Two Broken Hearts

1 Isto Não é Um Conto de Fadas


Notas iniciais
O ritmo do primeiro capítulo é mais lento e explicativo, mas não achei cansativo, com sinceridade. É importante para o leitor entender um pouco do universo da protagonista e as motivações dela. Deixem reviews, positivos ou negativos, por favor!

A palestra do Dr. Haneke estava tão emocionante, que o ronco alto de Alice ao meu lado me arrancou do sono.

Duzentos e cinqüenta alunos entre o primeiro e o último período ocupavam as cadeiras do auditório, alguns distraídos com seus celulares, outros aproveitando a oportunidade para um cochilo mais longo do que as aulas de Fisiologia do Dr. Cooper.

Assim como os outros, eu não conseguia me concentrar. Mas tinha que admitir que precisava de orientação. Desesperadamente.

Era o meu sexto período no curso de medicina geral na Columbia University, uma das melhores faculdades do país. Apesar de Charlie e Esme garantirem que eu teria um futuro brilhante, que era perfeitamente competente para encontrar e seguir até o fim os meus projetos, já estava começando a me preocupar. Eram tantas as decisões, tantos caminhos e possibilidades, que eu me via confusa entre todos eles.

A verdade é que eu era apegada a metas como um viciado era apegado à sua heroína.

Nasci filha única de um casal de engenheiros, Charlie e Rennè Swan. Meu pai se especializou na área civil e conheceu minha mãe, que viria a se formar engenheira biomédica, ainda na época da faculdade. Os dois tiveram um breve namoro e, por fim, casaram-se em uma cerimônia suntuosa, patrocinada pais abastados, na Catedral de St Patrick.

Meus avós paternos adoravam Renné, e os maternos tinham um carinho enorme por Charlie. Eles faziam uma incrível combinação: ela com seu temperamento forte e sua energia magnética, e ele com sua personalidade gentil e carismática. A imagem perfeita de um mais do que provável “Felizes para sempre”. Quando Rennè engravidou, dois anos após a união, foi como se o sol não deixasse nunca de brilhar na casa dos Swan.

Eu nasci e fui batizada Isabella, como minha bisavó. A família toda esteve em festa até muito tempo depois, com a chegada da primeira filha do amado casal. O parto, no entanto, foi tão complicado que algumas medidas precisaram ser tomadas e Rennè foi avisada de que nunca mais deveria tentar engravidar novamente.

Charlie tentou animá-la, pois ele mesmo estava maravilhado. Não se importava em ter outros herdeiros. Ali estava sua pequena Isabella, perfeitamente capaz de ser amada e mimada para todo o sempre.

Com o passar do tempo, porém, a vontade de Rennèe de ser mãe novamente foi ganhando ímpetos. Ela se mostrou furiosa com a decisão imponente dos médicos, alegava estar sendo privada do seu livre arbítrio. “O corpo é meu”, ela dizia, “Só eu devo tomar decisões sobre ele”.

Mesmo com a relutância de Charlie, ela deixou o anticoncepcional de lado e passou a não usar qualquer tipo de prevenção. Motivado pelo seu amor incondicional, o marido deixou que fosse feita a vontade dela.

Meses depois, Rennè estava grávida de novo. A família se mostrou apreensiva no início, mas, conforme a gestação seguia, entraram no clima de encantamento do casal. Um novo enxoval foi preparado e um dos quartos de hóspede foi reformado para o bebê.

A ultrassonografia que revelou o sexo do meu irmão foi recebida com euforia: um menino! O conto de fadas com o qual Rennè sonhara estava prestes a se tornar realidade.

Os médicos responsáveis pelo diagnóstico negativo sobre uma futura gestação foram dispensados. Rennè decretou que qualquer carga negativa ao seu redor deveria ser banida. Ela escolheu se tratar com o obstetra de uma amiga, que recomendou repouso e todos os cuidados, pois a gravidez era de fato delicada.

Meu irmão, Brian, nasceu prematuro aos sete meses de gestação. Ele morreu em seguida, de insuficiência respiratória. Rennè morreu um pouco antes, ainda durante o parto.

Charlie ficou completamente arrasado. Seu mundo havia sido destruído no momento que deveria ter sido o mais precioso da sua vida. Por mais que a família e os amigos tentassem consolá-lo, o período negro e aterrorizante ameaçava se estender até o fim da sua vida. Deprimido sem o seu grande amor, ele deixou de trabalhar e até mesmo falar. Charlie também mal se alimentava. Passou a vegetar pela casa enquanto ouvia as sinfonias favoritas de Rennè, especialmente Brahms nº 4, pela qual ela tinha verdadeira devoção.

