Twisted

3 Capítulo 3 - Sociopata


E de repente eu estava com onze anos outra vez, me balançando no quintal da tia Tara com Lacey.

– Por que ele ta demorando tanto? Já era para ter saído de dentro da casa.

– Talvez ele esteja no banheiro. — Lacey disse enquanto tentava, sem sucesso, empurrar o balanço mais para cima.

– Ninguém fica no banheiro por tanto tempo assim, Lacey. Vamos lá olhar, ver se está tudo bem.

– Acalme-se Jô. Ele já deve estar voltando, e além do mais, é minha vez no balanço. Agora você me empurra.

Comecei a empurrar Lacey.O que Danny estaria fazendo? E então ele saiu pela porta e parou bem de frente para o balanço. Quase não consigo parar Lacey antes de se chocar contra ele. Seus olhos estavam praticamente saltando para fora, estava ofegante, e com as mãos ligeiramente trêmulas. Segurava uma corda vermelha.

– O que é isso Danny? Quase bato em você. Não devia ficar parado na frente de balanços feito um idiota... — Ouço Lacey dizer, mas ela rapidamente se cala quando percebe como Danny está assustado.

– Eu... eu tive que fazer. Eu não tive escolha. Eu tive, tive de fazer...

***

– Jô?!

Me dou conta de que o segundo sinal está tocado e vejo que Danny ainda está parado na minha frente esperado uma resposta.

– Oi. — E é tudo o que eu consigo dizer.

– Como é bom ver um rosto conhecido nessa escola. Todo mundo aqui me olha como se eu fosse uma aberração.

E por que será, hein Danny? Tenho vontade de falar, mas mantenho a minha boca fechada. Por que ele veio até mim, quando poderia facilmente ter ido falar com Lacey? Minha mente girava com o monte de perguntas que eu queria fazer. Senti meu estômago se revirando. Se falasse, não poderia confiar em minhas próprias palavras.

– Vai falar comigo ou só vai ficar me olhando assim?

– Danny, agora não. – Disse e virei as costas para ele, indo em direção a minha primeira aula do dia: sociologia.

– Jô, olha só, eu...

–Não, Danny. Você não entendeu? Agora não!

Eu não poderia conversar com ele. Eram muitos sentimentos vindo a tona: raiva, dor, saudade.... tudo ao mesmo tempo. E eu não queria enfrentar nenhum deles nesse momento. Como se ao bastasse, metade dos alunos nos encarava. Andei decidida até a porta da sala e para minha surpresa, Danny continuava bem atrás de mim.

– Não vai parar de me seguir? Eu tenho aula agora.

– Eu sei, eu também tenho.

Não posso acreditar. Danny agora é da minha sala. O que eu fiz pra merecer isso? Deus. Já foi difícil aguentar todos esses anos na escola, sendo a garota estranha e deslocada, que ninguém queria chegar perto. Acho que ser testemunha de um assassinato aos 11 anos de idade afasta as pessoas da gente. A única que poderia compreender o que eu estava passando era Lacey, mas ela parecia ignorar tudo aquilo. Lacey não se tornou reclusa e a estranha do colégio. Agora ela era Lacey, a popular. Desde criança ela era linda. Alta, cabelos longos e pretos, pele morena e olhos cor de jabuticaba. Recentemente adquiriu um corpo escultural, o que fez com que se tornasse ainda mais popular. Por isso, enquanto eu era a reclusa, Lacey se tornava popular. Ignorando assim minha existência.

O professor Tompson entrou na sala, olhando em volta. Parou quando encontrou os olhos de Danny.

–Olha só, parece que temos um novo aluno. Sr Desai, gostaria de falar algumas coisa?

Danny apenas sacudiu a cabeça, desprendendo alguns fios de cabelo que estavam no elastico. Não se ouvia um único barulho na pequena sala. Apenas olhos acusadores encanrando Danny. Ao mesmo tempo que queria protegê-lo, queria vê-lo sendo confrontado. Afinal, ele merecia toda aquela atenção. Alguém no fundo da turma, uma menina, acho que seu nome era Ella Patrik, levantou a mão.

– Sim, srta. Patrik?

– O que é um sociopata?

O senhor Tompson olhou em volta, acho que estava avaliando como responder a pergunta, vendo que tem um possível sociopata naquela sala. Perguntou se alguém sabia responder. Outra pessoa levantou a mão, senhor Tompson deu a palavra.

– Um sociopata seria alguém incapaz de se enquadrar nas normas da sociedade, tem habilidade para enganar pessoas, é extremamente egoísta, não se envergonha de seus atos maus, não sente necessidade de melhorar, porque não acredita estar errado nunca. Não sente culpa e sequer se arrepende de seus atos, geralmente é maldoso e teatraliza sentimentos para impressionar os outros.

– Sim, está correto.

Todos os olhares estavam em Danny. Alguns tentavam disfarças, outros encaravam abertamente. Ele permaneceu calado e olhado para frente. Optou por sentar na fila ao lado da minha, uma carteira a frente, de modo que eu tinha uma boa visão de seu rosto. Quando a palavra sociopata foi citada, vi Danny se encolher um pouquinho, engolir em seco, seu pomo de adão subiu e desceu.

– Esclarecida, Srta. Patrik?

–Sim, senhor. Se temos um sociopata entre nós, é melhor saber do que se trata.