme, nem mesmo a Alice. Eu estava tentando provar a mim mesma que podia, sim, ser só uma garota comum, ficando bêbada e beijando desconhecidos no meio da madrugada.
A idéia nunca me pareceu tão sem sentido.
Eu queria minha casa. Meu quarto. Minha cama. Queria estar em QUALQUER lugar silencioso e pacífico! Uma ilha deserta, talvez. Aquele vestido, aqueles sapatos, a maquiagem... nada daquilo era eu. Precisava encontrar Alice e dizer que tinha me arrependido. Só esperava que ela não se importasse muito por ter que voltar sozinha.
Entrei na pista de dança, finalmente, sem muita confiança. Na ponta dos pés, quase tropeçando nos scarpins, tive um vislumbre do bar enorme e mais iluminado nos fundos da sala. Alice só podia estar lá pegando drinks. Dei alguns passos naquela direção, mas logo fui engolida pela multidão de corpos suados que se espremiam uns contra os outros. Uma garota ruiva da aula de Psicopatologia, com um vestido colado cor da pele e botas de cano alto, se dividia entre as bocas de três outras meninas.
Fui facilmente jogada de um lado para o outro enquanto tentava atravessar o lugar. Conforme tentava sair da cama de gato em que havia me enfiado, mais o cerco se fechava. “Isso só pode ser um pesadelo. Merda de lugar, merda de festa!” Eu estava tremendo de frustração...
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“Todo colega de quarto mantido acordado
Por cada suspiro e grito nosso
Todos os sentimentos que eu recebo
Mas eu ainda não sinto sua falta
Somente quando eu paro para pensar sobre isso
Eu odeio tudo sobre você
Por que eu te amo?
Eu odeio tudo sobre você
Por que eu te amo?” (Three Days Grace — I Hate Everything About You)
https://www.youtube.com/watch?v=d8ekz_CSBVg#t=74
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Fiquei estática. Por um momento não me importei em estar sendo arremessada feito uma bola de basquete pela pista. Aquela música... “Ah, eu adoro essa música!” Three Days Grace era uma das minhas bandas preferidas e meu corpo passou a se mexer involuntariamente ao som da batida.
Era envolvente demais. Foi só quando senti os ombros relaxarem que percebi o tamanho do peso que andava carregando sobre eles. Levei as duas mãos até a nuca e mexi o pescoço de um lado para o outro como se estivesse despertando de um longo sono preguiçoso. Massageei a nuca devagar com as pontas dos dedos, círculos firmes que fizeram meu corpo tremer de satisfação.
Fechei os olhos, seguindo a letra:
“All the feelings that I get
But I still don't miss you yet”...
E de repente eu já não era a única cantando. Senti primeiro o roçar dos lábios na minha orelha e meu corpo reagiu em alerta. Num primeiro momento eu era a Srta Cubos de Gelo, evitando ao máximo ser tocada, e em seguida estava a ponto de derreter.
O fogo ali parecia estar ligado no máximo. Minha pele começou a suar...
Não virei para trás temendo quebrar o encanto. O estranho continuou a sussurrar com sua voz grave no meu ouvido. Meus joelhos estavam fracos... puta que pariu... e quando seus dedos pressionaram minha cintura, uma onda de excitação forte percorreu o meu corpo. Ah, porra. O vestido de Esme parecia ter evaporado. Eu sentia seus dedos direto contra a minha pele nua, línguas de fogo rastejando sobre a minha barriga. Quando chegaram ao estômago, arqueei o corpo, prendendo o ar. Minha cabeça estava zonza sem eu ter ingerido uma gota de álcool. Ele pressionou o peito contra as minhas costas e, aproveitando o caminho liberado, roçou o nariz atrás da minha orelha de um jeito fodido de tão excitante. Juntei as coxas com força sentindo uma aflição miserável e a umidade se formando na minha calcinha.
Quem era ele? Eu ainda não tinha visto o seu rosto, mas nunca havia sentido nada parecido com o seu cheiro antes em toda a minha vida. Seu perfume era uma combinação cítrica e amadeirada, uma coisa selvagem capaz de despertar em mim um desejo que eu ainda não conhecia.
As mãos desceram lentamente, se arrastando sobre a minha barriga. Na altura do umbigo, eu gemi fraca. De olhos fechados, senti a ponta da língua traçar um caminho sinuoso atrás da minha orelha, enquanto suas mãos continuavam a escalada morro abaixo.
Então a música parou. Por um momento, o único som eram as vozes arrastadas e as gargalhada estridentes dos estudantes bêbados. Logo, o DJ lançou mão de outro sucesso comercial instantâneo e os corpos suados voltaram a ter uma desculpa para se esfregar na pista.
Olhei para trás cheia expectativa, mas não tinha mais ninguém ali. Eu estava sozinha.
Ele tinha sumido.
A volta para casa foi simplesmente infernal. Alice inventou de beber todas as cervejas, vodkas e uísques do mundo. Quando ela estava para entrar em uma dieta de sal, limão e tequila, dei um jeito de arrastá-la para o carro e a levei em uma estado tagarela e excessivamente animado para casa.
Ela não parava de falar sobre as suas conquistas amorosas, especialmente sobre um loirinho cabeludo que eu nunca tinha visto na faculdade. O nome dele era Jasper. Tinha cabelos ondulados e compridos, olhos verdes doces e um sorriso fofo. Eu precisava concordar que ele era bem gostosinho, e de um jeito nada “Alice”. Jasper quase não tinha músculos e só exibia – aparentemente – um tatuagem bem pequena no pulso esquerdo: o olho de Hórus, símbolo de poder e proteção. Eu sabia daquilo porque Esme era simplesmente fascinada por história grega e chegara a me contar várias histórias, principalmente quando eu era criança.
Eu não contei a Alice sobre o estranho sem nome com quem trocara uns amassos na festa. Na verdade, eu nem sabia se aquilo se enquadrava na categoria “amassos”. Preferi manter a história para mim, não ia contar a ninguém antes de decidir se eu mesma acreditava nela.
Deixei Alice na sua casa e fui para minha. Depois de um banho quente e demorado, sentei na cama com uma xícara de chá de erva doce. Precisava me acalmar. Toda vez que pensava no estranho de mãos firmes e língua macia, sussurando no meu ouvido, meu corpo ameaçava entrar em combustão espontânea. Oh merda!
Three Days Grace começava a ter um novo sentido para mim.
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