Twisted

4 Capítulo 4 - Conversa


Uma semana se passou desde que Danny Desai voltou. Evitava-o como podia. Não sabia o que estava acontecendo comigo. Devia encará-lo, olha-lo bem de frente e dizer tudo o que esteve entalado na minha garganta, mas não saia nada. Os dias se arrastavam e eu sabia que mais cedo ou mais tarde ia ter que conversar com ele. Danny até fez algumas tentativas de se aproximar, mas eu apenas ignorava. Evitava até mesmo o contato visual, para não encoraja-lo.

Estava grata por já ter chegado o final de semana, era finalmente sexta-feira. Vinha andando da escola. Estava um dia calmo e relativamente frio. Lutava com meu ipod procurando a musica que eu queria, nenhuma parecia ser a trilha sonora certa para aquela semana. Após rolar toda a playlist, encontrei Save me do Nickelback. Parecia a certa. Lembro que Danny me mostrou essa banda quando a gente ainda era criança. Ele sempre teve um bom gosto musical e isso meio que nos uniu ainda mais naquela época.

Quando passei pela porta da sala de estar, vi minha mãe se jogando de um lado para o outro a procura do controle remoto.

– Mãe? O que é tudo isso?

– Jô, olha, você não tem que ver isso.

– Ver isso o qu... – Então eu olhei para TV e soube do que ela estava falando. O rosto da Sra. Desai aparecia na tela e ela falava sobre o filho. Ouvi apenas trechos do que ela estava falando, porque bem ao lado dela, em um quadrado, estava uma foto minha e de Lacey, de quando tínhamos 11 anos.

“Hoje faz uma semana que Danny Desai está de volta a cidade onde aconteceu o crime mais assustador que Greensgrove já presenciou. Agora, com 16 anos, o garoto volta a escola onde Jô Masterson e Lacey Donavam estudam. Jô e Lacey são as garotas que estavam com Danny na casa de Tara Desai no dia de sua morte...”

– Querida, eu não queria que tivesse visto isso. Sinto muito.

– Eu só quero que pare, mãe. Queria não ter nada a ver com isso.

Deixei mamãe na sala e subi para o meu quarto, onde me joguei na cama e só acordei horas depois, com uma batida de leve na porta. Gritei para entrarem, e vi a cabeça do meu pai aparecer na porta entreaberta.

– Posso falar com você, Jôaniha? – Ri quando ele usou o apelido que criou para mim quando era garotinha. Fazia tempo que eu não tinha uma conversa com ele. Como xerife de Greengrove, ele sempre estava ocupado. Não que Greengrove fosse uma cidade perigosa, mas aparentemente um xerife tinha muitas tarefas.

– Pai, tenho 16 anos, não pode mais me chamar de Jôaninha.

– Claro que posso. Vai ser minha Jôaninha mesmo que tiver 30 anos. – Ele se sentou na beirada da cama e ficou olhando para minha coleção de bichinhos de pelúcia, que eu mantinha até hoje. Me sentei na cama e fiquei esperando ele trazer a tona o assunto que viera conversar.

– Sua mãe me contou o que aconteceu mais cedo. Jô, sabe que eu não posso controlar essas coisas, se pudesse você jamais teria se esposto, nem teria fotos suas rodando por aí em emissoras de TV. Mas não quero que fique chateada com isso. Acha que terá de voltar a Dr. Frida? Mais algumas consultas com psicólogo não fará mal, e agora que o Danny voltou, pode ser que você...

– Não, olha pai, ta tudo bem. É serio. E eu não quero voltar a ver a Dr. Frida, o consultório dela tinha um cheiro estranho. Eu não volto mais lá. – Logo depois do que Danny fez, tive que fazer acompanhamento com psicólogo e o máximo que meus pais podiam pagar na época era a Dr. Frida, que tinha uns 60 anos, era divorciada e dormia metade da consulta, enquanto eu brincava com as estrelas que eram penduradas no teto da sala dela. Depois desse trauma, como meus pais chamam, eles me colocaram em diversas atividades para “ocupar a mente”, eles diziam. Fiz natação, dança, futebol, mas não me encaixava em nenhuma dessas atividades, até que comecei a fazer piano e descobri que gostava. Por isso pratico até hoje.

– Tem certeza? Porque eu estou aqui pra você. Qualquer coisa que precisar, querida, fale comigo ou com sua mãe.

