Notas iniciais
Espero que curtam o capítulo, meninas

No dia seguinte, acordei com o despertador barulhento no criado mudo.

Fiz uma careta e estendi a mão para desligar o alarme, mas com o menor dos movimentos minha cabeça latejou. Ah, porra. Isso era o que dava virar um drink sem estar acostumada. Duvidava muito que Alice tivesse aquele tipo de problema com todas as tequilas que entornava nos finais de semana.

Fiz um esforço para virar de costas e fitei o teto enquanto minha mente vagava pelos acontecimentos da noite passada. Edward havia me desprezado, aquilo era um fato. Ele me achava menininha demais e se atrativos para freqüentar a sua lista pouco seleta de amantes.

Aquilo era mesmo humilhante. Eu me lembrava exatamente do que Esme havia dito sobre o seu filho na longa conversa que tivemos na noite da sua chegada.

Edward era arrogante, ríspido e arredio. Por vezes chegava a ser agressivo. Fora expulso de dois colégios durante o ensino médio por não saber se comportar, especialmente porque não suportava receber ordens. Se metia frequentemente em brigas. Além disso, não tinha o menor respeito pelas mulheres com quem se envolvia. Se determinada noite estava ao lado de uma, na noite seguinte havia outra em sua cama.

Não havia nada positivo na sua personalidade, ao menos nada que Esme tivesse feito questão de ressaltar.

Suspirei, desanimada.

Se a própria mãe era incapaz de encontrar suas qualidades, talvez não houvesse mesmo nenhuma.

Contrariando a exaustão do meu corpo, levantei de cama devagar e me arrastei para o banheiro. Depois de um banho rápido e gelado, me senti mais desperta. De ressaca, mas desperta. Vesti jeans, tênis e camiseta branca e ia deixando o quarto, quando lembrei...

Corri até a estante e lá estava ela. Peguei a agenda com capa de couro vermelha que havia se tornado minha companheira inseparável dos últimos anos.

Na gaveta debaixo, Lara e o tenente Ryan Fox aguardavam por mais uma sessão de sexo selvagem na relva.

Mais tarde, quem sabe?

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Alice estava radiante naquela manhã. Ao contrário de mim havia tomado três doses de caipirinha no Seven’n Seven, mas não havia sinais de ressaca, apenas um sorriso glorioso em seu rosto.

_ Jasper é um fofo! Ele me convidou para passar o fim de semana com ele no lago.

Arregalei os olhos, atônita.

_ Vocês mal se conhecem!

Ela respondeu com um suspiro romântico, a caneta dançando sonhadoramente sobre o papel. Não conseguia ver o que Alice estava escrevendo mas podia apostar que não tinha nada a ver com a matéria. Muito provavelmente, se eu me inclinasse para o lado veria “Jasper e Alice para sempre” ou alguma coisa do tipo.

Era legal que ela estivesse apaixonada, mas... eu não sabia explicar. Talvez estivesse sofrendo de um pouco de ciúmes. Enquanto Alice havia sido apenas minha melhor amiga solteira, eu me sentia um pouco menos sozinha. Bem, tecnicamente ela continuava solteira, eu só não sabia até quando.

Afastei aquele pensamento idiota, mas a verdade é que eu estava prestes a ficar verde de inveja! Apesar de nunca ter me interessado seriamente por ninguém e jamais ter passado de beijos e carícias sem importância, a idéia de ter uma pessoa que me amasse e compreendesse, me aceitasse daquele jeito estranho e quebrado, era tentadora.

Mas eu sabia que aquele príncipe encantado não existia. Quem seria capaz de amar um coração partido, afinal? Eu me lembrava do dia em que Charlie finalmente começou a se abrir para mim...

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_ A mamãe é um anjo?

_ Quem disse isso? Ronda?

Balancei a cabeça, negando.

Para o meu total espanto, Charlie descruzou os braços e se ajoelhou no chão, ficando quase da minha altura. Com a testa franzida e os olhos brilhantes, parecia tão sem jeito quanto eu.

_ Bella, você já está grandinha demais para acreditar em anjos.

Ele segurou ambas as minhas mãos, caídas ao lado do corpo. De vestidinho branco e longo, cabelos castanhos desgrenhados, eu me sentia criança demais para ser considerada grande.

Lá fora eu sabia que o sol brilhava intensamente. Mas ali dentro, as cortinas pesadas impediam a passagem da luz. Ali, no escritório do meu pai, só havia espaço para dor e escuridão.

_ Se os anjos existissem, eles não teriam deixado sua mãe partir _ ele me observava com o cenho franzido. _ Você me entende? _ eu hesitei, mas assenti _ Se Deus existe, Bella, por que deixou sua mãe morrer? Por que, Bella? Me diga...

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Hoje eu sabia que as perguntas de Charlie foram feitas mais para si mesmo do que para mim. Mesmo assim, eu me perguntava: Por que, Deus? Por que levar a minha mãe e o irmão que eu nem chegara a conhecer? Por que destruir a alma do meu pai e me deixar órfã duas vezes? Órfã de pai quando eu mais precisava...

Por mais que eu fizesse perguntas, ninguém lá em cima parecia se importar em respondê-las.

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Esme estava sentada em uma cadeira de vime na varanda, o olhar perdido e distante. Ela usava um vestido longo de seda verde-claro e tinha os cabelos soltos sobre os ombros. Não estava usando maquiagem e mesmo assim parecia absurdamente linda.

O dia também estava lindo. Um céu azul de brigadeiro e nenhuma nuvem. Minha madrasta não se assustou quando eu me aproximei por trás e passei os braços ao redor dos seus ombros, um toque suave dos lábios na sua bochecha naturalmente rosada.