Os empregados da casa atuavam como meus pais substitutos. Ronda me vestia para a escola e ajudava com a lição de casa; John me levava e buscava no colégio, frequentemente assistindo as reuniões de pais e participando das atividades; Theresa me dava as broncas; Gretha conhecia as melhores brincadeiras.

Deus havia levado minha mãe e a alma de meu pai, mas me presenteara com as melhores pessoas que eu poderia conhecer em toda a minha vida.

Meus avós também foram muito importantes naquela época. Meus fins de semana eram divididos entre uma e outra casa. Os pais de Rennè, Abigail e Roland, e os de Charlie, Meg e Henry, eram excepcionalmente gentis em explicar que não era culpa minha mamãe ter ido para o céu de repente, e unânimes em garantir que ela agora era meu anjo da guarda e ainda me amaria, zelando por mim por toda a eternidade.

No meu aniversário de cinco anos, eu não fui para a escola. Ronda colocou em mim um lindo vestido azul de seda e sapatilhas prateadas, e meus quatro avós me buscaram na Mercedes preta de Roland. Meg tinha um biquíni cor de rosa nas mãos.

Passamos a manhã na praia, a tarde no shopping e a noite em um parque de diversões. Não me lembro como cheguei em casa — provavelmente exausta ou dormindo -, mas sei que Charlie não falou comigo, nem me deu um beijo de feliz aniversário. Naquela época, ele havia chegado ao limite, o verdadeiro fundo do poço. Sua aparência era a da própria morte.

Dias depois, e mais de um ano havia se passado após o falecimento de Rennè, meu pai precisou ser internado no hospital em um grave quadro de pneumonia.

Após dias de internação, as notícias não poderiam ser piores. A demora em procurar ajuda havia sido longa demais. Charlie escondera a própria doença e todos sabiam o motivo: ele não queria ser curado.

Meus avós maternos se mostraram entristecidos. Para espanto geral, os paternos ficaram furiosos. Disseram que estava mais do que na hora de Charlie abandonar o luto e voltar seus olhos para a única filha. Meus avós esbravejaram pelos quatro cantos que Charlie simplesmente não tinha o direito de morrer por decisão própria, indo contra a vontade soberana de Deus e abandonando uma criança inocente, que já era órfã de mãe.

Eles me levaram até o hospital durante todo o tempo em que Charlie permaneceu internado. Eu passava o horário de visita com minhas bonecas sobre o provável leito de morte do meu pai. O pouco tempo em que ele passava acordado, me observava de uma forma aflita e angustiada, um olhar terrível que, mesmo naquela época, me arrepiava a alma. Mas, então, seus olhos se perdiam no teto e, em pouco tempo, ele caía novamente no sono.

O médico responsável pelo caso de Charlie, Dr. Bernstein, precisou se ausentar do hospital devido a problemas com a própria saúde. Ele era um profissional experiente e de inteira confiança dos Swan, tendo cuidado de um câncer nos ossos de Meg e um nódulo na garganta de Henry anos antes. O desespero foi total quando anunciaram que uma novata assumiria temporariamente seu posto.

A Dra. Esme Cullen não era realmente uma novata, pelo menos não no universo externo à mente dos meus avós. Ela era uma jovem médica, totalmente apaixonada pelo que fazia. Alta, loira e magra, parecia saída direto das capas de revista, com olhos azuis cintilantes e um sorriso que iluminava os corredores brancos e frios do hospital. Havia sido transferida de uma pequena cidade em Maryland e tinha métodos pouco convencionais, bem diferentes do Dr. Bernstein.

Todos os dias ela conversava com meu pai enquanto monitorava sua reação aos medicamentos, não importando se ele estivesse acordado ou dormindo. No início, Charlie permanecia trancado em seu silêncio habitual. Com o decorrer do tempo, porém, ele começou a se irritar com a persistência tranqüila da Dra. Cullen.

Esme era bonita o suficiente para arrancar suspiros pelos corredores do hospital. Mesmo uma criança, como eu, conseguia perceber a atenção que ela recebia, rodeada o tempo todo pelo sexo masculino. Talvez eu ainda não entendesse como aquilo funcionava, mas via claramente o quanto a Dra. Cullen era querida por todos, rapazes e homens de todas idades.

Alheio ao imenso fã clube de Esme, Charlie nutria uma espécie de ódio gratuito por ela. Ok, talvez não tão gratuito assim. Ela era como o obstáculo entre a vida e a morte. Havia se imposto no meio de sua jornada de redenção, o caminho mais fácil, a busca pelo fim.