– Certeza, não precisa preocupar. – Dei o melhor sorriso que podia, esperando ver aquele franzido de preocupação em sua testa se desfazer. Ele assentiu uma vez e deu um leve sorriso de canto.

– Essa é minha Jôaninha. Boa noite querida. – Disse e deu-me um beijo na testa. Enquanto caminhava em direção a porta do quarto me deu um estalo: Boa noite? Que horas eram?

– Paaaaai! – ele voltou correndo e perguntando o que tinha acontecido. – Como assim boa noite? Que horas são?

– 11 da noite, querida. Você dormiu a tarde inteira? Deve ter perdido a noção do tempo.

Então era isso. Passei a tarde inteira apagada na minha cama e agora não teria sono tão cedo. Só me restava adiantar o dever de segunda feira e ouvir musica até que o sono chegasse, pelo menos a musica aplacaria um pouco os pensamentos sobre Danny e segunda. Eu sabia que teria de enfrenta-lo na segunda. Não da para adiar mais. Danny e eu vamos ter uma conversa, e é bom que ponhamos tudo em pratos limpos.

***

Segunda feira chegou e eu estava tomando demoradamente meu café da manhã. Mamãe dava batidinhas em seu relógio de pulso e olhava pra mim com cara de brava, mas eu fingia nem notar. Estava distraída pensando no que eu falaria com Danny quando chegasse a hora. Decidi que não chamaria ele para conversar, esperaria que ele viesse até mim e então ouviria o que ele tem a dizer.

Papai foi tirar o carro da garagem e esperou até que se cansou e começou uma sessão de buzinas do lado de fora da casa.

– Jô, anda logo! Antes que seu pai acorde toda a vizinhança.

.

É agora, tudo bem Jô, não pira. Não pira! Danny vinha pelo corredor da escola, com fones de ouvido e cabeça baixa. Então encontrou meu olhar e eu não desviei como das outras vezes, mantive o olhar firme e esperei. Ele veio em minha direção, tirando um dos fones. Fingi guardar alguma coisa no armário quando ele chegou bem perto.

– Oi. – ele disse.

– Ei.

– Então você fala! Decidiu parar de me ignorar.

– Olha, se for pra bancar o espertinho nem precisa se aproximar. – Disse enquanto ajeitava a mochila no ombro. – Resolvi que vou te dar uma chance de se explicar.

– O que você quer que eu explique, exatamente?

– Por que você fez aquilo Danny? Por que acabou com nossa infância daquela forma? Por que matou sua tia? – Não era minha intenção dizer tudo aquilo no corredor da escola, mas não pude evitar. Essas foram as perguntas que ficaram ecoando na minha mente desde que Danny foi levado embora. E eu não podia mais esperar para obter uma resposta.

– Eu não quis fazer aquilo, Jô. Não posso dizer por que fiz, mas eu não queria. – Sempre a mesma história. Desde que foi levado para a detenção juvenil, Danny se recusou a falar porque matou a tia. Acho que isso lhe rendeu mais alguns anos de detenção, mas ele nunca cedeu. Nunca contou o motivo para ninguém.

– Já que você se recusa a falar, isso aqui não vai dar certo.

– Jô, espera. Você tem que confiar em mim. Eu não posso dizer.

– Confiar em você? Você perdeu o juízo? – agora eu sentia a fúria queimando as minhas veias e se dissolvendo em minhas palavras – Você arruinou a minha infância. Arruinou a minha vida! E ainda quer que eu confie em você? Só pode estar brincando.

Bati a porta do armário com toda a força que consegui juntar e notei que olhos nos encaravam de todos os lados. Devia estar gritando, mas não me importava mais com isso. Era a fúria que estava dentro de mim falando e depois de tantos anos eu não consegui impedi-la de ser liberada.

– Desculpe – ele disse, e não foi mais do que um sussurro – Eu não queria ter envolvido você e a Lacey nisso. Eu sinto muito. – Percebi que quando ele disse o nome da Lacey um brilho diferente passou por seu rosto. Imaginei que ela também devia estar ignorando-o como eu. Uma parte do meu coração se encolheu com essas palavras. Eu sei que ele fez o que fez mas éramos apenas crianças. O que me incomodava era o fato de ele não dizer o por quê de ter matado Tara. Ele sempre foi tão doce, não imagino o que possa ter causado tamanha fúria a ponto de ter matado a própria tia.

– Tudo bem. Não quer falar, okay. Mas não me peça para confiar em você, Danny. Isso é de mais pra mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.