Charlie e Esme já estavam sentados à mesa quando Edward e eu chegamos para o jantar. Nós dois mantínhamos certa distância um do outro, como se um toque descuidado de pele pudesse despertar uma carga fatal de eletricidade. Eu não duvidava daquilo. Apenas saber o quanto estávamos próximos era suficiente para provocar um delicioso frenesi no meu estômago, como uma centena de borboletas batendo asas simultaneamente.

A sensação era boa. E ruim. E mágica. E apavorante. Ao meu lado, Edward mantinha a expressão impassível, sem demonstrar qualquer traço de insegurança ou nervosismo. Sua postura era ereta e confiante como sempre. Os olhos verdes tinham um leve cintilar malicioso e, ao seguir o trajeto deles, notei que recaíam sobre Esme.

_ Estávamos esperando vocês _ a voz de Charlie saiu em um resmungo. Antebraços sobre a mesa e coluna reta, meu pai nos observava, claramente contrafeito. Eu não podia imaginar outro motivo para o seu mau humor, além de que o Cullen e eu havíamos chegado para o jantar com quase meia hora de atraso. A comida estava intacta na mesa. Fiquei um pouco aliviada por saber que nossa pequena tradição familiar estava sendo cumprida.

Eu me desculpei pelo atraso, mas Edward simplesmente ignorou Charlie, contornando a mesa e sentando-se ao lado de Esme. Assim que ocupou seu lugar, ele enfiou a mão no bolso traseiro do jeans e tirou de lá o celular, passando a mexer no aparelho com a mesma arrogância desinteressada de sempre. Esme limitou-se a um olhar de esguelha que poderia siginificar muita coisa. Na verdade, ela sempre parecia ansiosa por dizer muitas coisas ao filho. E era como se o momento nunca chegasse, uma vez que o Cullen havia criado uma barreira invisível entre os dois que impedia a aproximação da mãe.

Eu me servi de peixe, salada e do arroz a la grega de Ronda que já não estava mais fumegante. Parecia tudo delicioso, mas meu estômago ainda se contraía enquanto algumas imagens dançavam em minha mente. Aquele beijo não durara mais do que uns poucos segundos, mas fora suficiente para deixar os sentimentos dentro de mim ainda mais conflitantes. Naquele momento, Edward não se comportara como o ser egocêntrico e insensível que normalmente era. Nos segundos que duraram aquele beijo, eu havia vislumbrado um fragmento diferente do seu coração. Um fragmento que ele mantivera incólume, preservado das sombras.

Fora um momento breve, mas que prometia durar para sempre.

Charlie e Esme já haviam começado a comer e, na sala de jantar, só havia o som de talheres e o BIP irritante do celular do Cullen. Pelo seu sorrisinho de canto, a conversa devia estar bem animada. Eu quis espetar o garfo de sobremesa na sua mão. Em vez disso, sentada de frente para ele, me estiquei até conseguir cutucar sua perna com o pé descalço. Meus dedos rasparam no tecido áspero da sua calça, mas ele não se sobressaltou, apenas ergueu os olhos sobre o aparelho.

Meu olhar foi bastante significativo. Pela sua expressão indiferente, achei que ele fosse ignorar o recado, assim como vinha fazendo com todo o resto. Para a minha surpresa, o Cullen devolveu o celular ao bolso e passou a se servir também.

Na minha cabeça, os flashes do nosso encontro anterior haviam mudado de foco e eu passei a me concentrar no que demandava urgência. Como eu imaginava, Edward julgara o meu plano uma loucura total, completamente absurdo — nas palavras dele -, mas estranhamente concordara em fazer parte sem apresentar relutância. Nós então partimos para o lado prático da questão. Definimos metas e normas gerais, além das nossas pretensões particulares. Eu cheguei até mesmo a estipular um regulamento, porém Edward afirmou ser desnecessário e perigoso registrar tanta confidencialidade no papel.

Tive a ligeira impressão de que ele estava sendo sarcástico.

