Two Broken Hearts
63 Assuntos de Família
POV Edward
— Foi uma pena você não ter conseguido chegar a tempo do velório.
Eu não havia desejado estar lá a tempo, mas não corrigi o Coronel.
— Como aconteceu?
Ele ergueu as sobrancelhas, mas a expressão em seu rosto permaneceu inabalável. Era impossível descobrir o que se passava na cabeça do meu avô se ele não quisesse deixar transparecer. O homem era um maldito muro de Berlim. Quando moleque, eu tinha mais sorte com os seus sentimentos, porque estavam profundamente ligados aos meus. Mas, conforme fui crescendo, eles foram se fechando a mim.
Por fim, quando me mudei da fazenda, havia restado apenas o silêncio.
— Você conhecia o seu pai _ ele deu de ombros, me encarando com sarcasmo evidente. _ Ele era um perfeito imbecil.
— O que aconteceu? _ eu não daria a ele o gosto de revidar àquilo. Com certeza, não por Carlisle, que não merecia a menor consideração.
Meu avô bufou, com um gesto evasivo da mão.
— Os Jackson, da fazenda ao Norte daqui. Você se lembra? Aqueles com o chapéu engraçado de cowboy _ ele balançou a cabeça, soltando um muxoxo. _ Pois bem, Emery Jackson tinha uma nova esposa, Iris... Isis... eu não sei bem. Ela era uma vadiazinha, que vivia atrás do pau do seu pai. Você conhece bem o tipo _ o olhar dele se acendeu de um jeito rude e obsceno, procurando reconhecimento, e eu cerrei as mãos, dando um passo adiante.
— Calma, rapaz. Se acalma _ ele levantou as mãos em um gesto de rendição. _ Você não bateria num velho, não é? Bom, eu estou contando que não. De qualquer forma, eu não estou me referindo à coisinha que está com você agora. Estou falando das putas que você costumava comer por aqui e por ali... Daytona, Ava, Georgia... está contando comigo? _ ele riu, um som asqueroso de porco saindo pelo seu nariz enquanto os ombros se balançavam para frente e para trás. _ Um Cullen não nega o sangue quente nas veias, rapaz.
Minhas costas e ombros se enrijeceram. A conversa fiada do Coronel era o seu cartão de visitas, mas eu não deixaria que brincasse comigo. Não havia nada que eu quisesse mais do que ceder aos meus instintos e dar um chute no seu rabo. Eu poderia muito bem esquecer que era o meu avô e machucá-lo pra valer. Mas, então, viriam os seus capangas e eu seria virado do avesso como um cachorro velho no meio da estrada.
— Você pode me dizer o que houve com o meu pai ou eu posso sair por aí e descobrir sozinho. Mas, então, você perderia a satisfação de dar a notícia pessoalmente.
Ele cruzou os braços sobre o peito largo, apoiando as costas no tampo da mesa de madeira do escritório. Não havia um computador ali. Nem mesmo um aparelho celular. Em vez disso, centenas de papéis haviam sido distribuídos em pilhas. O Coronel era um homem de negócios a moda antiga.
— Não é prazer nenhum contar isso a você ou qualquer outro _ ele deu de ombros, com a expressão mais cínica do mundo. _ Eu conto porque você era filho daquele pobre homem e merece saber.
Eu revirei os olhos, resistindo à tentação de esganar o velho.
— Pois bem, meu filho, o asno do seu pai andou se perdendo atrás daquele rabo de saia que eu disse a você... a tal Ilma ou coisa que o valha. A vaquinha andou prestando aqueles serviços de mulher ao seu pai, você sabe muito bem quais _ ele deu uma piscadela e um sorriso de canto, repugnante, surgiu no seu rosto. _ Pois bem, um homem que honra as calças que veste não perdoa esse tipo de coisa da própria mulher...
Minha respiração travou e a dor na minha garganta me pegou de surpresa. Desde o maldito telefone que me enviara até ali, nada parecido com aquilo tinha se passado pela minha cabeça. E o meu avô, com certeza, não havia se empenhado o mínimo em tornar as coisas mais fáceis para mim.
Uma confusão de sentimentos me atropelou e eu fiz o possível para não levar a mão até o peito, que ardia miseravelmente. Carlisle tinha sido morto. Nenhuma merda de câncer ou uma porra de um AVC. Meu pai havia sido assassinado.
— Ele era um bode velho sem jeito _ O Coronel anunciou, em tom de desprezo. _ Eu o avisei, e avisei, e avisei... mas Carlisle gostava das vadias de voz macia. Foi assim com a sua mãe, afinal.
Ele estava me provocando. Eu conhecia muito bem o jogo e não queria dançar aquela música, mas precisava. Ao menos, por enquanto. Ao menos, enquanto estivesse debaixo do seu teto, respirando o seu ar tóxico.
— Eu quero ver o corpo do meu pai _ anunciei, sem reconhecer minha própria voz quando ela, por fim, saiu. _ E mais tarde, quero ter uma outra conversa com você.
— Tudo bem. Se você ficar para o almoço_ meu avô colocou sua condição. _ Posso mandar fazer a sua sobremesa preferida, Eddie.
Eu ignorei o seu sorriso sádico e saí do escritório batendo a porta.
