Twelve Signs

1 É chegada a hora


Mãos trêmulas e desespero. Passados três minutos e vinte e sete segundos repletos de tentativas para abrir o enorme cadeado de ferro que se tornara, momentaneamente, a melhor fortaleza para proteger o que quer que fosse. O gancho do cadeado finalmente se desprende do corpo. A chama fraca da tocha ilumina pouco o ambiente, mas retrata com nitidez as gotas de suor que escorrem na testa do velho, as ferrugens de uma corrente imensa castigada pelo tempo e que, agora, desaba em um soco no chão e as rachaduras da porta de carvalho, a qual não se move há uma década.

Contente pelo feito, porém ainda trêmulo e com grande pressa, ele largou a tocha, que quase se apagou antes de atingir o chão, e começou a empurrar, com as forças que ainda lhe restavam, o paredão de madeira. Qualquer um riria da situação. O velho se esforçava. Orgulhava-se da força que tinha para a idade de oitenta e quatro anos; ainda mais na situação em que se encontrava. Abriu a porta o suficiente para passar o corpo magro e ossudo, ainda que tivesse que se espremer um pouco. Exausto pelo exercício, posicionou-se o mais ereto possível, secou a mistura de suor e lágrimas do rosto com as mangas da camisa velha que fora o único presente que ganhou na vida e correu os olhos pela sala.

Uma grande janela oval, com os vidros empoeirados, que ficava na parede de frente para a porta, fornecia a única passagem de luz de fora para a sala. Era o último dia de lua cheia; ela brilhava mais que na noite anterior e o velho esperava por isso. Precisava se apressar. Voltou os olhos para o lado direito, depois para o esquerdo, para baixo da janela, como se com isso forçasse seu cérebro a se lembrar de algo. O que havia na sala não passava de um amontoado de velharias e objetos inúteis, colocados propositalmente para enganar qualquer um que ali entrasse, inclusive a si mesmo.

Era fácil enganar as pessoas daquele vilarejo. Para o velho, todas sempre foram dementes. Acreditavam em tudo que lhes diziam; motivo pelo qual os 12 governantes assumiram o controle do lugar quando ele tinha sete anos. Já sabia que algo deveria ser feito, e preparou-se para isso. Lembrou-se. Andou depressa até uma pilha de cadeiras quebradas, removeu-as com certa dificuldade, até que no espaço restasse apenas um pequeno baú. Envolveu-o em um pano empoeirado que encontrou em cima de uma mesa de Taboão sem uma das pernas e colocou-o embaixo do braço esquerdo. Passou pela porta, abaixou-se como pode para pegar a tocha e, com certa tranquilidade e um leve sorriso no rosto, deixou para trás o lugar que durante metade de sua vida foi o seu local de estudo.

A noite era demasiada fria para a época do ano. As luzes dos vaga-lumes que costumavam divertir as crianças e iluminar a floresta, no fim da tarde e no início da noite, deram lugar ao breu total.

Impossibilitado de correr devido a um acidente com sua perna, o velho tenta caminhar o mais rápido possível, transitando entre as casas do vilarejo e praguejando, com indignação, a estupidez dos moradores.

— INCRÍVEL! Este lugar virando do avesso e ainda conseguem ficar parados e felizes sem entenderem absolutamente NADA do que está acontecendo — Diz para si, resmungando e segurando com mais força seu baú e olhando para o céu estrelado.

— Você sabia que todos sempre foram assim, não sabia Yic? — Retorquiu uma voz grave e cavernosa. -Você é o único aqui que ainda consegue pensar por si mesmo. Admira-me que com 84 anos você ainda acha que eles vão mudar HAHA – A voz troveja uma gargalhada.

— Faça o favor... — Yic franze a testa. — Esperamos muito tempo por esse momento. E, até onde eu sei, tenho vários motivos para me zangar com essa… gente. Ou você acha que minha perna sempre foi assim? Mas Isso não vem ao caso. Concentre-se, ainda não chegamos lá! — Yic aperta um pouco mais o passo ao adentrar a floresta.

— Ora, ora. Confesso que nesses últimos anos você andou me surpreendendo, disse a voz em tom brando.

— Pare de me chamar de velho, seu imbecil. É questão de tempo até eu me tornar alguém como você e…

A voz solta uma gargalhada tão alta que acabou por surpreender Yic, tirando-o do seu alto estágio de concentração. Esse leve susto fez com que o baú voasse de seus braços finos e quedasse sobre o chão. Como não havia nada mantendo o baú fechado, este abriu-se e libertou de seu interior um livro bastante velho, quatro pedras coloridas e oito pedras, de tamanhos idênticos, pouco menores que um olho e perfeitamente arredondadas..

— Com a breca, seu miserável! Olha o que você me fez! — Bradou Yic com o restante do ar que lhe restava nos pulmões, o que fez com que surgisse uma breve crise de tosse. -Me ajude com isso, disse enquanto se agachava e tateava o chão à procura dos objetos.

A floresta era realmente escura e, mesmo com a iluminação da tocha, não se via nada além da distância de cinco passos; No chão, as folhas secas e galhos acumulados aos montes pareciam engolir tudo o que ali caísse.

Seguindo a voz, o velho conseguiu juntar o livro e as quatro pedras coloridas. Seu trabalho foi interrompido por uma forte rajada de vento que vinha de dentro da floresta.

Lutando agora para manter a tocha acesa, Yic se põe de costas para o vento.

— Definitivamente só me falta cair um raio na cabeça! Ruge o velho.

— Cuidado com o que fala, disse a voz ao mesmo tempo em que o vento para.

Yic se agacha a procura das pedras, porém só encontra oito delas.

— Vamos depressa. Onde está a outra, Ganta? Disse com pressa, conferindo todas que havia pego até então.

— Não há outra, velho. Você já pegou todas, diz a voz em tom de surpresa.

— O quê?! Não brinque comigo agora! Troveja o velho fitando o vulto que agora toma a forma de um homem alto, quase o dobro do tamanho de Yic.

— Não estou brincando, disse sério. Caíram oito pedras desse seu baú. Além do mais, seu tempo acabou. Faça o que tem que fazer aqui mesmo.

— Não posso! Não agora... Preciso das nove. E estamos quase chegando lá...

— Yic, agora! A voz troveja pela floresta

Dada a urgência da situação, o velho remove as folhas com os próprios pés, crava a haste da tocha no chão e retira todos os objetos do baú. Guardando uma das pedras esféricas no bolso, Yic faz um círculo perfeito com outras seis e, por fim, posiciona a última pedra no centro. Com o dedo, faz uma linha na terra úmida ligando as pedras externas, formando a figura de dois triângulos invertidos, cujos vértices se ligam ao centro da base um do outro. Ganta, que até então observava tudo atentamente, anda, reduzindo-se ao tamanho do velho, até o centro do círculo e fica agachado, em posição de reverência, enquanto Yic retira do baú uma pedra vermelha que brilha intensamente à luz do fogo. Movimentos circulares são realizados três vezes na cabeça e nos ombros de Ganta com a pedra vermelha, depois com a verde, com a âmbar e, por fim, com a azul. Todas perdem seu brilho e Ganta desaparece.

O velho retirou o livro do baú, posicionando-se no centro do círculo; abriu-o e leu as únicas 12 palavras contidas nele. Ao fechar o livro e jogá-lo o mais longe que pode, retirou do bolso a pedra e apanhou a tocha que estava estrategicamente ao seu alcance. Yic engole a pedra e ateia fogo em si mesmo. Uma chama de um brilho intenso toma conta do velho e, após algum tempo, desaparece em meio a escuridão da floresta.