A Dra. Cullen parecia indiferente às reações destemperadas do seu paciente mais difícil, que, no início, não passavam de olhares atravessados, mas depois, cresceram para provocações bem mais explícitas. Meu pai finalmente havia encontrado um motivo para voltar falar. Depois disso, bastava Esme entrar no quarto com seu sorriso de um milhão de dólares para a expressão de Charlie se transformar de apática para furiosa.

Diferente de Charlie, eu adorava a Dra. Cullen. Ela tinha uma posição garantida na minha lista de motivos para ir ao hospital todos os dias, logo abaixo de visitar o papai e acima de ganhar o sorvete de morango com calda de chocolate mais gostoso do mundo, que vendia bem na cantina. Ela era doce, gentil e tinha aquele olhar sincero que me fazia suspirar em deleite. E fantasiar também... meu próprio conto de fadas.

De uma certa forma, não era só Charlie que sentia falta de Renné.

Por este motivo, foi com certa decepção que eu recebi a notícia da alta do meu pai. Ele ficaria ainda por alguns dias no hospital, em observação, no entanto seu quadro havia estabilizado, a pneumonia curada pela muito jovem e “inexperiente” Dra Cullen. Meus avós ficaram completamente surpresos, estarrecidos! Mas muito agradecidos. Eu fiquei absolutamente triste por perder mais uma pessoa que parecia gostar mesmo de mim, além de despertar algum tipo de reação no meu pai, mesmo a mais negativa.

Charlie voltou para casa numa manhã chuvosa de segunda feira, perfeitamente compatível com o seu humor.

Theresa me instruiu a não incomodá-lo e Gretha quis me levar ao novo circo da cidade para ver o show de mágica.

Eu dispensei o conselho e o convite e subi as escadas, mas Charlie não estava no escritório e o silêncio era apavorante. Normalmente ele estaria sentado na poltrona e olhando pela janela, enquanto as notas de Brahms reverberassem pelas paredes. Naquela época, elas me pareciam cruéis e furiosas. Ameaçadoras. Eu odiava aquela melodia. Na verdade, odeio até hoje.

Vendo que estava sozinha, corri até a mesa onde Charlie, um dia, trabalhara em seus projetos, e roubei a foto no porta retrato prateado, saindo em disparada para o meu quarto. Lá dentro, coração acelerado mas me considerando em segurança, deitei na cama e chorei livremente, imaginando um mundo onde Charlie sorria para mim todos os dias e até conversava comigo depois da escola. Um mundo perfeito onde minhas amigas iam até minha casa e eu tinha festas incríveis de aniversário, com música barulhenta e palhaços fazendo animais de balões coloridos. Onde meu pai me colocava no colo e ajudava a assoprar as velas.

Na foto, Rennè me observava com a expressão audaciosa da qual eu me lembrava tão bem. Impetuosa era o que ela era; muito corajosa e, de certa forma, cheia de si, orgulhosa. Ela não era tão meiga quanto a Dra Cullen, mas era determinada, apaixonada e sincera, e contava as melhores histórias que eu já tinha ouvido.

Chorei de saudades até cair no sono.

Acordei com os gritos de Charlie no andar de baixo. Levantei na ponta dos pés e fui até a escada, mas não desci. Lá embaixo, ele apontava o dedo na direção de Ronda, enquanto a pobre mulher chorava, trêmula, em total pânico. Ela nunca vira o patrão furioso antes.

Como se pudesse sentir o cheiro de culpa, ele olhou para cima e me viu de pé, ainda no topo da escada. Eu ainda segurava a foto de Rennè, agora amassada entre os dedos rígidos. Arregalei os olhos e corri para dentro do quarto, tropeçando na barra do vestido que se rasgou com um ‘crack’. Na minha inocência infantil, não pensei em trancar a porta do quarto.

Sentada na cama, pernas encolhidas e lágrimas descendo pelo rosto, esperei pela erupção furiosa de Charlie, armado com um cinto provavelmente, ainda que ele nunca tivesse feito nada parecido.

Notas finais
Olá, leitores (se eu tiver algum hehe)! Gostaram do primeiro capítulo? Como eu disse, é bem explicativo... todo ele é uma narração, sem diálogos, mas é porque se trata de contar a história de Isabella, colocar vocês a par de tudo. Ou quase tudo. Essa fanfic reserva muitas surpresas! Espero contar com vocês pra desvendar hehe Comentem o capítulo, por favor, assim eu posto logo o próximo! Bjs