Two Broken Hearts
17 Cavalos Selvagens
Notas iniciais
Wild Horses — Rolling Stones / Guns'n Roses (2:55m)
Quando cheguei ao corredor do segundo andar, vi que a porta do quarto do Cullen estava entreaberta. A música se derramava lá de dentro em acordes arrastados de guitarra, uma melodia doce, sofrida e quebrada. Meu coração se repartiu em pequenos fragmentos e todos eles eram menos que o buraco de uma agulha.
Eu me aproximei devagar, levada pelos versos que estavam apenas na minha cabeça. A canção estava quase toda no instrumental, mas eu conhecia bem a sua letra. Eu me encostei à parede e, sem perceber, comecei a cantarolar baixo...
.
Couldn't drag me away/ Não podem me levar para longe
Wild, wild horses/ Selvagens,cavalos selvagens
Couldn't drag me away/ Não podem me levar para longe...”
A música parou e o silêncio se estabeleceu, dentro e fora do quarto. Mordendo o lábio, me vi atenta a qualquer movimento lá dentro, preenchida pela expectativa de ter sido pega em flagra. Sem razão alguma, me dei conta de que estava na ponta dos pés exatamente como uma criança faria.
Era como se o quarto respirasse. Eu quase podia ouvir seu coração pulsando num ritmo mais lento que o meu.
Engoli em seco e fechei os olhos com força, quando a voz que saiu de dentro daquelas portas fez meu estômago se contorcer.
_ Entra, Swan.
Bem, então era isso. Sem preliminares.
Entrei no quarto.
O cômodo quase inteiro estava mergulhado em penumbra. Deitado de costas na cama, Edward vestia uma camiseta preta e jeans velhos que pareciam dolorosamente atraentes nele. Tinha um livro entre as mãos, sob o facho de uma luminária, e o cigarro entre os lábios.
Seus olhos distraidamente me acompanharam atravessar a porta e pousar em frente a sua cama. Esperei que ele fosse dizer algo, mas nada. Deixei-me ficar ali sem jeito, alisando as pernas da calça, também velhas e surradas, mas que não tinham nada de atraentes.
Um longo momento passou antes que Edward arremessasse o livro para o lado. Este aterrissou macio sobre o colchão, as letras On The Road na capa amarela. Revirei os olhos, sem poder me conter. Jack Kerouac. Era meio inacreditável constatar que, apesar de sermos pessoas tão diferentes, dividíamos gostos em comum.
Ele quebrou o silêncio, erguendo a sobrancelha daquele jeito presunçoso.
_ Veio admitir o fracasso?
Cerrei os punhos ao lado do corpo, mas mantive a expressão neutra. Edward estava tentando me tirar do sério e ultimamente vinha comprovando ser perito na arte. Embora eu fosse uma garota normalmente estável e controlada, perto dele precisava recorrer a yoga, mantras e muita erva cidreira para continuar em cima do salto.
Respirei fundo, mas dessa vez não fiz uma contagem mental. Se ele me chamasse de retardada novamente, a parede de auto-controle dentro de mim ruiria de vez. Havia muito em jogo e tudo dependia da forma como eu lidaria com Edward Cullen daquele momento em diante. Se meu pai o expulsasse dali, seria pouco provável descobrir as origens de Esme, enterradas em Maryland. Talvez impossível.
Era por isso que eu precisava manter Edward por perto pelo tempo que fosse necessário.
Cruzei os braços sobre o peito, encarando-o com um ar de arrogância que contrariava minhas próximas palavras.
_ Vim te propor um novo acordo.
Ele bufou.
_ Eu não estou interessado em um novo acordo, Swan. Eu não revejo os meus acordos. Eu não renovo os meus acordos. Eu cumpro a minha parte, você cumpre a sua. A coisa funciona desse jeito, bem simples. Mas é verdade... eu deveria ter imaginado.
_ Imaginado o que?
_ Que você fracassaria _ ele deu de ombros, um sorriso torto provocador crescendo nos lábios. _ É uma covarde.
_ Eu não sou covarde, estúpido.
_ Ok, princesinha. Então, qual é o seu plano? Me manter escondido dentro do seu quarto embaixo de um bando de ursinhos de pelúcia?
_ Não seja um escroto.
_ Ah, mas faz parte do meu charme. Eu não posso evitar _ ele sorriu torto.
Ele virou de lado na cama, apoiado sobre um cotovelo, e apagou o cigarro em um cinzeiro sobre a mesinha de canto.
Eu estava me sentindo estranhamente sufocada e agitada por dentro. Refiz o caminho até a entrada do quarto e tateei a parede, descobrindo o interruptor.
