Two Broken Hearts
19 Loucos
Duas semanas se passaram. Este foi o tempo que Esme levou para convencer Charlie de que Edward não era um estuprador de criancinhas, viciado em drogas altamente violento, assassino em série ou qualquer outro tipo de ameaça à sociedade.
A princípio, meu pai havia ficado louco com a notícia de que Edward e eu estávamos namorando. Num belo dia eu era ignorada, completamente fora do campo de visão de Charlie Swan; já no seguinte estava na sua mira.
Ele nunca prestara tanta atenção em mim, ao menos não nos últimos quinze anos. De repente, os assuntos da empresa já não pareciam tão importantes e o seu tempo não parecia assim tão escasso. Charlie queria conhecer detalhes do meu relacionamento, as motivações, as expectativas e que tipo de limites eu havia imposto para... "proteger a minha honra".
Era fato que a minha honra, infelizmente, ainda permanecia intacta. Mas eu não daria a Charlie a satisfação de estar por dentro da minha vida amorosa. Ou da total ausência dela.
Para minha surpresa — e alívio! -, Edward também estava fazendo sua parte. Ele estava presente em cada almoço e jantar, mesmo quando Charlie não podia comparecer por questões de trabalho, o que agora acontecia com muito menos frequência. Seu celular ficava dentro do bolso, certamente não desligado mas ao menos no silencioso, e ele mantinha o mínimo de educação necessária para uma convivência pacífica.
Esme não mais parecia alheia a tudo. Aos poucos, ela retornava à realidade e seus olhos iam recuperando alguma coisa do brilho perdido com a chegada de Edward. Ela ainda parecia alguém triste e machucada, mas não era mais a mulher perdida de dias atrás. Seus olhos acompanhavam tanto os movimentos do filho, como os meus, na esperança de flagrar algum gesto, um sinal qualquer de intimidade disfarçada.
Eu ainda podia ver uma sombra de dúvida pairando em seus olhos.
E era por esse motivo que eu estava, agora, na entrada de casa, brigando com o controle de tração da Yamaha R1 de Edward.
_ Devagar, Swan. Devagar. Você não quer foder a Highlander.
O Cullen apertava minha não contra o punho esquerdo da moto na ilusão de garantir a estabilidade. O toque não era gentil, mas não exatamente desconfortável. Ele estava em pânico de que eu pudesse arrebentar aquela porcaria contra o muro mais próximo.
Já eu tremia dos pés a cabeça porque sabia que se ele me soltasse seria exatamente o que aconteceria.
Eu deveria estar reagindo de maneira mais idiota à pressão calorosa da sua mão e à proximidade do seu corpo, enquanto ao meu lado ele se transformava em um manual de instruções de pilotagem ambulante. Os cabelos cor de bronze refletiam o sol e os olhos pareciam de um verde ainda mais límpido pela manhã.
Mas a sensação crescente de perigo disparara um alarme dentro de mim e agora eu estava ocupada demais sentindo medo.
_ Se você foder a minha moto, Swan...
_ Cala a boca, babaca. E controla essa língua. Meu pai não precisa achar que eu namoro um fugitivo da cadeia.
_ Dane-se, Swan.
_ Dane-se você, Cullen!
A R1 ameaçou voar quando, sem querer, deixei escapar a embreagem. Edward correu por três segundos inteiros ao meu lado, enquanto eu procurava o freio com o estômago revirado prestes a sair pela boca.
Quando a moto firmou, minhas mãos suavam frio.
_ Ops.
_ Ops? _ ele arregalou os olhos e eu sabia que seu coração estava palpitando tanto quanto o meu _ Você não podia ter escolhido se matar com a porra do seu carro?!
Revirei os olhos tentando bancar a indiferente, mas estava longe disso. Eu quase havia morrido! E tudo o que o Cullen se preocupava era com sua preciosa moto de merda.
_ Você sabe muito bem por que fizemos isso. Nosso namoro precisa de credibilidade.
_ Deixar você pilotar a Highlander é credibilidade demais pra mim.
_ Highlander. Que nome estúpido para uma moto _ provoquei, descendo do banco confortável que parecia ajustado ao meu corpo.
De acordo com o Cullen, a R1 era um modelo de competição, todo na cor preta, com 1000 cc e controle de tração. Eu não sabia exatamente o que aquilo significava, mas parecia ter um forte valor sentimental para ele.
_ Aliás, dar nome a uma moto é uma coisa realmente...
_ Dispenso a sua opinião _ ele resmungou, antes de dar as costas e se afastar com a moto na direção da garagem.
O que foi que eu fiz agora?
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Naquela noite, Edward e eu quase não nos falamos. Ele estava emburrado à mesa quando nos encontramos, e algo em seu comportamento me dizia que não se tratava do seu mau humor habitual mas daquele instinto sombrio que o perseguia.
Troquei poucos olhares com ele durante a refeição. Seus olhos e pensamentos pareciam estar sempre em outra coisa. Aquilo, eu não sabia por que, estava deixando meu coração inquieto. Nós não éramos namorados, não éramos sequer amigos, mas eu tinha a sensação de que ele deveria saber que podia confiar em mim.