Quando Charlie se esquivou para o escritório, a oportunidade surgiu. Edward e eu trocamos um olhar de relance. Ele ainda não havia terminado a refeição, mas, um minuto depois, se afastou da mesa sem dizer nada.

Observei minha madrasta remexer a comida que, àquela altura, já estaria fria. Ela vinha comendo muito pouco e sua magreza já era notável.

Eu podia compreender o por que de Charlie tencionar expulsar Edward daquela casa. A presença do Cullen era como uma erva daninha que vinha se alastrando aos poucos, estendendo suas raízes venenosas pelos quatro cantos. Esme era a que mais sofria. E junto com ela, meu pai, que não suportava vê-la sofrer. Se o Cullen havia durado tanto tempo ali, era porque Esme fantasiava uma reaproximação com o filho. Aquela ansiedade estivera gravada em seus olhos nas últimas semanas, mas vinha definhando a medida que ela perdia as esperanças.

_ Esme _ ela ergueu os olhos do prato. Pela expressão confusa, entendi que acabara de notar a ausência do marido e do filho. _ Preciso falar com você.

O ar surpreso de Esme trouxe a tona nossa discussão a porta do meu quarto. Desde então, havíamos nos distanciado. Para imprimir alguma credibilidade, eu me levantei e contornei a mesa, puxando a cadeira ao lado dela, onde Edward estivera sentado.

_ Eu preciso da sua ajuda _ fingi certo constrangimento. Para mim, mentir era complicado. Ao contrário de Edward, eu não tinha um diploma em cara de pau. _ Estão acontecendo... hm, algumas coisas. E o meu pai não sabe.

Esme franziu a testa, desconfiada.

_ O que você está escondendo do seu pai?

Eu suspirei, cabisbaixa.

_ Não foi minha culpa. Nem dele. Nós não decidimos assim, só... aconteceu.

_ Do que você está falando, Bella?

Ergui os olhos para minha madrasta, que me fitava assustada.

_ Edward e eu. Nós estamos apaixonados.

Eu tentava imaginar o Cullen nas escadas se divertindo às minhas custas, mas duvidava que fofoca estivesse entre as principais características dele. Provavelmente, o safado estaria no quarto, relaxado sobre a cama, enquanto dava atenção para sua audiência ou lia algum livro interessante sobre o poder libertador do Foda-se.

O vinco entre as sobrancelhas de Esme ficou mais profundo.

_ Apaixonados, você e Edward? _ ela sorriu com um certo pesar _ Não imagino como. Me desculpe, Bella, mas nunca vi vocês se falarem. Na verdade, os dois mal se olham. O que me parece é que mal toleram a presença um do outro...

_ Não _ o nervosismo me traía, eu era péssima mentirosa. _ Não era assim. Quer dizer, era, mas não é mais. Confesso que nós tivemos um início complicado, mas os nossos sentimentos mudaram.

Os ombros de Esme arriaram. Notei que o vestido parecia largo demais no seu corpo.

_ E quando isso aconteceu? Porque o relacionamento entre vocês parece tão terrível quanto sempre. Veja, Bella _ ela soou compreensiva. _ É normal as garotas fantasiarem certas coisas, como príncipes encantados e contos de fadas _ Esme hesitou. _ Mesmo depois de certa idade, não é tão incomum.

Contive um suspiro irritado. Depois de uma breve conversa, surpreendentemente sem muitas discordâncias, Edward e eu havíamos chegado a conclusão de que Esme seria mais fáicl de enganar. E uma vez que ela estivesse convencida, a probabilidade de enredar também Charlie se tornava maior. No entanto, era óbvio que eu não estava conduzindo a situação da maneira correta.

Respirei fundo. O que eu poderia fazer para soar mais convincente?

E foi então que a vozinha adocicada de Alice ecoou na minha cabeça.