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POV Bella
— Você fica para almoçar? _ Charlie me perguntou com um olhar ansioso no rosto.
Eu tentei dizer que não, mas não tinha um bom motivo para isso. Exceto, talvez, que não estava pronta para deixar no passado o quão mal ele havia me feito. Mas aquele era o meu pai. E ele estava doente, me pedindo, o que poderia ser, nosso último tempo juntos.
Pensar naquilo fez um arrepio percorrer minha espinha e eu esfreguei os braços, torcendo para que ele não tivesse percebido que eu estava tão pouco a vontade. Porque além do meu incômodo em estar novamente dentro do palácio de aparências e boas maneiras dos Swan, havia uma outra questão importante: Esme. Eu não havia decidido quando ou mesmo se deveria sondar Charlie a respeito do que sabia sobre ela.
Para o meu alívio foi ele mesmo quem tocou no assunto.
— Se você puder ficar, vai me fazer companhia. Esme vai ficar no centro de pneumologia esta tarde. De novo _ o olhar dele ficou distante, antes de ele me encarar novamente com um sorriso magoado _ Acho que ela não está psicologicamente preparada para conviver com um velho moribundo.
Eu senti o sangue ferver e me controlei para não despejar para ele, ali mesmo, tudo o que sabia sobre a minha madrasta. Charlie estava debilitado e não precisava de um caminhão de verdades atrozes passando sobre ele naquele exato momento.
— Eu fico _ assenti, acrescentando rapidamente a seguir, sabendo como aquilo havia soado _ Para almoçar.
— Obrigado _ meu pai sorriu, fraco. _ Tenho alguns assuntos importantes para tratar com você, Bella. Mas prometo que não vou aborrecê-la, nem tomar muito o seu tempo.
Eu assenti, mais uma vez. Não podia evitar ser gentil com ele. Mas, na minha mente, ainda eram muito vivas as imagens do dia em que eu saíra daquela casa. O dia em que eu montara na garupa da moto de Edward sem olhar para trás. Naquele dia, Charlie era o lobo-mau e Esme, a fada-madrinha que cuidara de mim a vida inteira. Quanta coisa tinha mudado! Como a minha vida havia se tornado diferente...
Durante o almoço, Charlie e eu conversamos longamente. Eu falei sem cansar e ele ouviu. Palavra por palavra. Vez ou outra, interrompia para fazer uma pergunta.
— Você está trabalhando para Adriana? Isso, sim é uma surpresa! _ ele exclamou _ Está gostando?
— Sim, muito _ eu respondi, sem hesitar.
— E a Columbia? _ ele perguntou, reticente.
Eu o encarei, aturdida. Como assim "E a Columbia"? Achei que aquela questão estivesse mais clara do que água em um copo de vidro transparente.
— Eu não tinha como pagar a universidade _ respondi, com simplicidade _ Imaginei que você...
— Eu fosse cancelar a universidade? _ ele questionou, arqueando as sobrancelhas por um momento. Depois, balançou a cabeça e se serviu de mais um copo de vinho _ Bella, Bella... eu jamais faria algo parecido. Sabe que eu sempre priorizei os seus estudos.
Meus ombros arriaram.
— Mas eu pensei que... depois que eu saí dessa casa...
Ele deu de ombros.
— Eu fiquei chateado. MUITO. Mas nunca faria nada para prejudicar você. Não, intencionalmente _ seus olhos fixaram nos meus e, embora seu olhar fosse firme, o talher tremia em suas mãos. Aquela percepção me deixou pétrea de medo _ Embora eu tenha prejudicado você de todas as outras formas.
Eu engoli em seco. A expressão no rosto de Charlie era de arrependimento. Eu havia tentado permanecer imune, até mesmo indiferente, mas aquilo não estava funcionando.
— Você pode imaginar por que eu pedi que viesse até aqui, Bella?
Eu demorei a responder e, quando fiz isso, meus olhos estavam marejados. Era tarde demais para fingir que eu não me importava. Meus sentimentos estavam nítidos em cada palavra, cada gesto, na felicidade óbvia que aquele almoço estava despertando em mim.
— Para me pedir perdão.
Charlie pensou um pouco e assentiu.
— Por isso, claro. E outra coisa.
Uma ruga se formou no meio da minha testa.
— Que outra coisa?
Charlie limpou os lábios com o guardanapo de linho, colocando-o de volta sobre a mesa. Achei que ele fosse se servir da terceira taça de vinho, mas não o fez. Suas mãos estavam marcadas por veias grossas e escuras, contrastando com a brancura da pele.
Algumas semelhanças entre nós eram tão evidentes, que chegavam a ser assustadoras. Na infância, eu costumava olhar as fotos da minha mãe e me perguntar o que nós duas possuíamos em comum. O castanho do meu cabelo, o chocolate dos meus olhos, a cor da minha pele... eu era a versão feminina e mais jovem do meu pai.
Os traços da sua doença foram ofuscados pelo brilho ávido em seus olhos quando ele tornou a me observar.
— Eu não posso morrer sabendo que você não me perdoou, Bella. E não posso morrer... sabendo que não tentei, ao menos, reparar os meus erros. Tudo o que eu tenho é seu. E quero que você assuma tudo o que é seu... imediatamente. Se estiver disposta, claro.
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