O feixe de luz pegou Edward de surpresa.
_ Porra, Swan. Eu odeio isso.
_ Você odeia a luz. Só veste preto. Fuma como um louco e dirige aquela moto infernal. É, você não poderia ser mais clichê, Senhor Príncipe das Trevas.
_ Não me analise _ ele disse, mas para minha total perplexidade, havia o indício de um sorriso em seus lábios. _ Quer dizer, então, que você me acha um príncipe?
O malditinho.
_ Não é isso _ respondi, ponderando para soar o mais madura possível. _ Só estou dizendo que não é tão interessante quanto pensa.
_ Bem, nunca foi a minha intenção parecer interessante. Não para você pelo menos.
Oh. Ponto para ele. Aquela declaração ficou presa como um nó na minha garganta.
_ É um alívio ouvir isso, acredite. Depois de ver o jeito como você trata suas... mulheres.
_ E o que tem o jeito que eu trato as minhas mulheres? _ ele abriu um sorriso divertido.
Era como num julgamento, onde tudo o que você dissesse poderia ser usado contra você no tribunal. E com Edward Cullen, tudo o que eu dizia era realmente usado contra mim o tempo todo.
Foi irresistível.
_ Como cadelas cretinas.
_ Cadelas...? _ Edward soltou uma gargalhada, afundando ainda mais no colchão. Parecia ter ouvido a melhor piada do mundo contada pela palhaça mais engraçada do universo: eu.
A raiva estava brotando de mim como água infiltrando em uma parede de pedra.
_ Ok, Edward. Já vi que é impossível dialogar com você. Você é mesmo um babaca. Precisava de umas surras na infância, mas parece que seu pai não foi eficiente nisso.
Os ombros do Cullen se contraíram e o seu olhar perdeu qualquer sombra de humor. Na hora me lembrei das suas costas tatuadas, a visão do inferno que eu testemunhara gravada na sua pele. Aquilo não fora a toa com certeza.
_ Não se ache capaz de entender qualquer coisa sobre a minha infância. Porque você não faz ideia. Pra você foi fácil? Ótimo. Pra mim não foi _ ele deu de ombros disfarçando a dor com o sarcasmo como já era de hábito. Mas eu sabia muito bem que ela estava lá. A dor estava lá. E eu sabia porque era expert em escondê-la do meu próprio jeito.
_ Você também não faz ideia da minha _ respondi, abismada com a sua falta de sensibilidade. Como ele se atrevia a julgar a minha vida fácil? Minha garganta começou a arder, mas eu não queria chorar. Não ali, não na frente dele. _ Acha que me conhece, que entende alguma coisa ao meu respeito? Você não sabe de nada, Cullen. Quer saber o que eu acho de você?
_ Posso imaginar _ ele rosnou.
_ Você teve um momento difícil com quando sua mãe foi embora e precisou se alimentar disso para continuar vivendo. Por que? Viver com ódio é melhor do que amar alguém que não quis você? Alguém que desprezou você?
_ Cala a boca, fedelha!
Ele deu um pulo da cama e eu me assustei, cambaleando para trás. Mas suas mãos se fecharam ao redor dos meus pulsos impedindo a minha queda.
Edward me empurrou até eu sentir a parede fria de gesso contra as minhas costas.
Eu tremia violentamente, dos pés a cabeça. Ele não estava nem um pouco mais calmo.
_ Quer um conselho? Supere! Você odeia sua mãe? Tá legal. Ao menos você TEM uma mãe para odiar _ “E o que eu tenho?”, a pergunta ficou entalada na minha garganta junto a uma centena de outras.
Eu arfava e tremia, mas não lutei para me libertar. Imaginei que isso seria entregar a ele o resto de dignidade que eu ainda conservava. Por outro lado, eu sabia que logo logo acabaria perdendo a batalha para as lágrimas que ardiam furiosas.
_ Por que você não admite, Edward?
_ O que?
Para o meu espanto, a expressão nos olhos dele mudou e o aperto relaxou. Eu poderia ter me soltado, mas não me soltei. Estava olhando para Edward agora, olhando de verdade, e ele retribuía com tanta intensidade que eu me senti tonta. Seu cabelo era uma completa bagunça e eu tive vontade de estender a mão e tocá-lo.
_ Que não me odeia tanto assim.
O olhar dele suavizou.
_ Você não iria querer que eu gostasse de você, Swan.
_ Por que?
Edward fechou os olhos e minha respiração travou.
_ Porque eu sou melhor em odiar do que amar.
Ele não imprensou o corpo contra o meu, mantendo uma distância respeitosa enquanto selava os nossos lábios em um beijo lento e profundo.
Fale com o autor