_ Não é fantasia, Esme _ peguei sua mão, desviando o olhar sutilmente dos olhos verdes inquisitivos dela. _ Bem, na verdade tem um pouco de contos de fadas sim, porque é assim que me sinto _ eu sorri, timidamente._ Nas nuvens! É mio mágico, sabe? Eu nunca esperei que Edward... _ à menção do nome dele, exalei um suspiro que saiu mais profundo do que estava previsto. _ Quando ele chegou, eu o achava insuportável. Imbecil, arrogante e... aquele seu ar de superioridade..! _ eu bufei, rolando os olhos. _ Mas a verdade é que a gente tem mais coisas em comum do que eu imaginava.

_ Como o que? _ ela perguntou, ainda incrédula.

Reuni coragem para olhar diretamente em seus olhos. Esme me encarava em muda expectativa.

_ Nós dois queremos ser amados. Nós dois desejamos muito isso. E talvez, bem... talvez dê certo. Você sabe... unir dois corações quebrados e tentar torná-los um inteiro.

As pupilas de Esme dilataram levemente, o meu discurso a havia impressionado. Procurei reconhecer em mim o orgulho pelo que eu havia acabado de fazer, mas não encontrei. Mentir não era motivo de orgulho, nem nunca seria. E eu estava mentindo para a minha madrasta, a mulher que vinha cuidando de mim desde que eu era criança, da melhor forma possível. Muito melhor do que eu o meu próprio pai. Enganá-la cortava o meu coração ao meio e eu recitava internamente o seguinte mantra "É por uma boa causa".

Eu já havia tomado uma decisão. Viraria Edward Cullen de ponta-cabeça e balançaria até caírem todas as respostas que eu precisava.

Esme endireitou-se na cadeira, observando Ronda e Thereza que vinham retirar a louça. Após o que pareceu uma eternidade, o serviço estava completo e as duas pediram licença para sair da sala.

Minha madrasta me olhou com um semblante preocupado.

_ Vocês estão juntos, então? Charlie não vai receber isso muito bem _ ela alertou, meneando a cabeça. _ Edward é... difícil. Eu vou confessar uma coisa, Bella _ ela inclinou-se para frente e diminuiu o tom de voz até se tornar um sussurro. _ Seu pai pretende mandar Edward para fora dessa casa. Neste fim de semana ou no decorrer da próxima. Estou fazendo o impossível para mantê-lo aqui mas não acho que vá conseguir. Edward é bastante genioso, eu nem sei realmente porque ele decidiu morar aqui. Foi tão inesperado! No início, achei que ele quisesse se reaproximar de mim, mas agora não faço a menor ideia do que pretende.

Eu assenti, embora percebesse que ela procurava por respostas minhas. Quase tanto quanto eu esperava por respostas delas.

_ A mente de Edward ainda é uma incógnita para mim. Ele está aprendendo a confiar... aos poucos _ assegurei. _ Mas tenho certeza de que as coisas vão mudar por aqui se meu pai der mais uma chance a ele. Edward precisa de um lar, de uma família...

_ De uma namorada _ ela completou, com um sorriso de canto e um olhar cúmplice.

Eu não havia percebido o quanto meu coração estivera acelerado até que, finalmente, as batidas normalizaram. Levei a mão de Esme até os lábios e depositei ali um beijo de agradecimento antecipado. Meu sorriso não cabia no rosto.

Minha madrasta ainda não estava radiante, mas já não parecia tão infeliz.

_ Certo, Bella. Eu vou ajudar vocês.

Notas finais
Olá, meninas! E então, o que acharam do capítulo? Escrevi ele durante a manhã no trabalho (ainda estou aqui, aliás, hehe) e espero sinceramente que tenha agradado! E essa união de Edward e Bella hein? E envolvendo a pobre Esme na história tsc tsc Edward não tem a menor consideração pela mãe, então acho que as surpresas por conta da mentira ficam na conta da Bellinha. HOJE A FIC COMPLETA 3 MESES E ESTAMOS EM FESTA o/ mandem seus reviews, comentando, pedindo, brigando... quem não favoritou ou marcou acompanhar, não se esqueça de fazê-lo. E quem estiver curtindo demais a história, pode aproveitar para recomendar :D Agradeço por estarem sempre aqui