Edward foi o primeiro a subir, antes mesmo de Esme e eu terminarmos o jantar. Charlie havia subido para o escritório minutos antes, a fim de terminar um novo projeto no qual estava atolado até o pescoço. Antes disso, no entanto, lançara um olhar significativo para o Cullen, que parecia dizer “Muito cuidado, cretino”.
Restamos então apenas Esme e eu à mesa. Terminei a refeição em poucos minutos e pedi licença, optando por uma retirada rápida e estratégica no intuito de evitar mais uma avalanche de mentiras.
Fui subindo as escadas, pulando os degraus de dois em dois, e quando cheguei ao segundo andar, vi que a porta do quarto de Edward estava fechada.
Hesitei apenas um segundo, sentindo um maravilhoso frio na espinha. Era aquela famosa sensação de que tudo podia acontecer. Para o bem e para o mal.
Eu me aproximei devagar e dei duas batidinhas, empurrando a porta em seguida para testá-la. A madeira deslizou, e logo eu vi Edward meio sentado e meio deitado na cama, fitando o teto branco e a luz iridescente da lâmpada. Suas mãos estavam sobre o peito e o cabelo molhado do banho recém tomado. O aroma no quarto era de menta e sabonete de limão, e o cheiro de nicotina era fraco, quase inexistente, mas estava lá.
_ Aconteceu alguma coisa?
Ele deu de ombros.
_ Tem sempre alguma coisa acontecendo.
Ok. Ele estava sendo difícil. Considerei que um pouco daquilo ainda pudesse ter relação com o quase acidente envolvendo a Yamaha.
_ Eu vim pedir desculpas. Você sabe... pela moto. Eu não deveria ter zombado. E bom, eu não sei pilotar. Não sabia muito bem o que fazer...
_ Certo, Isabella. Você já está cumprindo a sua parte no acordo. Não precisa bancar a boa samaritana _ ele disse com a voz tão vazia quanto os olhos. _ Seu pedido de desculpas para mim não vale de nada. Além disso, você não quebrou a moto. Se tivesse, eu teria quebrado o seu pescoço.
Em vez de recuar diante do seu surto de agressividade, dei um passo adiante.
_Então é isso.
Ele estreitou as sobrancelhas, olhando diretamente para mim pela primeira vez desde que eu entrara no quarto.
O ar estava carregado de tensão e eu podia senti-la vibrar também na minha corrente sanguínea.
_ O que?
_ Você está puto com alguma coisa e está descontando em mim. É tão óbvio!
Ele gemeu, revirando os olhos em sinal de protesto. Estava usando um par de coturnos pretos de cadarço e seus olhos estavam brilhantes mas desfocados, como alguém que estivera chorando por algum tempo.
_ Louca.
_ Louca, eu?!
_ É _ ele respondeu, calmamente, me olhando dentro dos olhos agora. _ Fodidamente Louca.
A indignação tomou conta de mim e imediatamente meu rosto começou a pegar fogo, eu não sabia se por vergonha ou raiva.
Será que eu estava mesmo ficando louca? Por que havia concordado em ajudá-lo a permanecer na minha casa? Por que tinha inventado aquele plano idiota e me unido ao Cullen? E por que, MEU DEUS, eu sentia que devia estar presente ao seu lado quando ele precisava de consolo?
_ É estranho ouvir isso de alguém que deveria estar usando camisa de força na ala de segurança máxima.
Ele deu de ombros pela segunda vez e sorriu com amargura.
_ Eu reconheço as minhas próprias merdas. Mas e você, Isabella? Reconhece as suas?
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No dia seguinte, acordei com a sensação de estar de ressaca, embora não tivesse tomado nada além de água durante todo o dia anterior.
Deixei o corpo ficar na cama por um tempo, mas não consegui relaxar. Meus ombros estavam tensos, a musculatura rígida e eu me sentia um pouco fraca, além de estar com uma dor de cabeça leve mas persistente. Medi minha temperatura com o termômetro e descobri que estava com 38º.
_ Droga.
Eu me levantei da cama sem vontade e me arrastei para o chuveiro, Tomei um banho frio a fim de despertar o corpo, já que a mente estava funcionando a pleno vapor. Vesti jeans surrados e um moleton azul escuro bem quentinho, embora para o resto da humanidade não estivesse fazendo frio lá fora.
Quando voltei para o quarto, fiquei paralisada ao me dar conta de algo que eu não havia percebido antes. Uma coisa que certamente não estivera ali, sobre a minha estante, no dia anterior.
Eu me aproximei e tomei o livro entre as mãos, a capa amarela surrada e desgastada de On The Road ameaçando ceder à pressão do tempo. Havia um marcador de texto enfiado logo entre as primeiras páginas. Eu abri ali, notando um trecho sublinhando por esferográfica preta.
Meu coração ficou preso na garganta enquanto uma lágrima rolava solitária pelo meu rosto.
“Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.”
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