Ela despertou do transe em que se encontrava e sorriu docemente.

_ Boa tarde, meu amor. Como foi a aula?

_ Normal _ suspirei, chateada. _ Ainda estou em dúvida sobre qual caminho seguir.

Ela deu seu melhor sorriso compreensivo.

Eu me sentei na cadeira ao seu lado e procurei relaxar, ainda que parecesse impossível. O estresse de estar no sexto período da faculdade e não ter certeza sobre a especialização certa estava me matando. Embora a Columbia só fosse me pedir uma definição no décimo segundo período, ao término do curso geral, eu não queria começar a cursar minhas matérias eletivas a esmo. E isso deveria acontecer no semestre seguinte.

Menos de seis meses... Pensar naquilo me enchia de um sentimento de frustração.

_ Você vai encontrar seu caminho, Bells. É inteligente, doce e tem um coração de ouro. Além disso, é determinada e focada...

Ela parou de falar subitamente. Uma moto preta entrou cantando pneu pelos portões que davam acesso ao jardim. Apesar do capacete, não tive problemas em reconhecer o motorista nem a sua estranha coleção de tatuagens pelos braços.

Esme e eu permanecemos em silêncio enquanto Edward guardava a moto na garagem. Eu podia perceber a respiração suspensa dela... a minha não se encontrava diferente. Quando ele finalmente atravessou o jardim, usava óculos escuros e tinha um cigarro entre os dedos.

Esme sorriu, hesitante.

_ Edward...

O Cullen passou pela varanda e entrou na casa como um raio, sem sequer erguer os olhos.

Esme baixou os olhos mas sua tentativa de disfarçar foi inútil, eu sabia que estava chorando. Aliás, chorar era uma coisa que ela fazia muito nos últimos três dias. Enquanto isso, Charlie se tornava cada vez mais distante dela.

Eu não tinha uma versão completa dos fatos e aquilo não era exatamente da minha conta, muito embora estivesse sendo afetada, sem razão aparente, pela ira cega de Edward. De qualquer forma, alguma coisa explodiu dentro de mim. Ele já havia quebrado o limite entre garoto problema e filho da puta miserável e eu estava começando a associar o seu comportamento à falta de umas boas palmadas na infância.

Esme estava desolada. E eu, possuída.

Dei um salto da cadeira, o sangue em ebulição nas veias, e marchei para dentro de casa pronta para acabar com aquela pose de bad boy.

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Unforgiven — Metallica

O som se derramava do segundo piso em acordes altos cheios de angústia. Enquanto subia as escadas, lembrei de Brahms nº 4 sendo tocada incansavelmente por Charlie após a morte de Rennè.

A lembrança se desintegrou assim que cheguei à entrada do quarto de hóspedes.

Talvez ele não tivesse tido tempo de fechar a porta. Talvez, no íntimo, desejasse que eu visse como ele realmente era.

Descalço sobre o tapete cinza felpudo, Edward estava voltado em silêncio na direção da janela. A camisa havia sido atirada no chão, os óculos estavam pousados sobre o criado mudo e os jeans, pretos como de costume, pendiam frouxos no quadril.

Senti o ar sair rasgando os meus pulmões. A visão das suas costas nuas era como uma representação gráfica do inferno de Dante Alighieri. No centro, as tatuagens narravam uma batalha entre anjos e demônios de faces retorcidas... um deles levava a asa partida e uma expressão de dor lancinante nos olhos imensos. Enquanto Medusa apontava suas serpentes ironicamente em minha direção, Erinias, hidras e Cérbero, o cão de três cabeças, completavam a pintura grotesca.

Nunca na vida eu havia visto algo sequer parecido com aquilo. Cruzei os braços sobre o peito e esfreguei os braços, procurando por uma vaga sensação de calor e conforto, algo que amenizasse a frieza que parecia inundar o quarto. Foi em vão.

_ Edward...

Ele virou o rosto devagar para me olhar sobre o ombro. Seus olhos eram duas esferas de ódio, agonia e alguma outra emoção mascarada que eu não pude definir. Eu soube que deveria sair correndo dali, mas não consegui me mexer. Minhas pernas vacilaram, feitas de gelatina.

Edward atravessou o quarto em três passadas e eu soube que iria me arrepender por ter sido tão enxerida, exatamente como soube que pegar aquela foto no escritório de Charlie, aos cinco anos, mudaria para sempre minha visão sobre tudo.

Dei um passo vacilante para trás, mas Edward agarrou o meu pulso me obrigando a ficar.

“With time, the child draws in / Com o tempo, a criança é enganada
This whipping boy done wrong /
Este rapaz massacrado age errado
Deprived of all his thoughts /
Privado de todos os seus pensamentos
The young man struggles on and on, he's known /
O jovem homem aguenta e aguenta, ele é conhecido
A vow unto his own /
Uma promessa a si mesmo
That never from this day /
Que nunca a partir deste dia
His will they'll take away /
Sua vontade lhe tirariam” (Unforgiven)

Notas finais
Primeiro, quero agradecer a todos os comentários, favoritos e pela recomendação. Estou amando escrever e postar essa história pra vocês! Segundo: aos fantasminhas que não comentam, gostaria muito que passassem por aqui para deixar a opinião de vocês ou um estímulo pequenininho que faça a autora correr atrás de novos capítulos. Muitas vezes já tenho o próximo pronto, mas estou aqui quietinha só esperando pra ver o retorno de vocês (positivo, negativo, pedidos..) ;3 Novidade: estou dando aquelas estrelinhas para o melhor comentário do capítulo.. para quem gosta/ acha importante receber, ta aí um estímulo pra comentar hehe :3 beijos e abraços, meninas!